Cycloudy
17 Doação
Notas iniciais
Observava Chad descansar, enquanto abria os olhos lentamente.
- Cody...? – Ele indagara. Meu belo irmão estava sem cor na face, seus lábios estavam pálidos e seu semblante doente.
- Não fale muito. Eu estou aqui.
- Eu pedi... pra ninguém te avisar, quem foi o filho da put...?
- Xiii... Eu disse pra não falar muito. Foi a Sra. Jaquelyn..
- O QU..?
- Xiiiiiiiii!
- Desculpa.
- Vim te ver antes da cirurgia. Eu vou doar pra você e espero que tudo fique bem. Ok? Eu deixei algumas coisas no meu apartamento, a chave está embaixo do tapete, passe lá quando você estiver melhor. Assim que tudo estiver bem, prometo ir te visitar. É uma promessa, lembra? Não é pra você ficar triste com nossa despedida. Ela é temporária. Vamos nos ver em breve. – Chad desabara a chorar. Eu tentei ser forte e me segurar, mas não consegui. Vê-lo chorar, me deixou ainda pior.
- Eu não... quero que você doe para mim, se isso irá custar a sua vida.
- Eu não terei mais essa vida em breve. Eu tenho só alguns poucos meses, não faz diferença adiantar isso, se vai salvar você. – Eu disse, enrolando seus cachinhos em meus dedos, acariciando seus cabelos. Chad me olhava um pouco deslumbrado.
- Você virou um homem tão bonito, meu irmão. – Eu apenas sorri. Havia visto meus pais mais cedo, mas nenhum deles falara comigo. Minha mãe ainda achava que eu estava mentindo sobre ter pouco tempo de vida. A verdade era que eu estava destroçado por dentro. Eu não havia procurado por Sabrina, e nem ela viera me ver. No fim, fora melhor assim. Eu era forte, iria aguentar.
A sala fora toda preparada para a cirurgia, eu estava deitado, olhando para a luz do teto. De repente os médicos em volta pararam, e tudo congelou. Então Jess e uma equipe de Cycloudianos vieram ao seu lado. Eram em torno de sete, em maioria parecidos comigo, altos, pálidos, cabelos negros, lisos e longos, olhos acinzentados. Um deles parecia Jess, loiro dos cabelos encaracolados, mas eram longos.
- Está pronto, Cody? – Um homem semelhante a mim, perguntara. Sua voz era macia.
- Não estou, mas não tem o que fazer. – Ele sorriu.
- Não se preocupe. Em breve você estará em casa novamente. Suas lembranças serão restabelecidas e tudo voltará ao normal. Você se recordará desta vida na Terra, como se fosse um sonho, e tudo que viveu aqui, será adicionado à sua consciência como experiências e pontos positivos para sua evolução. Vai dar tudo certo.
- Eu vou poder, voltar aqui..?
- Algum dia.
- Prometi visitar meu irmão.
- Vamos ver como tudo vai ser, se ocorrer tudo bem, porque não? – Eu sorri, estava aliviado. O vi aplicar uma injeção em meu braço, e em poucos minutos eu perdi a consciência.
Pude ver meu corpo sendo manipulado pelos médicos. Eu via Jess medir a pressão daquele corpo, que possuía um coração que batia, sangue e veias, mas de alguma forma, não havia mais a ligação com ele. O observei do alto, e flutuando desci ao chão. Realmente eu havia estado muito bonito naqueles anos. Nunca imaginei que um dia teria aquela bela e majestosa aparência.
- Cody ainda está aqui. – Ouvi um deles dizer.
- Sim, em breve ele será puxado para casa. – Puxado, ele disse?
“Jess, o que ele quis dizer?” Eu vi Jess sorrir com minha pergunta.
- Ele está falando com você? – Um deles indagara ao meu parceiro.
- Sim. Quer saber o que significa ser “puxado”.
- Significa que você irá para casa, Codryel. – Aquele que falara era o loiro.
“Diga que estou ansioso por isso. E triste porque não irei mais comer um belo sorvete.” Ele transmitira a mensagem e todos desataram a rir.
Eu vi todo o processo, até quando meu irmão foi implantado. Jess e sua equipe “descongelara” o local e as memórias falsas de uma cirurgia feita por eles, os humanos, havia sido plantada. No fim, pude ver meu irmão descansar tranquilamente. Quando voltei para o quarto em que meu antigo corpo estava, a máquina de medir os batimentos estava com um som contínuo e agudo. Alguns médicos anotavam a data e hora do ocorrido. Podia ver o clima de lamentação entre os médicos. Eles iam informar a família.
Meus pais estavam sentados do lado de fora, quando um médico chegou.
