Notas iniciais
Isso é mais uma introdução na história.

O vento acaricia meu rosto com gentileza, meus cabelos cobrem minha vista e com a ajuda da brisa saem novamente, deixando-me enxergar claramente.

Passeio com minha visão pelas árvores cobertas de musgo, a floresta está calma o único barulho que se ouve é apenas o vento tocando a copa das árvores.

Ouço a tempo folhas secas se quebrando e me viro silenciosamente apontando o arco para o lugar onde o barulho se formou. Respiro com cautela como se o som de minha respiração fosse atrapalhar minha concentração, ou até espantar minha caça.

Creck.

Outra vez, e me mantenho imóvel. Puxo o elástico grosso segurando o final da flecha e miro exatamente em um arbusto meio seco. Continuo quieta até que percebo outro movimento, não hesito. Miro a flecha nos seus olhos pequenos e amarelos, lentamente solto a flecha e o elástico.

Atinjo em cheio, e o único som que posso ouvir é o gemido alto e esganiçado que a raposa alaranjada solta de dentro de sua garganta, como última tentativa de escapar da dor e da morte. O bicho arfa, e respira rapidamente, até então a vida lhe deixa.

Me aproximo do animal e tiro de seu olho a flecha banhada a sangue. Limpo-a em minha camiseta de algodão escuro e a guardo sussurrando palavras sagradas de Erina. Enfim faço o sinal de fé, e me despeço da alma do animal morto. Amarro-o então pelas patas traseiras e o prendo em meu cinto de forma firme.

Consigo andar pelo resto da manhã, pausando apenas para tomar alguns goles de água e comer um pão com ervas duro, mas saboroso. A noite dá as caras e então me sinto cansada demais para continuar.

Retorno em passos largos para a vila.

Respirando calmamente atravesso os portões da vila. Recebo olhares curiosos de crianças que estão admiradas com a quantidade de caça que possuo em mãos.

Uma raposa consideravelmente grande, dois coelhos parrudos e um pássaro de rapina que pude capturar por pura ousadia.

Entro no mercado da vila e posso ver humanos trocando mercadorias mal cheirosas, panos, óleos e bolos salgados. Ando até o ancião Sullibent e com cuidado coloco a raposa média sobre o balcão, esboço um sorriso vitorioso.

– Pegou-a sozinha? – Diz ele com a sobrancelha arqueada. Seus olhos cinza me perseguem com rapidez.

– Suponho que sim. – Digo. Ando até a bacia de água corrente mais próxima e lavo minhas mãos rapidamente.

– Farinha e óleo vegetal. – Oferta de má vontade.

– E sabão. – Acrescento tentando manter o mesmo nível minucioso que seu olhar possui. Creio que tenho bons resultados.

– Uma barra, apenas. – Retruca com a expressão mais mal humorada ainda. Sorrio.

– Três. – Pressiono. Mas sei que ele não aceitaria oferta tão alta, e considerando que ele pode muito bem me colocar a chutes do traseiro fora dali... Porém, meu forte é ousadia.

Sullibent ri amenizando sua expressão de comerciante experiente. Desliza os dedos por os pelos alaranjados do animal, e suspira.

– Duas, ou nada. – Diz com a voz rouca me fazendo perceber que se eu insistir mais serei expulsa de sua banca a tapas. Sorrio satisfeita.

– Com esses coelhos, poderia acrescentar também, dois metros de tecido. – Proponho e Sullibent pondera por alguns segundos. Coelhos não são difíceis de conseguir afinal, mas gordos e fortes como esses... Certa raridade por aqui.

O velho então faz que sim com a cabeça, e finalizamos a troca.

– Até breve. – Me despeço com um sorriso fraco nos lábios. Aceno para o velho, que retribui com vontade e sorriso no rosto. O sol a muito já havia deixado o céu, e então me movimento com mais rapidez, sem observar com mais cuidado as estrelas que brilham como diamantes colados em um tecido negro de veludo.

