Crush Culture
1 "A cultura crush me faz querer vomitar"
Notas iniciais
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"Eu não me importo se serei sozinha para sempre.
Eu não vou me apaixonar por você!
Porque este bebê aqui é à prova de amor..."
03 de fevereiro de 2021.
A cultura crush é um termo que se pode utilizar para a generalização e romantização dos romances adolescentes, das paixonites agudas, do mundano e passageiro amor. Isso é o que podemos definir por cultura crush.
O Dia de São Valentim se aproximava na cidade de Paris e o local começava a cheirar a chocolate e flores. O clima de tal data celebrativa era intenso na cidade da luz e dos apaixonados.
Muitos casais se preparavam para presentear seus ficantes, prometidos ou cônjuges. Enquanto alguns solteiros se preparavam para presentear seus pretendentes com um pedido de namoro ou até mesmo casamento, outros suspiravam de amor e alegria por ver pessoas alheias e filmes de comédia romântica com a paixãoà flor da pele.
Todavia, nenhum desses sentimentos preenchia o coração de Kagami Tsurugi.
Kagami, no ápice de seus dezessete anos, já havia passado por diversos relacionamentos conturbados, como todo adolescente. Todavia, diferente dos outros jovens, a moça decidira firmemente nunca mais se apaixonar e não estava disposta a retroceder com tal decisão.
A jovem observava seus colegas de classe preparando cartões, comprando chocolates e outros mimos para presentear aqueles que gostam, e isso a fazia querer vomitar tudo o que havia tomado no café da manhã e no almoço. Muitos casais aparentemente felizes, apaixonados, tão doces que lhe dava diabete, e sua única reação "lógica" era revirar os olhos ao ver beijos roubados e carícias escondidas no meio da aula.
No horário do intervalo daquele fatídico dia, Kagami dirigiu-se sorrateiramente para a sala de artes do Françoise Dupont, na intenção de esconder-se de tanta melosidade. Aquele local não era muito frequentado durante os intervalos, especialmente por não ser permitido a permanência de estudantes nas salas de aula naquele período; mas a menina fazia de tudo para evitar os coloridos romances adolescentes.
Quanto mais longe disso, melhor. Pensava Kagami.
Claro que ela poderia se esconder no banheiro, mas ela estava ciente que casaizinhos — sejam lésbicas, sejam héteros — usavam aquele abafado e anti-higiênico ambiente para fazerem coisas inapropriadas, desde troca de beijinhos até para terem... momentos íntimos demais para serem mencionados nesta história.
Sendo assim, a sala de artes era seu refúgio. Além de ser uma fonte de inspiração, era um mar de silêncio, perfeito para que ela pudesse criar suas obras artísticas. No início de seu ensino médio, Kagami pegou o gosto por desenhar e percebeu ser boa naquilo, fazendo de tal hobby a sua máquina de escape para ignorar o mundo exterior.
Nem sempre Kagami tinha palavras para expressar o que sentia, mesmo que ela fosse conhecida por ser direta e sincera, então seus desenhos eram uma forma de transparecer sua alma através de traços e rabiscos.
Suspirou de alívio ao entrar na sala e ver que estava vazia. Caminhou até um canto bem iluminado, mas sendo um ponto cego para quem passava pelos corredores e para quem entrava na sala para dar uma visão geral e superficial do ambiente, em uma espécie de inspeção. Aquele lugar já era seu pequeno esconderijo, todas as vezes que precisava se esconder do pandêmico ar açucarado e meloso do romance alheio, era lá onde ela se sentava e fazia o que precisasse fazer no dia, lia algum livro, escutava alguma música ou criava algum desenho.
Colocando seus fones de ouvido e dando play na música "A Case of You", da Joni Mitchell, para ir lhe inspirando enquanto desenhava.
O doce timbre de violão inspirava-lhe traços leves na folha de papel de coloração puxada para o creme. A voz da cantora era aguda, meio baixa e melancólica, mesmo que a melodia do instrumento soasse como que, de certa forma, "alegre".
Era como se suas mãos se movessem sozinhas, em movimentos tão familiares quanto àquela melodia que escutava.
Quando menos percebeu, havia desenhado um rosto masculino. Aquele maldito rosto. Aquele belo e maldito rosto.
— Droga... — murmurou para si mesma, enquanto arrancava a folha de papel, amassou-a e arremessou-a para o outro lado da sala.
Alguns segundos depois da bola de papel ricochetear da parede para o chão, alguém entrou na sala de artes, possuindo uma respiração ofegante, e fechou a porta atrás de si.
