Cycloudy
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Notas iniciais
Porta a fora Chad me alcançara.
- Por favor, espera Cody. – Eu parei, olhando-o. – Pra onde você vai?
- Eu não sei...
- Como não sabe?
- Eu não... sei.
- Aqui, pegue. – Ele me dera um aparelho celular e dinheiro.
- Assim a gente pode se comunicar. O dinheiro infelizmente não é suficiente pra um hotel, mas tenho uma amiga que estuda na sua escola, que era minha antiga escola, e eu a conheço da época que estudava. Vou ligar pra ela te arrumar um lugar pra ficar.
- Não precisa, Chad. Eu me viro.
- Precisa. – Ele já havia pego o celular dele e ligado. – Ana? Aqui é o Chad. Tudo bem? (...) Eu sei, me desculpe por isso. Eu tô ligando porque preciso da sua ajuda. Meu irmão precisa de um lugar pra ficar. (...) Ok, obrigada! – Ele desligara, me olhando. – Vou chamar um carro pra você.
- Chad! Eu falei que não precisava disso! – Ele me puxara pra um abraço forte, e os abraços do Chad são os de urso. Se afastara, olhando-me.
- É o mínimo que posso fazer por você. – Ele dissera, enquanto chamava por um carro de aplicativo. – Mas me diga, o que são aquelas pílulas?
- São vitaminas. Um amigo me deu. Me ajuda a ter mais energia e repor algumas deficiências.
- Ah, nossa mãe não tem jeito! Como fala dessa maneira com você?!
- É como ela me trata, Chad... Sempre foi assim.
Não demorou pra um carro chegar. Me despedi de meu irmão e o carro partiu. O caminho não fora tão longo, quando dei por mim, estava em frente à uma mansão luxuosa, em um dos melhores bairros da cidade. Havia uma moça sentada no meio fio. Quando cheguei, ela se levantou. O caminho entre o portão e a porta da mansão era grande, e haviam guardas por ali. Eu a olhei, achando-a estranhamente familiar.
- Você deve ser o irmão do Chad. – Ela dissera, levantando-se.
- Sabrina? – Eu cheguei mais perto e pronto! Era Sol que me faltava!
- CODYYY! – Ela viera me abraçar, pulando em meu colo. – Chad nem pra me dizer seu nome! O que aconteceu? – Eu a soltara e mal tive tempo pra respirar.
- Mas ele disse “Ana”..?
- Sim, Ana Sabrina, é nome composto. Eu conheci seu irmão numa feira cultural entre turmas de diferentes salas. Aquele besta, não fazia ideia que era seu irmão! Tá explicado essa genética maravilhosa! – E ela apertara minha bunda. Os guardas fingiam não ver nada. – Venha, vamos entrar!
- Espera, Sabrina! E seus pais? Eles não vão gostar disso.
- Meus pais estão fora do país tem mais de seis meses. Eu cuido das coisas por aqui.
- Você mora nessa mansão sozinha?
- Sim e não... tenho vários funcionários. Venha! – Ela me agarrara pelas mãos, me puxando para dentro. Mal pude cumprimentar os guardas antes de ser arrastado por ela.
Antes que me perguntem, não sei se já informei isso lá atrás, mas minha escola é particular, consegui entrar por bolsa de cem por cento e Chad porque nossos pais pagaram pra ele. E não estudo lá desde o maternal, sou exagerado, eu sei, estudo lá desde a primeira série, repetia o teste de bolsas todo o ano.
Enfim, eu ainda não podia crer que estava na casa da Sabrina, e que fora ela quem me acolheu nessa hora complicada. Sim, meus caros, eu estava mais perdido que cachorro que caiu da mudança.