Sigo então a rota até meu pequeno casebre, enquanto posso ouvir os habitantes do local conversando baixo na frente de suas casas. No meio da praça, a fogueira Elemental brilha com excitação enquanto todos a observam e conversam ao seu redor.

Os mais velhos da vila, dizem que a tal fogueira nos livra de almas vorazes sem piedade que poderiam passear pela vila, deixando então apenas a sensação de paz e conforto, mais como um colo de mãe. O fogo não é como qualquer outro. É azul. Azul brilhante e fervoroso, não um azul como de gelo, ou que transpareça frio. Azul elétrico, um azul cheio de calor e alta tensão.

A Deusa é presente em toda a natureza ao nosso redor, mesmo na flor morta, ou na árvore queimada, e sua presença se torna quase visível quando a fogueira se acende durante o crepúsculo. Dizem que a fogueira Elemental é um dos fragmentos da alma de Etain, a Deusa perdida.

Mas a estória de nossa Deusa fica para outra hora.

Perto o bastante, posso reconhecer o pequeno casebre onde vivo. Sem luxo. Sem ostentação. Apenas o necessário, e as vezes até a falta disso. É composto por dois cômodos. Um que se torna a sala/cozinha e outro que tem camas fofas que com muito custo e trabalho eu e minha mãe conseguimos.

A chaminé cospe fumaça e me sinto feliz e aconchegada ao chegar a meu agridoce lar.

O trinco chia como a espinha de um velho que a muito não se move direito, grita em desaprovação e então com algum esforço consigo abrir a porta do casebre.

O calor e o cheiro de leite fervendo me abraça com carinho, e então fecho a porta atrás de mim. Coloco o pacote com as mercadorias na pequena mesa onde jantamos, e a ave ao lado. Teria de tirar suas tripas e faria para o jantar.

– Ziraya? – Minha mãe diz, com a voz doce me deixando segura e feliz.

– Sim. – Digo, apenas me livrando do casaco de couro pesado que vestia. Deixo meu arco e a bolsa com as flechas perto da entrada, no chão, e tiro minhas botas com certa dificuldade.

– Trouxe mantimentos. – Falo entrando então, no outro quarto, vendo minha mãe sentada em sua cadeira de balanço antiga de madeira nobre, que herdou de seus pais, antes de nos tornarmos pobres.

Seus cabelos brilham com a luz das estrelas que vem do céu, e com a ajuda do reflexo da fogueira que vem da praça. A janela está escancarada, e o vento é quase uma brisa. Ela se mantém em silêncio, e a única coisa que posso ver é seus cabelos loiros quase brancos e lisos, caídos feito cachoeira pacífica em suas costas. Ora ou outra alguns fios reagiam ao vento, se movimentando como uma dança. Me aproximo, e puxo um banquinho, me sento e pego suas mãos quentes como lã.

Mamãe tira seus olhos da fogueira lá fora, e os pousa sobre mim, com um sorriso de ternura estampado em seus lábios. Com a outra mão, ela desliza pela minha cabeça, fecho meus olhos e aprecio o carinho materno. Seu perfume doce e amadeirado me envolve, assim como ela em um abraço.

– Chegou tarde hoje, meu anjo. – Sussurra e me beija no topo de minha cabeça. Abro então os olhos, e vejo seu rosto tão sereno que me traz paz e calma. O seu nariz fino e longo, sua boca tão fina quanto e os olhos apertados a denuncia claramente que mamãe é uma elfa. As orelhas pontudas fogem dos cabelos, e pude apostar que estariam geladas. A tatuagem azulada em sua testa parece transparecer a luz do céu, e brilha fluorescentemente.

Com certeza, ela é uma das mais bonitas de nossa espécie.

– Passei no Benk. – Me justifico. – Sullibent estava no lugar de Argus. Consegui muitas coisas em troca. – Sorrio fraco.

– Sullibent tem o coração tão mole quanto manteiga. – Mamãe diz risonha. – Aposto que trocaria um rato que você cassasse por cinco quilos de farinha.

