Crônica de um Engodo
2 Capítulo 2 - Foi um choque de realidade.
Cheguei ao apartamento naquela noite com a sensação de como se tivesse levado uma surra. Estava exausto emocionalmente. Nessa época eu ainda morava num flat próximo à Praça Cívica, no Centro de Goiânia. Flat todo mobiliado, com quarto separado do ambiente social por uma porta de correr espelhada, cozinha com bancada americana e uma área de serviço bem pequena, que mal cabia minha máquina de lavar. Quando cheguei ao prédio eram já por volta de dez da noite duma segunda-feira e, pasme, estava tendo algum evento no salão de festas do vigésimo andar, porque era um entra e sai de gente que não acabava mais. E meu nível de estresse estava ‘daquele’ jeito. Eu cheguei, deixei o carro na garagem e fiquei ainda quase meia hora no meio de um monte de adolescente que fazia fila pra pegar os dois elevadores. Ainda meu apartamento ficava no décimo segundo andar.
E eu estava segurando muito pras lágrimas não escorrerem tanto mais. Ao mexer no celular, comecei pouco a pouco a apagar minhas fotos com Felipe. Apaguei seu contato, as mensagens anteriores dos demais aplicativos que usávamos para conversar, bloqueei sua conta em algumas redes, mas ainda insisti em deixa-lo pelo menos no Facebook, para o caso de nos darmos bem como amigos num futuro próximo. Eu precisava lidar com aquele turbilhão sentimental esquisito, típico de adolescente com seu primeiro namoro.
E por falar em adolescente, tinha um casal de meninos de mãos dadas no meio da turma que estava para subir comigo no elevador. Eles se abraçavam, se acariciavam e os amigos estavam ali ao redor conversando sobre músicas, eventos, várias outras coisas. Tudo na maior naturalidade do mundo. Ao todo a média daquela meninada devia se dar por seus quinze, dezesseis anos. Achei curioso, mas ainda assim não me serviu tanto de distração para o universo de coisas que se passava pela minha cabeça. Eu estava muito angustiado. Sentia-me em pedaços. Meu medo era do tempo que aquilo tudo poderia durar até que eu pudesse cair na real e levar minha vida sozinho e bem. Fora a possível paralisia que aquilo poderia me causar. Um saco.
“Vá viver a sua vida, faça as coisas agora só por você e toca o barco adiante.”, foram as palavras de Domênico. “Esquece ele!”.
Eu fiquei com aquela sensação esquisita de que realmente Felipe poderia estar se envolvendo com outro cara. E, veja, até para as pessoas com quem eu comentava sobre essa suspeita semanas atrás, a reação era do tipo: “Felipe?! Não, Guto, é muito mais fácil você se resolver primeiro, no caso de vocês terminarem, do que o Felipe”.
Porém, no fundo eu acreditava que ainda poderia me surpreender com aquele filho da mãe. A fala de Domênico me pareceu suspeita, além do encontro que poderiam ter naquela noite junto com aquele outro rapaz que eu não conhecia. Mas deixei quieto. Eu precisava de um banho. Precisava do meu espaço, da minha casa, do conforto do meu mundo particular que, pelo visto, ainda me parecia bem desconhecido.
Chega a ser engraçado notar agora que a minha própria vida parecia um território estranho para mim mesmo.
Subi os andares de elevador com a cabeça borbulhando, percorri desorientado pelos corredores até o 1203, onde eu morava. Destranquei a porta num impulso só. Entrei, passei a chave, prendi a corrente de tranca, escorei minhas costas na porta e caí sentado no chão em prantos. Eram muitas lembranças. Muitos sentimentos, muita coisa. E eu achando que quem fosse ter dificuldades reais para lidar com rompimento pudesse ter sido muito mais ele do que eu. Ele que sempre pareceu depender tanto emocionalmente de mim. Ciumento, grudento, mente fechada para algumas coisas. Ele que nem parecia psicólogo, pelo tanto de paranoias que tinha e eu era quem buscava desconstruir as paranoias dele. Sempre muito sentimental, se atentava aos detalhes e tinha dificuldades para expressar o que sentia quando conversava só comigo. Na minha cabeça eu o entendia muito bem, e por isso respeitava seus limites. Era o que meus amigos diziam: geralmente quem recorre a uma faculdade de psicologia, procura o curso para resolver seus próprios problemas, então costumam ser pessoas bem complicadas de se lidar. Já eu achava aquilo o maior barato. Fui amadurecendo meu afeto pouco a pouco por ele, quando no começo, logo que nos conhecemos, ele parecia muito mais disposto e entregue ao que poderíamos ter a dois.
