Notas iniciais
Oie! Este capítulo em questão, aborda o assunto de reencarnação e vidas passadas, se não concorda, por favor respeite, e se for uma pessoa curiosa e mente aberta como eu, dê uma chance! ;D

- Certo... Agora me esclareça o que puder. Por favor. – Disse. Ele se afastou.

- Eu só posso contar aos poucos. Nós concordamos que eu poderia vir até aqui lhe ajudar, porque as coisas haviam saído de controle, e sua vida aqui corria risco, e essa é sua missão final.

- Peraí! “Nós” quem?

- O meu povo.

- Seu povo?

- Sim, o povo do qual pertenço, do lugar de onde eu vim.

- E qual lugar seria esse?

- Um lugar muito distante.

- Que tipo de distância? Daqui até a... Holanda?

- Não. Daqui até a constelação de Lory*... Há alguns anos-luz...– Eu o mirei surpreso, ele disse “constelação”?

- Não vai me dizer que você é um...?

- Sim, eu sou. Eu acho que dá pra notar, de certa forma. Não sou muito parecido com os humanos, se você olhar bem, sou muito diferente, tanto no físico, quanto no meu comportamento. – Sim, isso era muito verdade. Ele era certinho demais, alto demais, bonito demais... Seus olhos eram um pouco grandes para os padrões humanos, e muito mais expressivos e puxados nas pontas, lembrando folhas levemente inclinadas.

- Essa luz que você...

- Ah sim, é um modo de recarregar energias, funciona pra nós, mas com um corpo humano as coisas são muito mais difíceis. Você precisa comer, beber e descansar. Por isso quero que me espere aqui, vou tratar de ir a um mercado comprar alguma coisa pra você. Volto logo. – E se levantou. Um medo estranho perpassou meu coração, e eu não pude me segurar, puxei com força uma de suas mãos grandes e frias, repentinamente.

- Por favor, não vai... – Eu disse encostando-a em meu rosto. Eu estava definitivamente estranho.

- Eu volto logo, prometo. Nada vai ferir você aqui. – Ele disse, beijando minha testa antes de sair.

Quando a porta bateu, me dei conta do quanto estranho era aquela casa, se é que merecia esse nome. Era tudo muito branco e parecia ser de um único cômodo. Não havia móveis, nem janelas ou mais portas além da de entrada, e aquela parecia ser a única cama. Como alguém podia morar num troço daqueles? – Se bem que eu não posso falar muito, como eu consigo morar no inferno da minha casa?! Estiquei os pés para fora da cama, e toquei o chão. Mas a surpresa foi maior. Eu esperei pisar em piso frio, de arrepiar os cabelos, mas não. No lugar disso um piso morno e relaxante acolheu meus pés pequenos e doloridos. Respirei fundo, fechando os olhos com aquela sensação nostálgica e tranquila. Há séculos que eu não respirava em paz, há séculos que eu não sabia o que significava essa palavrinha tão curta e simples, e ao mesmo tempo tão necessária e importante. Era minha alma quem precisava de descanso, era ela que estava fazendo meu corpo sucumbir. E por um segundo eu tive a certeza: ali eu poderia descansar.


- Demorei? – A voz de Jess invadiu o cômodo, e ele me encontrou estirado no chão. Entendam, aquilo era tão gostoso que eu não resisti em me atirar naquele piso indecente, sim porque quem diabos inventou um chão tão relaxante? Parecia águas termais no seco, não que eu já tivesse frequentado algo assim alguma vez na vida. – CODY! Você está bem? – Ele se desesperou, não era pra menos, eu entendo.

- Estou sim... É só que esse chão é muito bom! – Disse eu com a maior cara de pau.

- Ahhh... Graças aos céus. Achei que havia desmaiado.

- Não, não. Eu estou bem. – Seus cachinhos estavam salpicados de chuva, provavelmente garoava, e mais uma vez ele estava... lindo!

