Cultura indígena de Santa Catarina
4 O povo Kaingang
Notas iniciais
No final do século XIX, mais precisamente no ano de 1882, Telêmaco Borba usou o nome Kaingang para denominar os índios não-Guaranis de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Antes disso, os Kaingang foram chamados de: Guayaná, Coroado, Bugre, Shokleng, Tupi ou Botocudo e Kanhgág. Os Kaingang falam cinco dialetos diferentes, porém todos derivam do tronco linguístico Macro-Jê.
Os Kaingang encontram-se distribuídos em trinta terras indígenas, sendo que duas estão em São Paulo, doze no Paraná, quatro em Santa Catarina e doze no Rio Grande do Sul. Na grande Porto Alegre, há três grupos que vivem na cidade e um desses grupos conseguiu local para construir uma aldeia.
História:
Os Kaingang do passado ocupavam todas as terras que se estendiam no curso superior do Rio Uruguai, para onde se deslocaram depois que os Guaranis ocuparam todo o centro do estado. As moradias Kaingang talvez tenham sido subterrâneas, mas não há um consenso a respeito, pois os vestígios dessas casas subterrâneas se encontraram em todos os planaltos dos estados do Sul. Outro tipo de moradia que eles construíam era de folhas de palmeiras, distribuídas por cima de madeiras arqueadas e firmes. Dentro delas, havia um espaço no centro para o fogo, que nunca se apagava, e as pessoas se agrupavam ao lado, onde sentavam, comiam e dormiam com os pés em direção ao fogo. Quando essas casas ficavam impróprias para serem habitadas, pela sujeira e presença de pulgas e mosquitinhos, eles as queimavam e construíam outras. Havia as casas pequenas e as grandes, enormes, onde se podiam abrigar até oitenta pessoas. Havia assentamentos com até sessenta ou setenta casas semissubterrâneas.
Esse povo trouxe consigo cultivos que espalhou nas clareiras das florestas. Plantaram mandioca, batata doce, batata inglesa, milho, feijão, amendoim, que compartilhavam entre si.
Suas cerâmicas eram muito parecidas com as cerâmicas Xokleng. As cumbucas maiores serviam para preparar o “kifé”, uma bebida fermentada alcoólica à base de mel e de milho. Ela era usada em bebedeiras coletivas e na festa anual em homenagem aos mortos.
No século XVIII, tomaram posse das extensas florestas do Alto Uruguai, uma área que vai desde o Rio Piratini até a bacia do Rio Caí, ao leste. Também ocuparam todo o oeste de São Paulo e os planaltos do Paraná e de Santa Catarina, como também toda a faixa acima das bacias dos Rios Piratini, Jacuí e Caí no Rio Grande do Sul.
Mas o governo imperial necessitava conquistar terras além do Rio Paraná. A ocupação branca então tomou conta, sem pedir licença, e foram sendo abertas estradas com a transposição de rebanhos de bovinos trazidos desde o Rio Grande do Sul até Sorocaba, passando pelos campos gerais do Paraná. E nessa empreitada de abrir caminhos, que foram sendo disponibilizados para a deslocação das bestas, foram atravessando dezenas de terras Kaingang. Em pouco tempo se formaram as vilas de Castro, Ponta Grossa, Lapa e Palmeiras, no Paraná; em Santa Catarina, Lages, Curitibanos, Campos Novos e São Joaquim; e no Rio Grande do Sul, Vacaria e Cruz Alta. Os campos para pastagens dos rebanhos se entenderam por todos os lados, despertando a fúria dos Kaingang que atacaram os colonos com suas armas primitivas. Foi o início das lutas entre brancos e índios.
O governo imperial, então, envia suas tropas, chacinando índios com sua superioridade armamentista. Diogo Pinto de Azevedo os derrota completamente no ano 1810, deixando para trás um cenário de horror e de morte. Nascem assim, a sangue e fogo, as cidades de Guarapuava e Palmas, em terras conquistadas pelas tropas.