Felipe foi meu primeiro namorado em Goiás. Falo Goiás porque quando vim de São Paulo morei por um tempo no interior e ficava sem lotação definida, percorrendo por várias cidades além da capital. Na verdade muito também por ainda estar em estágio probatório no órgão e pairar na dúvida sobre continuar ou não morando longe da família. Minha mãe cogitava vir morar comigo em Goiânia e estava só esperando para ver se eu poderia definir lotação fixa na cidade. Quando eu consegui, ainda no meu primeiro ano de DNIT, e quando também estava correndo papelada para eu retomar com meu curso na PUC-GO, ela veio ainda pra cá e passou três semanas comigo, me ajudando a procurar apartamento.
— Precisamos ver um condomínio que não tenha implicâncias com bichos de estimação.— blefou minha mãe, sentada no banco de trás do carro de Felipe, no dia em que corremos para visitar cinco apartamentos de uma vez.
— Mãe, eu ainda prefiro morar num flat nos entornos do centro.— comentei virando os olhos, sentado no banco do carona. Felipe tinha um Gol 2004 na cor grafite nessa época. Minha mãe quando começava a palpitar nas coisas eu conseguia ler na expressão de Felipe que nem ele aturava aquilo.
— Flat não tem espaço pra visitas e a ideia de vir pra ficar aqui com você é de, pelo menos, três em três meses. Fora que, você acha que vou deixar de trazer a Mel?— ela respondeu. Mel era nossa cachorrinha, uma yorkshire de doze anos que viu minha adolescência praticamente toda. – Seu irmão e suas primas mais velhas também vão querer vir passar alguns dias com a gente de vez em quando, então não vejo motivos pra não termos casa em Goiânia.
Eu respondia mentalmente dizendo que quem estava morando em Goiânia era eu, e que não precisava mais de nenhum palpite sobre como e onde deveria morar. Internamente eu ainda achava que minha mãe estava fazendo aquilo de propósito, muito por não aceitar que minha intensão era, de verdade, juntar meus panos de bunda pra morar com outro homem. Era pretensão de Felipe um dia morarmos juntos, tanto que minha vinda para Goiânia acabou sendo também por essas expectativas que acabamos criando.
E naquela tarde de sexta-feira rodamos os setores Bueno, Marista, Centro e o Setor Sul. Todos os condomínios eram no mesmo padrão, com a média de dois a três blocos, cada apartamento podendo ter até duas vagas de carro, layout com preferência para três quartos, sendo uma suíte, etc. Minha mãe ainda era tão exigente que fazia questão de que o apartamento tivesse cozinha grande, já com todos os armários embutidos e tudo. Aquilo me irritava profundamente.
Minha mãe tinha sessenta e dois anos quando me mudei para Goiânia. Ela era costureira aposentada e ainda recebia pensão do meu pai, já falecido. Meu irmão, dezoito anos mais velho, era professor de Literatura do núcleo de Letras da USP e estava em seu segundo casamento. Sua grande frustração foi descobrir depois de anos que ele era estéril, em razão de complicações causadas por uma sífilis mal tratada na sua juventude. Sua atual esposa, Marília, tinha duas filhas gêmeas que já tinham doze anos quando se casou com meu irmão.
Enfim, uma novela complicada essa minha vida. Precisei tomar as rédeas depois dois meses da vinda de minha mãe, pela primeira vez a Goiânia, e procurar por conta própria um apartamento que ficasse em localidade estratégica para mim. O escritório do DNIT ficava na Av. Independência quase chegando à Av. Anhanguera e eu ainda tinha que cruzar o centro de Goiânia inteiro à noite, todos os dias, sentido St. Universitário. No final das contas, foi na própria faculdade que consegui o contato de uma corretora especializada em aluguel de flats para estudantes. Eu pagava, na época, a bagatela de R$ 1.300,00 num flat mobiliado, sendo aluguel mais condomínio, incluindo gastos de água e gás, fora internet.
Foi também quando comprei meu carro, um Cross Fox prata, com prestações a perder de vista. Até porque, cruzar essa distância todos os dias à noite de ônibus me custava horas de trânsito em virtude do rush.
Esse filme todo rodava na minha cabeça quando eu ainda permanecia sentado ali no chão de casa, escorado na porta, chorando de desidratar, desde a hora que cheguei do encontro com Mirela, Domênico e o outro rapaz. Comecei a questionar essa angustia toda que eu estava sentindo. O relacionamento não estava bom. Eu não estava feliz, muito menos Felipe. Num insight, lembrei-me do último dia dos namorados antes do nosso término, quando esbarrei no Shopping Flamboyant com Letícia, amiga de Felipe da época de faculdade.
