Crônicas de Guerra
2 Capítulo 2 - Sociedade
Capítulo 2: SociedadeDe um lado, companheiros e amigos fazendo questão de sua presença. Do outro, um chefe furioso exigindo liderança. Havia pressão de todos os lados. E ninguém suporta pressão por muito tempo. Muito menos se a pessoa é introvertida ao extremo. Esse tipo de pessoa é o mais perigoso na verdade, já que o acumulo emoções negativas, que por si só já prejudica uma vida normal, sempre explode um dia na pior hora da pior maneira.Era obvio que algo daria errado. Nada feito às coxas dá certo, merda....Desculpe. Sei que não é exatamente minha culpa, mas as vezes só o fato de eu existir, de estar vivo, de saber o que sem querer causei... É angustiante. Apesar de ser parcialmente inocente, sinto-me altamente culpado.
Bem... Como eu dizia, Mestre Thomas aceitou fazer de mim um protótipo. Ele realmente não queria, mas pensando bem, que escolha ele tinha? Mesmo que inteligentíssimo, ele era um recém-formado. Procurar trabalho nessa condição sempre foi difícil. Fora que o laboratório de Mark tinha recursos quase infinitos, sabe-se lá quando ele teria outra oportunidade de ter algo parecido.Logo, Mestre Thomas decidiu aceitar a proposta. Ele sabia, sim, que a tecnologia estava em fases de testes. Sabia que havia riscos de tal tecnologia comprometer todo o funcionamento do reploid. Mas ele estava tão desesperado que decidiu ignorar essas hipóteses. Preferiu se refugiar na idéia que seria capaz de anular tal possibilidade afinal, era ele ou não o mais inteligente do grupo? Em certos aspectos, sim, mas em outros eram tão idiota quanto o rato que desafia o leão. Ele sempre foi assim, exatamente como na escola. Em vez de encarar o medo de frente, ele preferiu se refugiar numa idéia que, no fundo, sabia que tinha poucas chances de se concretizar.Não demorou muito para o projeto conjunto começar. Durante as manhãs, todos os cientistas (incluindo Mestre Thomas) se reuniam para pesquisar, testar, incrementar a tecnologia. Durante à tarde, o Mestre se dedicava à construção do Reploid, à minha construção, enquanto os outros debatiam como empregar devidamente a tecnologia em mim.Até mesmo Mark começou a participar mais ativamente, não apenas como chefe. Na verdade ele também era um cientista, muito renomado por sinal. Tentava conquistar a vida com trabalho duro, até descobrir que herdara uma pequena fortuna de um parente distante. Foi então que decidiu contratar Mestre Thomas e os demais.As pesquisas iam de vento em popa, até que Mark convoca uma pequena reunião com todos os outros.- Antes de mais nada, quero agradecer a todos aqui, por estarem se empenhando tanto no nosso projeto — Mark falava calmamente, ao mesmo tempo que parecia bastante feliz - Mas quero fechar um pequeno acordo com vocês.O grupo não disse nada, mas se entreolharam por alguns segundos. Mark não ligou.- Como todos sabem, as Células Nano estão praticamente prontas, ainda que sejam protótipos. Por mais que eu tenha investido no projeto e até ajudado vocês, ainda são vocês que criaram e desenvolveram toda essa tecnologia. Assim, quero propor uma sociedade.Todos pareceram surpresos com a notícia. Era estranho um chefe propor sociedade com seus funcionários. Todos exceto Johan, Henry e Saul, que se sentavam mais ao fundo da mesa. Ninguém percebeu, mas Johan e Saul se inclinaram levemente, como quem começa a realmente prestar atenção naquele momento. Henry abaixou a cabeça por um minuto e sorriu com sarcasmo. Mark prosseguiu.- Sei o que estão pensando. Estão pensando que, como eu os contratei, não estão fazendo mais que a obrigação ao trabalharem. Mas esse nosso projeto é grande, é algo que poderá mudar o mundo. Creio que seria injusto somente eu tomar as glórias por tudo isso. Assim, quero que todos vocês partilhem junto comigo de toda a revolução que causaremos. Obviamente, os nossos lucros também serão divididos.Alguns estranharam. Mark deu uma entonação diferente na ultima frase. Ainda assim, os cientistas, que ainda não haviam tirado os jalecos ao fim do expediente, entreolharam-se mais uma vez, agora fazendo baixos comentários entusiasmados, exibindo sorrisos em seus lábios. Até mesmo Henry, Saul e Johan começaram a cochichar entre si. Mas não Mestre Thomas. Por mais que tudo parecesse ser bom, ele não confiava em Mark. Sempre aprendera que altas hierarquias e poder quase sempre eram sinônimo de tirania e corrupção. Foi assim na faculdade e na escola, quando professores e diretores encobriam seus próprios erros ou daqueles que lhes eram próximos. Isso sem contar o uso excessivo de autoridade. Foi assim na sua própria casa, quando seu pai, autoritário muito além do tolerável, batia nele e em sua mãe. E Mark tinha muito poder no grupo, fosse financeiro ou não. Por tais razões, não acreditou em Mark. Por tais motivos, desconfiou de segundas intenções nessa sociedade.Mas não tinha como provar.A sociedade foi então firmada. Totalmente regulamentada no papel, ninguém falou dela depois disso, nem mesmo Mark.
Um ano se passou, e meu corpo e mente estavam finalmente prontos. Mestre Thomas me projetou do modo exato como sempre idealizara. Para não fazer muita distinção, resolveu fazer de mim um reploid de aparência clássica. Assim, como ele gostava muito de cores claras e vibrantes, fez minha armadura predominantemente branca, com detalhes em amarelo. Eu tinha em meu peito uma longa gema vermelha, que ia desde perto do pescoço até um pouco além da proteção peitoral. A face frontal da gema era retangular e tinha em cada um dos dois lados uma face triangular. Mestre Thomas queria que meus cabelos fossem tão negros quanto os dele, e espetados como os dele fora um dia, lembrando um pouco uma serra circular. Meus olhos deveriam ser da cor roxa claro, e meu capacete branco, com uma gema na região da testa muito similar com a do peito (tirando o fato dela não parecer esticada).Pouco antes disso, o resto do grupo chegou a um consenso quanto ao meio de introduzir a tecnologia em testes no meu corpo. Logo que este ficou pronto, começaram a fazer de mim o protótipo dessa tecnologia, fato que levou apenas duas semanas. Mestre Thomas não quis acompanhar essa etapa.Assim, os dois projetos foram finalmente unificados, e fui provisoriamente batizado como E-001 ("E" de "Experiência" e "001" pelo fato de ser o primeiro reploid construído pelo grupo). Todos estavam muito felizes com o resultado final, e nenhum erro pareceu ocorrer. Na noite em que ligariam meus sistemas, Mestre Thomas chegou perto da cápsula onde eu me encontrava, que estava me escaneando e fazendo os últimos testes e checagens. Depositou sua mão sobre o vidro e sorriu, muito sereno.- Enfim...Ele se sentia muito feliz. Mais feliz do que jamais sentira, e mal podia esperar o momento em que eu seria desperto. Logo a hora chegou, e todos se reuniram ao redor da cápsula. Porém, quando iam abri-la, a força do laboratório foi interrompida, e todo o lugar ficou na mais completa escuridão.Até hoje não se sabe o que aconteceu naquela hora. Eu, porém, entendo como um sinal. Um sinal que tentou alertá-los dos perigos que haveria ao abrir a cápsula. Se foi mesmo um aviso, porém, é obvio que resolveram ignorá-lo.
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