Kagami se encolheu em seu canto, com o receio de ser algum professor ou colega que pudesse lhe dedurar, e inclinou levemente a cabeça na intenção de tentar ver quem havia entrado, mas não conseguiu enxergar nada e nem ninguém. A garota se assustou com o estrondo de alguém esmurrando furiosamente a porta. Arqueou as sobrancelhas e atentou o ouvido para saber o que diabos estava acontecendo.
— Luka Couffaine, abra essa porta! — gritou uma voz feminina, extremamente aguda e levemente familiar.
— Chloé, me supere! Nós terminamos há quatro meses! — respondeu a voz rouca e sutilmente grave, sendo a que estava na sala.
— Converse comigo olhando nos meus olhos, Luka! Não seja um covarde — provocou.
— Eu já falei pra você me deixar em paz. Você ainda tenta me beijar toda vez que, por algum motivo, temos que conversar — retrucou, com um ar aborrecido.
—Você sabe que eu ainda te amo, Luka!
— Não, não me ama! Você só quer alguém para fazer seus caprichos e lhe dar status, Bourgeois!
— Status? Se eu quisesse status estaria atrás do Adrien Agreste, e não de um alguém como você! — rebateu indignada, mas com certo ar de superioridade.
— Me poupe, Chloé! Você sabe o que estou querendo dizer! Ter um namorado já é um símbolo de felicidade eterna para nossa geração de merda, e ainda namorar alguém tão diferente, guitarrista em uma banda de rock, todo "alternativo"? É o sinônimo de romance clichê que deixa seus seguidores encantados. — O rapaz parecia estar perdendo a paciência, mas, ao mesmo tempo, soava como se pudesse discutir por horas, ou apenas como se estivesse disposto a deixá-la latir para o vento.
— Escute aqui, seu merdinha metido a astro do rock: você sabe que com o meu nível de influência posso destruir toda a sua carreira, não? Largue de ser desagradável e converse que nem gente comigo! — ordenou, batendo novamente na porta da sala.
— Você não é a minha dona! — negou.
— Couffaine, eu vou te matar, em todos os sentidos possíveis! — ameaçou.
A este ponto, Kagami sentia-se meio mal por ouvir aquela discussão de relacionamento, mas, finalmente, havia percebido que era a Chloé de sua sala, e se divertia com a maneira que o rapaz a confrontava. Pelo menos alguém tinha coragem de bater de frente com a garota, quem sabe assim ela aprendesse a ser gente.
— Eu agradeceria a gentileza! — debochou o rapaz. — Pelo menos assim você me deixaria em paz, sua maníaca!
— É melhor você se mudar de cidade, pois nenhum colégio de Paris vai querer você por perto após eu queimar seu nome... Amanhã você estará morto!
— Uau, pare de tentar dar uma de Heather, todos sabemos que você é apenas uma Duke com complexo de Chandler! — Riu sarcástico. — E pare de usar referências a filmes que te apresentei contra mim. Por favor, me supere, Bourgeois...
— Você vai ver só, Couffaine. Eu juro! — Bateu uma última vez na porta, cheia de fúria, e Kagami pode ouvir a menina sair batendo os pés enfurecida.
— Estarei esperando! — O rapaz ainda ousou gritar uma última vez e riu.
Por fim, encostou-se na porta e deslizou até o chão, sentando-se e soltando um pesado suspiro.
Kagami gelou, pois, no plano em que estavam, o garoto a veria ali e possivelmente se irritaria por ela ter escutado todo aquele drama de casal. Olhou para os lados desesperada e percebeu que jamais seria ágil o suficiente para se esconder em algum pano que cobria alguma tela ou algo do tipo.
— Você não precisa se esconder, se era isso que estava pensando, eu já tinha visto você — disse o garoto para Kagami com um meio sorriso no rosto, virando sua face para a direção que a garota se encontrava. — Me desculpe por invadir o seu espaço, e por te fazer ouvir esse drama.
— Hã... Sem problemas. Eu nem prestei atenção na conversa de vocês... — mentiu com certo nervosismo e vergonha.
— Você não precisa mentir para mim! — comentou o rapaz, de maneira divertida. — É impossível não prestar atenção quando a Chloé começa a gritar.
— Sim, a Chloé é uma insuportável e mimada — falou Kagami suspirando e logo rindo em seco, mas lembrou-se de que tratava da ex do rapaz e sentiu-se mal pelo jeito que falara dela, ficando com as maçãs do rosto levemente avermelhadas.— Quero dizer, me desculpe por falar assim da sua ex!
— Não precisa se desculpar, se ela não fosse nada disso, não teria motivos para ser "minha ex".— Ele gesticulou as aspas com os dedos, soltando uma risada.— Apesar de você já ter ouvido durante os berros, me chamo Luka Couffaine, e você?
— Tsurugi Kagami, mas aqui no ocidente fica Kagami Tsurugi — respondeu com um sorriso fraco no rosto.— É um prazer conhecê-lo.
