Crônica de um Engodo
4 Capítulo 4 - O Recomeço.
E foi assim que tudo começou. Não tive como dar início aos relatos dessa história de outra maneira, porque meu começo em Goiânia contou muito para a maneira como os demais detalhes subsequentes em minha vida se decorressem. Eu cheguei à cidade sem conhecer nada e nem ninguém. Pude me questionar ainda por muito tempo as razões que me levaram a sair de São Paulo para me arriscar em Goiás. A aprovação no concurso, o começo de meus envolvimentos afetivos, os novos amigos que fiz, os relacionamentos quais me permiti à experiência; tudo foi acontecendo tão naturalmente. Parando para repensar a minha vida antes disso, chega a ser engraçado notar que nunca me imaginei assim depois de minha aceitação enquanto homem homo afetivo.
Logo depois do término com Felipe eu me aproximei de Mirela mais que tudo, aquela amiga do trabalho com quem desabafei naquele dia. Antes Mirela era apenas uma colega nova de seção que nos atendia pela empresa terceirizada no auxílio à fiscalização de obras. Nos aproximamos bem de repente, muito porque Mirela sempre foi bem comunicativa e extrovertida. Também muito querida até entre os concursados. Todos gostavam dela na minha seção. E quanto à nossa amizade, acho que pelo fato de ela ter vindo de outra cidade para morar sozinha em Goiânia, só pelo trabalho, e por ter quase a minha idade. Além do mais, ela era carioca e entendia meu comportamento como ninguém naquele departamento de engenharia.
— Onde vamos almoçar hoje?— perguntei de supetão, enquanto juntava alguns papéis que eu havia mandado pra impressora, no hall que ligava os dois departamentos de fiscalização. Foi no momento em que vi Mirela levantando de sua mesa para encher sua garrafinha d’água no bebedouro que ficava ao lado.
— Ué, as meninas estão querendo ir lá pro Marista comer feijoada.— era sexta-feira, um mês após meu término com Felipe. — Vamos com a gente.
— Humm, não sei...— ela se referia às colegas técnicas em projeto com quem ela trabalhava. Todas terceirizadas.
— Vamos, a Gabriela vai, a Suelen, a Monique, o Alex...!— Mirela comentou empolgada. Eu ainda mal tinha amizades com todo o pessoal da empresa contratada nessa época.
— Ah, mas...— respondi, juntando os papéis e dando lugar pra Fabíola, a administrativa do quadro efetivo que trabalhava no meu setor. Ela apareceu logo em seguida, enquanto Mirela e eu conversávamos.
— Mirela, o Gustavo já tá aqui enchendo seu saco de novo?— ela comentou, abaixando-se para verificar se ainda tinha papel na impressora.
E assim as duas começaram a conversar.
— Fabíola, fala pra esse garoto que a vida continua e que é pra ele parar com essa coisa de ficar chorando por pouca coisa! — começaram as duas a reclamar de mim, uma de cada lado e eu no meio. — Onde já se viu, um homem grande desse?!
— Eu já falei mais de mil vezes pra ele que tá na hora de fazer novos amigos. — Fabíola comentou. – Tem tanto lugar bom de sair aqui em Goiânia. Vá sair, beber, se distrair, curtir uma boate, pegar geral! Ah, se fosse eu nos meus tempos... — Fabíola parecia ser bem nova, mas tínhamos quase dez anos para mais de diferença comigo. E ela ainda era casada, estava planejando o primeiro filho, era muito dedicada à família, enfim.
— Fabíola, o que não entendo é que desde o início era ele quem queria terminar esse namoro.— Mirela comentou. — O garoto arrumou um jeito de pular fora antes disso, daí agora ele fica assim de drama.
— E o pior nem te falo...— comentou Fabíola aproximando os papéis de seu rosto. — Você chegou a conhece-lo pessoalmente?
— Não!— Mirela comentou arregalando os olhos e rindo. — Só vi por foto.
— Pois é, menina. Perdeu nada.— Fabíola respondeu, agora olhando pra mim. — Gustavo, você tinha era que dar graças a Deus por ter se livrado daquilo. Com tanto homem bonito por aí dando sopa, duvido se na cama a coisa funcionava bem entre vocês.
E assim saíram as duas rindo aos berros. E foi sendo praticamente assim em todos os dias das semanas que se seguiram no trabalho, quando eu ainda procurava ter com quem conversar sobre minhas ansiedades. Até porque o pessoal do trabalho, os meninos, eram os únicos amigos que eu tinha muito convívio na época. Ou, os únicos que sobraram e que testemunharam o jeito que fiquei nesse estresse pós-término. No final das contas acabou sendo divertido.
