Cycloudy

7 Novos Desafios


Fiquei boa parte da noite, pensando em como eu deveria fazer para tocar as pessoas. Isso era uma tarefa difícil, principalmente se as pessoas em questão, fossem como minha mãe. Respirei fundo, havia muito trabalho à fazer!

Acordei cedo, sentindo dores nas pernas, como Jess me alertara, haveriam dores, por crescer demais e muito rápido acredito eu. Apanhei a sacola de pano com as pastilhas. Eram coloridas e chatas, como um comprimido. Tomei uma com a água que eu costumava deixar na garrafinha, na mesa de cabeceira. Até escutar o som de socos e chutes. Olhei pela janela e vi meu irmão treinando. Desci às escadas e fui para o quintal. Ele era praticamente de Taekwondo.

- Bom dia, maninho! Dormiu bem? – Estava suado, a roupa grudando em tudo.

- Dormi bem. – Respondi, olhando o saco de pancadas. – Você pode me ensinar a lutar também? – O vi erguer uma sobrancelha.

- É sério?

- Sim. Eu gostaria de aprender a me defender e também queria aprender basquete. Sei que você jogava no colegial. – Ele pareceu realmente surpreso.

- Uou! Quem é você e o que fez com meu irmão? – Estava de olhos arregalados, uma das mãos em meus ombros. Estava quase de sua altura, ele tinha um e oitenta, mas segundo Jess, eu o passaria em questão de estatura.

- Quero fazer coisas diferentes. Também quero que as pessoas parem de fazer bullying comigo.

- Você está certo. Eu vou te ajudar. Aliás, estou feliz que precise de minha ajuda. Você nunca me pediu nada.

- Porque você nunca iria fazer.

- Desculpe por isso.

- Tudo bem, vamos virar a página, ok? – Ele sorrira emocionado e viera me abraçar. – Ah, sai pra lá! Você tá todo suado!

- Há ha! Que nada, venha aqui! – E foi inútil pedir para que não me abraçasse.

Chad fazia seu estágio pela tarde, e ficamos das seis da manhã até às onze, treinando taekwondo e basquete. Não achei nada difícil, meu corpo tinha uma energia e força nunca antes imaginados por mim. Eu tinha agilidade e destreza nos movimentos, sempre fui de aprender as coisas rapidamente, mas não tinha forças e nem energia pra praticar algum desporto. É claro que isso era muito ruim. Mas agora, eu estava adorando!

- Meninos, o que estão fazendo? – Meu pai perguntara, enquanto terminávamos a última partida de basquete.

- Veja só, pai! Cody é incrível no basquete! Comecei a ensinar a ele taekwondo e está aprendendo muito! Só em uma manhã! – Chad estava realmente empolgado, até mais do que eu! Achei aquilo engraçado, mais engraçado ainda era nós dois nos entrosando assim.

- Que surpresa, Cody! Você nunca gostou de esportes, o que aconteceu?

- Quero fazer coisas diferentes, pai.

- Muito bom! – Chad e eu fizemos o almoço, todos comemos em harmonia, a não contar com minha mãe, que não me dirigia a palavra, ou se quer um olhar, era como se eu não existisse. Devo dizer que aquela atitude dela machucava bastante. Todos seguiram suas vidas, e eu fui para a escola. Ao chegar, um novo burburinho.

- Eita, Cody! De fama de gay pra galinha! – Peter viera me zoando com sua turminha de quinta.

- Você está louco? – Eu não fazia ideia do que ele dizia, mas muitos olhares me acompanhavam. Até um rapazinho franzino que lembrava muito meu eu antigo, viera ao meu lado.

- Não esquenta. Ele tá falando da Sabrina. Vocês ficaram ontem, não é? – Ah, era isso... estava demorando pra algum boato surgir.

- Sim, mas o que isso tem a ver..?

- Pois é, ela estava chorando perto da biblioteca, alguma coisa aconteceu e nem as amigas conseguem consolar. – Eu sabia que bombas estouram no meu colo. Um único beijo, e isso já virou uma novela mexicana.

- Eu vou lá. – E fui. Ao chegar, me deparo com uma Sabrina de maquiagem borrada e olhos vermelhos. As amigas de lado, sem saber o que falar. Quando cheguei me olharam assustadas. – O que aconteceu? – Indaguei. Ela erguera os olhos imediatamente e se jogara em meus braços.

- Cody!!! – Ok, ela me abraçou com gosto ali, e suas amigas e mais algumas pessoas por perto só olhavam a situação. É sério, eu nunca quis chamar a atenção e nem ser centro de nada! Ela chorava enquanto me abraçava, até começar a soluçar.

