Cycloudy
18 Cycloud
Notas iniciais
Olhei em volta. Tudo era branco. A paz parecia ser eterna e pertencer ao universo. Me sentei, olhando minhas mãos. Elas eram pálidas, grandes, de dedos longos. Movi minhas pernas e logo botei meus pés ao chão, sentindo a temperatura morna e conhecida. Me levantei, estava tonto.
“ Jess... Onde eu estou?”
“Você acordou? Espere onde está!”
Vi uma porta oculta se abrir, naquele ambiente sem janelas. Jess usava um macacão de gola alta, e mangas longas, botas altas e tudo em sua vestimenta era branco.
- Codryel... – Ele viera até mim, me pegando pela cintura, já que eu estava de pé, usava um longo manto azulado. – Como se sente? – Eu o olhei confuso. Minhas memórias estavam todas embaralhadas. Eu sabia sim onde estava, havia voltado para casa.
- Bem. Qual a minha aparência? – Jess projetara um espelho bem ali, à minha frente e eu pude me ver. Estava exatamente como meu corpo falecido na Terra, porém com uma aparência de vinte anos. Era tão belo e elegante quanto o anterior, no entanto eu não possuía partes íntimas.
- Ao menos ninguém irá abusar de você. – O ouvi dizer, ao notar-me tatear onde deveria estar meu sexo.
- Ahh engraçadinho você! – Eu disse, rindo-me dele. Aquilo era no mínimo peculiar. Minha voz continuava igual.
- Tentamos aproximar aquele corpo, do que você realmente era por aqui. Este corpo sempre foi seu, estava na criogenia esperando seu retorno.
- Que interessante... – Era interessante e curioso. – Estamos muito longe da Terra?
- Sim.
- Por quanto tempo eu dormi?
- Dois meses terrestres, duas semanas Cycloudianas. O tempo na Terra é um pouco mais rápido.
- Entendi. Vou poder visitar Chad?
- Sim, assim que a transmigração estiver completae você adaptado ao seu corpo.
- Entendo... – De repente senti uma forte dor na minha cabeça. Levei as mãos para cobrí-las, e pude escutar Jessiel me chamar ao longe. Até que minha visão escurecera. Era como estar caindo sem nunca alcançar o fundo. Lembranças de Jessiel comigo em um planeta belo e paradisíaco, invadira minha mente. Eu falava para uma grande população de Cycloudianos, muitos me respeitavam e me admiravam. Flashs de fragmentos de memórias invadiam minha mente como uma avalanche de informações e imagens. De repente eu me lembrei de quem eu era, me lembrei da minha importância naquela comunidade em que eu vivia, da minha contribuição para a ciência, das minhas inúmeros experiências que ajudavam meu povo a evoluir, até minha decisão em encarnar num planeta em estado evolutivo inicial: A Terra; cujo seu povo ainda caminhava de forma lenta e primitiva. Me lembrei de Jessiel contra minha decisão, me lembrei de suas lamúrias e súplicas para que eu não o fosse. Me lembrei do quanto o amava, do quanto ele fazia parte de todo meu ser, que eu não poderia existir sem ele, e ele sem mim, mesmo que nós dois trilhássemos nosso próprio caminho separadamente com a finalidade de evolução, estávamos unidos por um laço invisível aos olhos e inquebrável à nível energético e espiritual. Eu tinha as respostas para muitas das perguntas humanas, que por vezes me deparei em minhas leituras e estudos por mera “curiosidade”. Minha conclusão era que a humanidade ainda tinha muito a aprender, eles não cultivavam o amor como deveriam, passavam por cima de seus entes mais caros por meros desejos fúteis e vazios. Descobrir isso e vivê-lo na pele, fora uma experiência no mínimo dolorosa porém rica. Naqueles breves segundos que mais pareceram horas, eu pude me lembrar de tudo; eu era Codryel, um espírito em evolução, com a ambição de ajudar e levar luz a todos que a ela estiverem dispostos a receber. Não era o Cody, o garoto miserável de baixa autoestima, que implorava por amor, e vivia à sarjeta da vida, frágil e que pensava não ser nada diante do mundo. Eu o era sim, eu tinha minha importância e ela não era pouca; eu lamentava por aqueles que não quiseram beber da minha fonte, da qual era rica em amor e abundância. Codryel é um cientista e entusiasta da vida e do amor universal. Me ver como realmente o era, me fizera notar minha mera existência no universo, que embora pequena, tinha sua importante contribuição. Eu sou luz, e como a luz, estou aqui para iluminar.
Lembre-se de quem você é!
**
Estava sentado no alto de uma colina. Havia grama e árvores frutíferas por ali. As casas daquele planeta, eram altos edifícios construídos de forma ecológica. Muitos animais que ali habitavam, se beneficiavam das frutas e verduras que plantávamos ao longo das florestas e bosques. Tudo que fora construído por mãos Cycloudianas, coexistia com a natureza local. Coexistir, essa era a palavra de ordem dali. Nenhum ser era superior ao outro, todos tinham sua parcela de contribuição para que tudo funcionasse perfeitamente.
- Pensativo... – Jessiel sentara-se ao meu lado. Já haviam meses que eu estava em Cycloudy, e minha adaptação estava completa.
- Sim, estava aqui divagando no quanto isso aqui é bonito, e no quanto eu senti falta de estar aqui. – Jessiel segurara uma de minhas mãos.
- Você não faz ideia do quanto eu sentia sua falta. Te ver chorar e sofrer, sem lembrar da grandiosidade da sua existência, me fazia miserável. – Eu o olhei com sinceridade, seus olhos cinza brilhantes, me despertara um desejo que eu carreguei comigo da Terra e da minha experiência humana. Eu o puxei pela gola alta de seu uniforme, beijando seus lábios com paixão e ternura. Pude notar sua surpresa com o ato, mas ele me correspondera em pé de igualdade e desejo.
- Vejo um pouco do Cody em você, Codryel.
- Cody sou eu.
- Eu sei... apesar de serem a mesma pessoa, vocês tem diferenças na personalidade. Cody era brincalhão e jovial, Codryel é um pouquinho mais sisudo.
- Cody era leve porque não tinha minhas memórias. Mas com a idade e experiências doloridas, seu jeito jovial se perdeu.
- Isso me doía. Eu nunca quis que você fosse para a Terra. Não escuto coisas boas de lá e não estava errado.
- A Terra é um bom planeta para evoluir. Embora minha alma seja razoavelmente velha, eu jamais havia vivenciado experiências dolorosas como as que vivi na Terra, e de certa forma, isso contribui para que eu saia da minha bolha. O universo é gigantesco, existem incontáveis planetas com vida e oportunidades de aprendizado. Você devia experimentar. – Eu disse, olhando-o.
- Ah não! Eu não pretendo tão cedo! – Ainda o olhava com um leve sorriso nos lábios.
- Seja corajoso! – Falei, apertando seu nariz. Jessiel era mais jovem, em termos, do que eu; embora sua polaridade fosse masculina, eu sentia um certo apego do qual ele precisava se desprender. – Eu ainda vou te levar para uma experiência assim algum dia. Você vai ver!
- Eu sei que vai... Você é meio louco. – Eu não pude deixar de gargalhar com isso.

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