- Aqui. Eu trouxe algumas frutas e biscoitos pra você. Não sei do que você gosta, então... – Disse, me entregando uma sacola cheia de coisas. E muitas das quais eu sempre tive vontade de comer e não podia... porque será, né?

- Obrigado, Jess. – Respondi apanhando a sacola, e é claro que eu ataquei na mesma hora, eu estava de fato, faminto! – E então? Da onde veio essa história de você ser de...?

- Lory, o planeta que vivemos é Cycloudy.

- Ah sim...

- Bom, e "essa história" não veio de lugar algum, eu sou mesmo de lá. – Eu parei de mastigar, mirando-o cuidadosamente, uma parte de mim queria acreditar mas a outra desconfiava.

- Eu sei que é estranho, e difícil de aceitar... O planeta Terra tem abrigado você há muito tempo, e você tem estado aqui, e convivido com os seres daqui, então é comum não acreditar, é comum desconfiar, até porque desconfiança é algo necessário pra se viver nesse planeta, correto?

- Corretíssimo! Se eu não fosse desconfiado, acredite, metade dos garotos da minha escola já teriam feito “muitas coisas” comigo... – E era verdade. Mas ele me olhou com pesar, como se entendesse perfeitamente. Sem questionar ou dizer mais alguma coisa, acariciou meus cabelos com carinho. Seu olhar terno parecia sentir alguma pena ou dó talvez, de mim. E eu entendia, eu estava em um estado muito mais do que vulnerável.

- Vou dar um tempo a você. Termine de comer, descanse e durma um pouco. Mais tarde conversaremos e eu lhe contarei mais algumas coisas. – Disse ele que se levantou, caminhando para fora. Eu terminei de comer, aliás, terminei de detonar a comida que ele me trouxe, e instantaneamente, um sono maravilhoso se apoderou de mim, como se minha consciência insistisse em querer abandonar meu corpo e deixá-lo descansar. Quem disse que eu iria contra? Acho que acabei dormindo ali mesmo... Afinal aquele chão era uma tentação!


Acordei sentindo um alívio em meu corpo, como se eu estivesse dormindo há séculos. Abri meus olhos, estava deitado naquela cama dura, mas ao olhar para o lado, pude ver Jess à frente de um enorme painel repleto de botões e alavancas e... Uma enorme janela logo acima. Quando aquilo foi aparecer ali? Levantei de pronto mirando ao redor, aquele ainda parecia ser o “quarto ovo” de antes, mas...?

- Isso tudo não estava aqui há meia hora atrás! – Falei, sem pensar muito. Ele girou a cadeira, que aliás não tinha pernas, como se estivesse flutuando no ar!

- Não, não estava. Posso ocultá-lo se quiser e... Foi bem mais que uma hora, viu?

- Como assim?

- Você dormiu por um dia inteiro.

- O quê?! – Mirei os olhos pela janela, me levantando fui até ele. Vi muitas estrelas ao fim do dia, toda a cidade era visível, estávamos voando. – Isso aqui é um disco voador? – Ele olhou sorrindo docemente.

- Nave.

- O que tem de mais eu chamar de disco voador?

- É uma nave, “disco” está meio ultrapassado, não acha?

- Ei! – Ele riu, apanhando meu braço de leve.

- Como está se sentindo?

- Bem... – Falei, mas estava mil vezes mais interessado naquilo tudo que eu estava vendo pela primeira vez, se é que era a primeira, ultimamente já não sabia de mais nada.

- Que bom...!

- Onde estamos?

- Na sua cidade. Seus pais estão procurando por você. – A verdade é que eu queria esquecer daquilo tudo.

- Mas eles não estão preocupados... Só fazendo o que “pais” de fachada deveriam fazer. – Eu disse, e pude ouví-lo respirar fundo.

- Eu sinto muito...

- Pelo quê?

- Por tudo que você tem passado... Realmente não pudemos prever o que iria acontecer.

