Cry Wolf
5 Capítulo 04 - Sangue Quente
Fiona estava seu quarto, sentada sobre a cama e encostada na cabeceira. Estava lendo um livro, mas havia parado ao ouvir algo. Podia jurar que era um como um grito. Esperou um pouco em silêncio, com o som dos trovões ao fundo, mas não escutou mais nada, então voltou a atenção para seu livro de terror.
Ela não conseguia se concentrar, então fechou o livro e colocou sobre o criado mudo, junto ao seu celular.
***
Rachel acabara de sair do banho e estava apenas de calcinha e sutiã. Sua roupa, a mesma a de antes, estava sobre a cama. Era melhor usar a mesma roupa depois do banho do que não tomar nenhum. Apesar do frio que fazia lá fora, até mesmo na sala, o quarto estava bem aquecido. O ventilador de teto estava desligado e ela não ligaria de jeito nenhum.
Depois de se vestir ela olhou pela janela para o lado de fora. A chuva caía forte ainda, molhando o vidro. Dali ela via a lua e uma pequena floresta depois dos muros da casa. Depois era água, provavelmente havia um penhasco. Seu quarto não era virado para a frente da casa. Nenhum era.
Ela tirou sua mala de cima da cama e colocou no chão, em seguida deitou-se.
***
Max havia tirado sua roupa e estava apenas com uma camiseta regata branca que usava por cima do uniforme, junto à uma cueca em forma de short, feita de cetim. Ele estava deitado sobre a cama, olhando para o teto. Não conseguia dormir.
Pensava se deveria sair para olhar o barco, mas numa chuva daquela não era uma boa ideia. Sem falar que ele não tinha nenhuma roupa além daquela.
***
A janela do quarto de Klaus estava aberta e ele estava sentado na beirada da cama, perto dela, fumando um cigarro. Despejava as cinzas em um cinzeiro que havia pego da sala. A carteira estava em cima do criado mudo. Faltava apenas um, o que o cirurgião mantia entre os lábios, tirando de vez em quando para soprar a fumaça no ar.
O cigarro estava quase no final, então ele apagou e colocou dentro do cinzeiro. Levantou-se e fechou a janela, pois a água já estava entrando e molhando o chão.
Antes de voltar à cama, ele deu uma olhada do lado de fora, a tempestade forte. O céu ficava claro às vezes por conta dos relâmpagos, juntos aos trovões cada vez mais altos. Parecia a tempestade do século.
***
Agatha estava sentada em uma poltrona que havia no quarto. Fazia algo em seu celular, talvez estivesse procurando algum jeito de falar com alguém. Um sinal de rede, wifi, qualquer coisa. A única coisa que poderia fazer era uma chamada de emergência, mas isso obviamente não era uma emergência.
Ela colocou o celular sobre o criado mudo e deu um longo suspiro. Em seguida, sentou-se na cama e tirou seus saltos, colocando bem ao lado, no chão.
Deitou-se e colocou a mão na cabeça. Estava começando a ter enxaqueca. O stress lhe subia à cabeça.
***
Miranda estava sentada na beira da cama, tirando seu par de brincos e colocando sobre o criado-mudo, perto do abajur. Em seguida tirou os saltos e colocou na beirada da cama, no chão. Então percebeu que nunca tinha visto o banheiro. Ela se levantou e caminhou até ele, acendeu a luz e ficou encantada com a beleza. O balcão da pia, feito de mármore, estava com um sabonete líquido em cima.
Abriu a torneira e lavou o rosto.
***
Minutos depois, Harry estava sentado na com o celular em mãos, escrevendo alguma em uma nota, quando viu uma barra de sinal de rede aparecer. Ele ficou esperançoso de que conseguiria ligar para alguém, mas o sinal sumiu e o celular voltou a ficar sem área. “Somente chamadas de emergência”.
– Droga! – Disse ele, levantando-se da cama e erguendo o celular no ar, tentando recuperar o sinal.
Ele resolveu que poderia ter sucesso do lado de fora da casa, então saiu do quarto, com o celular ainda erguido e ele prestando atenção na barra de status da rede. Nada.
Harry entrou no corredor à esquerda e continuou andando, até chegar às escadas. Nada.
Ele as desceu e cruzou a sala, saindo para a varanda. Nada.