Foi quando eu estava vendo vitrines duma loja de perfumes. Era sábado à tarde, véspera do dia 12. Eu já havia passado por pelo menos duas livrarias e ainda estava na dúvida se comprava mais um exemplar sobre cinema e quadrinhos de super-heróis, ou se comprava roupa. Letícia topou de ombros comigo quando saia dessa loja. Eu adorava conversar com ela. Muito animada, alto astral, comunicativa, Letícia era uma das amigas de Felipe que mais senti falta de conviver quando ainda estávamos juntos. Ela era daquelas psicólogas do tipo que lê seu estado de espírito sem o menor esforço.
— Mas moço, quanto tempo não te vejo!— ela me cumprimentou com um abraço forte.
— Poxa Letícia, é verdade!— respondi animado. – Veio comprar presente em cima da hora também?
— Vim, menino!— dizia ela. – Tá na cultura do brasileiro esse lance de se virar sempre em cima da hora pra resolver as coisas!
Tinha bastante tempo que Letícia e eu não nos víamos. A última vez havia sido num jantar de aniversário que seu esposo preparou para ela no início daquele ano em que Felipe e eu terminamos. Lembro-me de ter, no dia, conversado tanto com Letícia sobre como lidar com minha mãe, que torcia o nariz para o fato de eu me adiantar com o aluguel do flat, perto da Praça Cívica. Minha dificuldade era provar em casa que eu podia também formar minha família, e até proporcionar netos para minha mãe. Era complicado porque Dona Lourdes já era idosa e meu irmão tinha a vida dele. Onde morávamos, no Santo Amaro, a gente vivia no mesmo condomínio, por isso eu fiquei tranquilo para o fato de me mudar para outro estado a trabalho. Meu pai já tinha falecido e minha mãe tinha a independência dela. Meu irmão, a família nova que lhe proporcionou duas filhas lindas adotivas e eu, o gay deslocado.
— E você mais o Felipe, como estão?— Letícia perguntou.
— Ah, Letícia... — respirei fundo pra responder. — Confesso que já estivemos melhores.
— Vocês já estão há quanto tempo juntos mesmo?— ela perguntou, levantando a sobrancelha esquerda lá em cima.
— Fizemos dois anos mês passado.— respondi. – Acho que o peso da rotina pode estar amornando um pouco a gente e não sei se estamos sabendo lidar.
— Ai Gustavo, isso é verdade.— ela comentou virando os olhos. – Lidar com rotina é um dos maiores desafios quando se pretende construir uma história junto de alguém. Porque as duas pessoas são de duas realidades completamente diferentes. A grande mágica dos relacionamentos funciona é aí.
— Pois é, mas o problema do Felipe é que nem sempre consigo encontrar abertura para conversar abertamente sobre o jeito que a gente conduz nossa rotina.— eu disse. — Em dois anos juntos pra mim ainda é difícil tratar com a timidez dele.
— Ele é tímido até pra conversar com você? — ela perguntou.
— Muito!— insisti. — Minha maior implicância é quando ele diz que pareço grosso demais, ou mesmo sarcástico, quando insisto pra conversarmos sobre nossos assuntos particulares.
Letícia respirou fundo, pôs a mão na cintura (postura típica dela) depois cruzou os braços apoiando a sacolinha que trazia na mão, dependurada pelos dedos.
— Gustavo, o Felipe é um tipo de cara que busca um porto seguro em alguém. – ela disse. – E essa pessoa que ele tem hoje é você.
— Porto seguro?— perguntei.
— Sim, alguém que lhe dê sensação de segurança e firmeza.— ela insistiu.
Lembrar aquele encontro com Letícia no shopping só me fez acreditar que a culpa pela maneira em que terminamos o namoro foi minha. No meu entendimento, a convivência maior de Felipe comigo, depois que me mudei de vez pra Goiânia, o fez acreditar que eu não lhe dava a segurança que ele gostaria de ter num companheiro. Isso porque até aquela conversa com Letícia, eu ainda achava que Felipe se sentia mais confortável na posição de quem era o pilar mais forte do relacionamento – e que de alguma forma eu lhe incomodava por competir esse espaço com ele.
