Cycloudy
19 Laços
Notas iniciais
Um ano terrestre e eu havia recebido permissão para visitar meu irmão humano. Mirei aquela nave tão conhecida. Era minha nave.
- Saudades dessa belezinha? – Jessiel indagara, olhando-me.
- Mas é claro que sim! – Eu respondi. Minha nave era prateada como do meu parceiro, porém um pouco maior. Sentei em frente ao seu painel conhecido. Eu me lembrava de exatamente tudo ali e sabia o que fazer para que ela funcionasse. Havia uma forma de mão numa parte do painel. Ao colocar minha mão esquerda ali, vi que se encaixava perfeitamente, como se só eu pudesse ligá-la e isso era verdade. Todo o painel se acendera, e uma tela gigante se abrira à minha frente, e todo o exterior à nave, pode ser vislumbrado por uma janela horizontal panorâmica, que pode ser vista por toda a extensão das laterais da nave. Embora fosse incrível, eu sentia falta de como meus olhos através de Cody, vibraria ao ver essa “novidade” que não era novidade para Codryel. Conduzi a nave para que saíssemos da garagem onde ela estava. Eu me lembrava perfeitamente em como pilotá-la. Em questão de segundos, ela já estava no espaço. Aquela tecnologia pareceria coisa de outro mundo, uma vez que ali dentro a força G não se aplicava. Haviam inúmeras leis que a física humana nem se dava conta de que existia. Para viagens mais rápidas, entenda como anos-luz de distância, usávamos atalhos que nossa velocidade era capaz de criar, também conhecidos como “buracos de minhoca”, porém somos nós quem os criamos, em outras palavras, para nós é possível viajar para além da velocidade da luz, e por isso nosso tempo e espaço praticamente são inexistentes com essa tecnologia. Essa explicação é genérica demais, mas espero que você, que está lendo, tenha entendido. Eu como Cody, adorava procurar artigos de física e suas leis, por isso agora sou capaz de criar um panorama comparativo entre o conhecimento das duas raças.
Ao longe pude vê-la, o lindo planeta azul, salpicado de branco em seus polos. A Terra era realmente magnífica. Cycloudy também, porém sua extensão era bem maior e suas cores de superfície variavam mais do que apenas azul, verde e branco. Eu sabia bem onde Chad vivia, e esperava que ele não houvesse se mudado. Ao me aproximar consideravelmente da Terra, deixei a nave em seu modo “neutro”, onde não emitia nenhuma frequência e nem seria possível detectá-la, tanto por meios visuais, tanto por sonoros. Trocamos de roupas para umas mais “humanas”.
- Você se lembra perfeitamente, não é? – Eu olhei para Jessiel.
- É claro que sim. – Eu disse, sorrindo e dando-lhe uma piscadela. A viagem toda não levara mais que quinze minutos terrenos. A estacionei em um parque próximo da morada de Chad. Ao descer, ninguém fora capaz de nos notar, uma vez que também estávamos em modo “neutro”.
- Se lembra onde ele mora?
- Sim, quero espiar sua morada antes de me comunicar. – Chad vivia numa casa simples, mas muito bem cuidada. Eu pulei os muros com facilidade, Jessiel ao meu lado. A janela da sala estava com a luz acesa, espiei pela fresta. Havia uma mulher por ali, ao seu lado estava Chad, com um pequeno bebê em seus braços. Pela primeira vez desde que havia transmigrado, meu coração acelerara significativamente. Jessial pareceu notar meus olhos arregalados para aquela linda cena de aquecer o coração. Eu queria ter tido uma família assim, construído minha própria família. Sorri, talvez eu não devesse atrapalhar. Considerei dar meia volta, quando Jessial tocara a campainha.
- Ei!
- Se você não o faz, eu o farei. – Ele disse, me puxando para o lado de fora dos muros baixos. Em segundos a mulher viera abrir a porta.
- Sim? – Ela dissera, um pouco surpresa ao ver dois homens de um metro de noventa, parados no seu portão.
- Chad está? – Perguntei.
- Amor! Você tem visitas! – Ela gritara, indo chamá-lo. Segundos depois, ele aparecera.