Caminhou até o fim da varanda e conseguiu um ponto de sinal, que caiu em poucos segundos. Precisava se molhar para conseguir sinal. Ele estava se preparando para sair e correr até uma árvore no fim do jardim, quando viu algo estranho. Era um carro preto, parado no meio da areia da praia lá embaixo.
Os faróis estavam acesos. O carro estava ligado. Ele chegou, pensou o arquiteto.
Harry esperou alguns segundos, mas ninguém saiu do carro. Ele cruzou os braços, respirou fundo e saiu correndo pela chuva. Cruzou o portão semiaberto da casa e desceu a longa escadaria, enquanto a água gelada da chuva molhava sua roupa.
Ele estava com frio, mas não parou. Correu pela areia molhada da praia, sem perceber que havia alguém com uma capa de chuva preta caminhando bem atrás.
Harry chegou ao carro. Realmente estava ligado, mas não havia ninguém.
Ele virou para trás, na esperança de encontrar o dono do carro, mas o que encontrou foi o assassino, segurando um pedaço de madeira.
Não deu tempo de se defender, o sujeito bateu com força em sua cabeça e Harry desmaiou de primeira. Caiu no chão molhado.
***
Harry estava com uma dor lancinante na cabeça e sentia um cheiro muito forte de gasolina. Sua boca estava tapada com um pano e ele estava amarrado ao banco do motorista... Estava sem roupa, com exceção de uma cueca preta.
Sua visão melhorou e ele se deu conta de que estava dentro do veículo, o qual permanecia ligado. Ele olhou ao redor, pelas janelas do carro – uma delas estava um pouco aberta – e tentou encontrar seu agressor, mas não havia ninguém lá. Na verdade era difícil de ver por conta da água que caia no vidro, deixando tudo borrado lá fora.
O odor de gasolina era muito grande e ele não o suportava.
Harry ainda estava molhado, mas não era água. A julgar pelo cheiro forte, era o combustível.
O interior do carro estava cheio de gasolina.
De repente, pelo retrovisor, ele viu uma silhueta negra depois do vidro borrado. A pessoa estava atrás do carro, mas veio caminhando lentamente pela lateral, até chegar à janela do passageiro.
Estava com uma pequena coisa metálica em mãos.
Harry tentou gritar por socorro, mas o pano em sua boca não deixava.
Ele ficou desesperado quando o sujeito acendeu uma chama e ficou claro que aquilo era um isqueiro.
O arquiteto tentou gritar mais balançando sua cabeça em negação, estava desesperado. Sabia o que o assassino iria fazer com aquilo.
A chama apagou e a pessoa acendeu novamente. Em seguida colocou o isqueiro aceso pela brecha da janela e soltou. Quando o fogo entrou em contato com a gasolina no carpete, iniciou-se uma grande chama dentro do carro. Harry gritava, sem que ninguém pudesse ouví-lo. O fogo ainda não havia chegado à sua pele, mas estava quente, muito quente lá dentro.
O assassino caminhou até a frente do carro e ficou parado, observando-o queimar. O fogo entrou em contato com a pele de Harry e a chama se espalhou por todo o corpo molhado de gasolina. Ele gritou mais de dor. Era uma dor alucinante, nunca havia sentido nada parecido. Enquanto tentava, sem sucesso, se soltar, ele estava chorando, mas as lágrimas pareciam secar antes de descerem até as bochechas. As vias respiratórias estavam sendo queimadas, por isso ele sentia uma ardência profunda na garganta e no nariz, pelo qual já saía sangue. Harry estava também perdendo a habilidade de respirar. Era difícil naquelas condições, mas o pior não era isso, era a dor.
Ele continuava gritando, enquanto as chamas queimavam seu corpo, formando bolhas que segundos depois explodiam, deixando fluir sangue. O cheiro forte que ele sentia agora era o da sua própria carne queimando. Por um momento, ele parou de sentir dor na perna, já que o fogo havia destruído os nervos, mas no resto do corpo a dor continuava muito intensa. Era como se alguém estivesse arrancando sua pele lentamente. A dor estava parando um pouco, com os nervos do seu corpo destruídos. Ele estava perdendo a consciência. Em poucos segundos, enquanto fogo ainda consumia sua carne queimada, ele morreu.
O assassino permanecia lá fora, na chuva, observando o interior do carro ser consumido pelas chamas que demorariam a parar. Estava admirando aquela cena grotesca. Era como arte.
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