O primeiro contato civilizatório com os Kaingang se deu na cidade de Guarapuava em 16 de dezembro de 1771, com a expedição do Tenente Coronel Afonso Botello de Sampaio e Souza, que se retira da missão no ano 1772, tendo perdido sete soldados, mortos nos confrontos com os Kaingang. Quarenta anos depois, membros da real Expedição de Conquista de Guarapuava fazem mais um contato, levando nas suas tropas soldados e criminosos condenados ao desterro. E esses criminosos matam sem piedade homens, mulheres e crianças indígenas.
E é depois disso que muitos Caciques, para prevenir mais chacinas, começam a fazer alianças com os brancos e permitem os aldeamentos. Inclusive esses Caciques tentam pacificar os Kaingang arredios e contrários aos aldeamentos.
Cultura e misticismo Kaingang:
As crenças místicas desse povo são singulares, pois eles acreditam na existência após a morte, período durante o qual a pessoa pode se transformar em mosquito ou formiga. Eles realizam vários ritos de passagem com seus mortos, para que o espírito seja afugentado da aldeia e não fique incomodando os vivos.
Os Kaingang acreditam que sua origem está ligada com a terra e que seus primeiros ancestrais saíram dela. Costumam enterrar os umbigos dos bebês no solo, pois, com esse ritual, eles farão parte da terra por toda uma vida.
Eles têm a crença de que a sua sociedade é dividida em duas metades, as quais descendem de Kamé, exogamia, e Kairu, patrilinear. Segundo o mito das origens do mundo, os Kaingang são os descendentes dessas duas metades, portanto o casamento deve se dar entre as duas metades opostas, um descendente Kamé com um descendente Kairu. Acreditam também que esses ancestrais criaram as plantas e os animais. No passado, o homem casado passava a viver na casa de seu sogro. Em tempos mais antigos ainda, os homens podiam ter várias esposas e, se havia um visitante na aldeia, era-lhe dada uma esposa de presente.
Para os Kaingang, a mata possui um espírito guardião que é o Nentàn. O rio tem mais um espírito que seria o Goiotãn, a Serra teria o Kríntãn, e assim por diante. Há muitos espíritos e cada um deve cuidar de algo que é sagrado. Sendo a natureza múltipla, são então múltiplos os espíritos que cuidam dela. Existem, além disso, os espíritos maus, que os homens devem evitar, como por exemplo, os Korég. Mas o pior de todos seria aquele que os Kaingang denominam como “diabo”, o Detkoreg.
Mas a natureza é viva e atuante, portanto uma mina de água Goio possui propriedades curativas para cuidar dos homens e protegê-los de todos os males da terra.
Cada ser humano também tem seu espírito animal, que seria o Iangrê, e eles podem ser bons ou ruins. Portanto, a natureza humana possui uma essência animal que define seu comportamento.
Antes de ir para as caçadas, o caçador devia tirar seu cheiro, se naturalizar, e para isso passava no corpo terra e mato para apagar seu cheiro e se confundir com a natureza, pois o cheiro do homem é o Gêre e alguns animais o detectam com facilidade, principalmente o cateto e a queixada, já outros como o tatu e a paca não o sentem.
Antes de pescar o homem deve molhar a roupa e esfregar mato no corpo, e a mulher com perfume nunca deve se arriscar numa pescaria, pois espantaria todos os peixes.
É por estes motivos, que os Kaingang possuem um olfato e uma visão muito aguçada.
O dia a dia da atualidade:
O primeiro contato civilizatório com os Kaingang se deu na cidade de Guarapuava em 16 de dezembro de 1771, com a expedição do Tenente Coronel Afonso Botello de Sampaio e Souza, que se retira da missão no ano 1772, tendo perdido sete soldados, mortos nos confrontos com os Kaingang. Quarenta anos depois, membros da real Expedição de Conquista de Guarapuava fazem mais um contato, levando nas suas tropas soldados e criminosos condenados ao desterro. E esses criminosos matam sem piedade homens, mulheres e crianças indígenas.
