Crônicas de Overly Fills

5 A Lenda Urbana de Jugular — Parte IV


Notas iniciais
Nesse capítulo me empolguei um pouco por isso que certas partes nem parece que está no formato "diário". Espero que valham seu tempo.

23 de Julho de 1872

É, pois, difícil levar uma vida sem turbulências quando se tem ciência de um grande segredo; e principalmente quando você é um dos pouquíssimos que sabem. Por outro lado, mesmo se algo escapar da minha boca, há 50% de chances de as pessoas não acreditarem mim. Seja esse ou outro caso, eu me conformo com isso. Na pior hipótese, é acontecer um caos no bairro, com o povo descrendo no jornal e supondo que todas as notícias anteriores eram falácias para esconder a verdade.

Sei que John não fará tal tipo de coisa, mas não digo o mesmo quanto a Robson. Ele que, se mergulharia no mar da difamação para ser reconhecido, mesmo que negativamente, sem dúvida deve estar neste momento falando de tal caso ao prefeito. E este vai ter maus olhos com ele se Robson realmente fizer isso.

Como previ, Robson veio até minha sala dizer se vou contar sobre o que está havendo na área rural nos relatórios. “Não”, eu disse, e ele ficou em silêncio por uns segundos se lamentando por eu não ter dito o que ele queria que eu dissesse.

“Mas precisamos falar do perigo que as pessoas correm! Além do mais, nós podemos encontrar um meio de abater aquela criatura. É matar dois coelhos com uma pedrada.” Ele replicou. Porém, continuei defendendo minha decisão de que “É melhor evitarmos um caos do que trazer um progresso com desordem.”

Ele tirou os braços de minha mesa e se virou pra porta, com uma expressão indecifrável, saindo da sala.

Com isso eu concluo: Vou me retirar de Overly Fills.

24 de Julho de 1872

Hoje o Thiago veio até minha casa, conversar sobre assuntos diversos: trabalho, vida pessoal, entretenimento, atualidades etc.

Em um dos assuntos, eu disse pra ele que planejava sair de Overly Fills, e consegui sentir a aura pasmada dele enquanto olhava pra parede de minha sala. Sim, ele foi pego num momento pensativo, quando ainda não voltou seus olhos para mim, e eu disse, “Eu vou para Jugular”. O ser travou segurando o copo de água quente.

“O que pretende?” ele disse.

Eu fui contra o que escrevi anteriormente, “Aqui em Overly Fiils não é seguro. As pessoas não sabem das estranhezas que ocorrem na floresta de Tibaland, que podem vir chegar até aqui, na cidade.”

Surpreendentemente fugindo da questão mais intrigante, “E você acha que ir para Jugular resolverá as coisas?” ele me indagou.

Eu sabia o que queria, e disse a ele que estava fazendo isso não por mim. Disse-lhe que se pudesse e quisesse, viesse comigo para Jugular e passasse a morar lá. Infelizmente, ele recusou minha proposta. Juro que surgiu em mim um impulso de agarrá-lo nos ombros e sacudi-lo gritando no seu zigomático: “Você vai morrer se ficar aqui!!”. No entanto, me contive. Não estou no mesmo nível de obsessão que Robson e John; mas, é um caso que há vidas em jogo.

25 de Julho de 1872

Hoje foi um dia especial. É o começo da minha jornada. Na prefeitura, eu cheguei arrumado como de costume, o uniforme habitual, e fui diretamente para a sala do prefeito. O segurança tentou entrar no meu caminho mas avisei-lhe que foi o prefeito quem havia me chamado. Estava confiante e decidido no que faria da porta em diante, até que vi Robson debruçado na mesa do prefeito, virando seu rosto pra mim, sério. No mesmo instante, disse

“Eis o homem!” estendendo a mão esquerda ironicamente.

Confesso que minha máscara de confiança quebrou-se ao ouvir isso. O prefeito estava, senão sério, duvidando de ambos de nós, mesmo sem eu ainda ter aberto a boca para falar alguma coisa.

“Não.”, foi o que lembro de ter saído da minha boca.

E andei mais um pouco até chegar na mesa dele, num paralelo com Robson, olhando dentro do crânio oco do prefeito podendo ver no seu fundo o parietal,

“Peço demissão.”

O prefeito levou a mão até o queixo e ficou esfregando o indicador, na parte inferior do crânio, reflexivo e disposto a engolir a minha decisão. Lembro que quando ia virar-me para me retirar do local, Robson abruptamente me puxa pelo antebraço e,

“Ficou louco?!”

“Você sabe que essa é a decisão mais sensata a se tomar no momento”, e puxei meu braço de sua mão, ajeitando a manga e o colarinho do paletó. Não obstante,

“Espera aí... Como assim a mais sensata? O que estão escondendo?”, o prefeito ficou curioso sobre. É um assunto interessante, agora que paro pra pensar. Mas nada mais é que semelhante a um conto de fadas. Depois de dito do que se tratava,

“Hmph! Eu só acredito vendo. Enquanto não me trazerem provas concretas não autorizarei a publicação de tal matéria. Está entendido, Robson?”