Eu procurava explicações em tudo para o que estava acontecendo. A grande verdade foi que eu cheguei em casa inconformado com a frieza de Felipe, naquela segunda-feira à noite. Era início de semana. Muita coisa ainda estava para acontecer. Àquela altura eu havia levado apenas o primeiro baque em razão do término de um relacionamento, situação comum e que qualquer pessoa passa. Para mim a gente já estava há tempos nesse processo de término, então as duas partes estavam bem machucadas com a situação. Ambos precisavam agora ter o seu espaço para superarem o luto da perda para, então, só depois as realidades se reencontrarem numa amizade sadia.
Esse era o meu momento. Agora eu precisava me reerguer. O amor e o desamor existem, isso já estava claro para mim. Então as coisas precisavam ser encaradas com leveza e sobriedade. Era o meu primeiro namoro, primeiro amor, primeiro tudo. Felipe foi o primeiro cara com quem experimentei também momentos ousados no sexo; não foi nesse namoro que perdi a virgindade, mas Felipe foi o primeiro cara em quem confiei meu corpo por inteiro sem me sentir exposto. Fora desse status de segurança eu ainda não havia sentido nada de tão intenso com outra pessoa. Agora era a hora para eu sair da caixinha e conhecer o mundo. Cuidando primeiro de mim numa profunda reforma íntima para depois conhecer outra pessoa e me permitir.
Levantei do chão, tirei a roupa, liguei o ar condicionado e fechei a janela, que eu costumo deixar meio aberta durante o dia quando não estou em casa. Eu precisava de um banho. Não reparei a hora que cheguei, mas vi no relógio que já passava das duas da madrugada. Já era terça-feira e eu ainda tinha que acordar às sete da manhã para trabalhar.
Tomei banho e mal me sequei. Meu banheiro dava para um espaço pequeno que ficava perto da direção de minha cama, antes da divisória que separava o quarto da sala por uma porta de correr. Nem me dei o trabalho de me secar. Já saí do banheiro me jogando por sobre a colcha, com o corpo ainda molhado. No box eu só escorri a água pelas pernas para não empoçar o chão do meu quarto. A sensação ainda era a de que eu estava vivendo um pesadelo e que a qualquer momento Felipe voltaria dizendo que tudo não passava de uma fantasia. Era tudo o que eu queria ouvir para ter nossa vida voltando ao normal.
Ajeitei meu corpo na cama, deixei o celular sobre a mesinha do abajur, onde eu já deixava o carregador conectado na tomada. Eu só precisei encaixar o fio e largar o celular de lado. Mas aí ainda dei uma última olhada nas mensagens e tinha lá recado de Mirela, provavelmente perguntando se eu havia chegado bem. Era dez e meia da noite o horário em que mandou essa última mensagem. Foi nessa que parei para ler outros recados que ela devia ter me mandado no momento em que estávamos no bar, conversando com Domênico e o outro amigo dele.
— “guto, onde vc tá?” (20:27) – dizia sua primeira mensagem, logo que chegamos ao bar.
— “oi, já estacionei aqui fora.” (20:28) – foi minha última resposta.
Logo depois vieram as que eu ainda não tinha visto.
— “guto, serio, desencana desse cara.” (21:53).
— “na hora que vc foi ao banheiro, juliano disse na mesa que achou mega paia a postura do felipe em arranjar outra pessoa antes de terminar com vc.” (21:54).
— “e esse cara parece que eh primo da namorada do domênico.” (21:54).
— “fique bem, amanha a gente conversa. bjos” (22:02).
— “oi guto, qqr coisa eu to aqui.” (22:34).
— “se amanha eu nao estiver em campo com os estagiários a gente conversa la na minha sala.” (22:35).
— “mas por favor, bola pra frente. nao queira perder mais tempo com esse cara pq não vale apena.” (22:36).
Eu fiquei sem reação. Completamente sem reação. Mas ao menos não foi difícil pegar no sono logo em seguida. Já era madrugada e eu precisava dormir para fugir de tudo. Era muito para mim. Aquilo já estava fugindo completamente da realidade que eu conhecia. Não dava para eu entender mais nada. Mais nada.
Na tarde de quinta-feira, da mesma semana, Felipe começou a postar fotos na internet com esse novo companheiro, e na companhia da maioria de nossos amigos em comum. Numa dessas fotos eles estavam no mesmo bar em que Mirela e eu encontramos Domênico e Juliano, na noite de segunda-feira. Provavelmente foi no tempo em que viemos embora. Dali para frente eu precisei cair na real e, enfim, sei lá... Foi muito. Eu não sei se precisava ter sido daquela maneira.
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