- Tenho duas notícias. Seu filho Chad, a cirurgia foi um sucesso, a aceitação me parece ser promissora a longo prazo. Iremos acompanhar sua evolução.
- Qual a segunda notícia, doutor? Como está nosso filho Cody? – Escutei meu pai perguntar.
- Eu sinto muito. – Meus pais pareceram levemente entorpecidos com essas três primeiras palavras. – Fizemos tudo que podíamos. Parece que o paciente já estava em estado terminal. Ele possuía uma doença autoimune bem avançada. Foi um verdadeiro milagre seu fígado ainda estar intacto. – Vi minha mãe se sentar, pálida. Meu pai a amparou.
- Não é possível! Isso foi uma mentira que ele inventou! Ele não queria doar para seu irmão! Me deixem vê-lo! Preciso falar com ele! Me deixe...
- Pare com isso, mulher! Já chega! – Fora a primeira vez que eu vira meu pai se impor. – Que história é essa que você está inventando novamente? Porquê Cody iria mentir?! Você sabia da doença dele e não me disse e nem fez nada?! ELE É NOSSO FILHO! Fiz vista grossa sobre como você o tratava todos estes anos! A vida dele sempre foi um inferno! Tão infernal que ele não conseguiu chegar nem aos trinta anos! E ISSO É SUA CULPA! – Vi minha mãe desvencilhar-se dele e correr para a sala onde meu corpo estava e quando ela o viu, se aproximara e chorara como uma criança. A vi chorar sobre meu peito. Meu corpo já aparentava estar frio. Sem cor, lábios roxos, como um boneco sem vida e inanimado.
- Porquê, Cody?! PORQUÊ?!!?!
- Senhora, por favor. – Um dos enfermeiros tentou afastá-la.
- NÃO! CODY!!! Meu filho... me perdoe... Perdoe sua mãe, por favor... – Ela repetia enquanto chorava. – Me perdoe meu Deus, por tudo que eu fiz a esta criança! – Eu não podia chorar no estado em que eu estava. Mas se pudesse, já estaria em prantos. Quando passei por minha mãe no corredor mais cedo, ainda em vida física, busquei o olhar dela e de meu pai, ambos olharam para o outro lado, como se eu realmente não existisse ali. Meus últimos passos como um ser humano, foram dados com uma grande carga de dor e sofrimento que carreguei por anos. O que me consolava era saber que tudo estaria terminado em pouco tempo. E eu deixaria de existir nesta Terra. Eu ainda estava ali, mas decidi não mais ficar. Simplesmente flutuei para longe daquele hospital.
**
Alguns dias haviam se passado. Meu irmão melhorara e pode voltar para casa. Meses depois ele fora até meu apartamento, e apanhara alguns papéis que eu havia deixado, junto com algumas cartas de despedida. O vi chorar tantas vezes enquanto esteve ali. Eu deixei uma soma de dinheiro que havia juntado, meu carro deixei pra ele, meu apartamento era alugado e o deixei responsável para que entregasse as chaves ao dono. Havia um pequeno bilhete ao meu pai, que ele entregara naquele mesmo dia.
- Ele deixou isso pra mim?
- Sim, pai. Abra. – Vi meu pai ler o bilhete, com lágrimas nos olhos.
“Pai, obrigado pelos bombons. Eu sempre gostei de chocolate, e realmente ansiava por eles quando o senhor voltava. Sei da sua falta de tempo para mim, mas agradeço por ter se lembrado de me trazer algo que eu gostasse. Ah! Diga a Sra. Jaquelyn, que eu a perdoou por toda e qualquer coisa que ela tenha feito. Eu quero ir em paz, e receio não conseguir isso se algo ficar pendente. Por favor, transmita essa mensagem a ela. Fique bem. – Ass.: Seu filho estranho.”
Eu não queria ter visto aquela cena, mas eu estava ali. Minha mãe em silêncio, ouvira meu pai ler a carta, lágrimas desciam por sua face. Eu realmente esperava que ela se libertasse da culpa. Eu me sentia leve agora. Me aproximei de Chad e soprei no pé da sua orelha. Ele sentira algo, e olhara para trás, meu retrato estava bem ali, uma criança magricela e pálida, com roupas um pouco gastas, ao lado dele, que sorria para a foto. O vi alcançar o retrato e olhar em volta. Por um segundo pude sentir seus olhos nos meus. Ele não podia me ver. Mas eu podia vê-lo. E esperava que aquela não fosse a última vez. O vi sorrir, antes de sentir um repuxão tragar minha alma dali.
Um misto de cores e sons, invadiram minha percepção. Meu estado era tão leve, que eu não sentia dores e nem nada do tipo. Até que tudo se acalmara e a escuridão parecera infinita.
Fale com o autor