Quando retornou ao Instituto de São Paulo pela primeira vez após quase quatro anos, Pedro Blackshadow trajava apenas o uniforme de Caçador de Sombras e carregava uma pequena mala. Obviamente havia se protegido com um feitiço de disfarce para passar despercebido entre os mundanos por todo o trajeto da viagem. Cruzou a entrada principal, logo após ter passado a imensa estátua de São Bento, localizada acima dos arcos que precediam a grande porta de madeira. Por entre uma multidão de mundanos que iam em direção à basílica para a Missa, olhou maravilhado a grandiosidade artística, o luxo e o desperdício em ouro usado para a decoração em estilo barroco do local. Suspirou fundo pensando na própria pobreza, com aquela única maletinha que lhe restara, e concluiu que, definitivamente, aquele não era seu lugar.

Como era de se esperar das peculiaridades brasileiras, o Instituto de São Paulo é mesclado ao Mosteiro de São Bento – único caso no mundo – pois nem a Igreja, nem o Estado abriram mão do terreno para a Clave, apesar de todos os acordos de cooperação e proteção que já haviam sido feitos com aquelas instituições mundanas desde a época colonial do Brasil. O resultado foi inserir caçadores e caçadoras (transformadas em homens diariamente com um feitiço simples de disfarce ou invisíveis aos olhos mundanos quando aplicam sobre o corpo a marca da runa da invisibilidade) em meio aos monges beneditinos e o terreno continuar sendo propriedade da Igreja e subsidiado financeiramente pelo Estado, já que a peregrinação ao Mosteiro sempre foi tida como importante para o desenvolvimento turístico da cidade e a acolhida de peregrinos a sua basílica.

Os monges negros, como são conhecidos entre os membros do Submundo da região, usam o mesmo hábito preto dos monges beneditinos mundanos, porém vestem o uniforme de luta por baixo dele e adotam como identidade o nome de algum anjo, para nunca esquecerem quem realmente são. Apesar de aceitarem os preceitos religiosos da Ordem de São Bento para não serem identificados entre os mundanos que têm a Visão ou aqueles que possuem alguma relação direta com os irmãos e a instituição, os Nephilins consideram que algumas regras da Ordem vão de encontro aos seus princípios, como a clausura e a castidade – obrigação às vezes necessária para alguns, mas a maior parte do tempo desafiadora para os demais, especialmente quando precisam caçar demônios ou aliviar a tensão de um praticamente celibato, concepção um tanto absurda na visão de um caçador de sombras que nunca optou por ingressar em algo parecido com a Ordem dos Irmãos do Silêncio, mas que se agregou ao Instituto de São Paulo por outros motivos, muitas vezes emergenciais.

Por bem ou por mal, a discrição da irmandade mundana da Ordem de São Bento, sua troca de conhecimento com os Irmãos do Silêncio e os acordos de cooperação e proteção realizados nos últimos quatro séculos contribuíram para o controle dos ataques demoníacos na cidade e nas regiões próximas, ainda mais com o aumento do ingresso de caçadores de sombras, o que levou o Mosteiro a se tornar o maior Instituto da América do Sul.

Dentre esses tantos caçadores e mundanos misturados que Pedro reparava movimentarem-se nos mezaninos superiores e cruzando o altar, um chamou sua atenção – e não poderia ser diferente. Lá estava ele, seu parabatai Matheus Heartway, conhecido na Ordem de São Bento pelo nome de Raphael do Sagrado Coração.

O irmão Raphael largou as toalhas brancas que forrariam a mesa do altar para a Missa sobre uma das cadeiras ao seu lado e desceu correndo as escadas até o parabatai, abraçando-o em seguida, já que o havia reconhecido sem maiores esforços sob o disfarce.

Os monges que finalizavam os preparativos depararam-se com a nada discreta cena do irmão Raphael – um caçador de sombras, afinal de contas – abraçando um homem de meia idade, cabelos grisalhos, vestindo um paletó marrom e calças pretas, com aparência de cansado. Certamente o feitiço de disfarce de Pedro os havia confundido, pois arregalaram os olhos estupefatos, preocupados com a reação das pessoas sentadas nas primeiras fileiras que viram o comportamento inadequado do irmão.