Os dias foram se passando. Desde que rompemos, a cada fim de semana recente ao término eu ia descobrindo mais coisas de Felipe, o que me deixava sem saber o que pensar. Daí era sempre a mesma novela. Primeiro eu corria pra Fabíola, quem se esbarrava mais comigo pelas andanças de nosso trabalho; depois eu levantava e ia lá na Mirela, que parecia ter mais paciência para lidar com meus dramas.
Fabíola era daquele tipo de pessoa super sincera, sem medida nas palavras duras. No começo ela tentou de tudo para me convencer de que o namorado que eu tinha não era uma pessoa que valia apena.
— Você tem que perceber que esse tipo de gente não gosta de ouvir verdade. – ela comentava toda vez. — Porque, veja bem, uma coisa é você ser tímido demais para lidar com uma situação problema, outra coisa é você vender a imagem de uma coisa que você não é e enganar os outros usando de psicologia para se justificar!
Quando descobri que Felipe já havia me traído várias vezes enquanto estávamos juntos, então, foi aí que ouvi mais desaforo da Fabíola. Sua insistência era em me alertar sobre o papelão qual eu estava me prestando, haja vista que eu mesmo precisava me dar o devido valor.
— Esse cara é um escroto, Gustavo!— resmungava Fabíola. — Presta bem atenção, você caiu na rede fácil dum “Zé Ninguém” que não dá conta nem de se aceitar como pessoa. Pare com isso!
Felipe me traiu. Melhor dizendo, me traía, porque não foi uma única vez como eu vinha imaginando. Para mim já estava sendo duro digerir a ideia de que com seu novo namorado ele vinha se relacionando por muito tempo, enquanto ainda estava comigo. Imagine só, eu convencido da figura de bom moço que ele toda vida pintou para mim; quando eu precisava provar o tempo todo que, comigo, ele não tinha motivo algum para se sentir inseguro. Porque até na opinião de seus amigos pessoais eu era quem a qualquer momento seria capaz de aprontar uma dessas com ele. Eu era o que, quando viajava para São Paulo, revia todos os ex-namorados, ex-ficantes, ex-alguma coisa que passaram a ser meus amigos depois por pura questão de libertinagem da minha parte...
— Todo mundo assume um papel de trouxa um dia, Guto, aceite.— comentava Mirela, nos nossos encontros na copa para o café da tarde. — Entra pra seita que dói menos!
A seita que dói menos.
— O que mais me assusta é que foram mais de dois anos.— eu dizia. — Fico me perguntando por quanto tempo eu me deixei ser enganado.
— Guto, a minha avó mesma fala que a gente é capaz de passar décadas ao lado de uma pessoa sem conhece-la de verdade.— disse ela. — Agora pense direito e dê graças a Deus que foram só dois anos.
Nessas horas eu apoiava os cotovelos sobre as coxas levando as mãos na testa para sustentar a cabeça baixa, enquanto pensava comigo mesmo: gente, como que eu saio disso? Como é que eu me desembolo desse emaranhado de teia emocional esquisito que me deixava cada vez mais agoniado e sufocado dentro de mim mesmo? Porque essa era sensação que eu tinha. Eu me cobrava para me sentir aliviado porque, poxa vida, além de me livrar de um traste, eu consegui desmascarar um mentiroso. Ao mesmo tempo, não dava para negar o quão difícil foi lidar com a falta que eu sentia daquela figura doce e ingênua que julguei ser o ideal para apresentar a minha família e amigos. Puro engodo.
Foi nessa que Mirela e Fabíola começaram a me incentivar aos cuidados comigo mesmo. Mirela, então, também solteira e desimpedida, morando sozinha em Goiânia, passou depois a sair muito comigo sempre que podia. Porque quando não visitava seus parentes em Brasília aos fins de semana, nos encontrávamos para beber nos bares de rock que aos poucos íamos descobrindo juntos em Goiânia. Sim, a capital goiana é mesmo como uma mini São Paulo. Só depois de muito tempo fui perceber o tanto que sabotei a mim mesmo, para satisfazer vontades que não eram as minhas.
— Gustavo, você não precisa se arrepender de tudo o que viveu com o Felipe.— comentava Fabíola, noutro de nossos esbarrões à tarde para tomar café na copa do escritório. — Pensa no seguinte: você aprendeu o que é estar disposto a viver por alguém. Isso é lindo.
— Aprendi a ser trouxa.— era minha resposta com desdém.
— Não, cara, relacionamento é assim mesmo.— foi o que, inacreditavelmente, passei a ouvir de Fabíola depois do meu primeiro mês de solteiro. – Enquanto os dois estão juntos, estão se conhecendo até ver onde conseguem se suportar em seus próprios defeitos.
— Olha, sendo bem sincero, acho que preciso ficar solteiro por um bom tempo ainda.— respondi.
