– Onde está o livro?

– Que livro? Do que você está falando?

– Ora, ora, Júlia! Então agora você vai se fazer de desentendida sobre o livro da família Blackshadow?

– Meu Deus! Júlia, o Livro...

– Ivo, calado!

– Como quiserem, Sombras Negras! Conheçam a verdadeira Sombra e não essa brincadeira do nome de vocês!

No centro do pentagrama circunscrito, Júlia e Ivo Blackshadow estavam amarrados e sentados, um de costas para o outro, cientes de que continuar dentro de um desenho como aquele poderia ter sérias consequências. Suas mãos presas nas costas apertaram-se suadas, como se sentisse que o fim estivesse próximo. Subitamente, emergiu do centro do pentagrama uma erupção de lava e enxofre, que não os atingia fisicamente, mas os transpassava como um holograma, exceto aos seus corações, que ardiam e brilhavam rubros em todo o seu formato, como uma grande brasa de fogueira enfiada no peito.

Eles soltaram um longo e agonizante grito, carregado de horror e desespero, até a sensação corrosiva da lava cessar e dar lugar a olhos completamente escuros em toda a cavidade ocular, fixos no vazio. A explosão havia tomando a forma alaranjada de um busto humano, suspenso acima das cabeças dos Blackshadow, como que pairando sobre o ar, de cuja parte de trás saíam asas de morcego negras e abertas em todo o seu esplendor macabro: um Demônio Maior.

– Meu senhor, fiz como me ordenou.

O demônio virou o rosto na direção do feiticeiro que o invocara e deu um sorriso sinistro com o canto dos lábios, revelando em sua lateral direita escamas verdes brilhantes que desciam por parte do pescoço e ombro.

– Eu sabia que você não era um caso perdido. Aqueles idiotas dos seus irmãos mereceram não sobreviver para dar lugar a você.

– Eu liberei os símbolos para o senhor andar livremente, papai. Exatamente como ordenou nos sonhos.

Incubus! – O demônio, cuja voz estridente e irritada o jovem feiticeiro podia ouvir dentro de sua mente, flutuou para fora do círculo em sua direção, lançando um jato de lava que o atingiu diretamente no peito, fazendo-o soltar um grito de horror multiplicado em cem outros pelo eco das paredes da caverna onde havia aprisionado os caçadores de sombras. Seu coração brilhou como brasa sob a pele, exatamente como os corações de Júlia e Ivo, e caiu de joelhos diante do pentagrama, com os olhos esvaziando-se em escuridão. A blusa que vestia rasgara-se na lateral direita e escamas surgiram descendo pelo pescoço e ombro como reação ao ataque, assemelhando-o ao demônio que o golpeara. – Seu mestre! A diversão agora só vai começar...

A gargalhada do demônio ressoou aterrorizante por todo o labirinto de túneis até a saída principal, de onde um bando de araras misturavam aterrorizadas seus gritos e o barulho das batidas de suas asas, partindo em fuga dos arredores da caverna.