- Pois não? – Lá estava Chad, um pouco mais gordo que o habitual. Ao me ver, pude notar seu empalidecer. Ele esfregara os olhos com as mãos, e dos mesmos muitas lágrimas escorreram sem parar. – Cody...? – Ele abrira o portão, me abraçando com força, sem me dar tempo de dizer algo. Eu o abracei de volta com igual intensidade. Meu irmão estava ótimo, e isso me deixara extremamente feliz.
- Desculpe a demora. – Ele me olhara, ainda em lágrimas.
- Isso é surreal, Cody! Eu te vi sem vida! E você está aqui!
- É porque aquele não era eu, era só um corpo emprestado.
- Sim, eu estou vendo! Venha, entre! Quero que conheçam minha família! Agora sou pai! – Ele cumprimentara Jessiel também, e logo entramos.
A casa era modesta por dentro, mas muito aconchegante.
- Niele, este é meu irmão, Cody, e seu companheiro Jess. – Ele apresentara. Niele era uma bela mulher, cabelos negros presos em coque, olhos escuros e pele morena, usava roupas casuais.
- Ah, Chad fala muito de você e em como forjou a própria morte para viver um romance proibido por sua família. Achei essa história digna de filme! – Eu o olhei abismado. Meu irmão servia para ser escritor!
- Então, eu... Tive que ter muita coragem!
- Realmente! – Ela dissera sorridente.
- Agora essa aqui, é a nossa Lara. – Chad trouxera nas mãos, uma bebê rosada, embalada num charuto de pano. Usava uma touquinha cor de rosa. Meu coração se aquecera ao vê-la. Era linda. – Diga oi pro seu tio! – Ele fizera menção de me entregá-la. Nunca havia pego um bebê antes, o mirei apreensivo. – Nahh, é fácil! – Respondera, entendendo meu olhar. – Só tomar cuidado com o pescoço. – Ele me ensinara brevemente, então a apanhei em meus braços. Era tão pequenininha, minhas mãos eram enormes para ela.
- Olá, Lara! – Ela abrira os olhos e me sorrira de imediato.
- Veja, ela gostou de você! Tem uma forte aura paterna em ti! Considerem adotar! – Dissera Niele sorrindo. Eu olhei para Jessiel, acho que ele entendera tudo. Essa vontade de ter um bebê, não era de Codryel e sim de Cody. Eu havia absorvido alguns de meus desejos enquanto humano.
- Quem sabe... – Eu dissera e por algum motivo, Chad pareceu entristecer. Fiz menção de devolver seu bebê, mas ele recusara.
- Fique com ela um pouco, ela gostou de você. Venha, vou te mostrar meu quintal! – Ele dissera. Jessiel e Niele permaneceram na casa, enquanto conversavam amenidades. Chad dera uma distância, indo para os fundos da casa. Era um jardim organizado, com gramado e duas árvores frutíferas. Lara continuava olhando-me com curiosidade, enquanto eu a embalava cuidadosamente em meu colo.
- E então? Como você está? Como é Cycloudy? Você está muito diferente! Dá pra ver que você é um extraterrestre se olharmos bem! Isso é assustador! Deve ser por isso que Lara encarnou em você! – Não pude deixar de rir com toda essa afobação de Chad.
- Cycloud é lindo, o planeta é maior que a Terra. Lá tudo é diferente. Sobre eu parecer um alien, na verdade este corpo era meu corpo original antes de eu encarnar aqui. E sobre sua neném, talvez seja isso mesmo. Sei que os bebês são muito sensíveis, uma vez que possuem suas memórias. Posso fazer uma coisa?
- O que? – Eu olhei para Lara, e pousei uma das mãos em sua pequena testa. Então, me aproximei de Chad, colando minha testa à dele. Em segundos dezenas de imagens invadiram nossa tela mental; e em algumas delas vimos uma linda mulher dançar no Egito antigo, posteriormente vimos um homem forte lutar numa guerra, mais à frente, uma figura proeminente, poderosa e forte, que havia arrastado multidões à seu favor, e que mudara o rumo de uma pátria. Ali estava Lara. Ela me olhara ao fim das memórias, seu olhar pareceu notavelmente de alguém que estava ali há muito tempo e que era visivelmente até mais velha do que eu, de alguma forma, seu olhar se comunicara com o meu, ela sabia quem eu era, e que não era daqui. Por isso em Cycloudy achávamos a infância uma perda de tempo. Veja este potencial, em minhas mãos, num corpo tão frágil. Olhei para Chad, ele parecia em transe, chocado e boquiaberto.
