Somente no dia seguinte puderam conversar, com os olhos castanhos mais calmos e emocionalmente estáveis.

- Eu sei que errei me exaltando daquela forma.

- E principalmente a batendo. Quem recorre a coação física perde a razão no mesmo momento.

- Eu sei. Mas foi bom... Você ter visto isso. Além de conhecer minha família pode perceber a dimensão do meu problema, e a minha instabilidade...

- Pode acontecer com qualquer um em um dia ruim. Se você sabe, concerte.

- Não é fácil, eu não agüento mais.

- Tenho certeza que dará um jeito.

- Ás vezes você deposita confiança demais em minhas capacidades. É estranho.

- Só é estranho porque você não conheceu ainda pessoas que fizessem o mesmo por você. Futuramente, se você continuar trilhando esse caminho, aprenderá. Tenho certeza. –sorriu, afagando a cabeça da adolescente, que tomou um gole de leite em silêncio.

- Eu fui cruel com ela. –murmurou, cinco minutos depois- A Nike é minha consangüínea, mas nasceu herbívora... Meu pai e o bando não aceitaram isso nada bem. Fora eu, é claro. A Bii ainda não estava conosco na época. Eu sabia que ela tinha potencial, ela era inteligente, ágil e forte na medida do possível.

- Ela é o quê, se não é indelicado...?

- Indelicada sou eu. Eu que machuco os outros e na maioria das vezes nem percebo. O pior do auto-conhecimento é tê-lo e não dominá-lo. –suspirou, tomando outro longo gole de leite. A maior mágoa de Pandora era contra ela mesma, e isso travava suas evoluções- Ela é um coelho. Um lindo, peludo e fofo coelho negro. Mas no meu bando só tínhamos caçadores, até então. Éramos em três lobos, uma raposa, uma leoa, um falcão e um filhote de pantera, além de mim, uma coruja aprendendo a voar. Não que passássemos a maior parte do tempo como animais, mas ainda assim valorizávamos muito essa questão idiota. Ela tinha uma auto-estima péssima, se não nula. Mas deu a volta por cima quando mudou de bando pela primeira vez. Seu bando novo era realmente estranho, mas eu ainda a visitava. Conheci a Bii e as apresentei. A Bii entrou para o grupo da Nike. Elas resolveram andar em duplas aos poucos, até que o bando tinha se desfragmentado de vez. Só podemos nos comunicar com animais e como animais enquanto estamos em nossa forma primordial. Assim como só podemos falar quando somos humanos, apesar de entender a maioria das coisas que os humanos dizem mesmo como animais.

- Surpreendente. Gosto quando você fala sobre sua espécie, me dá um pouco de vontade de ver o mundo do ponto de vista de um ser desprovido de racionalidade.

- Isso é um mito humano. Os animais tem suas próprias estruturas sociais e formas de entendimento. Funciona de forma bem diferente, mas existe. Ainda assim, não é tão bom ser transmorfo. Não há liberdade completa, vivemos nas sombras.

- Tudo tem seus prós e seus contras. O que acha de tirarmos essa semana só para nós? Vamos sair, descansar...

- Maravilhas do mundo do freelancer.

- É, somos cada vez mais...

- Você não imagina como... Pelo menos se comparar com na minha época...

Ligia fechou seu consultório e passou uma semana andando com Pandora pelas ruas movimentadas das cidades, almoçando nos mais diferentes restaurantes, visitando os mais lindos e atualizados museus, cheios de obras reaproveitadas e re-popularizadas. Nada de novo se criava, antes mesmo do nascimento de Pandora. A sociedade e seu desenvolvimento real estagnara, se tornando uma grande produção de lixo tecnológico e cultural de consumo.

No último dia, convidou Eduardo e Dimitri para vir a sua casa, e comemoraram em segredo o um mês que Pandora estava naquela casa.
Dimitri trouxera seu violão e tocara músicas boas e antigas, do tempo da tricentenária, que comemorava pelo menos essa cultura não ter se perdido.

A linha vermelha do destino parecia ligar Ligia e Dimitri, que se davam cada vez melhor. De tão bem que ele a tratava, e seus movimentos despreocupados de homem de 40 anos fizeram Pandora ignorar seu instinto e baixar a guarda com ele, se divertindo com os outros, como uma pessoa jovem e normal.

Aceitaram quando Eduardo as convidou para a casa de outro de seus amigos, Nathanael, que gostaria de apresentá-lo a seu namorado, Vladmir.

- Amanda também vai estar lá, Ligia! Vamos, Dimitri, Pandora! O João queria tanto conhecer você, Dimitri!

- Tudo bem, -suspirou o mais velho, sorrindo de lado- eu topo.

- Ahh... –Ligia trocou olhares com Pandora, que fez que sim com a cabeça- Vamos todos então!

A festa estava agitada, apesar das poucas pessoas. Muita música e risos, um clima um pouco movimentado demais, mas ainda assim, agradável aos olhos castanhos.

Ouviu Nathanael contar como tropeçara em Vladimir no metrô, e o ajudara a recolher seus documentos que o fizera derrubar sem querer. Vladimir parecia um pouco acuado e sério demais para a ocasião, mas sorriu e concordou com tudo o que o namorado disse, o beijando no final da narrativa.

Amanda aplaudira feliz, nesse momento. Irmã gêmea de Nathanael, estava feliz com o relacionamento do irmão. Era ela a veterinária conhecida de Ligia, e nunca ficava muito na cidade, afinal, nos dias atuais, não havia trabalho para veterinários em uma metrópole. Vinha assim que chamada, mas não morava por lá, então se preocupava bastante com o irmão.

Riu da explicação sensata de Dimitri quanto à tatuagem...

- Eu vi meu avô, ele tinha tatuagens pelos braços e costas, acho que ele esqueceu que ia envelhecer! O desenho mais lindo fica escroto entre as pelancas que acaba se tornando a pele dos idosos com mais de 65... Fui mais inteligente e fiz só uma tribal discreta, quando deu vontade. As gerações de uns séculos atrás não tinham muito juízo, mas nem assim meu avô aprendeu. Estudar história pra que então? As pessoas cometem os mesmo erros...

Os presentes riram, e Pandora também.

Assim como riu das manobras de Eduardo com as garrafas e copos, que Ligia chamou de exibicionismo por conta de seu curso de barman. Isso até João soprar sua orelha e fazê-lo quase destruir todas as taças de Amanda, que surtou e os mandou parar.

Estava feliz, e até cogitava passar o resto de seus dias assim, como uma humana normal...

Era quase o dia seguinte, o sol de sábado começava a despontar, quando foram para casa, dormir. Eduardo tinha combinado de ir com Dimitri até um bairro do outro lado da cidade, ajudar Vladmir com a mudança, e Ligia e Pandora resolveram ir também, já que seria no domingo.

Notas finais
Os personagens aleatórios só foram introduzidos para demonstrar a minha maior interação com outras pessoas e a aceitação disso como algo bom e divertido. Seus nomes não tem grandes significados.