- Tudo bem, você não tem culpa. Isso deve ser o que, karma? Não é assim que chamam? Você erra e volta para corrigir erros, e isso inclui vínculos familiares. Estou certo?

- Sim, está. – Agora fui eu que respirei fundo.

- Eu só... queria um pouco de paz. Obrigado, Jess. – Ele sorriu com a expressão cálida de sempre. – Mas acho que preciso voltar pra casa. – Sua expressão mudou, e aquela expressão eu nunca havia visto até então.

- O que está dizendo? Você vai voltar pra casa, pra sua casa.

- Eu quero muito mesmo, mas... E se eu não terminei o que tinha que fazer aqui? E se eu não...

- Você pode escolher quando romper esses laços, só você pode fazer isso.

- Pois é, mas eu ainda não fiz... Por isso preciso voltar, preciso resolver isso antes de qualquer outra coisa.

- Eu não posso impedir você. É o livre arbítrio, então... – Sua expressão parecia triste por alguns segundos, e naqueles milésimos de segundos eu pude notar nele algo que me era familiar. Eu já havia visto aquele rosto com aquela exata expressão. Como pude me esquecer? Ele era alguém muito caro pra mim, e eu sabia disso. Pousei uma de minhas mãos sobre seus ombros.

- Mas eu quero que você me espere. – Ele mirou-me novamente. – Quero que não se afaste, até que eu resolva tudo. Você promete? – Ele sorriu novamente.

- Eu vou te esperar o quanto de tempo você precisar. – Disse, fixando seus olhos nos meus.

- Obrigado... – Falei. Me sentia grato por tê-lo como amigo, e por incrível que pareça eu até havia me esquecido que ele era um E.T! – Tá mas, eu estou cheio de perguntas agora!

- Pode mandar, que eu respondo o que puder. – Disse.

- Ok! Então... Você seria tipo o que? Clark Kent?

- Quem?

- Do super homem, o Clark... — Ele me olhou buscando compreensão. Parecia até que eu tava falando grego! – Não sabe não, né? – Ele negara, arqueando uma sobrancelha. – Nossa, vocês não possuem tv no espaço não, é?

- Tv? Aquele aparelho ultrapassado em que vocês contemplam outro humano?

- Ultrapassado? Espera aí! – As fininhas eram de ultima geração! Como ele podia dizer isso?

- Ahh eu não vim até aqui pra conversar sobre a tecnologia de vocês. Vim por outro propósito.

- Certo, deixa eu adivinhar, a Terra está para ser atingida por um meteoro? E estamos na iminência de uma catástrofe? E você veio aqui pra nos ajudar?

- Como sabe?

- Ah eu não disse? É como o Clark!

- Sim, a Terra está em iminência de uma catástrofe, disso não tenha duvidas, mas ninguém disse que vim aqui para ajudar a humanidade.

- O quê?

- Olha, não me entenda mal, não é por não querermos, até porque nós pouco podemos fazer pelos humanos, já que viemos fazendo há séculos, outros irmãos, mas quase nenhum de vocês foi capaz de levar a diante os conhecimentos que transmitimos.

- O que quer dizer?

- Você me entendeu. Nunca estudou história do Egito?

- Ah... Sim, certa vez assisti History Channel.

- O quê?

- Um programa bem útil que vi através do aparelho ultrapassado que contemplamos outros humanos. – Jess sorrira notando minha capacidade de reter a informação e revidar. Ao menos eu era inteligente.

- Pois bem, pelo menos algo de útil aquilo transmite. – Dissera ele. Fiquei satisfeito que ele concordou, televisão, quando usada corretamente, era uma boa fonte de informação, e eu sei que vocês vão pensar “ah mas computadores e internet são muito melhores, eu sou pobre, pessoal! Não se esqueçam! – Desde lá estamos tentando ajudá-los em certas coisas, mas muitos conhecimentos que eram para serem divulgados e compartilhados, estão sendo escondidos. Não queríamos isso. Uma pequena potência quer controlar o seu planeta, e ela retém toda a informação que encontra, não dividindo com os demais humanos. Você entende?