E é depois disso que muitos Caciques, para prevenir mais chacinas, começam a fazer alianças com os brancos e permitem os aldeamentos. Inclusive esses Caciques tentam pacificar os Kaingang arredios e contrários aos aldeamentos.
Cultura e misticismo Kaingang:
As crenças místicas desse povo são singulares, pois eles acreditam na existência após a morte, período durante o qual a pessoa pode se transformar em mosquito ou formiga. Eles realizam vários ritos de passagem com seus mortos, para que o espírito seja afugentado da aldeia e não fique incomodando os vivos.
Os Kaingang acreditam que sua origem está ligada com a terra e que seus primeiros ancestrais saíram dela. Costumam enterrar os umbigos dos bebês no solo, pois, com esse ritual, eles farão parte da terra por toda uma vida.
Eles têm a crença de que a sua sociedade é dividida em duas metades, as quais descendem de Kamé, exogamia, e Kairu, patrilinear. Segundo o mito das origens do mundo, os Kaingang são os descendentes dessas duas metades, portanto o casamento deve se dar entre as duas metades opostas, um descendente Kamé com um descendente Kairu. Acreditam também que esses ancestrais criaram as plantas e os animais. No passado, o homem casado passava a viver na casa de seu sogro. Em tempos mais antigos ainda, os homens podiam ter várias esposas e, se havia um visitante na aldeia, era-lhe dada uma esposa de presente.
Para os Kaingang, a mata possui um espírito guardião que é o Nentàn. O rio tem mais um espírito que seria o Goiotãn, a Serra teria o Kríntãn, e assim por diante. Há muitos espíritos e cada um deve cuidar de algo que é sagrado. Sendo a natureza múltipla, são então múltiplos os espíritos que cuidam dela. Existem, além disso, os espíritos maus, que os homens devem evitar, como por exemplo, os Korég. Mas o pior de todos seria aquele que os Kaingang denominam como “diabo”, o Detkoreg.
Mas a natureza é viva e atuante, portanto uma mina de água Goio possui propriedades curativas para cuidar dos homens e protegê-los de todos os males da terra.
Os Kaingang deram o primeiro passo para o resgate cultural de seu povo, dos costumes dos ancestrais e do estudo das ervas. Em 1967 e 1968, Wiesemann estudou a escrita da língua, e a primeira escola nasceu em 1970, no Posto Indígena Guarita, no Rio Grande do Sul.
Mas é Santa Catarina o estado que mais se esforça na recuperação dos costumes indígenas. Com ajuda da EPAGRI, do Ministério de Educação, de ONGs e Universidades, eles têm podido fazer um estudo de toda sua flora, em livros escritos em português e Kaingang, onde se estudam os efeitos medicinais das ervas. Conhecimento que chegou para eles através de relatos de boca a boca, desde os mais antigos ancestrais. Eles também fazem misturas para curar diferentes doenças. Exemplos:
— Antidiabéticos: melão-de-são-caetano, carqueja, abacate e jambolão.
— Anticelulite e varizes: centelha, cavalinha, alcachofra e ginco-biloba.
— Anti-hemorróidas: alecrim, sene, cana-da-índia e cáscara sagrada.
— Calmantes: macela, erva-cidreira, camomila, melissa, maracujá e capim-limão.
— Diuréticos: dente-de-leão, abacateiro, chapéu-de-couro e cavalinha.
— Digestivos: erva-cidreira, capim limão, carqueja, boldo e alcachofra.
— Emagrecedores: carqueja, boldo, cavalinha e cáscara-sagrada.
— Energéticos: catuaba, guaraná, ginseng, pfáfia, alfafa e marapuama.
— Gastrites: zedoária, espinheira-santa, camomila e guaçatonga.
— Hepáticos: boldo, espinheira-santa, camomila e guaçatonga.
— Laxantes: dente-de-leão, carqueja, sene, erva-doce e jalapa.
Mesmo com todas as injustiças de um passado terrível, e das dificuldades de uma vida moderna difícil e dura, os Kaingang têm a força e a coragem para lutar contra as adversidades e acreditam que sua situação melhorará.
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