— Concordo!— Fabíola comentou. — Tem quanto tempo já que você está aqui?
— Só morando em Goiânia vou para dois anos.— comentei pensativo. – Mas já faz mais de três anos que assumimos no DNIT, né?
E desse tempo todo em Goiás, parando para pensar bem, se eu fiquei sozinho por quatro meses foi muito. Logo que cheguei, nessas andanças de conhecer gente, ainda esbarrei com alguns “causos” que duraram semanas. Mas não demorou até que Felipe e eu nos conhecemos através de um aplicativo de paquera. Olha, quando cheguei a Goiânia eu estava com minha cabeça tão cheia de perspectivas para ver como eu me encontraria como pessoa nesse início de vida, que eu mal me dava conta do real propósito que me levou à capital. Isso porque em São Paulo eu mal conseguia tempo para aproveitar novas descobertas.
Eu precisava entender que os meus estudos e minha vida profissional sempre tiveram importância maior em minha vida...
— Guto?
— Guto...?
...E parar com todos aqueles devaneios, porque nem eu estava mais dando conta de aturar a mim mesmo.
— GUSTAVO!!!
— O-o-oi...!— eu estava muito distraído na frente do computador. Já era meio dia e eu nem vi a hora passar.
— E então? Vamos almoçar com a gente?— era Mirela voltando da sala dela, logo depois que nos esbarramos no hall da impressora naquela sexta-feira.
— Sim, vamos.— comentei, quase derrubando o copo de café frio sobre minha mesa. — Vou só dar uma passada no banheiro e a gente se encontra lá em baixo.
— A Suelen e o Alex estão querendo ir no Shopping passar na livraria, daí pensei de almoçarmos lá mesmo ao invés de ir pro Marista.— Mirela comentou, enquanto saía andando. — Vamos no carro do Alex.
— Ah, Mirela, acho que vou no meu carro porque ainda quero abastecer. – comentei.
— Então vou com você, se importa?— ela já estava descendo as escadas quando parou para olhar pra trás e falar comigo.
— De forma alguma. – respondi enquanto já fechava a porta do banheiro.
No banheiro, pus-me de frente ao espelho no intuito de dar uma rápida verificada no visual. Eu já estava deixando a barba crescer e minhas espinhas não estavam mais tão aparentes. Nesse dia eu vestia um suéter de mangas pretas, mas com estampa quadriculada de cor cinza no tórax e uma blusa azul escuro de botão. O clima de Goiânia nem pedia agasalho assim, então resolvi tirar o suéter.
Minha barriga estava enorme. Olhando bem, avaliei para ver se a blusa talvez ficasse melhor por dentro da calça, com o cinto aparente, ou por fora do jeito que estava. Observei com calma. Pus a blusa para dentro. Em seguida pus fora da calça novamente. Depois tornei a colocar para dentro, até que achei melhor dessa forma. Arregacei a manga até pouco acima do cotovelo e desabotoei a camisa duas casas na altura da gola. Eu tinha muitos pelos no tórax e nunca fui de andar com parte do peitoral aparente.
Passei uma água no cabelo para ver como eu ficava com ele despenteado. E assim fiquei olhando, olhando e olhando. Levei outro susto quando me deparei com Mirela na porta do banheiro me encarando com expressão risonha.
— Que susto, sua maluca!— comentei num berro. Daí ela disparou a rir.
— Guto, você está muito engraçado com esse cabelo!— ela comentou. – Deixa que eu arrumo pra você, espera aí.
Daí ela pegou um creme de sua bolsa, espalhou na mão e, ali mesmo no banheiro masculino, começou a me ajeitar de frente ao espelho. Em seguida pegou um pente fino e usou dele molhado com o creme para arrepiar meu cabelo. Como meu cabelo sempre foi um pouco cacheado, nunca me preocupei em fazer penteados de moda. Nem arrepiar na parte mais alta, nem nada. E eu gostei da forma como ficou enquadrando certinho meu rosto com a barba cerrada.
— Pronto!— comentou Mirela. — Agora só falta você se matricular numa academia, fazer uma mudança no seu guarda-roupas, colocar umas tatuagens bem legais e sair pegando geral.
— Ah, para!— eu ri.
— É sério, seu bobo.— ela respondeu. — Olha só pra você. Você é lindo!
Branquelo, alto, cabelo ensebado (só que agora arrumado), óculos de quatro graus de miopia com armação grossa na cor preta e... Gordo. Um típico nerd que estava deixando a barba crescer para esconder a cara toda furada de espinhas.
— Anda logo, Guto, as meninas já foram. – ela respondeu apressada. — Só tem a gente aqui no prédio e os vigias.
— Hoje é sexta-feira, dia de sair mais cedo.— comentei saindo do banheiro junto com ela.
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