- Venha, vamos ao banheiro, sua cara está péssima! – Apartei o abraço e a arrastei pro banheiro feminino. Ok, era um banheiro feminino, mas estava vazio e eu entrei com ela. Tinha alguns lenços na mochila, molhei um e a entreguei, enquanto a mesma soluçava perto da pia de longo balcão. Me aproximei, e limpei seus olhos de rímel lambuzado. Ela me olhava atentamente.

- Ele é um babaca. Sabe, eu sei que ele fica com umas garotas aleatórias na faculdade, mas nunca falei nada a respeito. A gente se gosta, eu sei, mas porque ele pode e eu não? – Eu a mirei pensativo.

- Tem certeza que vocês se gostam? Quem ama de verdade, não tem real vontade de estar com outra pessoa. – Ela gargalhou.

- Cody, você é uma graça! – Não tenho tanta certeza. – Amor é outra coisa. Eu gosto do Zac, mas não o amo. Nossas famílias se conhecem desde sempre, e eles apoiam um casório no futuro. – Caramba! Essas coisas arcaicas ainda existiam em pleno século XXI?!

- Entendo. Isso é realmente difícil. – Eu disse, terminando de limpar seu rosto. – Prontinho. – Ela sorriu.

- Obrigada, Cody. – Ela se aproximara, roçando os lábios nos meus, tinha gosto de gloss de morango. Enroscara os braços no meu pescoço, me puxando pro meio de suas pernas, enquanto sentava na pia. Gente, isso aqui tá virando um hentai*?!

- Seu namorado vai pirar com o gay que está ficando com sua noiva. – Ela gargalhara.

- Que se dane..! – Ela me beijara, adentrando a língua na minha boca sem nenhuma cerimônia, enquanto acariciava meu corpo. Senti suas mãos erguerem minha camiseta e espalmarem meu peito. – Uau! Você tem um físico incrível! Quem diria, hein! Aqueles babacas te enchem o saco por nada! Você é lindo, inteligente e muito atraente! – Porquê eu não conseguia afastá-la como fiz com Peter? Talvez porque ela me elogiasse? Será que eu era um desgraçado carente?

- Obrigado. Acho que só você pensa assim.

- Só eu? É porque você não escuta o que dizem de você atualmente. Todos querem realmente saber se o mais novo bonitão da escola é realmente gay. Acho que consegui calar os boatos.

- Mas não tem ninguém nos vendo aqui. Você não precisa fazer isso pra me ajudar.

- Mas eu não estou fazendo isso agora, pra te ajudar, e sim porque sinto atração por você. – Beleza, eu não esperava ouvir isso. Meu rosto corou no mesmo instante. Meu corpo podia estar diferente, mas a minha infantilidade ainda existia. Ela passou as mãos nas minhas bochechas, notando a vermelhidão no meu rosto, minha pele é pálida, quando coro é fácil notar. – Você é fofo! E beija muito bem pra quem disse que nunca tinha feito isso!

- Eu não menti. – Falei, e era verdade.

- Mas me diga, você não é gay então, certo? Uma vez que não me impediu.

- Não sei dizer. Nunca me apaixonei por ninguém, então eu não sei... Só porquê sou afeminado, não quer dizer que seja gay. Já vi gays muito músculos!

- Ah você tem um ponto! – Ela dissera. Eu me afastei e a puxei pelas mãos.

- A aula vai começar, precisamos ir. – Ela era do terceiro ano e eu era do primeiro. Assim que saímos do banheiro, todos por ali nos olhavam, mas logo nos separamos, cada um pra sua sala. Porém o burburinho continuou quando me sentei.

- Vejam só, Cody! Pegando a garota mais gostosa da escola! – Acho que nem preciso dizer quem é, vocês já sabem, né?

- Se falar dela sem respeito, eu arrebento sua cara na porrada. – Certo, isso foi demais pra quem só teve uma aula de luta?

- Como é que é? Só porque ficou mais alto, acha que é um valentão?

- Tá com medo de apanhar?

- Silêncio vocês dois! – O professor entrou em sala e logo todos se calaram.

Aquilo durou uma semana. Sabrina vinha me procurar todos os dias. Conversávamos no início das aulas e no intervalo, posso dizer que ela havia se tornado uma amizade colorida. Frequentemente ela me beijava, mas isso nunca partia de mim. Eu não sei porque acabava cedendo e deixando acontecer. Eu pensava em Jess, e realmente cheguei a desejar que fosse ele, mas o mesmo jamais ultrapassara a linha. O que eu podia fazer? Confesso que o carinho de Sabrina era bom. Eu gostava de me sentir desejado por alguém, ela me elogiava em todos os sentidos e posso dizer que tirando Jess, eu nunca tive alguém que me notasse. A pergunta era, porque ela não tentou ser minha amiga antes? Porque só depois que mudei fisicamente? Um dia iria perguntar isso a ela.


