Crônicas de Tasartir
1 Prólogo
Notas iniciais
Espero que gostem.
Com arco em mãos, caminho silenciosamente dentre as árvores à procura de algum rastro suspeito. Observo o chão, e posso perceber que o Outono dá boas vindas quando vejo folhas secas ao chão, particularmente odeio o outono. Folhas secas atrapalham no movimento silencioso, elas tendem a quebrar e acabar com toda uma estratégia.
Meu coração martela doloridamente no meu tórax e sinto minha garganta pulsar. A lua brilha no céu redonda e pálida, parece me observar lá de cima, mas isso não me incomoda. Percebo que no chão não conseguirei nada tão cedo então trato de escalar uma árvore de galhos grossos e observar a área por cima.
Pouco posso ver já que a copa das árvores é densa, mas ao longo vejo fumaça e posso apostar que o combate está fervendo – literalmente – no campo de batalha. Algumas vezes um grito ensurdecedor vem de lá e me atrapalha em minha concentração.
Por alguns segundos me permito me perder em pensamentos e pensar como estão Ephraim e Jude, será que conseguiram sobreviver ao atentado à torre? Será que mesmo depois de tanto tempo juntos eles teriam realmente morrido e me deixado sozinha pra enfrentar a escuridão que a guerra me trás? Sei que prometeram manterem-se vivos, mas no meio de uma guerra não é uma promessa que é fácil de ser mantida. É quase impossível.
Meu coração salta e falha uma batida quando ouço uma folha se quebrar bem abaixo de mim, arfo em surpresa, e espremo meus olhos entre as folhas da árvore. Não consigo ver nada, mas isso não é garantia já que minha visão está muito limitada no meio de tanta folha. Mais alguns segundos em silencio e eu desconfiadamente desço da árvore para ver se há alguém das tropas inimigas invadindo nosso país, mas nada.
Dou uma volta de trezentos e sessenta graus e não vejo nada, ando por quinze metros e cubro toda a área de onde o som surgiu e nada vejo. Começo a relaxar imaginando que talvez seja apenas um esquilo.
Esquilos. Sinto falta de quando meus alvos e vítimas eram apenas eles.
Hoje tiro vidas, não mais por obrigação ou morrerei de fome, e sim por vontade própria.
Hoje mato pais, assim como já fizeram com o meu. Hoje me sinto suja e me arrependo de tanta obcessão.
Hoje é tarde demais.
Meu coração congela em tristeza. O que eu fiz? Estou aqui, alimentando uma guerra que se as pessoas continuarem apostando nunca terá fim. Vejo finalmente que minha ambição de poder acabar logo com toda essa dor e destruir o país vizinho é inútil. Ah, eu me arrependo tanto, e se pudesse faria tudo novamente. Vendo de perto, pessoas, mesmo que de raças diferentes pedindo para que eu poupe suas vidas, pois estão ali obrigadas, crianças que são forçadas a entrar na luta, pois o governo de lá é quase tão sujo como o nosso. O que estou pensando? Estou tendo misericórdia pelo inimigo? O inimigo que tirou a vida de meu pai, e o amor de meu coração, não merece misericórdia. Mas ainda sim, o inimigo não são os soldados que lutam aqui por um bem comum. O inimigo está lá, sentado em um trono foliado a ouro e de almofadas de seda, apenas movendo os bonequinhos no mapa da fronteira. Esses bonequinhos, eles são vidas, sabia? Não é justo. E mesmo o inimigo é como nós, ele é exatamente como nós, e só quer acabar a guerra exatamente como nós queremos. E o único motivo para ela continuar de pé, são os dois senhores feudais. Os dois velhos mais egoístas que sujam o mundo de sangue de inocentes, os únicos culpados por toda a dor e escuridão que assola o mundo. São eles que merecem estarem mortos, não soldados inocentes!
– Finalmente! – Ouço uma voz feminina extremamente aveludada e cheia de ternura. Não me assusto, porém. Meu coração se acalma e a frieza se esvaiu, suspiro pesadamente e me viro para onde a voz saiu. Vejo ali então uma figura luminosa, e pouco me importei se chamaria a atenção de algum soldado inimigo, ela é tão linda. Veste um vestido branco extremamente longo que mesmo arrastando no chão mantêm-se perfeitamente intacto. Sua pele é tão perfeita que me dá uma vontade extrema de tocá-la, mas a única coisa que me chama mais a atenção que isso é sua expressão. Dolorida, mas no fundo de seus olhos vejo esperança.
– Etain? – Ouso em perguntar, e logo depois a pergunta pareceu tão idiota em minha cabeça. Etain está morta, e é por causa de sua morte que o mundo está morrendo também. Sua alma fora desfragmentada em mil pedaços, como poderia estar ali, em minha frente? E principalmente, porque eu? Porque a Deusa apareceria para mim? O ser mais sujo e egoísta que habita este mundo? Até mesmo mais que os senhores feudais.
– Sim, filha. Você está pronta, meu amor. Eu vim lhe buscar.
Minha garganta se fecha em surpresa, hey... Eu estou morta?
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