Olhei minhas mãos na água da banheira, vocês não leram errado! Eu nunca havia tomado banho em um banheiro tão luxuoso antes e de quebra, em uma banheira. Haviam sais de banho, sabonetes caros e shampoos maravilhosos. Eu tinha um cabelo legal sem nem saber bem como, já que sempre usei sabão pra lavar os fios, mesmo com a troca de corpos, meu cabelo praticamente é o mesmo. Olhei aquele banheiro imenso, de azulejos brancos, prateleiras bonitas com toalhas claras, cremes e outras coisas. Cabia meu quarto ali. Eu mergulhei o corpo todo na água morna, apreciando aquele silêncio, e então tudo viera à mente. Jess me dando um fora e eu nem bem tive tempo de curtir minha fossa, fui esculachado por minha mãe e depois mandado embora, ok que eu decidi sair antes. A verdade era que eu estava bem cansado, cansado de viver assim, cansado da minha rotina, aquela tristeza escaldando dentro de mim. Fechei os olhos e pude sentir meu corpo relaxar.
**
Olhava o céu noturno da sacada do quarto de hóspedes, e que quarto!
- Entendo... eu sinto muito, Cody. Sua vida não foi e não é fácil. Você pode ficar aqui o tempo que precisar. Eu prometo não confundir as coisas. – Sabrina estava ali comigo há algumas horas. Contei minha história pra ela, omitindo somente sobre Jess e o assassinato que minha mãe me causou.
- Obrigado. – Eu disse, apertando uma de suas mãos. – Eu não sei mesmo como te agradecer. Não vou ficar por muito tempo, eu prometo. Vou arranjar um trabalho de meio período, e logo arrumo um local pra morar.
- Não se preocupe e não tenha pressa. Você é um rapaz muito forte. Eu me sinto feliz em ter te conhecido. É o tipo de pessoa que sempre quis ter em minha vida. Eu me pergunto o porque de sua mãe não enxergar isso. – Ela se aproximara de mim. Eu juro que estava tentando segurar as lágrimas, mas não consegui. Porém Sabrina não tinha notado, já que estava escuro e ela estava razoavelmente longe. Mas ao chegar mais perto, com a ajuda do luar, ela pode ver meu rosto brilhante. Eu não havia tido tempo pra chorar.
- Eu não me importo mais... acho que finalmente pude desistir. Aceitar o fato de que existem filhos favoritos e os menosprezados. – Ela ficara de frente a mim, as mãos pequenas limparam minhas lágrimas, com a ponta dos dedos ela tocara meus lábios, e se aproximando ela me beijara. Não foi um beijo apressado, foi um beijo lento, calmo e apaixonado. Eu entendi o que acontecia ali. Sabrina estava se apaixonando e eu não podia magoá-la. Não podia fazer isso com alguém que me ajudava. Mas acontece que eu pensei, porque não dar uma chance a ela? Porque não tentar amá-la também? Eu correspondi ao beijo no ritmo dela e então eu a senti espalmar meu corpo e desabotoar minha camisa. Ela beijara meu pescoço, descendo por meu peito, até tocar o botão da minha calça. Ela me estimulou por cima da roupa, e acho que mesmo alguém que não estava muito afim, acabava por ter uma reação física. O que eu deveria fazer? Esta seria minha primeira vez, eu receava não estar preparado e de fato não estava. Mas minhas emoções estavam todas embaralhadas, eu não sabia separar minhas dores das minhas vontades. Eu a ergui em meu colo, e a coloquei em minha cama no quarto de hóspedes. Ela estava abaixo de mim, entre minhas pernas. A olhei e a lembrança de Jess me empurrando, viera à minha mente. Eu queria esquecer tudo, queria me dar uma nova chance de recomeçar. Inclinei meu corpo, a beijando com vontade enquanto tirava sua roupa.
**
Sabrina olhava para mim com um sorriso leve no rosto. Ela era linda. E nós acabávamos de fazer algo que nunca, jamais imaginei fazer com uma garota como ela, aliás, mal tinha tempo pra viver minha adolescência.
- Eu sei que foi sua primeira vez, mas nunca pensei que se sairia tão bem. – Eu dei um leve sorriso. Me sentia cansado, nem nos treinos com Chad me cansava tanto assim.