- O que foi... isso?
- As memórias de Lara. Quem ela já foi, sua história de alma por aqui, neste planeta.
- Como você conseguiu fazer isso? – O olhei dando uma piscadela.
- Habilidades alienígenas. Cuide bem dela. Ela não está aqui à toa, veio para uma mudança significativa neste país. – Ele pousara uma das mãos em meu ombro.
- Vou cuidar bem dela. É minha filha. Obrigado por me mostrar tudo isso. É algo extraordinário! – Eu lhe sorri por fim.
Conversamos por um tempo, descobri que Sra. Jaquelyn estava fazendo trabalho voluntário em um lar de crianças. Ela havia enfrentado uma depressão após minha morte, e depois, com a ajuda de nosso pai, ela conseguira se recuperar e encontrar no trabalho voluntário, uma forma de amenizar sua culpa. Nosso pai, segundo Chad, estava bem, mas dissera que fora muito difícil para ambos, superar a minha ida precoce, e que de certa forma, ainda sofriam um luto, penso que talvez seja mais pela culpa, do que por alguma tristeza. Fosse como fosse, eles haveriam de encontrar, à sua maneira, a redenção.
Nós quatro havíamos conversado sobre muitas coisas, mas quando dera uma certa hora, eu sabia que deveria ir.
- Você vai voltar, não é? – Olhei para Chad, estávamos de saída em seu portão.
- Sim, com certeza. Virei numa hora melhor para conversarmos mais. – Demos um longo abraço de despedida e eu pude enfim, partir.
- O que quer fazer? – Jessiel me indagara. Havia uma pessoa que eu queria visitar às sombras. Jessiel me esperara na nave e lá estava a casa de Sabrina. Eu não sabia nada sobre o que acontecera a ela. Estava tão triste na época que mal podia pensar, mas olhado por agora, através dos meus olhos de Codryel, as coisas eram diferentes. Fiquei parado em frente à sua casa. Tudo estava apagado.
- A moça que mora aí, não está nessas horas da noite. – Olhei para o lado, uma senhora me dizia. – Sou vizinha dela.
- Sabe onde posso encontrá-la?
- Nos finais de semana, ela geralmente se acaba em bebidas no bar da terceira rua abaixo. – Aquilo me fora uma surpresa. – Se você é um amigo dela, sugiro que a ajude. Uma moça tão bonita como ela, está se perdendo.
- Obrigado, minha senhora. Irei procurar por ela.
- Disponha, meu rapaz. Não é todos os dias que vemos homens tão lindos e educados. Ela tem sorte. – Aquilo me pegara de surpresa. Eu agradeci sem jeito, e me fui, procurar o tal bar que ela mencionara. Sabrina morava sozinha em uma bela casa em um bairro nobre e central da cidade. Havia se mudado da casa de seus pais, assim que se formara na universidade. Embora fosse de família rica, prezava por sua independência.
E lá estava Sabrina. Era um posto de gasolina, havia uma conveniência e bar por ali, muitos homens a olhavam de forma maliciosa e aquilo me incomodara absurdamente. Ela estava sozinha, olhando para sua garrafa de cerveja barata. Haviam mais umas três garrafas vazias por ali. No momento em que me aproximei, todos os presentes se viraram para olhar, e isso acontecia aonde quer que eu fosse na Terra.
- Vamos, Sabrina. Já chega. – Falei, erguendo-a.
- Não! Me deixa! Quem é você? – Ela me olhara, tentando focar a vista. – Cody???
- Sim, sou eu. Vamos embora?
- Mas você... está morto.
- Estou, mas vim aqui te ajudar. Veja que bom amigo eu sou? – Ela rira e começara a gargalhar.
- Eu estou ficando louca... Cody nunca mais vai voltar.
