Crônicas de Guerra

3 Capítulo 3 - Bicolores


Capitulo 3: Bicolores

- Mas que d...?

- Que aconteceu?

- Acendam a luz!

- Droga, logo agora?

Palavras como essa foram entoadas várias vezes enquanto ainda havia escuridão no local. As pessoas tateavam em busca de um apoio seguro em meio a falta de luz. Estavam todos surpresos, pois queda de energia era algo relativamente raro no século em que estavam.

Cerca de dez minutos se passaram em trevas, até que a eletricidade voltou a correr nos fios que ativavam as lâmpadas. As pupilas dos cientistas arderam com a súbita luz, rapidamente se ajustando à claridade do recinto.

- Estão todos bem?

Susan, a única mulher do grupo, faz a pergunta correndo os olhos rapidamente pela sala. Alguns acenam positivamente com a cabeça, outros pronunciam "sim", enquanto outros parecem nem ter ouvido a mulher dizer algo.

- Thiago — Mark chama um dos seus empregados - Vá até os fundo e veja se consegue descobrir o que aconteceu. Dê uma olhada no gerador também.

- Sim senhor — Thiago saiu no momento seguinte. Ele voltaria mais tarde, sem nenhuma resposta para seu chefe.

- Thomas? Algum problema com E-001?

Mestre Thomas estava olhando para mim através do vidro transparente, pensativo. Tanto que Mark precisou chamar-lhe uma segunda vez.

- Hm? Ah, sim sim. Acho que a pane não afetou a cápsula.

Mark pareceu aliviado por um instante. Thomas reparou.

- É? Bem, tudo bem então. Acho... Acho melhor deixar para abrirmos a cápsula amanhã, que acham?

A resposta não veio. Todos os outros ainda estavam ligeiramente chocados com o ocorrido, como se tivessem acabado de acordar e ainda estivessem sonolentos. Thomas foi o único que concordou.

- Creio que seja o mais adequado. Pode ser arriscado despertá-lo depois dessa queda de energia.

- Sim, é realmente o melhor a fazer — Mark, que estava olhando para Thomas, vira-se então para os outros — Bom pessoal, vamos voltar para nossas casas. Amanhã será um novo dia, e um a mais ou a menos não fará diferença.

Ditas essas palavras, todo o grupo começou a reunir seus pertences pessoais para ir embora. Todo o local ficou então deserto, exceto por dois seres viventes. Uma deles era Mark, tentando ainda entender qual foi o motivo da queda de energia. O outro era eu, ainda dormente em minha cápsula. Mark, quando estava para ir embora, pára em frente a ela e contempla seu interior. Uma enorme satisfação estufa-lhe o peito, ao mesmo tempo em que sorri presunçosamente.

- Feh, agora falta pouco.

Quando finalmente se prepara para partir, passa os olhos no painel na lateral do vidro. Os vários LEDs, que indicavam o sucesso ou não do exame em mim, estavam todos verdes. O cientista exibe seu sorriso mais uma vez, mas logo o desfaz. Subitamente, um dos LEDs torna-se vermelho, queimando em seguida.

Logo pela manhã seguinte, toda a equipe se reuniu para, enfim, ativar "E-001". Estavam todos muito ansiosos, principalmente depois dos eventos ocorridos na noite anterior. Mas Mestre Thomas parecia mais que ansioso. Estava preocupado e... com medo.

Reuniram-se então ao redor de uma cápsula de contenção (Misteriosamente com todos os LEDs em verde), e o Mestre, ligeiramente trêmulo, ligou meus sistemas.

Eu abri os olhos, e Mestre Thomas se assustou ao olhá-los. Algo lhe chamara muito a atenção.

- Seus olhos... — Pensou ele.

Eu fiquei ali por um tempo, parado dentro da cápsula, apenas correndo os olhos de uma pessoa para outra através do vidro transparente. Não sei quanto tempo ficamos nisso, até que Thomas abriu a tampa que me detia lá dentro. Os outros cientistas apenas observavam atentamente, em especial Mark, que se mostrava nervoso, mas muito feliz.

Em seguida, eu pude sentir energia correr por meus membros, e comecei a me mexer. Saí da cápsula, embora alguns fios e cabos ainda ligassem meu corpo a ela, e fiquei em pé, bem em frente ao Mestre. Era estranho... Naquele momento tinha consciência que era eu ali, que eu estava vivo. Mas... Não sei explicar, era como se eu estivesse também hipnotizado. Ainda não conseguia fazer as coisas por mim mesmo.

- E-001? — O Mestre me chamou, e olhei fixamente em seus olhos. Mestre Thomas engoliu o seco nessa hora. Pude sentir que ele estava deveras preocupado — Está... Me ouvindo? Você pode me ouvir?

Tentei encontrar palavras para responder, mas eu não conseguia falar. Após segundos de tentativa, pude apenas acenar positivamente com a cabeça. Os outros cientistas se olharam, e começaram a bater palmas para eles mesmos. Mestre Thomas pediu por silêncio, e continuou a falar comigo.

- E-001, você sabe o que é você? Tem consciência de quem é?