– Não me subestime. – Resmungo fingindo falsa ofensa.

Sissy Rose, esta é minha mãe. Doce, frágil e leve. Quase o total oposto de mim, e creio que é por esta razão que nos encaixamos tão bem.

Elliot, o velho sábio da vila, me contou a algum tempo quando eu ainda criança era, a história de minha mãe e meu pai. Que infelizmente não o conheci, ele morreu na guerra, nas fronteiras de Silvaren – O que por ironia ou não, é para onde quero ir.

Sissy conheceu meu pai, Thor quando tinha por volta dos quinze anos elfos. O que pelas contas humanas, daria por volta dos vinte. Nossos anos são contados de forma diferente, pois vivemos no mínimo até os oitenta anos elfos, que é cem anos humanos batidos. Algo complicado e difícil de se entender, e a única coisa que preciso saber, é que, se conheceram no auge de sua juventude.

Sissy sempre fora muito habilidosa com cura. Chegou a ser a melhor curandeira que a vila já viu, hoje está aposentada.

Ela recebia todos os dias, em um balcão os moribundos e cuidava de cada um deles com amor e satisfação. E sempre se exaltando por sua beleza incondicional. Thor, no entanto, foi criado na mata, e quando o trouxeram para a vila era praticamente um selvagem. Entre risos Elliot me contou que ele quase se igualava aos humanos. Porém, sua força física e determinação chamou a atenção de todos da vila. Elliot me disse que então, o treinou. Seria um guerreiro, se tornou o melhor deles. Habilidoso com o arco e flecha, com adagas e venenos, simplesmente mortal.

Serviu a tropa de Erina até então voltar para uma trégua de seis meses, onde então se aprofundou em uma relação com minha mãe, que o fez deixar a guerra, e então me tiveram. Quando completei cinco anos elfos, já pude então aprender com meu pai tudo sobre venenos, arco, caçada, armadilha. Ele me ensinou a ser tão furtivo quanto ele. Foram diga-se de passagem, os anos mais felizes de toda minha vida.

Infelizmente, felicidade é algo incerto e tremendamente sacana, na maioria das vezes. Você nunca é feliz, você está feliz.

Na época negra da história, então os Darkforce estavam enfim tomando dianteira na batalha que dura até os dias de hoje. Homens (até mesmo humanos) foram obrigados a voltar para os campos de batalha. E foi praticamente um massacre, meu pai morreu nele.

Após cinco anos apenas, a guerra voltou a se estabilizar, e até hoje se mantém empatada. Exatamente na linha da fronteira, nem para dentro de nosso país, nem para o deles. Sangue e dor, apenas isso, quase que eternos.

Mas isso não é algo especial. Meu pai não foi o único a ser morto na guerra, e muito provavelmente não foi o primeiro, e impossivelmente o último. Então, achei uma forma de acalmar meu coração, e não sofrer tanto pela morte de meu progenitor. Entreguei minha dor à fogueira, e hoje luto. Luto, pois vou para a guerra, a mesma que matou meu pai, e provavelmente a mesma que irá me matar também. Mas no lugar que ficou quando a dor se foi, o patriotismo o preencheu. Vou lutar pela minha raça, minha espécie, que acredito ser mais pura e merecedora de paz que o inimigo.

Minha mãe no entanto, me faz ponderar sobre tal questão. Não aguentaria vê-la sofrendo novamente pela perda de alguém querido, mas ainda sim, meu senso egoísta grita dentro de mim, grita para que eu vá, grita me dando pontas de esperança que talvez eu possa fazer alguma diferença nesta batalha.

Sinto até vontade de rir. Se meu pai não fez, eu farei?

O egoísmo e autoconfiança rugem dentro de mim dizendo que sim, afirmando veementemente que não sou como os outros. Eu acredito em mim.

Eu sou nada, no final das contas.


Notas finais
E aí? Mereço reviews? Digam o que acharam da personagem, por favor.