Eu treinava todos os dias, acordava às cinco da manhã e eu e Chad começávamos a treinar, fosse basquete, fosse luta. Era claro que meu irmão se empolgara, para ele era uma novidade boa, afinal nós nunca fazíamos nada juntos, estavam sendo bons dias. Mas como tudo que é bom dura pouco, na sexta o trem descarrilou.

- Sua namorada, ou melhor, você é um amante, certo?

- Cala a boca, Peter.

- Não, é sério! O namorado real oficial dela está lá no portão. Estavam discutindo quando cheguei. Aconselho você ir lá, o cara tem uma certa fama, a coisa pode acabar mal pra Sabrina.

- O que quer dizer? Que fama?

- Ele bate em mulher. – Aquilo fora o suficiente pra eu levantar da cadeira voando, se é que me entendem. E ao chegar, o circo já estava montado. Haviam pessoas presenciando a briga e, como era de costume do ser humano, filmando. Muitos filmavam e riam da humilhação que Sabrina passava.

- Você é uma vagabunda!

- Você é tão vagabundo quanto eu! Acha que não sei das tantas mulheres que você sai?

- Eu sou homem! É diferente!

- Diferente em que? Você é um machista desgraçado! – Foi nessa hora que consegui alcançar os dois, e vi o tal de Zac, fechar o punho e avançar em direção a ela. Não sei da onde tirei coragem, sou totalmente contra violência, mas não pensei duas vezes em segurar o punho do maluco. Ele era mais baixo que eu, e sim, estou me gabando da minha nova altura.

- Cara, você tem muita coragem pra erguer a mão pra uma mulher, tendo um bando de gente em volta. – Eu disse, e em segundos, fechei o punho e o acertei. Ele tentou me desferir um golpe, que eu bloqueei com maestria com a perna. Eu treinava muito esse movimento com Chad, não querendo puxar o saco, mas meu irmão era um ótimo professor, uma vez que não pegava leve. Um segundo soco e ele caiu no chão.

- Então é você. – O babaca disse. – Com essa carinha de boneca.

- Pois é, essa boneca aqui, te derrubou. É bom você aprender a respeitar as mulheres. Se não a boneca vai te torar na porrada. – Todos riram, Zac quase chorou.. de raiva. Sabrina se agarrou no meu braço.

- Para, por favor, vamos embora. – Eu a acompanhei e o tal do Zac pegou seu camaro** e se foi. Bom, eu podia esperar represálias, uma vez que humilhei o machista. Mas eu não tinha mais medo. Com essa força de Clark Kent, tá, nem tanto! Mas com essa força aqui, eu estava mais tranquilo por poder me proteger. Sabrina tremia dos pés à cabeça e eu lhe dava razão.

Quando entramos em sala, eu me transformei praticamente num herói, todos me aplaudiram e alguns vieram me mostrar o vídeo que já haviam subido no YouTube, sim, tô falando que na minha sala tinha uns bruxinhos que faziam mágica? Pois bem, o vídeo era bem a parte em que eu dava uma lição de moral no cara e ainda o batia. Quando olhei àquelas cenas, fiquei me perguntando como tive coragem de fazer tudo aquilo!? Pois bem, eu tive e agora estava sendo aplaudido.

- É isso aí, Cody! Não se bate em mulheres!

- Muito bom, cara! Sou seu fã!

- Você luta?! – Eu não pude responder tantos comentários, esses daí acima são os que lembro. Mas enfim, o professor chegou e a diversão acabou por enquanto. Minha cabeça estava à mil. Ver aquele brutamontes querer encostar em Sabrina, me fez lembrar de quando morri de tanto apanhar, literalmente. Aquilo abalou tanto que minha mãe mal me considera, já não considerava antes, agora piorou.

Notas finais
*Hentai: é um tipo de manga ou anime que contém conteúdo sexual explícito. 👀 **Camaro: O Camaro é um carro esportivo de porte médio da Chevrolet. Produzido desde 1966, trata-se de "muscle car" que seria a resposta da General Motors ao Ford Mustang, de 1964. ~ Trazendo as definições do capítulo de hoje, caso não saibam. Não faço nem questão de mostrar o Zac, pke nem imaginei ele.. @_@ ~ é tão importante... Obs.: Sabrina é outra linda, a gente nunca imagina personagem feio nas histórias... (#FATO) ◕⩊◕