Mais uma vez tentei dizer algo e, embora meus lábios tivessem se abrido, de novo consegui apenas acenar positivamente.

- Sim, nós já lhe demos essa informação. Você é um "Reploid", e nós somos seus criadores.

- E ele é seu "Mestre" — Instintivamente, meus olhos se repousaram em Souza, que apontava para Thomas, sorrindo docemente. — Agradeça a ele, E-001. Ele é seu mestre e "pai". Seu projeto veio desse homem, Thomas.

Novamente me virei para Thomas. Meus lábios se abriram mais uma vez, e finalmente consegui pronunciar uma palavra.

- Mes...tre?

- Ele fala! — Os cientistas comemoraram — Então, ele está perfeito!

Mas eu não estava. O detalhe que chamara a atenção de Thomas quando abri os olhos o preocupava cada vez mais.

- Como se sente, E-001? — Perguntou ele. Eu nada disse.

- Responda, E-001. Como se sente?

Mark estava mais ao fundo, encostado numa das mesas usadas nas pesquisas. Ele falou alto e imponente, mas de novo não fui capaz de dizer mais palavras.

- O dispositivo de voz... — Começou Susan — Será que deu algum problema?

Não era isso. Naquela hora, eu não consegui dizer mais nada. É como se eu tivesse travado, embora meus sistemas ainda funcionassem. Mestre Thomas me olhava com atenção, como que procurando algo além da superfície de minha armadura.

- E-001, vou desativá-lo. Você não parece estar em perfeitas condições — O Mestre foi até o painel de controle da cápsula — Você ainda está conectado, portanto ainda é possível desligar você. Você poderia, por favor, entrar para fazermos alguns testes?

- Thomas! — Mark chamara-lhe a atenção. Seu corpo antes relaxado ficou em riste — Que pensa estar fazendo? E-001 mostrou-se perfeito. Não há razões para submetê-lo a mais testes.

Mestre Thomas olhou para seu chefe. Encarou-o por alguns segundos, e novamente se virou pra mim.

- Por favor, faça o que peço.

Eu olhei em seus olhos, e minha face até então inexpressiva fez-se duvidosa. O Mestre então falou muito dócil, com um sorriso quase bobo.

- Não se preocupe. São apenas alguns testes, logo você poderá voltar.

Eu o encarei por segundos, mas ele manteve seu sorriso sereno. Algo ocorreu dentro de mim. Não há palavras que expliquem isso mas, naquele momento, senti podia confiar naquele homem. Então eu sorri de volta, entrando na cápsula em seguida (Ainda que no fundo não desejasse). A tampa se fechou novamente, e adormeci. Fui desativado.

- Thomas, que está fazendo? — Mark caminhava rapidamente em direção ao Mestre, usando um tom de voz zangado - Por que fez isso? Ele estava perfeito. Se acha que é porque ele não dizia nad--

- Não é por isso — Thomas interrompeu-o. Sua voz se mostrou muito angustiada - Não é porque ele não falou. Isso é normal, é uma espécie de choque que reploids geralmente sofrem quando acordados. É questão de tempo até que ele acostume com a vida e comece a falar normalmente.

- Então?

- Seus olhos. — O Mestre se apoiou na cápsula, com uma expressão de extrema preocupação — Seus olhos estavam vermelhos, mas deveriam estar roxos. Não entendo, até o ativarmos, ele tinha olhos roxos.

- Os olhos? — Mark parecia indignado — Você o desativou por causa da COR dos OLHOS?? Ah, faça-me o favor...

- Escute. Eu tentei fazer seus olhos roxos.

- E?

- Você não viu? Estavam vermelhos! Algo está errado, tenho certeza.

- Pelo amor de Deus, todo esse drama por causa de CORES? Ele funcionou, não funcionou? Ele até mesmo falou conosco. Que problema pode haver em relação à cor dos olhos?

- Direi amanhã. Quero fazer análises nele e tentar descobrir o que de fato ocorreu, por isso o desativei enquanto ainda podemos.

- É bom que sim. Quero ver ele funcionando sem esses cabos amanhã a noite mesmo, e nem um dia a mais.

Os outros estavam tão aturdidos com a discussão que nada falavam. Mas todos foram capazes de perceber a entonação usada por Mark na última frase. Mestre Thomas o olha com atenção, e Mark percebe que falou algo claramente estranho.

- Por que está tão interessado? Não deveria estar eu assim ao invés de você?

- Eu... — Mark engoliu o seco — Eu apenas quero saber o quanto as Células Nano estão interagindo com ele. Todos trabalhamos nisso e queremos ver logo seus resultados.

Mestre Thomas olhou bem fundo nos olhos de seu chefe. Mark evitou o olhar, pegando seus pertences pessoais e se dirigindo a porta.

- Estou indo. Vejo vocês amanhã a noite. — E se foi.

Mestre Thomas olhou atentamente seu chefe, até ele cruzar o portal e desaparecer. Os outros ainda estavam estupefados com a discussão, e teriam conversado com Thomas para ampará-lo, se ele não tivesse proposto que todos fossem para suas casas descansar depois desse dia tão longo. E assim fizeram.

