Cycloudy
8 Fuga
Notas iniciais

Confesso que não esperava tudo isso e no fim das contas, eu toquei as pessoas, mais rapidamente do que eu podia prever e por maneiras que nunca poderia imaginar. Graças aos céus que não fomos parar na direção, ou pior, na delegacia! O assunto pareceu não abalar muito a escola, que não tomou nenhum partido. No fim, Sabrina terminou com o valentão, sim, hello! Século XXI! E nós ainda éramos bons amigos coloridos. Eu precisava dar um basta nisso, mas não sabia como fazer.
- Peraí! Você ficou com a garota mais gostos...
- Ehhh!
- Ok, desculpe. A garota mais linda do colégio, porém não quer mais que isso continue? Você é idiota?! – Chad, eu havia tido a infeliz ideia de contar a ele e pedir uma opinião, porém esperar decência de um cara que tinha duas, era no mínimo falta de Q.I da minha parte. Estávamos jogando uma partida de basquete, só pra constar. – Porque não perde a virgindade com ela?
- Chad. Eu não a amo. Eu tenho um carinho por ela, mas não passa disso. Não ia conseguir fazer isso com ela nem que me pagassem.
- Mas por quê? – Será que eu teria que explicar isso com ilustrações?
- Eu não fico... duro com ela, ok? – Era mentira, a verdade era que eu não sabia ao certo, mas eu precisava despistar meu irmão. Chad arregalara os olhos.
- Me responda uma coisa, maninho. – Eu sabia que lá vinha. – Você é gay mesmo, né? – Não falei?
- Talvez eu seja. Existe um cara que me deixa com vontade de tentar outras coisas. – Chad pareceu animado. Eu tinha que dizer alguma coisa pra essa história ter um fim.
- É sério?! – Sim, era sério. Eu pensava no Jess da maneira errada. As vezes me sentia desrespeitoso. Isso era estranho, certo? – E quem é o sortudo?
- Ele é do meu colégio, mas é do terceiro ano. – Isso era mentira, sabemos que Jess não estudava lá e aquilo tudo foi uma armação, e não sei como ele conseguiu convencer aquelas pessoas de que o conheciam, e que ele estudava ali há séculos, provavelmente algum poder alienígena.
- Hum... – Chad me encarava curioso. – Convide ele um dia pra sairmos os três juntos. Quero conhecê-lo. – Aquilo foi novidade.
- Farei isso.
- Quero saber como é o Zé mané.
- Ei! – Chad rira, e tomara a bola de basquete que estava há meio ano na minha mão.
Andava devagar naquele fim de tarde e começo da noite. Olhei para o céu, já haviam estrelas e eu me perguntei há quantos anos-luz a constelação de Lory estava, e como era o planeta Cycloudy. Os postes das ruas já estavam acesos e eu estava arrastando os pés, até que um desses postes falhara e uma série de uns três ou quatro deles a seguir, apagaram, um atrás do outro. Um silêncio mortal se estabeleceu naquela rua. Nada se ouvia, nenhum carro, pássaro, vento, nada. Até eu sentir uma presença ao meu lado. Eu sabia, Jess estava ali. Senti sua mão em meu ombro. O olhei com um misto de revolta e saudade.
- Porquê você não aparece de uma forma normal? – Ele rira, e mirar seu sorriso, me fizera esquecer do porquê da revolta.
- Porque eu não sou normal. Ser normal é muito chato. – Fiz uma careta. – E então, como você está? – Fiquei pensando no que dizer.
- Estou bem. Me dando melhor com meu irmão e meu pai. Na escola eu ganhei uma fama legal também. As pessoas me respeitam agora. – Ele sorrira.
- Estou feliz por você, Cody. Eu sabia que iria conseguir se sair bem.
- Mas ainda falta minha mãe... Não sei como resolver as coisas com ela. – Ele me abraçara de lado, pelos ombros.
