Crônica de um Engodo
3 Capítulo 3 - O luto e suas reticentes fases.
Eu estava desnorteado, desapontado. Não tinha como ser diferente. Eram muitos detalhes de história para superar. Depois que terminei a faculdade, eu passei a chegar por volta das dezoito horas em casa, todos os dias. E nos últimos meses de namoro mantínhamos contato sempre por mensagens de texto. Eu chegava e comunicava Felipe. Pensava em preparar algo para comer à noite e pedia sua opinião. Via que estava passando um programa de nosso interesse na TV e perguntava se ele também queria assistir. Foi um inferno. Naquela semana eu me pegava sentado no sofá da sala, por repetidas vezes, e com todas as luzes de casa apagadas, só pensando no nada. As horas voavam, pegava no sono só pra lá de meia noite. Eu não sabia por onde começar a me reconstruir.
Cada minuto que eu gastava mexendo na internet pelo celular, por exemplo, era uma tortura. Primeiro pela maneira como me senti exposto. Eu, por ter sido o que sofreu mais com a “perda”, virei caricatura nos comentários sutis dos conhecidos em comum nas fotos em que Felipe postava com o suposto novo namorado. Coisas do tipo: “Nossa, mas você nem esperou o defunto esfriar?”; “Corajosos vocês hein, parabéns!”; “Felicidades para os dois!”.
E eram pessoas que frequentavam minha casa.— pensei, revirando os olhos e com lágrimas sem fim escorrendo pelo rosto.
Desse montante, apenas uma amiga se sentiu ofendida por mim com a postura de Felipe. Era Bruna, amiga dele de infância. Bruna, que também era homossexual, apoiava muito a gente e estava para casar com sua noiva no ano em que Felipe e eu terminamos. Eu achava graça que Bruna acabou tida por inconveniente na opinião coletiva dos que saiam sorrindo nessas fotos que Felipe postou. E também me senti lisonjeado pela preocupação de Bruna.
Lembro que na sexta-feira, antes de Felipe e eu terminarmos, ela me chamou para sair e pegar um cinema. E eu fui. Estávamos em três, ela com a Rúbia, sua noiva, e eu.
— Guto, será que a frieza do Felipe não pode ter sido em razão de um “terceiro elemento” nessa história aí?— perguntou Bruna, assim que nos encontramos no shopping para conversar.
— Olha, da minha parte isso nunca aconteceu.— respondi de cara. Nesse momento eu percebi um sorriso de canto de boca da parte da Rúbia.
— Que seja, Guto, muita coisa pode acontecer.— Bruna insistiu. – A gente nunca sabe realmente com quem a gente convive.
— Confesso que tem umas semanas que suspeito isso da parte dele, mas ainda tenho minhas dúvidas quanto à estrutura emocional do Felipe para lidar com traição.— respondi. — Ele sempre foi muito inseguro comigo.
— Mas cê sabe que esses costumam ser os piores, né Gustavo?— Rúbia comentou. — A gente ainda não sabe no caso do Felipe, mas geralmente da parte do mais ciumento, quando você espreme muito, rapidinho acha alguma coisa.
— É, aí eu não sei.— respondi reticente. – Sei que ainda tenho chances de refazer nosso relacionamento e aprender a conversar com Felipe.
— Mas antes, preocupe-se com você, Guto. Pense nisso.— Bruna comentou.
Era unânime o conselho que todos me davam: Guto, vá se preocupar mais com você daqui por diante e esquece esse retardado duma vez por todas. – como se eu já não me preocupasse com meu estado. Nessa sexta-feira em que Bruna e Rúbia me chamaram para sair foi de um quarto final de semana que passei sem ver Felipe. Só assim dava para ter ideia de que o relacionamento já estava findado e só eu que ainda não via, ou não queria aceitar, talvez.
Porque passou terça, quarta, quinta e eu parecia que ia morrer. No trabalho meu rendimento estava indo de mal a pior. Nessas horas contei como sorte o fato de ser funcionário público, em razão do risco menor de lidar com chefia implicante. Eu tinha Mirela para conversar, mas não era em todos os dias que nos víamos. Mirela ficava no departamento das terceirizadas. Próximo a mim, além de outras pessoas também importantes, eu tinha Fabíola, uma assistente administrativa sincera ao extremo com quem eu gostava de conversar nos intervalos para o café. Fabíola foi a pessoa que esteve perto na tarde de quinta-feira em que explodi, durante o expediente, ao ser bombardeado com mensagens de voz e anexos de printscreens do perfil de Felipe nas redes postando fotos com esse novo namorado. E eram meus amigos de São Paulo que o conheceram e o tinham nas redes sociais; pessoas que mal sabiam sobre nosso término e achavam um absurdo o que estava acontecendo. Foi um susto para todo mundo. Ninguém soube lidar de imediato com a história, e se sentiam tão ofendidos quanto eu.
Eu chorei horrores ao lado de Fabíola. Lembro que eu tive uma descarga de ansiedade tão forte que eu chegava a tremer enquanto me despia emocionalmente. Admito que eu mal me reconheci, tanto pelo fato de já vir planejando passar por esse rompimento há tempos, quanto pela minha reação ao fato de Felipe já ter outra pessoa. E para tê-lo assumido publicamente na mesma semana, era certo de que os dois já tinham algo há tempos. Foi tudo muito injusto e, na minha cabeça, Felipe não tinha motivo nenhum para omitir de mim tudo o que estava acontecendo.
Assim se foi aquela semana; chegou o primeiro sábado em que eu estava oficialmente solteiro e Bruna me chamou para sair novamente. Foi uma noite em que reencontrei boa parte dos conhecidos em comum com Felipe, os quais talvez deviam estar curiosos para saber como eu estava. E aquilo não foi legal. Nem um pouco legal.
