Crônicas Saxônicas Um

2 879 DC - PERSPISI CRISTICOLA


Lundene era uma grande capital, apesar de suja. Havia do tudo por lá, tudo o que se poderia imaginar. Eu adorava os locais de banho. Grandes piscinas de água quente vindas do fundo da terra. Na época eu acreditava que vinham do inferno onde a grande serpente mordia os mortos como castigo eterno por não terem sido bons guerreiros.

Estávamos baseados a oeste, numa grande casa romana de pedra e telhado com belas vigas de madeira. Em alguns pontos a ausência da palha deixava a chuva escorrer lentamente e molhar as paredes. Earl Ragnar estava satisfeito, tinham surpreendido os saxões e flanqueado duas de suas cidades principais, das quais conseguira apoio depois que prometera manter tudo como estava, e agora a comandavam de forma indireta. Tinha feito trocas com os habitantes locais, porque ele acreditava que poderíamos conviver com os saxões se estes fossem prestativos. Mas eu conhecia Ragnar e sabia que ele não hesitaria em matá-los se preciso fosse.

Embora ele tenha permitido que a igreja continuasse de pé, não consentia com as missas e cultos. Ela fora mantida unicamente por seu valor como abrigo para outros dinamarqueses. Entretanto, quando os pagões não estavam dentro dela, os saxões entravam e faziam suas orações. Aella era uma dessas pessoas. Era a mulher de um pastor rude e prepotente, do qual assolamos a propriedade e levamos tudo o que era de valor. À mulher restou apenas ser nossa escrava, mas o destino dela também era traçado pelas três fiandeiras, que gostavam de emaranhar os fios da vida.

Aella se tornou um tipo de conselheira para Ragnar, ele a tinha em alta conta porque ela lia e escrevia, e falava tantas línguas que muitos dos padres ou monges que conheci não faziam idéia. A mulher de Ragnar, Sigrid, não gostava nem um pouco de Aella, porque tinha a consciência de que o marido dormia com a cristã. Na época ninguém além dela suspeitava disso, porque Ragnar era um homem cheio de convicções que odiava os cristãos. Hoje percebo que o apreço que ele sentia por Aella somente poderia vir se fosse sua filha ou se dormissem juntos. Mas quando se é novo, as coisas não são muito claras e não se tem experiência para avaliar gestos e olhares.

Apesar de cristã, Aella tinha ciência dos deuses nórdicos e por vezes eu a via rabiscar em pergaminhos sobre eles. Eu os lia quando Ragnar me mandava até ela avisar que desejava vê-la. Eu era um tolo, mas um tolo feliz, porque ela falava comigo gentilmente, me explicava as coisas da vida e me tratava muito bem. Na verdade, eu era apaixonado por ela. Mas ela era uma mulher de vinte e poucos anos e eu não poderia me casa com ela, primeiro porque era cristã, segundo porque ela parecia se revoltar com a morte do marido, apesar dele tê-la feito sofrer constantemente.

Quando ela se ofendia, eu também cheguei a me ofender, porque eu entendia a posição dela. Ouvia earl Ragnar e Aella discutindo quando ele me pedia para esperá-lo ao lado de fora da casa que lhe dera. Aella ressentia-se por não ser nada, uma ninguém, uma simples escrava. Ragnar, revoltado, rosnava contra ela afirmando que nem de longe poderia ser uma escrava. Então ela se calava e ficava pensativa. Eu sabia que não chorava porque ela quase nunca chorava. Assim como eu, Ragnar não gostava de mulheres chorosas, achava-as débeis e inferiores, e talvez fosse por isso que Aella não chorava. Mas eu jamais perguntei o porquê. Contudo, com o passar do tempo, entendi o que ela queria dizer quando o confrontava: quando fora casada era senhora de muitos, tinha elevada posição social e era respeitada. E em meio aos dinamarqueses ela sentia não passar de uma prostituta — se bem que pouca gente a achava isso, a maioria a queria como esposa -, não passar de um ser inútil e esquecido. Ragnar então ria dela e o silêncio os abocanhava.

Eu gostava de presenciar as discussões deles, não quando brigavam, mas quando eles se confrontavam cada qual em favor de sua religião. Ragnar vencia sempre porque era zombador e amofinava as afirmações de Aella com suas gozações, no entanto, às vezes, somente às vezes, eu acreditava que Aella poderia ter convertido Ragnar, se os dois tivessem vivido longe dali.

— Eu não entendo o seu Deus — falava Ragnar numa das discussões, ele adorava ver Aella zangada. — De que ele lhe protege? Nem forças lhe dá? Veja seus amigos cristãos, todos mortos. Que deus quer ver seus filhos mortos?

— Não é pela vontade de Deus que eles morrem. O Senhor não prega a guerra!

Ragnar abriu os lábios num sorriso.

— Se não prega a guerra, então quer que o povo morra mesmo — ele foi irônico.

Aella sorriu, ajeitou o prato de seu patrão, e disse:

— Deus, meu senhor, quer que amemos uns aos outros e não cometamos selvajarias. Ele quer que sejamos pacíficos e flexíveis uns com os outros.

— Seu Deus não sabe de nada! É um covarde!

— O senhor não acredita que uma conversa pode resolver qualquer desavença.

— Não — disse Ragnar de súbito.

— Deus deu aos homens o livre arbítrio e por isso cada qual escolhe o quer...

— Livre arbítrio? — Ragnar disse indignado. — E como ele espera respeito com isso, se cada um faz o que bem entende?

— Ele apenas espera que todos sejam bons.

Ragnar soltou uma sonora gargalhada e levou algum tempo para se recompor.

— O senhor zomba, mas o que fazem os seus deuses?

— Nossos deuses nos fazem ganhar batalhas.

Foi a vez de ela soltar uma gargalhada e demorar a responder.

— O que faz um exército vencer uma batalha não é um deus, mas a fé, a inteligência e a garra de seu líder.

Ragnar fechou o cenho e a encarou. Ela sabia muita coisa para uma mulher. Sabia muita coisa. Pigarreei, os dois me fitaram e a conversa teve fim, porque Ragnar sabia que deveria ir se encontrar com seus homens para o ataque a Readingum.