Cry Wolf

4 Capítulo 03 - Água Vermelha


Harry, Fiona, Miranda, Charlotte e Klaus estavam sentados no sofá, conversando.

– Eu não acredito que não te reconheci – Disse Miranda, ao descobrir que Charlotte era atriz – Eu jurava que você era familiar, mas não sabia que era atriz.

– Ainda estou no início da carreira – Falou ela, com humildade.

– É, mas você trabalhou com o Tarantino, cara, isso é demais! – Exclamou Fiona – Eu o amo.

Eles se assustaram com um grande trovão, mais alto do que os outros.

– Merda! – Disse Harry, com a mão no peito – Que susto.

– Tá parecendo que o céu vai desabar – Comentou Klaus.

– Eu quero que amanheça logo – Falou Charlotte – Que horas são?

O cirurgião olhou em seu relógio, no pulso.

– Ainda são onze e meia – Respondeu ele.

– Eu acho que vou tentar dormir – Disse ela, levantando-se – Boa noite para vocês.

Os outros responderam “boa noite” e ela subiu as escadas.

– Ela é tão linda, né? – Disse Fiona, sorrindo – Eu nunca conheci uma atriz pessoalmente.

– Eu acho que eu também vou tentar dormir um pouco – Concluiu Miranda.

– Eu te acompanho – Falou Klaus.

– Boa noite – Disseram os dois, quase em uníssono.

Harry e Fiona responderam também quase ao mesmo tempo.

Klaus e Miranda subiram as escadas e os outros dois ficaram sozinhos.

Harry levantou e foi até o móvel de madeira onde estava o uísque.

– Quer uma bebida? – Perguntou ele.

– Não, tenho só 20 anos – Respondeu ela, tímida.

– Ah, que pena – Ele voltou e se sentou.

– Você não quer?

– Não, eu já bebi demais... Não vou acabar com o uísque do homem.

– É o mínimo que ele merece depois de deixar a gente aqui.

Os dois riram.

– Você acha que seu namorado está preocupado? – Perguntou ele.

Ela caiu na risada.

– O que? O que foi?

– Perguntar se eu tenho namorado teria sido mais sutil do que isso – Respondeu.

Ele sorriu envergonhado.

– Eu não tenho namorado.

– Que surpresa... Uma garota tão bonita e jovem.

– Você fala como se tivesse 50 anos.

– Tenho 26.

Ele ficou observando-a. Ela também.

– Então... Eu vou dormir – Disse Fiona, levantando-se.

– Você destruiu o clima – Falou Harry, bem humorado.

Ela sorriu.

– Boa noite.

Ele ficou sentado, sozinho, naquela sala. Pensando em Fiona. Se pegou sorrindo algumas vezes.

Poucos segundos depois, ele também decidiu tentar dormir.

Harry levantou e caminhou até o pé da escada, mas quando pisou no primeiro degrau, ele ouviu um barulho de vidro quebrando e parou. Olhou para trás, não havia ninguém, mas o barulho havia vindo dali. De fora.

Ele cruzou a sala e saiu pela porta. O vento gelado o pegou de surpresa.

Harry olhou para a direita e viu o que havia causado o barulho. Um jarro de vidro estava quebrado no chão, espalhando no chão a terra e as flores que estavam dentro. Ele olhou ao redor, para a praia lá embaixo, para o jardim com árvores do lado esquerdo. Não havia ninguém, provavelmente tinha sido o vento, então ele entrou e fechou a porta.

Cruzou a sala novamente e subiu as escadas. Foi para o seu quarto.

***

O quarto de Charlotte estava vazio. A porta do banheiro estava entreaberta e o barulho do chuveiro poderia ser ouvido se alguém entrasse no quarto.

Ela estava tomando banho. A água quente escorria pelo seu corpo e ela sentia que aquilo, junto a uma boa noite de sono, era tudo o que precisava naquele momento. Poucos atores aceitariam o convite de um fã para jantar, mas aquilo era diferente. Era o primeiro que a convidava. Charlotte finalmente estava sendo reconhecida pelo seu trabalho e isso era incrível. Tudo o que ela mais queria era vê-lo e cumprimentá-lo, saber como é se sentir admirada verdadeiramente.

Ela não estava vendo, nem mesmo ouviu, mas a porta do banheiro tinha sido aberta e agora mesmo havia alguém observando sua silhueta através da cortina. A pessoa deu um passo à frente e fechou a porta lentamente, estava com uma faca de cozinha na mão.

O sujeito deu um outro passo lentamente para não ser percebido e então deu outro. Estava se aproximando cada vez mais e a atriz não havia dado conta do perigo que estava correndo naquele momento.

Ela continuava lá, embaixo da água quente, enquanto alguém se aproximava cada vez mais de onde estava.

A pessoa finalmente tocou a cortina de plástico. Se Charlotte virasse e abrisse seus olhos, poderia ver a imagem borrada do sujeito do outro lado da cortina, mas ela não havia feito isso. Estava vulnerável.

De uma vez, a pessoa abriu a cortina e um pouco de água espirrou em sua capa de chuva preta e ela se virou, assustada, deparando-se com seu assassino.

Ele enfiou a faca na barriga da mulher e o sangue começou a fluir. Ela gritou, mas seu grito foi abafado pelo som do chuveiro. Além disso, as portas estavam fechadas. Ninguém a ouviria. Mesmo assim, ele continuou esfaqueando-a repetidamente na barriga, até a mulher cair no chão. Nua e ensanguentada. Ela chorava e implorava para não morrer.

– Por favor, eu faço o que você quiser – Disse ela, deitada sobre o chão enquanto a água corria pelo seu corpo, levando o sangue junto com a água pelo piso branco e deixando os ferimentos à mostra, milésimos de segundo antes de o sangue voltar a fluir por eles.

O assassino não falou nada, nem mesmo parou para ouvir. Deu uma facada na barriga de Charlotte.

Ela colocou as mãos sobre os ferimentos e chorou de dor, até ir fechando seus olhos segundos depois. Quando ela estava apagada, ele deu mais cinco facadas e jogou a faca no chão, deixando a água corrente limpá-la.

Quando o assassino desligou o chuveiro, o chão e o cadáver estavam quase limpos, já que a água havia levado maior parte do sangue, mas as paredes estavam ainda bem sujas de sangue. Ele fechou a cortina de plástico, lavou suas luvas na pia – com o sangue que a sujava escorrendo junto com a água – e em seguida saiu do banheiro, apagando a luz.