Crônicas de Overly Fills
6 A Lenda Urbana de Jugular — Parte V
Notas iniciais
29 de Junho de 1872
Antes de qualquer coisa preciso confessar que hoje me encontro numa segunda-feira, mas o que será escrito aqui relatará o que houve no fatídico dia de domingo, devido o valor tão grande desse dia único. Referente às notas que serão escritas aqui, espero que alguém com mãos sábias faça um bom uso desse texto. Meu camarada e companheiro Thiago, o que transcreverei a seguir é de fato digno de incredibilidade e que vossa pessoa terá dificuldade em exercer tamanho discurso convencedor às autoridades que eu, felizmente, espero que lhe ouçam e abram os olhos. Mas por mais que possua um teor fantástico, tenha fincado profundamente no pensamento que isto dependerá de seu e o meu esforço para que seja evitado uma tragédia maior. Pense bem, meu amigo, se tudo der certo, é certo de que se há um Deus existente ele fará com o que nossos nomes sejam lembrados, até na geração de nossos bisnetos.
Agora, com todo o respeito, como bem sabe, eu passei tais últimos dias na estadia da casa de Dona Emília testemunhando eventos anormais que ocorreram tanto em Tibaland quanto no aposento da dita cuja.
Depois que o sábado findou e ambos fomos para nossas camas, na esperança de que John voltasse, ouvi gritos vindo do interior da floresta. O senhor sabe que sou um cético quanto a certas coisas, mas também não tenho uma busca afincada com a ciência e a física da nossa realidade. Por minha parte, é incerto se Dona Emília ouvira os mesmos sons que a minha pessoa, mas que ouvi, ouvi, pois não estava sob efeito de nenhum fator externo. Entretanto, uma despreocupação irracional tomou conta de mim, tanto é que foi minha amiga para ter uma boa noite de sono, que viria me abastar para a correria do dia seguinte.
Já na parte matutina, ficara em dúvida sobre o que fazer dali em diante. Ressalto que Dona Emília ainda permanecera desacordada, não queria acordar a humilde, mas havia de fazer algo para tirá-la de toda essa confusão. Confusão esta causada por minha pessoa. A culpa não me poupava. Tudo isso aconteceu por um erro meu, quando me responsabilizei pela vida de Roger e a deixei escapar de minhas capacidades.
Fui perambular pelo campo, ir até a casa dos vizinhos, observar o rebanho, medir a área, passar o tempo para esperar o retorno de John. Mas e se ele estivesse morto? E se ele tivesse êxito com a criatura? Essas questões passaram rapidamente na minha consciência, mas logo as descartei. Uma era a hipótese mais tenebrosa, a outra era feliz, apesar das circunstâncias, porém muito improvável.
Embora a natureza de todos esses fatos em si fossem improváveis, fui ter na casa do vizinho que me estava mais próxima. Subi a escadinha e dei dois toques na porta. Tentei olhar se havia alguma placa especificando o nome da família, e vi que era os Morks. Família Mork. Dei mais duas batidas. Ninguém viera me atender, mas ouvia sons vindos do interior. Ousei mexer na maçaneta, e descobri que a porta se encontrava aberta. Meu senso de perigo estivera tão baixo, que poderia ter sido morto ali, ao examinar o local recém-vítima de um tufão e vê John completamente abatido num banco de madeira. Corri num ímpeto frenético, peguei e o levei até a casa de Emília. Agora a Dona já se encontrava acordada, passou-se duas horas desde o meu passatempo. Ela me avistou e correu pra dentro pasmada e preparou o local para receber o enfermo John.
Acredite ou não, John não poderia mais ser considerado um de nós. Não gostaria de me atrever a descrever a fisionomia da figura, mas os biólogos certamente farão questão de ter os menores detalhes transcritos. Pelo bem da ciência: somente de seu hioide ao extremo oposto do crânio, ainda estava em exposição o seu ser. Do início da clavícula até os pés, era uma outra pessoa. Para a veracidade do fato, Dona Emília inocentemente me indagou por que socorria o moribundo, e eu respondi que na verdade aquele era seu marido. Havia matemática no seu espanto.
Levamos o corpo de John até o seu quarto, e lá ele ficou até a hora em que acordasse e abrisse a porta. Eu e Emília permanecemos na sala sem nos dialogar pois não havia um assunto sequer que não despertasse maus presságios. Não nos custou persistência para esperar o senhor tempo, e na hora certa, enfim John mexeu na porta. Ao mostrar o seu estado através da peça de madeira, finalmente me veio: estamos mortos.
Parecia que o anjo da morte havia me feito uma visita e mandado uma mensagem de que os meus dias haviam sido contados, mas eu trapaceei a morte, e consegui escapar vivo. Como pagamento, não pude salvar Dona Emília, que não teve colhões para questionar a pessoa com quem tanto tempo viveu. Ela, que mais sentia por tudo o que tinha acontecido, mesmo que eu diga que a minha culpa era colossal, ficara num misto de contentamento, felicidade e tristeza, incomparável, pronta para desabafar tudo no novo John, e sua inocência causou a sua morte.
Quanto a morte dela, não tenho muito o que falar. Sinto muito, doutores, mas naquele instante já me encontrava tão longe do seu aposento que não acreditava serem minhas as pernas que me levaram até tão longe dali. Mas no entanto, baseado no que ocorrera na casa dos Morks, o animal que estava comendo um a um dos vizinhos, penso eu, era John. Não há ciência que explique a natureza de seus atos nem de como ele veio acabar daquele jeito. De certa maneira possui um aspecto místico, sobrenatural em todo esse rebuliço, mas prefiro não acreditar que seja obra de forças desconhecidas por nós.
Tais pernas que me tiraram daquele inferno recém-nascido me conduziram ao local certo da minha jornada: a casa de Anne. Felizmente a porta era de um metal tão maciço que mesmo as minhas pancadas não foram o suficiente para abri-la à força. Anne passava bem, por Deus. Tudo o que me ocorreu até então chegou aos ouvidos dela, e ela, como qualquer outro, duvidou de minhas palavras. Mas minha consciência já se encontrava em modus operandi, tanto é que minhas mãos também não pareceram serem minhas e agarraram Anne com tal força que em nenhum momento ela foi largada até o ponto do bonde e na descida do mesmo em Jugular.
Minhas únicas ferramentas eram uma caneta, um lápis, um caderninho e uma carteira com dinheiro o suficiente para alugar um quarto num hotel. Foi então que sinalizei ao táxi e fui até o hotel mais longe de Overly Fills em Jugular. Passamos a estadia lá pela noite, e hoje eu contei à Anne os fatos ocorridos em Tibaland. Expliquei o perigo que se passa em Overly Fills. Mas foram palavras milagrosas, vindas de uma retórica que nem Platão conhecia, que me permitiu persuadi-la a ficar e avisar aos seus pais, mentindo, que tornaria comigo a Jugular.
Os pequenos costumes cotidianos a seguir não valem a serem citados, camarada Thiago, mas saiba que foi pouco depois desse momento que comecei a escrever essas notas. Espero com muito orgulho que isso lhe alcance, e que traga alguma mudança para Tibaland. Não obstante, creio que o que se alastrou em Tibaland será o bastante para tornar o caso notável.
— seu amigo, Samuel K. Ernest
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