O final da conversa que eles tiveram já não era mais da minha conta. Saí do estabelecimento e fui para casa. E essas foram as notas que transcrevi desde que sentei-me na cadeira da escrivaninha.

***

Vou ligar para o John. Preciso saber se eles estão bem depois do ocorrido. Acredito que esta é a única forma de me desculpar com eles.

26 de Julho de 1872

Ah, por sorte aqui na casa do John tem um pequeno quartinho onde posso escrever as minhas notas do dia. Atualmente estou morando aqui, na casa do John, ou devo dizer, “a casa da dona Emília”. Fico sinceramente agradecido por eles me permitirem passar a estadia aqui, me tratam como se eu fosse da família, e me deixaram a vontade, mesmo depois do que houve.

Fui lá fora um pouco para andar pelo campo. Os matos são grandes, chegam a cerca de 30cm das minhas pernas, e nos fundos da casa tem uma cerca de uma madeira amarelo queimado. Julgo que sirva para separar o rebanho, já que os demais animais estão do outro lado comendo a grama.

Era de manhã isso, quando, depois de algum tempo, Emília me chamou para almoçar. No campo, assim como quando eu era mais jovem, não é sempre que comemos carne boa.

Emília cuspiu uma meia risada, se desculpando, “Não repare, é só o que temos pra hoje.”

Eu falei que não há problema, eu entendo a situação. John que, abastece a casa, passava por maus bocados desde a perda do filho. E sem um osso da perna, não conseguia andar direito correndo o risco de se desequilibrar e se desfazer no meio do mato. Imaginando a situação, suponho como seria cômico ele pedindo ajuda e alguém não conseguindo encontrar seus vestígios naquele mato ocultante. Na cidade isso seria uma coisa de motivo de riso, mas não, não é engraçado.

Também, John diz sentir uma sensação estranha na patela que está sem a fíbula. Eu o pergunto o que quer dizer com isso, e ele responde,

“Uma irritação, um aperto interno na patela. Não sei descrever direito. É como se duas pessoas estivessem esmagando o osso.”

“Vá a um doutor amanhã de manhã” eu repliquei.

Previsivelmente, John retrucou rejeitando o meu palpite. Seu orgulho, ou melhor, desprezo pelos urbanos o faz ter esse tipo de atitude mesmo em momentos preocupantes como o que aconteceu nessa hora. E enquanto ainda escrevo isso, o coitado está dividindo a dor da perda do filho com essa sensação estranha na patela.

27 de Julho de 1872

Um grande homem falou uma vez: “A miséria e a pobreza moldam o artista.” E isso se aplica a como despertei hoje. No momento que estava no mais fundo patamar dos meus sonhos, pelo que lembro, fantasiando que havia uma espécie de capacidades sobrenaturais em mim, ouço um grito que retumba no meu ouvido, fazendo-me pular, literalmente, do pequeno colchão arrumado para me abrigar aqui no quartinho. Tamanha o grito da mulher que foi proporcional ao meu impulso, corri até a sala para ver o que se passava.

Estilhaços do prato branco no chão e sangue. Sangue do John. Minha visão foi se elevando do prato quebrado até a cadeira na mesa, e ao pé de quem estava sentado nela, vendo aquele suculento líquido vermelho vazando do buraco feito por um dos fragmentos do objeto, numa coisa estratificadamente orgânica. Era um pé vivo. Mais que isso, era o pé de John.

Olhei para a Emília. Ela me venceu no abismamento. Punha as duas mãos na boca, mas já era tarde; já havia ouvido o grito.

“Aah...” John suspirou, se curvando para tirar o pedaço de vidro do seu pé, vivo. E ao arrancar o fragmento num puxão, deu um pequeno gemido como de quem sofre por algo.

“Aaah!! Como arde! Como, como... como dói!!”, eu senti seu esforço em tentar descrever a sensação nova que sentia. Neste instante, eu já sabia do que se tratava: uma perna de um vivo estava no corpo de John, junto com sua parte esquelética; com isso, essa parte diferente do corpo por conseguinte adquiriu propriedades alheias e desconhecidas por nós.

Então essa era a “tal” sensação estranha do dia anterior. Era “dor”. Mas como, como é “dor”? Ardência? Sofrimento? Desgraça? Pesar? Mesmo se me dissesse “dor”, simplesmente “dor”, eu não saberia o conceito dessa “dor”. Por outro lado, a dor de perder o filho, alguém querido com quem sempre esteve contigo, e além, aquele quem você deu a vida; mesmo sem nunca ter criado um filho eu simpatizo com esta dor, mas essa “dor”... é diferente.

Agora que penso, quanto os vivos devem sofrer ao serem mortos por nós? O que eles devem sentir enquanto são esquartejados, esfolados, e comidos por aquele monstro de Tibaland?