Veja bem, nas primeiras horas pós-termino, enquanto eu ainda ficava “cheio de dedos” para me imaginar conhecendo outras pessoas, Felipe já estava feliz com outro cara. Talvez mais inteligente, experimentado, mais velho, mais maduro e bem resolvido do que eu. A sensação era pesada demais e, ao longo dos dias que iam se passando, eu só sabia chegar em casa à noite, manter todas as luzes apagadas e mergulhar dentro de mim mesmo em pensamentos.
Eu estava convivendo com uma pessoa que eu pouco sabia quem era. – pensava. Eu dei abertura para coisas piores acontecerem sem ter a menor noção de tudo. Eu abri mão de me dedicar aos colegas que fiz no último ano na PUC. Acabei me restringindo ao ambiente que fiz no trabalho, na companhia de pessoas em sua grande maioria com filhos, casadas, e acima dos seus trinta e cinco anos enquanto eu, aos vinte e quatro, me percebia com todos os meus melhores amigos acompanhando de longe as coisas tensas pelas quais eu estava passando. Também me vi enorme de gordo, descuidado da saúde, do meu bem estar, das coisas que eu realmente gostava de fazer.
Fiquei ainda por um bom tempo sem vontade de sair e com receio de esbarrar com Felipe. Goiânia e suas variedades de bares e shoppings ficou minúscula, tanto quanto as cidades de Jataí, Indiara, Santa Helena e Quirinópolis de Goiás, locais esses pelos quais cheguei a passar por um bom tempo nessas idas e vindas a trabalho. Foi dose engolir seco tudo aquilo. Engolir seco o julgamento, a falta de comunicação, a traição moral.
Sim, traição moral. Em dois anos e meio de relacionamento, se Felipe viesse conversar comigo feito homem, da forma como eu sempre o instiguei a falar sobre o que cada um estava sentindo, eu o teria respeitado muito mais. Estava claro que tínhamos problemas de comunicação. Provável que eu tenha tecido a imagem deturpada de um Felipe forte, muito em virtude da admiração que eu toda vida nutri por ele enquanto psicólogo, quando na verdade seu comportamento refletia a figura dum homem frouxo, melindroso, mesquinho, fútil e que não sabia lidar com seus próprios instintos. Agora eu não conseguia acreditar na maneira como aquela pessoa estava se apresentando para mim. Toda aquela máscara de bom moço se desfez dum jeito muito assustador. Fui pego com as calças arriadas, achando que conhecia a fundo um Felipe com quem eu vinha dividindo meus defeitos, meus segredos, minhas fraquezas, minhas escolhas, minhas particularidades, a chave do meu apartamento, a chave do meu carro; quando, no entanto, sabe lá deus por quanto tempo fui feito de palhaço por ele e por todos que aplaudiram minha moral escorrendo ralo abaixo.
Covarde, imbecil, mentiroso. Era tudo o que eu tinha para dizer sobre aquela porca gorda pelo resto dos meus dias que se seguiam. Agora ele estava lá feliz e finalmente aliviado. Não precisou se dar o trabalho árduo e complexo de encarar alguém nos olhos para dizer o que pensa, porque por mensagem de texto já bastava. Para uma pessoa que só conseguia se expressar bem por trás de um avatar virtual, não dava para esperar nada de diferente. Ele não precisou fazer nada, porque o trouxa não aguentou a pressão do gelo, foi lá e assumiu o problema de frente, isentando ele da responsabilidade de encerrar um assunto de uma maneira sadia. Agora pronto, problema resolvido! O caminho estava livre para ser feliz transando com outro cara. Sua vida estava livre. Ambos estávamos livres do circo que montamos um para o outro. Dois anos e meio onde, no último, o afeto estava sendo empurrado com a barriga. Dois anos e meio dedicados a alguém que minha mãe mesmo dizia que não valia a arrogância que arrotava. Dois anos e meio onde até eu acabei me perdendo de mim mesmo, e aos poucos ia me tornando igual aquela coisa por quem eu me apaixonava todos os dias.
E eu queria sumir. Não tive nem vontade de continuar morando em Goiânia mais. Sendo o DNIT uma autarquia nacional, depois do meu probatório de três anos eu podia muito bem lutar para conseguir a transferência para alguma sede em São Paulo e voltar para perto da família e amigos. Nada mais valia apena naquele Goiás gigante em que caí de paraquedas por ironia do destino. Porque em volta de mim eu só conseguia enxergar pessoas mal resolvidas consigo mesmas. Gente covarde, frouxa e mentirosa, que tinha dificuldade para encarar verdade de cara limpa. Pessoas que se aproximavam de você por interesse e estavam sempre prontas para lhe dar o bote. Bando de gente falsa! – eu esbravejava.
We live in the rain, a sea of change / Vivemos na chuva, um mar de mudança
You can’t keep anything you take / Você não consegue manter as coisas que toma
The lovely face of lives we chase / A bela face de vidas que nós buscamos
Is but dust for wind to take / É somente poeira para o vento levar
When all is gone, the only loss / Quando tudo se foi, a única perda
Is to not have loved at every cost / É não ter amado a todo custo
When you can say, and I can say / Quando você pode dizer, eu posso dizer
We loved with every step we take, I’ll be ok / A gente ama com todo passo que damos, Eu ficarei bem
How do you love when your heart is broken? / Como você ama quando seu coração está ferido?
How do you speak when you feel outspoken? / Como você fala quando você se sente franco demais?
I can forgive and be forgiven / Eu posso perdoar e ser perdoado
By learning to heal with a heart wide open / Quando me disponho a curar com um coração aberto.
(I’ll be ok – Nothing More).
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