- Você vai conseguir, a oportunidade se apresenta na hora certa. Sabe que estou aqui pra você, não é? – Eu o olhei, eu sabia, mas haviam muitas coisas que eu gostaria de perguntar.
- Obrigado...
- Há algo incomodando? – Ele notou.
- Você disse que tínhamos uma ligação, não é? – Ele me soltou, mirando o céu.
- Sim, nós temos. Mas eu não devo intervir em sua vida enquanto humana. Você não tem nossas memórias, então está livre para fazer o que bem entender. Eu aceitei isso quando concordei que viesse ajudar os humanos. – Eu parei, ficando de frente a ele, forçando-o a parar também. Eu precisava entender o que eu sentia.
- E se fizermos novas memórias? – Eu disse, e ele pareceu surpreso. Me aproximei, agora éramos quase da mesma altura. Eu podia vê-lo piscar várias vezes seguidas. Seus olhos eram maiores do que a maioria dos humanos, eram levemente inclinados pra cima, e se você olhasse bem, saberia que ele não é daqui. Assim como as minhas próprias características faciais atuais. Meus olhos acinzentados, tinham o mesmo formato e cor dos de Jess. Eu cheguei mais perto, e quando estava prestes a tocar seus lábios nos meus, o senti por uma das mãos em meu peito, me empurrando levemente para trás. Ok, eu não esperava isso. Foi como se alguém jogasse um balde de água fria sobre minha cabeça. Eu não era de tomar partido nas coisas, mas agora tinha um pouquinho mais de confiança, porém ela acabara de ser minada, por ninguém menos que Jess.
- Cody... Me desculpe, mas não podemos. Eu não sou humano.
- Eu também não sou.
- Parte desse corpo é humano sim. – Eu baixei a face em vergonha. Eu havia levado um fora discreto.
- Certo. Eu entendi. Preciso ir pra casa. Foi bom te rever.
- Cody, espera! – Saí quase correndo de sua presença, deixando-o sozinho no meio da rua escura. A verdade era que eu não conseguia olhar para a cara dele. Eu praticamente havia me oferecido a ele, tá, eu tô exagerando um pouquinho, mas foi como me senti.
Cheguei em casa suando frio, minha mãe já havia chegado e como sempre, não me olhara, me ignorara como se eu não existisse. Subi às escadas sem dizer nada a ela. Se ela estava me ignorando, então eu também a ignoraria.
- Cody, preciso que limpe a casa e faça a janta. – Quando era pra pedir as coisas, eu existia. Eu não respondi. Fui até meu quarto me trocar, em seguida desci, catei o aspirador de pó e comecei a passar pelos cômodos. Aquilo me ajudava a esfriar a cabeça. Eu estava me sentindo péssimo! A primeira pessoa que eu tinha real interesse, havia me rejeitado. Eu sabia que isso era normal, decepções existiam e eu não podia chorar. Ok, eu estava segurando às lágrimas de não caírem no piso.
- Boa noite, maninho! – Eu não percebi quando Chad chegara, me dando um abraço de lado.
- Oi... – Eu disse e ele logo soube.
- Vou fazer a janta. – Ele dissera.
- Não, o Cody irá fazer. – Minha mãe contradisse.
- Se ele está limpando a casa, eu farei a janta. Simples assim.
- Não, Chad. Eu mandei que ELE fizesse a janta. Eu não vou por panos quentes a um moleque que não chega em casa na hora certa, que fica por aí vagabundiando, enquanto eu e seu pai trabalhamos que nem condenados, pra dar luxo à esse ingrato! – Aquilo era demais pra mim.
- Dar “luxo”? Eu ouvi certo, senhora minha mãe? Quando eu tive luxo? Eu tenho o pior quarto da casa, eu usava as roupas que não serviam mais em meu irmão, eu sempre comi por último e o que sobrava! Tudo que tenho é usado! Qual o meu luxo? – Chad pareceu desesperado entre eu e ela. Minha mãe viera em minha direção.