Matheus, contudo, não se importava com nada disso e sabia que Pedro também não. Já haviam sido considerados desafiadores demais a qualquer regra ou autoridade instituída, especialmente de Dom Eliel da Coroa de Espinhos – conhecido entre caçadores de sombras como Augusto Blackthron –, ao mesmo tempo Diretor do Instituto de São Paulo e Abade do Mosteiro de São Bento (a indicação de um caçador de sombras dentre os monges para a liderança do Mosteiro foi uma exigência da Clave para assinar os acordos com o Brasil).

– Pedro?! Pelo Anjo! – Matheus ainda apertava o amigo quase o sufocando. – O O que faz aqui?

– Pelo Anjo, digo eu Matheus! Quer por a perder quatro séculos de parceria da Clave com o Mosteiro por causa de um abraço e fazer que eu seja banido do Enclave de São Paulo para sempre?

Não foi à toa sua preocupação, já que o antigo Gabriel da Cruz – nome de irmão mundano que Pedro Blackshadow adotou na Ordem de São Bento, após os pais, Júlia e Ivo, terem-no enviado ainda aos 10 anos de idade para conhecer a realidade do maior Instituto do Brasil e da América do Sul – fora mandado de volta à família por insubordinação, tentativa de motim e por incitação do seu parabatai – o melhor aluno das ciências mundanas ensinadas pela Ordem e o mais aplicado caçador de sombras do Instituto – à desordem e à indisciplina, no ano do ritual que os ligou por toda a vida, ele com 15 anos e Matheus com 14, uma curta diferença de meses entre eles.

– Mal humorado, como sempre, não é mesmo Blackshadow! – Disse Matheus em um sussurro entre os dentes apertados de raiva, devido ao pouco caso que havia feito do reencontro. – Isso é medo de rever o Augusto?

De fato, Augusto havia sido a causa do maior medo dos dois ter se concretizado há alguns anos, quando convocou o Enclave e deliberou publicamente que Pedro Blackshadow estava banido do Instituto de São Paulo e proibido de ver seu parabatai até completar 18 anos e ser considerado adulto pela Lei, decisão que envergonhou a família, presente como ouvinte na reunião, e gerou toda a sorte de comentários e burburinhos em todos os Enclaves do país sobre a história dos parabatai e a origem do comportamento rebelde dos Blackshadow, ainda mais com as especulações acerca da tão secreta história dos seus antepassados e a relação íntima que mantiveram ao longo dos últimos dois séculos com membros do Submundo, especialmente feiticeiros e lobisomens.

– É verdade que quero distância daquele sujeito, mas estou aqui por dois motivos bem específicos, Matheus.

– Como assim? Você estava banido, não?

– Até os meus 18 anos, não é? Ou você já esqueceu?

– Pelo Anjo! Seu aniversário foi em fevereiro, Pedro!

– E o seu é hoje, meu primeiro motivo porque voltei aqui. Parabéns!

– Você é louco! – Os olhos de Matheus encheram d’água e ele abraçou novamente o amigo, tentando conter as lágrimas, mas em vão. – Os outros caçadores não sabem disso, se te virem aqui te denunciam!

– Louco? Você ainda nem ouviu meu segundo motivo, aí sim vai poder me chamar de louco!

– E qual seria esse motivo?

– Meus pais, Matheus... – Pedro afastou-o do abraço segurando em seus ombros, com os olhos também lacrimosos, diretamente focados nos olhos do parabatai, enquanto mordia o lábio inferior para também tentar não chorar.

– Seus pais? Não entendi, Pedro...

– Eles desapareceram... E o segundo motivo pelo qual pisei nesse Instituto de novo é que e você sai comigo daqui hoje! Preciso da sua ajuda para encontrá-los.