Crônicas de uma velha louca
8 O que temos hoje barman?
Notas iniciais
O telefone insistiu, era cerca de 3:15 da manhã, — "Lá vem desgraça"— pensei atordoada enquanto tomava o celular a mão. 'Aplicativos', a palavra do século 21, juntamente com "wifi" somavam as alegrias e dores de mais de 90% da população.
— Esta ai?
— Agora estou. São quase 4:00 horas, alguém morreu? — a luz do aparelho ainda me cegava.
— Queria conversar.
— Conversar?! — nesse momento já estava sentada.
— Sim, você poderia?
— Quando?
— Hoje a noite, te encontro no lugar de sempre! Por volta das 19:00 horas, tudo bem?
Minha respiração se esvaiu enquanto encarava aquelas letrinhas. Deveria ter dito "não" mas não foi o que disse.
A tarde se arrastou numa preguiça incomum e, por vezes, cogitei simplesmente não ir, sem explicação, sem me preocupar e novamente não foi o que eu fiz.
E lá estava eu em frente ao mesmo lugar aguardando.
— Você veio! — A voz atrás de mim parecia levemente entusiasmada.
Virei-me com cuidado e ensaiando um sorriso— Pois é!
— Consegui pegar o carro, topa ir em algum lugar?
Fiz uma careta desconfiada e inclinei o rosto, desta vez, verdadeiramente, disposta a dizer não.
— Pensei em irmos próximo a lagoa, não precisa se preocupar.
Aceitei, então, e fomos todo o percurso em silêncio. Eu não tinha vontade de falar e não sabia dizer se tinha vontade de ouvir. Descemos e passamos a caminhar naquela longa calçada. A lagoa, estranhamente, estava coberta por uma fina camada de neblina. Respirei fundo a maresia e recostei-me a mureta.
— Eu te trouxe aqui pra dizer que sou um babaca.
— Você é?!
— Sim e tenho a tendência a fazer as melhores pessoas se sentirem mal.
— Olha, você não precisa me dizer nada disso...
— Preciso sim! Você riu comigo, contou piadas, guardou meus segredos, contou os seus... Ouviu minhas lamentações, brindou meus orgulhos, sofreu minhas derrotas e jogou sinuca comigo. — Rimos por um momento.
Pensei que ele haveria de estar drogado, não conseguia enxergar a possibilidade de algo assim estar acontecendo. Falou do quanto tinha errado e de sua vontade de concertar tudo, de acertar onde havia falhado.
Segurou-me a mão e na altura de tudo tinha esquecido de mencionar o casaco que enfim eu havia trazido. Abraçou-me e eu não pude fazer nada, suspirei e recostei a cabeça sobre seu ombro.
(....)
— Era tudo o que eu queria ter ouvido. — Disse matando outra dose de qualquer coisa que o barman me servia.
— E isso aconteceu realmente? — Ele me respondeu completando meu copo
— É claro que não.
— In crônicas de uma velha louca
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