Mestre Thomas foi o primeiro a chegar no dia seguinte, se levantando antes mesmo do próprio sol. Com sua cópia de acesso, entrou no laboratório e pegou todos os papéis que envolviam os projetos unificados, meu corpo e a nova tecnologia. Ao mesmo tempo colocou o programa da cápsula para rodar e fazer um exame minucioso em mim.

Logo seus companheiros foram chegando, e assim a checagem foi ganhando reforços aos poucos.

Quando Ben, o último dos cientistas chega, já era quatro horas da tarde. E absolutamente nada de errado foi encontrado. Mestre Thomas começou a se sentir culpado

- Eu deveria ter acompanhado a ultima etapa... - Pensava o mestre em seu interior, com o pesar de sua consciência aumentando cada vez mais — Não deveria ter deixado os outros adaptaram as Células Nano nele sozinhos...

Seis horas da tarde, e ainda nada havia sido encontrado. A checagem da cápsula continuava, e ela não apontava nenhum erro. Mestre Thomas estava começando a ficar nervoso, ao passo que o tempo se expirava. Decide então olhar as plantas de meu corpo, embora soubesse que ali não poderia haver erros, uma vez que quem havia as feito era ele próprio. Curiosamente, porém, não as acha.

- Mark pegou para analisar, Thomas — Disse Thiago, quando o Mestre perguntou sobre seu paradeiro — Deve estar no meio dos papéis dele.

Mestre Thomas estranhou. Por que Mark iria querer as plantas do corpo, se o que realmente lhe importava era a tecnologia? "Bom, isso não importa agora", pensou Thomas. Sabia que Mark havia proibido a todos de mexer em suas coisas (como compensação pela sociedade), mas não podia esperar o chefe chegar. Foi então pegar as plantas, que estavam em cima de todos os outros papéis da mesa de Mark. O Mestre pegou então, e ia voltando ao trabalho, quando reparou numa carta não havia visto num primeiro momento. O endereçado era Mark, mas não havia remetente. Mestre Thomas ia pegando-a, quando sem querer chutou a cesta de lixo, cheia de papéis. Ignorou o fato, e pôs-se a ler a carta. Estava em código, mas Mestre conseguiu deduzir a primeira frase: "Escrevo por carta, pois os meios normais estão sendo vigiados".

Após peça a peça, conexão a conexão e cabo a cabo serem analisados sem nada ser encontrado de errado em mim, a noite chegou, assim como Mark. Logo que entrou no laboratório, Mestre Thomas se dirigiu a ele, com um olhar furioso.

- Precisamos conversar. Em particular.

- Sobre?

- EM. PARTICULAR.

Mark espremeu os olhos.

- Depois. Acharam o erro?

- AGORA, Mark!

O cientista olhou fundo nos olhos de Thomas. Em seguida deu-lhe as costas.

- Souza, acharam o erro ou não.

- AGORA, MARK!

- Escute aqui — Mark virou-se de novo, furioso - Sou seu chefe e exijo respeito. Não sei qual é a frescura da vez, mas DEPOIS-CONVERSAMOS!

Mestre Thomas se calou. Não por medo, pois não havia nada que Mark pudesse fazer contra ele, mas sim por conveniência. Quando Mark gritou, percebeu que realmente não adiantava discutir naquele momento. A contragosto, decidiu que era melhor que se falassem quando ambos estivessem mais calmos.

- E então, acharam o erro ou não?

- Não. — Mestre Thomas fez questão de responder, ainda que a pergunta não tenha sido direcionada a ele - Não conseguimos.

- Muito bem. Significa que ele está ok. Abram a cápsula e acordem-no de novo.

- Mark — Mestre Thomas pareceu esquecer o ocorrido a segundos atrás, e voltou a se preocupar comigo — Mark, eu insisto. Não conseguimos encontrar nada, mas sei que algo não está certo. Ainda há muito a ser checado, a própria cápsula não terminou o exame. Por favor, dê-nos mais tempo para analisar ele melhor.

- Não Thomas. Sei que você procurou, e se não achou nada, está tudo bem. Vamos, desperte-o.

- Mark, tente entender--

- THOMAS! — Mark elevou de novo sua voz — Não me faça repetir.

O Mestre não disse mais nada. Com pesar, interrompeu então a checagem da cápsula e ligou mais uma vez meus sistemas. Abri então os olhos. Todos, sem exceção, se assustaram.

- Você não disse que não tinham achado o erro? — Mark se virou para os outros - Então, por que seus olhos voltaram a ser roxos?

Mestre Thomas estava chocado. Realmente nada acharam, e tampouco fizeram alterações, em nenhum lugar. "Não entendo...", pensava ele. Mark volta a falar.

- Então, você conseguiu arrumá-lo. Que tipo de alteração você fez?

- Mas eu não fiz nad--

O vidro da cápsula é quebrado.

No momento seguinte, tudo o que eu me lembro, e gostaria sinceramente de ter essa informação apagada, é de olhar de relance para minha mão manchada de vermelho, e de todos correndo, gritando apavorados.

Eles fugiam de mim.