— O prazer é todo meu.
— Me desculpe pela pergunta, mas como você havia percebido que eu estava aqui quando entrou na sala? — perguntou curiosa, levantando uma das sobrancelhas.
— Não precisa se desculpar por tudo, Kagami — Luka comentou antes de responder a pergunta, mas logo prosseguiu: — Sabe, eu sou um pouco alto e consegui ver o topo da sua cabeça. Seu ponto cego não é tão cego quanto parece… — brincou soltando uma leve risada, cobrindo a boca.— Mas o que uma garota como você faz escondida na sala de artes?
— Como assim uma “garota como eu” ? — Torceu o nariz com aquela frase, curiosa com o que ele estava insinuando com aquilo.
— Sabe, uma garota bonita como você deveria estar com o namorado ou a namorada, ou com os amigos no intervalo.
— Eca, então você é do tipo paquerador?— Revirou os olhos e riu com a expressão de indignação que Luka fizera.
— Ei! Não sou paquerador!— protestou, mas logo riu, acompanhando Kagami.— Mas, sério, por que está aqui?
— Estou fugindo da pandemia do vírus da cultura crush — Deu um meio sorriso ao dar de ombros, enquanto fechava seu caderno de desenhos.
— Pandemia? — O garoto riu da expressão.—Talvez não seja para tanto.
— Claro que é! Todo mundo parece um bando de zumbi nessa época do ano. Gastam absurdos com presentes caros e ficam com os hormônios à flor da pele, parecendo um bando de animais no cio! — reclamou.— Não importa onde estejam, pode ser debaixo da escada, nas cabines do banheiro, e, se bobear, até no meio pátio, haverá adolescentes se agarrando a tal ponto de estarem prestes a se engolir. Bando de nojentos!
— Vai me dizer que nunca namorou? — debochou Luka, olhando-a incrédulo com tais afirmações.
— Claro que já namorei! — A garota tinha sua voz decidida e parecia levemente irritada com tal questionamento.— Mas não namoro mais, isso é apenas uma futilidade desnecessária nas nossas vidas. As pessoas só namoram por status e para fazerem inveja aos outros. Chego até a considerar que o amor não existe.
— Você é muito negativa — falou Luka, levemente sarcástico.
— Negativa não, realista.— Revirou os olhos.— Essa cultura crush me faz querer vomitar.
— Sua realidade é distorcida — rebateu com certo ar de certeza.— Posso provar para você que o amor existe e vale a pena.
— Não quero que você me prove nada — Kagami torceu a boca, enquanto o olhava com uma cara de aborrecida.
— Vou provar mesmo assim, e você não vai me fazer mudar de ideia — Deu de ombros e sorriu de canto.— Me dê até o Dia de São Valentim.
— Tem o tempo que quiser, mas eu faço de suas palavras as minhas — disse, se levantando com seu caderno em mãos e limpando a sua saia com leves tapinhas.— Eu sou à prova de amor.
— É o que veremos.— Ele se levantou também, esperando a garota caminhar até a porta, para abrir para ela.
— Essa foi a sua primeira tentativa? — perguntou, debochando dele.
— Talvez... — respondeu dando um pequeno sorriso que fez a garota revirar os olhos. Antes que ela pudesse sair da sala, pois logo se encerraria o intervalo, ele segurou no pulso dela, fazendo-a voltar-se para ele. — Você é de que série?
— Penúltimo ano — disse indiferente.
— Estou no último — Luka comentou, mas nada na expressão da garota foi alterado.
— Eu não perguntei — respondeu grossa, já ficando mal-humorada com a insistência do rapaz, que parecia tentar jogar seu charme para cima dela.
— Mas eu informei. — Soltou o pulso da garota e sorriu, dando uma piscadinha para ela. — Acho que essa foi a minha primeira tentativa.
— Idiota.
— Obrigado! — Luka fez uma referência como a de um príncipe encantado, como se estivesse zombando de Kagami.
Ela revirou novamente os olhos com tal gesto, deu de costas e saiu andando para a sua sala.
Kagami pressionou os dedos contra a capa do caderno, sentindo seu sangue ferver. Aparentemente, aquele rapaz ainda pegaria muito no seu pé. Felizmente, o Dia de São Valentim se aproximava, e depois disso, ela não precisa aturá-lo nunca mais, e talvez até poderia esquecer-se da existência daquele rapaz com cabelos e olhos oceânicos...
Cabelos e olhos oceânicos...
Por que Kagami esboçou um leve sorriso ao recordar-se da coloração mais marcante de Luka? Talvez por ser demasiado chamativa. Ou, talvez, por ela se contrastar com a sua. Ela não sabia... Como também não fazia ideia de que havia feito tal movimento involuntário.
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