Crônicas de Guerra

1 Capítulo 1 - Thomas


Capítulo 1: Thomas

20XX. Século onde a robótica cresceu em números absurdos. Era possível ver nas ruas, casas, lojas, escritórios, e até em ministérios, diversas máquinas que ajudavam pessoas nas mais variadas tarefas. Robôs, cujo cálculos jamais estão errados, exerciam com exímia precisão trabalhos de imensa responsabilidade, onde a imperfeição humana corria grandes riscos de cometer grandes erros, que fatalmente acarretariam em tragédias gigantescas. Aviões, construções e até mesmo cirurgias eram comandadas pelos autômatos, devido à enorme exatidão de seus movimentos.

Mas um homem, na verdade o maior responsável por tal evolução, desejava alcançar um estágio superior. Thomas Light ajudou a criar todas essas máquinas, mas elas não passavam de um monte de peças montadas de forma que possam se movimentar de acordo com uma vontade externa. Querendo fazer mais que isso, Thomas começou a construir aquilo que viria a ser sua maior criação. Um robô com uma capacidade nunca antes presente em qualquer outro: A de pensar, sentir e tomar suas próprias decisões. Batizou-o então como "X".

Com o tempo, ele termina seu maior projeto. Porém, um homem já idoso, Thomas começa a perceber que seu tempo na Terra já estava expirado, e que já estava vivendo além do que deveria ter vivido. "X" ainda não estava pronto pra viver livremente, e assim, seu criador o selou numa cápsula, que verificaria todo o sistema do robô, a saber se seria seguro soltá-lo futuramente. Junto, deixou uma mensagem para que ninguém o soltasse antes de ser totalmente analisado, e também suas prováveis últimas palavras: "X Possui grandes riscos, assim como grandes possibilidades. Eu só posso esperar pelo melhor”.

Os dias viraram semanas, semanas viraram meses, meses viraram anos, e os anos um século. Thomas Light fora esquecido pelo mundo, mas X revive sua memória, quando desperto por um arqueólogo, Dr. Cain, que descobriu, por acaso, o laboratório de Thomas Light soterrado. O Doutor fica maravilhado com as habilidades de X, ainda inédita mesmo com um século de avanços tecnológicos. Com base nos circuitos de X, Cain decide criar uma nova raça, a dos robôs pensantes, posteriormente batizados como "Reploids".

Mas Cain, ao contrário de Thomas, não era mestre em robótica. Ele não foi capaz de duplicar integramente os sistemas de X e, ainda que os "reploids" funcionassem, eles estavam seriamente sujeitos a erros e problemas.

Ainda assim, eles começaram a ser produzidos em massa, para que pudessem ajudar e conviver mutuamente com os humanos. Foi nesse ambiente que eu também comecei a ser criado.

Meu princípio é nebuloso até mesmo pra mim. Mas direi o que me contaram, depois de muito procurar testemunhas que presenciaram meu nascer.

Primeiro a parte menos turbulenta. Tudo começou com meu Mestre Criador (sim, sei que e uma conclusão obvia). Ele era uma pessoa extremamente inteligente, e desde jovem (um moleque que parece ter crescido demais, com óculos enormemente redondos e cabelos negros tão espetados quanto o corpo de um porco-espinho) era capaz de criar maquinários que um adulto comum levaria o dobro ou o triplo do mesmo tempo. Mas poucas pessoas o aceitavam assim. Vítima de si mesmo, ele era uma pessoa isolada e por vezes quieta demais, até mesmo com sua própria família.

Para se refugiar daqueles que o escorraçavam na escola, decidiu estudar o máximo que podia, todo o tempo e o tempo todo. Claro que, dada sua inteligência incomum, isso não era tão necessário, e ele tinha consciência disso. Mas se isolar num mundo próprio era muito mais cômodo do que ser humilhado diariamente.

Logo terminou a escola, e a pergunta que ele vinha se fazendo há meses necessitava de uma resposta naquele momento: "Que fazer agora?"

Como humano, ele não tinha muitas opções. Reploids fazem quase tudo hoje em dia, e para os humanos sobraram poucas tarefas nesse mundo.

Mas havia escolhas. Entre outras poucas, ou ele seguia carreira como pesquisador (por que somente nesse campo ele seria igual a um reploid, já que, embora seus cálculos possam ser perfeitos, raciocínio lógico e inteligência ainda não são implantados, mas desenvolvidos), ou estilista (por alguma razão, reploids são péssimos designers de roupas [talvez porque a maioria deles usam placas de metal ao invés de roupas, heh]), ou engenheiro tecnológico de -adivinhe o que- reploids.

Ao que ele me disse, ele ficou tentado quanto a ser pesquisador, carreira onde ele faria mais diferença pro mundo, mas por razões pessoais, decidiu fazer engenharia. Quanto a ser estilista... Bom, imagine uma pessoa que usa meias de cores diferentes e roupas meio sujas. O Mestre era isso ou pior, portanto não tinha muito interesse nesse tipo de coisa.