- Sim... Eu sei de tudo isso. Já li a respeito. Tenho estudado ufologia também. Mas é claro que eu não ia te dizer isso... – Jess me fitava com seriedade. – Mas ok... Porque você veio me procurar? O que eu posso fazer pela humanidade?

- Você?

- Sim.

- Nada.

- Hã?!

- Não pode fazer nada pelos humanos. Sinto muito. Eles terão que colher os frutos que plantaram. Muitos não querem enxergar a realidade diante de si. Estão cegos, procurando respostas em ilusões impostas por eles mesmos.

- Você ainda não me respondeu, o que quer de mim? – Ok, eu não era um salvador.

- Vim buscar você. Vim levá-lo de volta pra casa. Sou responsável por você e há outros como eu nesse planeta, com a minha mesma missão, resgatar nossos irmãos.

- Ai não! Agora você conseguiu me deixar confuso! Eu não sou um E.T! Sou um humano.

- Não, você está humano no momento. Mas você é um Cycloudiano como eu. Esteve aqui por muitas vidas, com a missão de ajudar os humanos.

- Ajudar? Mas ajudar como? Eu sempre fui o rejeitado!

- Por isso mesmo. Você falhou em sua missão. – Ok, não precisava jogar assim a verdade na minha cara, aquilo doía! – Mas a culpa não é sua. Não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Você tentou, e tentou bravamente, por muitas encarnações, se perdeu algumas vezes, mas isso acontece... Quando se está encarnado em um planeta tão denso e com espécies difíceis de lidar.

- Tá, ok! Mas eu estou num corpo humano, você mesmo disse!

- Está, mas quando chegarmos em casa, sua alma será transferida para um corpo cycloudiano como o meu. – Aquela informação me soava meio macabra, se é que me entendem.

- Espera! Quer dizer que eu vou morrer?!

- Não, você é sua alma, você nunca irá morrer.

- Só meu corpo físico, não é? – Eu o vi concordar. Gente, ele esperava que eu concordasse com isso?! – E você faz parecer algo super normal!

- Mas é algo normal, Cody. Você não compreende agora porque sua mente está limitada à um cérebro humano. Mas sua consciência sabe muito bem, que tudo que estou dizendo aqui, condiz com algo lá no fundo do seu ser. Você sabe que o que digo, é a verdade. – Ok, ele havia me pegado nessa! O que eu ia dizer? Algo no fundo da minha alma sabia, Jess dizia mesmo a verdade.

- Mas eu preciso voltar e resolver tudo, posteriormente irei com você. Pode ser? – Jess me puxara pra si, e me apertara em seu abraço. Ele era cheiroso, seu cheiro lembrava campo, flores e amanhecer, nem me pergunte mas pra mim o amanhecer tem um cheiro próprio!

- Tudo bem. – Ele apartara o abraço e me olhara firmemente, eu dizia não saber se era gay, mas agora talvez, eu não tivesse tanta certeza. – Eu vou ficar por perto e de olho em você. Caso se machuque, eu vou intervir.

- Por favor e obrigado, Jess.


Em poucos minutos eu desci da sua.. nave? Sim, era uma nave real! Prateada, silenciosa e muito maneira! Que tecnologia era aquela?! Mas enfim, desculpe cortar o barato nessa parte da história, mas depois de tudo que Jess me contara, eu me sentia mais leve e... feliz. Sim, eu tinha uma família de verdade e pessoas que se preocupavam comigo. Um sorriso bobo permeava meus lábios, até eu voltar meus olhos para a casa da qual eu deveria voltar.


Notas finais
*Lory: Uma constelação fictícia, que abriga Cycloudy, um planeta também fictício.