- Pare, mãe! – Chad se metera no caminho, mas minha mãe o empurrara pro lado com força, eu a vi fechar a mão em punho e direcioná-la em meu rosto, mas ela não sabia que algo notável havia mudado. Segurei seu punho, olhando-a de cima. Sim, também estava mais alto que minha mãe.
- Não, senhora. Não vou deixá-la me matar uma segunda vez. – Nesse momento ela empalideceu. Seus lábios perderam a cor, como se estivesse prestes a desmaiar, seus olhos se arregalaram para mim. Ela percebeu que eu sabia que ela havia literalmente me matado naquela noite, e isso a assustara. A força de seu soco perdera potência na mão em que eu a segurei.
- O que... você está dizendo..? – Ela indagara sem graça.
- Acha que eu não sei? Pois saiba que eu vi tudo. Tudo que aconteceu naquela sala e que a senhora pensou ter abafado. – Olhei para Chad. – Eu vi você se revoltar pela minha morte. Te agradeço por isso. – Então me voltei para minha mãe novamente. – Agora a senhora, jamais me tratou bem. Eu não sei o que te fiz para ter tanta raiva de mim. É porque sou afeminado? É porque sou delicado? Porque sou gentil? O que a senhora queria? Um outro filho como Chad? Saiba que ninguém nesse mundo é igual ao outro. Nem mesmo gêmeos. – Eu a soltei. – Me perdoe por ter insistido tanto para que nossa relação desse certo. Eu fiz tudo que estava ao meu alcance. – Eu vi lágrimas escorrerem de seus olhos. Eu nunca a havia visto chorar. Virei às costas e subi as escadas. Eu não ficaria mais nem um minuto naquela casa. Eu tinha algum lugar pra ir? Não. Mas contaria com a providência.
- Cody! – Meu irmão viera atrás de mim. Ao me ver botando as roupas que ele me dera de presente, em minha mochila, pude vê-lo se desesperar. – Não, por favor!
- Chad, não dá mais. Eu sinto muito. – Disse, olhando-o.
- Ela vai se retratar, por favor, você não pode ir assim!
- Ela não vai. Eu estou perdendo tempo aqui, achando que alguma coisa vai mudar. Chad, me escuta. – Eu fui até sua frente. – Eu sei que não posso perder nenhum segundo com algo que não vai me trazer resultados, porque eu não tenho muito tempo aqui.
- O que está dizendo?! – Eu sorri tristemente.
- Minha vida, eu não tenho todo tempo do mundo. Eu sinto muito, meu irmão. – Eu segurei suas mãos entre as minhas. – Nós vamos continuar a aperfeiçoar nossa relação. Eu te agradeço pelo tempo em que passamos juntos aqui, e por você ter mudado. Saiba que isso é muito importante pra mim. – Eu o abracei fortemente. Eu o amava apesar de nosso passado conturbado. Chad estava mudo, e as lágrimas caíam sem parar. – Me perdoe por não contar tudo a você, mas eu irei contar um dia.
- Contar o quê? – Minha mãe aparecera na porta do meu quarto, enquanto eu arrumava minhas coisas. – O que é isso, Cody? – Ela vira a bolsinha entreaberta com meus comprimidos coloridos. Eu a vi derrubar todos eles ao chão, sem cerimônia. – Você está se drogando?! Seu dissimulado! – Ela viera a me bater uma vez mais, porém desta vez, fora Chad quem a segurara.
- Chega, mãe!
- Esse infeliz está se drogando e você me diz “chega”? Agora sou eu quem não te quer aqui, Cody! Está me ouvindo? – Era óbvio que eu estava ouvindo. Eu continuei a arrumar minhas coisas em silêncio, enquanto ignorava os xingamentos da minha mãe e a tentativa falha de Chad em fazê-la parar de defecar pela boca. Quando terminei, saí do quarto, sem olhar para trás.
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