Estou tentando retomar os pensamentos que tive naquele instante. Era como se um mundo completamente novo fosse apresentado a mim, uma verdade revelada na hora errada, mas fui interrompido pela Emília me sacudindo, indagando: “O que fazemos?”

“E-eu não sei.” Respondi.

“P-peguem água. Peguem água! Água! Rápido, eu preciso de água.”

Emília me falou que nos fundos havia um balde d’água, e fui como um tiro buscar. Entornei a água na perna viva, fazendo aquele líquido vermelho, o sangue, se misturar e sumir com a água. As reações de John por si só mostravam o que sentia; no instante que entornei a água, ergueu a cabeça para o teto em alívio, conforto e satisfação.

“Meu Deus, como isso foi acontecer?!”, Emília perguntou, pasmada.

“Não me pergunte. Só sei que agora eu posso matar aquela maldita criatura!” John respondeu indiretamente a sua pergunta, se levantando da cadeira apoiado naquela perna de vivo.

“Opa! Cama aí, como assim? Você não pode ir lá e arriscar sua vida pra nada. E a sua mulher, a Emília, não pensa nela?” falei repreendendo-o.

“Dessa vez será diferente. Eu tenho essa anormalidade que pode me ajudar a enfrentar aquele demônio.” John teimosamente continuou retrucando.

“Não faça isso comigo! Já não basta o Roger... agora você?!!” Emília gritou, já quase em prantos. Pensei em me intrometer e ser mais participativo na discussão, mas não quero me envolver com problemas familiares de outras pessoas...

O resto dia foi passado comigo fazendo pequenos experimentos com essa perna viva, observando-a e analisando-a, como reagia a certas influências, porquê se comportava de tal jeito, etc. Mas no fim, não obtive resposta.

“Não tente imitar aqueles caras...” disse John.

Dou uma risada envergonhado, terminando “Desculpe. Eu sou um escritor. Preciso experimentar essas anormalidades e observar como elas se comportam.”

28 de Julho de 1872

Fui o primeiro a acordar nesta manhã de sábado, a fim de não ser interrompido caso viesse um sonho de meu gosto. Devo dizer que, são assim os sonhos. Numa hora você está sonhando uma coisa, e na pequena ameaça de despertar que você volta a dormir, perde o sonho e relembra dele para retomar de onde parou, você já está em outro sonho; sem ser de uma maneira metafísica. Por isso, eu acordei cedo, ou assim pensei.

Quando pisei na sala John já estava com a escopeta na mão, pronto para sair. Provavelmente estava tão determinado que nem sequer notou minha presença ali. E eu, que estava ainda um pouco zonzo por ter levantado da cama não fazer cerca de 3 minutos, só depois de alguns segundos fui perceber o desenvolvimento de sua anormalidade.

No que chegava à minha visão, John estava num meio termo entre vivo e morto. Com somente da sua cintura pra cima, esquelético, as duas pernas e os punhos estavam em pele e carne.

“John! John!!”, andei rápido até ele, ainda um pouco desacordado, erguendo a minha mão direita em direção ao seu ombro esquerdo. Mas, não ouvi resposta. Apenas o barulho do carregamento da arma, preparando a munição no interior da escopeta.

“Onde você pensa que vai?!” gritei da porta de sua casa.

“Pegar a minha recompensa.” Ele disse, indiferentemente.

Eu desci a pequena escadinha as pressas e corri descalço pisando naquele gramado, gritando “Espera!” até alcançar John, que virou-se me empurrando com seu braço esquerdo enquanto o direito segurava a escopeta. A força foi tanta que me fez cair, mas não me descontruí.

“Não fale para a Emília.”

“Você quer morrer?! É isso?! Se é isso não tem problema, vai fundo...” gritei me erguendo enquanto me apoiava no joelho e me limpava da sujeira, “Mas saiba que isso gerará mais mortes! É isso que você quer?! Essa é sua finalidade, trazer mais mortes para sua família?!”

“Olhe pra mim Sam... Você acha que nesse estado faz diferença eu estar morto?”

De fato, no seu estado atual eu já não sei dizer se ele é uma criatura viva ou morta. E com isso, enquanto eu ponderava sobre o assunto, John continuou andando e entrou na floresta. Estava sem palavras para fazê-lo voltar, além de que não me atreveria a entrar em Tibaland a sua procura. Neste momento, John já me era dado como morto. No entanto, como eu fui dizer isso à Emília? Eu não disse. Voltei a dormir quando retornei. Suponho que ao acordar ela deve ter estranhado a ausência de John, por isso foi me procurar, perguntando-me se ele falou pra onde foi. E eu retruquei

“Ele foi procurar um doutor. Disse que já não aguentava mais a dor e foi para a cidade buscar ajuda. Até amanhã ele deve voltar.”

Sim. Eu sou o maior dos mentirosos.

Notas finais
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