Crônicas Saxônicas Um
3 884 DC - KALENDA MAYA
De tanto senti-la desolada e de tanto vê-la aos cantos, sem alegria, Ragnar permitiu que Aella partisse. Mas não era do interesse de Aella partir. Ela desejava compartilhar a vida com Ragnar, que era bem casado e não tinha porque possuir outra esposa, mas tinha a consciência de que Sigrid amava o pai de seus filhos e tudo o que ele significava. Aella era o tipo de pessoa que poderia tudo se tivesse nascido homem. Ela tinha coragem, inteligência e muitas amizades. Bem, ela teria se dado bem mesmo sendo mulher, se tivesse nascido na corte de Alberto.
Bem se via que ela tentava não se entregar ao coração, mas o sofrimento era o que a denunciava. Era o que denunciava a alma conturbada. Eu era tão desprovido de sabedorias, era um besta e um equivocado, mas talvez se tivesse tentado, as coisas teriam saído melhores para o meu lado. Eu respeitava Ragnar como a um pai, era ele meu pai, e respeitava Aella, mesmo sem saber que Ragnar a possuía, e jamais tentei me aproximar dela, ainda que meu sexo se revelasse quando eu e ela estávamos a sós. Eu tinha sonhos eróticos com ela, sonhos de que fugíamos juntos, sonhos em que ela era a minha esposa. E tudo isso porque ela me tratava bem. Tudo isso porque, para mim, ela era uma mulher importante. Era a mulher cristã que earl Ragnar utilizava quando queria negociar com o inimigo. Se bem que pouco ele negociava, gostava é de uma boa batalha, sangrenta e grosseira, suja e malcheirosa.
Enfim, fui encarregado de escoltar Aella até os ingleses. Somente eu e ela, porque eu sabia me mover nas sombras, eu era um bom espião. O caminho foi longo e o percorremos sem nos falarmos. Ela seguia quieta, pouco atrás de mim, como se seu destino fosse ir para a forca ou decapitação. Olhava vez ou outra para trás, ansiando, provavelmente, ver Ragnar cavalgando até nós com euforia e saudade. Mas ele não veio. Então os olhos dela se enchiam de água e se comprimiam de raiva. Eu achava que era raiva. Mas foi naquela época que comecei a entender o que havia entre eles.
— Senhora, há um grupo de homens à frente, venha mais para perto, por favor — pedi, ela obedeceu fitando o chão.
Os homens se aproximaram rapidamente, parando ao nosso lado, sem armas em punho, mas podíamos vê-las, reluzentes nas bainhas.
— Alto lá — um deles disse, o que tinha a cota de malha mais lustrosa. — Quem são vocês?
— Sou Uhtred de Bebbanburg e trago esta senhora que foi refém dos dinamarqueses comigo.
— Quem é ela? - quis saber o homem.
— É Aella de Aebbanduna, esposa de Medrod Auber de Aebbanduna.
— De Aebbanduna? Achamos que aquelas bandas tinham sido completamente queimadas. Pilhas de corpos foram encontrados lá...
— Menos o da esposa do pastor — eu o cortei, queria evitar que ferissem Aella com mais lembranças.
— Não podemos afirmar isso. Mas — o homem ajeitou-se sobre a sela e fitou seus outros colegas — como vocês escaparam dos dinamarqueses?
— Em Readingum, quando saxões entraram no forte, logo me prontifiquei a tirar a senhora de lá, porque não é lugar para cristãos... E porque eu sei que o pastor Auber é parente do earl Thored e ele iria querer encontrá-la viva para saber sobre Aebbanduna.
— Não sei. Talvez você tenha razão. Talvez eles tenham sido parentes... — os homens se entreolharam.
— Talvez? O senhor tem a coragem de me chamar de mentiroso? — quase urrei.
Eles ficaram nervosos.
— Está tudo bem — disse um outro homem, o que estava mais atrás. Eu o reconheci de imediato, era Beocca, meu antigo professor, e padre. — Ele fala a verdade, eu o conheço. Você irá se juntar a nós, Uhtred? Você é um cristão, não é?
— Sim, padre, eu sou. Mas tenho que retornar a Readingum, senão me chamarão de desertor. — Dei uma guinada com os arreios e o cavalo se virou para o lado oposto.
— Uhtred — Aella me chamou pela primeira vez durante a viagem toda. Pela primeira vez, desde que a conheci, chamou pelo meu nome. Eu teria hesitado e não teria permitido que os ingleses a levassem e muito menos que Ragnar a mandasse embora... Não teria permitido se ela tivesse falado uma única palavra a mais. No entanto, permaneceu quieta. Mas eu sabia o que ela queria dizer. Queria pedir que a levasse de volta... mas ela não podia. Ou talvez não tenha conseguido, não sob o olhar daqueles homens.
Virei o corpo para Beocca e lhe disse:
— Ela não foi desonrada — menti, para o bem dela. Beocca pareceu abrandar o olhar depois disso, certamente a queria enfiar num convento. — Mas tudo o que pertencia a Auber foi perdido.
Beocca pareceu não se importar com o último comentário, estava mais interessado no que eu iria fazer depois que partisse, tenho certeza.
Aquela não foi a última vez que vi Aella.
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