- É mesmo? – Eu disse, sentindo o sono me alcançar.
- Cody...?
- Humm? – Eu mal conseguia enxergá-la. Mas sentia seus dedos acariciarem meu rosto e meus contornos faciais.
- Eu gosto da cor dos seus olhos. Você é incrivelmente lindo... Sabia disso? Parece um modelo. – Eu a escutava dizer.
- Obrigado, Sabrina... Você também é linda. – Ela sorriu.
- Me desculpe, tá? Eu acho que errei com você. – Não entendi muito bem, mas pude olhá-la mesmo quase dormindo. – Eu me aproveitei da sua fragilidade emocional, pra dormir com você. Eu sei sobre o Jess... ele é do terceiro ano como eu. – Nessa hora eu despertei, e a olhei.
- O que está dizendo?
- Sei que vocês tem uma química, e era com ele que você gostaria de estar. Vi quando ele te ajudou aquela vez, antes de você ir em coma. Na verdade foi ali que soube de você, até então eu não te conhecia. Aqueles garotos estavam te perseguindo, quando Jess saiu de sala, foi aí que notei o que acontecia e o quanto de bullying você sofria. Te achei lindo mesmo com aquela carinha de criança. Não imaginei que em seis meses você fosse mudar tanto. – Agora as coisas faziam um pouco mais de sentido na minha mente. Mas de alguma forma, ela havia sacado o lance com Jess. Sabrina era mais esperta do que pensei.
- Tudo bem... Jess não quer nada comigo. Somos bons amigos. Se hoje estou aqui, é graças a ele. – E eu não estava mentindo.
- Como não quer nada com você? Você já tentou então?
- Sim... Mas ele me deu um fora.
- Eu sinto muito.
- Por isso você não precisa se desculpar. Eu também me aproveitei da situação. – Ela sorriu.
- Nós dois nos aproveitamos então. – Eu a senti se enroscar em meu corpo e em segundos eu adormeci, com ela em meus braços.
Havia conversado cedo com meu irmão. Tinha o costume de acordar às cinco da manhã pra treinar com ele. Sabrina ainda dormia, e eu fui tomar um banho. As lembranças vindo em minha mente quando a água banhava meu corpo. O banho era a melhor hora pra pensar. Porque eu havia ido tão longe com Sabrina? Eu já não tentava mais questionar. Eu era carente por natureza, e isso talvez explicasse a maior parte dos meus problemas. Sim, era um problema pra mim. Eu me apegava ao mínimo de atenção e isso não era bom.
Aquela semana passara rapidamente, eu pedi ajuda ao meu irmão para arranjar um emprego, ele logo me arrumara algo de meio período para adolescentes; era um trabalho legal em uma biblioteca, que consistia em organizar os livros da faculdade onde ele estudava. Particularmente eu havia adorado. Amava livros e estudo. Mas o que eu ganhava mal dava para pagar um aluguel. Felizmente eu achara um quarto com suíte pra alugar numa espécie de república para estudantes, e então eu me mudei. Obviamente Sabrina não gostara nada. Ela estava um pouco grudenta, isso era normal depois que as pessoas faziam “aquilo”? Fiquei me perguntando por um tempo, mas não tinha pra quem contar as coisas a não ser meu irmão, e me recusava a contar o que havia feito, a ele, provavelmente iria me zoar. Eu era sozinho, e mesmo tendo um pouco mais de popularidade na escola, ainda continuava assim.
Olhei pela janela, dava para ver a cidade lá de cima. A república era num prédio de três andares. A noite estava muito bonita. Abri toda a janela e um vento maravilhoso entrara por ela. A luz da lua refletindo no piso branco. Respirei fundo sentindo a brisa balançar meus cabelos longos. Aquela tristeza ainda estava em meu peito. O que eu estava fazendo da minha vida? Havia topado estar ali para ajudar as pessoas ao meu redor, mas me arrependia disso. Eu mal conseguia me ajudar, essa era a verdade.

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