Fez então sua decisão, e assim ele foi para a faculdade, agora um homem de média estatura, com óculos mais discretos e (pasme) cabelos religiosamente arrumados. Ele tinha também um pouco de barba, mas era tão rala que você tinha que chegar a cinco centímetros pra ver alguma coisa. No curso de engenharia, ele viria a conhecer algumas pessoas que, assim como ele próprio, eram quietas demais. Logo se tornaram amigos por sua semelhança.

Pelo o que ele me disse, Engenharia Reploid é um curso que não te ensina muita coisa além do básico, e sim o guia para seu próprio caminho. O termo "reploid" veio de "replicated android"; andróide replicado, ou seja, réplicas de X. Mas hoje esse termo perdeu muito de seu significado original, sendo aplicado a todos os robôs pensantes. Sim, há reploids hoje que, ainda que seus mecanismos venham muito de Thomas, usam suas próprias tecnologias.

Aliás, acabo de me lembrar que não citei o nome de meu Mestre. Coincidentemente, ele também se chama Thomas. Thomas Almeida. Desculpe minha indelicadeza.

Bem, ao terminar a faculdade, o Mestre Thomas e seus amigos foram convidados por um homem a trabalharem com ele. Esse homem, chamado Mark, era bastante alto, de cabelos negros e pele quase tão negra quanto. Tinha uma aparência de uns 40 e poucos anos, assim como cara de poucos amigos. Ainda assim, era a única oferta que haviam recebido, e aceitaram a proposta de emprego.

Ao trabalharem para Mark, eles tentariam desenvolver novas tecnologias Reploid. Apresentaram então para seu novo chefe um projeto que haviam idealizado ainda na faculdade. Mark achou interessante, permitiu e, principalmente, financiou o inicio das pesquisas e experimentos, dando a toda a equipe um grande laboratório repleto de recursos, além de dinheiro, obviamente.

A equipe toda entrou num turbilhão de excitação. Com tantas provisões a disposição, ainda por cima logo após terminarem seu curso, não poderiam deixar de estar tão contentes.

Thomas, no entanto, não estava tão animado. Na verdade, a idéia desse projeto veio dele e de Souza, que depois apresentaram para os outros, mas ele tinha outros objetivos ao fazer a faculdade. Ele não queria apenas "criar uma nova tecnologia". Ele queria um companheiro.

Como assim? Bem, embora amigos, os colegas de Thomas não eram inteiramente confiáveis. Eram sim boas pessoas, mas por também terem sido moldados como parias, não eram o tipo de gente que se poderia ter como melhor amigo, aquele que você sabe que pode contar em todo e qualquer momento.

Thomas também tinha um forte desejo em seu coração. Pode parecer estranho para você, mas ele queria ser "pai". Mas como poderia, se era uma pessoa que poucas pessoas o toleravam? E ele também nunca tivera qualquer experiência com mulheres até esse ponto. Como poderia então se tornar pai?

Isso tudo fez com que Thomas desejasse criar um reploid, onde este poderia cumprir seus dois maiores desejos: Através de sua criação, ele poderia se tornar uma espécie de "pai", além de poder ter o reploid como um amigo precioso. Havia também a vontade de querer fazer algo por ele mesmo, com suas próprias mãos, e não um único projeto onde várias pessoas fariam algo diferente.

Assim, em algumas semanas, todos da equipe começaram a trabalhar nessa nova tecnologia idealizada, já que agora tinham fundos pra isso. Todos, exceto Thomas. Ele já não agüentava viver sozinho, sem ninguém pra lhe fazer uma companhia decente. Logo, ele deu as costas ao resto do time, e partiu para a construção de um reploid sozinho.

Mark, como todo bom chefe, não gostou disso, uma vez que Thomas estava usando os recursos de um laboratório cujo objetivo era outro. Fora o fato de que ele era um dos principais idealizadores desse objetivo, assim sendo deveria participar e até liderar a equipe. Thomas então teve que deixar a construção para seus momentos de folga, e se dedicar mais ao projeto principal.

Mark aceitou isso de início, mas logo se enervou. Thomas estava ficando cansado demais devido ao trabalho paralelo, e andava vacilando no projeto principal. Mark então proibiu a construção, mas Thomas não estava disposto a parar, nem que tivesse que sair da equipe. Quase teve briga nesse dia, até que Souza sugeriu o seguinte: Juntar os dois projetos num só. Thomas ajudaria a equipe com as pesquisas, e a equipe o ajudaria nesse projeto individual.

O Thomas recusou de novo. Como eu disse, ele queria fazer o reploid com suas próprias mãos, não queria mais ninguém nisso. Mark então apresentou a última proposta. Ele poderia construir o reploid normalmente, contanto que este fosse usado como protótipo dessa nova tecnologia que todos vinham desenvolvendo. Era esse o termo, ou Thomas estava fora. Pressionado, ele não teve escolha a não ser aceitar. Aceitou trabalhar menos junto com os outros. Aceitou, a contragosto, fazer do reploid um protótipo.

Creio ser desnecessário dizer que esse reploid o qual Thomas queria tanto construir viria a ser eu. E infelizmente, devo dizer que naquele momento, a idéia de me construir era péssima, pois esse evento traria desgraça para muitos.