- Tudo bem... Mas precisamos ir. – Eu a apanhei em meu colo, deixei uma boa quantia em dinheiro na mesa junto com a comanda, e me fui com ela sob protestos e xingamentos. No caminho ela parara de choramingar, ficara sonolenta e eu pude enfim respirar um pouco. As fechaduras eram fáceis de se abrir, logo pude entrar. Sua casa era bela e requintada. Procurei por seu quarto, pousando-a em sua cama. Ela me olhara confusa.
- Cody... – Ela se levantara, sentando-se na cama, se aproximara, me dando um beijo nos lábios. – Eu sei que vo..você não está aqui de verdade, que isso é um produto da minha ca-cabeça bêbada... mas eu... quero te falar algumas coisas...
- Eu estou aqui. Você pode me dizer o que quiser, eu irei ouvir. – Ela sorrira.
- Me perdoa, por favor. – Eu acariciei seu rosto, e a vi fechar os olhos com o toque e soluçar. – Me perdoa por ter te... – Nessa hora ela baixara a face, respirara fundo e eu pude notar suas mãos tremerem. – Me perdoa por ter te estuprado. Sei que no fundo isso não tem perdão... Ne-nenhuma bebedeira justifica... – Ela começara a chorar. – Eu perdi você pra sempre... Vo-você foi embora deste mundo... Eu te perdi e nada te trará de volta... – Suas mãos pequenas me seguraram a camisa, e suas lágrimas não paravam de cair. Eu sabia que ela estaria sofrendo, conhecendo-a como conhecia. Mesmo um ano depois, ela não fora capaz de superar.
- Sabrina, escute. – Ela me olhara. – Está tudo bem. Você está perdoada, minha amiga. Já passou. Eu estou bem e em um bom lugar. Quero que você me prometa que não irá mais beber desta forma, que vai se dedicar à sua profissão, da qual você é ótima! Por favor, só me prometa e eu poderei estar em paz.
- Eu... É você mesmo, Cody?
- Sim, sou eu. Eu vim aqui especialmente te visitar.
- Eu... prometo. Não vou mais beber...
- De verdade? – Ela rira, como uma pessoa verdadeiramente alcoolizada do tipo alegre.
- Promessa de dedinho... Com o espírito do Cody... – Eu sorri, estiquei a mão, e entrelacei meu dedo menor ao dela.
- Certo. Promessa é dívida! Se você beber novamente desta forma, eu vou saber e vou vir aqui puxar sua orelha.
- Tudo bem... – Eu a deitei em sua cama, tirei seus sapatos, e puxei suas cobertas. Ela acompanhou o processo me olhando atentamente. – Eu amo você. Quero que nunca se es-esqueça disso.
- Eu não vou esquecer. – Respondi.
- Posso te pedir uma última coisa?
- Pode.
- Me beija, como quando éramos adolescentes... – Eu me aproximei dela, selando seus lábios e ela aprofundara o beijo, adentrando a língua furtiva em minha boca. Eu a amava também, de uma forma distinta à de Jessial, mas havia uma grande atração entre nós. De repente ela parara de me beijar, e quando a olhei, estava dormindo profundamente. Eu sorri, acariciando seus fios claros, retirando-os de sua face. Eu não queria assustá-la, mas queria que ela ao acordar, soubesse que aquilo não fora um sonho. Olhei em volta, e havia um retrato nosso, de alguma vez na empresa onde trabalhávamos. Apanhei o retrato e levei próximo à cabeceira de sua cama, ao lado, deixei um doce de leite, que eu sabia que era seu preferido.
- Fique bem... – Eu disse, lhe dando um beijo na testa.
Voltei para a nave. Jessiel me esperava, sentado em frente ao painel.
- Como ela está? – Ele indagara.
- Alcoólatra. – Jessiel respirara fundo.
- Você a marcou de alguma forma.
- Eu sei... Mas agora ela precisa superar isso. Precisa seguir em frente. – Jessiel me olhara atentamente.
- Droga, quando você era o Cody, eu conseguia ler seus pensamentos. – Eu ri. Agora eu sabia controlar isso e bloquear alguma coisa se quisesse.
- Ah é mesmo? Isso era engraçado, não é?
- E útil!
- Palhaço você! – Jessiel gargalhara enquanto puxava minha mão para cima do painel, afim de ligar a nave. Partimos, rumo a Cycloudy.
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