Crie em Sua Mente
8 Ode a Lagarta Verde
Notas iniciais
Outra coisa: Lúcio= Luz, e Mendes é o sobrenome do militante Chico Mendes, que defendeu nossa Amazônia com unhas e dentes até ser assassinado.
Domingo de manhã. Pandora e Ligia acordaram cedo, já que tinham dormido sábado todo. Eduardo as levou para comer em um restaurante japonês ali perto, onde se encontrariam com Dimitri.
Seu celular tocou.
- Alô? Oi, Júlio! Tudo bem sim, e com você? O quê?! O Tcc é pra amanhã?! Mas a gente ainda não separou quem vai apresentar o que!- Ligia revirou os olhos- Não, tô indo praí. Tchau. Mals, gente, eu tenho que resolver um lance...
- Tudo bem Eduardo. A gente se vê.
- Com certeza. Tchau, Pandora, tchau, Ligia, peçam desculpas ao Dimitri por mim, sim?
- Claro. Eu te ligo a noite.
- Valeu mana! Té mais, gente. – e saiu correndo. Pouco depois, Dimitri chegou, com o sorriso de lado já à postos... Comeu com elas.
- Aí ele desligou e saiu correndo. Como tamanho irresponsável pode ser meu irmão? –os outros dois sorriram- A propósito, como se conheceram?
- Ele estava fazendo a pesquisa desse Tcc de amanhã. Pós graduação baseada na Teoria do Direito Nacional... Defender a volta da Amazônia para as concessões do Brasil é um trabalho bem perigoso. Eu vivi na fronteira por muito tempo, conheço aquilo lá. E estive o explicando um pouco. Bases militares, tráfico de biotecnologia... Os biopiratas são perigosos. É complicado.
- Imagino que sim. –concordou Pandora, enquanto Ligia mastigava.
- Meu irmão é corajoso, mas também não é idiota. Ele sabe medir suas palavras.
- Como você. –falaram Pandora e Dimitri, em sincronia, sorrindo para a psicóloga. Ela riu da situação.
- Vamos indo?
- Vamos, ou senão nos atrasaremos. –murmurou o homem, puxando as cadeiras para elas saírem e pedindo a conta. Andaram até o incrivelmente antigo jipe de Dimitri, se sentaram e puseram os cintos. Ele pisou fundo. Estavam atrasados.
Foram bem recebidos por Vladmir, que já começara a carregar os caminhões da mudança sozinho. Pandora foi ajudá-lo com uma cômoda enquanto Dimitri e Ligia arrastavam os sofás...
- Mas pra direita, senão o móvel não passa... –ofegou Dimitri, ajudando a mulher com o pesado sofá cuja estrutura era de madeira, coisa rara nos últimos tempos.
- Certo.
- Tem certeza? –um dos caminhoneiros murmurou.
- Absoluta. Foi esse cara que entregou a gente lá em cima e quebrou o esquema. Por isso tô nesse trabalho ridículo. Ele deve ter uma mina de ouro em biotecnologia negociada com os outros chefões... E de pensar que ele estava com o Vladmir esse tempo todo.
Lúcio Mendes era um homem procurado pelos biopiratas. Ele sempre foi um grande traficante, mas agia de forma a privilegiar os brasileiros. Um tipo de guerrilha a favor do direito nacional à biodiversidade. Mas entregara outros traficantes para a polícia internacional, quando eles pararam de cooperar entre si e quiseram passar a vender para outros países.
Estava na lista negra.
- Finalmente pegamos o sujeito, vamos apagar os dois de uma vez. –murmurou de volta um recém-chegado, acionando um rádio de contato descendente dos antigos aparelhos Nextel.
- Ei, você aí, Lúcio Mendes!
Dimitri se virou, involuntariamente, ao ouvir seu nome original. Gastara uma grana preta com novos documentos negociados com Winner, para ter essa arma apontada para sua cara agora. Pensou se Vladmir o teria entregado, logo após voltar do encontro com o renomado falsificador.
Mas era improvável, descartou a possibilidade.
- Hei, que palhaçada é essa?! –gritou Vladmir ao olhar para trás, já que saia de costas pela porta, carregando a cômoda com Pandora.
Um segundo e um disparo depois, o sangue dele atingiu o rosto de Pandora, ainda quente. Tiro na cabeça, sem chances para se abaixar ou esquivar.
Ela desenroscou o pé de debaixo do pesado móvel, e se abaixou. Ouviu Dimitri gritar “Corre!”ao passar por ela, pulando com Ligia por cima da peça de mobília. Não teve dúvidas em se levantar e correr com eles, a adrenalina a mil.
Bem a tempo de evitar uma arma caseira, um Coquetel Molotov que incendiou a sala inteira.
Assim que chegaram a rua a confusão já estava instaurada. Civis, a polícia e traficantes se misturavam, os dois últimos trocando tiros... Na primeira esquina que encontrou, Dimitri soltou a mão de Ligia, pulando em um bueiro e o trancando.
- Filho da puta, fugiu sem a gente!
- Não importa mais, a gente tem que sair daqui e encontrar um lugar seguro! Ainda bem que meu irmão não veio...
Mas a frase de Ligia foi interrompida pela bala que atravessou seu peito e Pandora ouviu o baque surdo de seu corpo contra o chão, mesmo em meio a todo o alvoroço.
- Nós temos que voltar! Temos que voltar! –Y gritava, entre lágrimas- Temos que ajudá-la!
- Se ela estiver bem vai se levantar e vir atrás de nós! Se ela não puder levantar, não é voltando que vamos a ajudar! Mantenha a cabeça no lugar! –berrou X, igualmente em lágrimas, mas ainda correndo e puxando a relutante Y consigo.
- Ela não vai levantar. –concluiu Z, de forma fria, enquanto corria. Não irônica ou cruel, apenas fria.
Fale com o autor