Crônicas da Segunda Guerra Mundial

1 Capítulo 1 - O Sequestro do Soldado Klein


O Estados Unidos da América acaba de ingressar na brutal guerra que assola o mundo. O país americano veio como um sinal de esperança, após mesma sentir a consequência dos horrores daquela que foi considerada até então como a pior guerra que o planeta presenciou. Mas a chama da vitória ficava mais fraca para os aliados. Muitos achavam que após a grande guerra que fez boa parte dos continentes tremerem no período da década de 10, a população iria poder respirar mais aliviada. Entretanto, depois de 20 anos, parecendo que foram apenas 20 minutos, o mundo voltou ao terror.

Tudo graças a Adolf Hitler, um arauto do apocalipse. Seu desejo por poder para que a raça ariana reine por todos os continentes influenciaram governantes, juntando-se ao ditador em uma corrida sangrenta. O que poucos sabem é que na realidade há um motivo mais obscuro nessa matança. Hitler sempre foi um estudioso ferrenho por simbologia e alquimia, e o anseio pela dominação mundial o fez ficar mais focado em seus estudos. Seus generais e pessoas de confiança estavam temendo pela saúde mental do seu líder supremo, podendo afetar o atual sucesso nas linhas de frente da guerra. Porém, com uma reviravolta atordoante para os próprios países do eixo, a Alemanha continuava com sua força na o campo de batalha e os europeus que tentavam confrontar a muralha alemã, continuavam sem sucesso.

A França já estava derrotada e perdera seu território para o nazismo, Inglaterra continuava resistindo, mas suas forças se esvaíam com o decorrer do tempo, EUA iniciava no conflito, mas já sentia o duro golpe do eixo, Rússia tinha sua força, mas o conflito presente no seu próprio povo distraía suas estratégias. Enquanto isso, Alemanha, Itália e Japão aproveitavam e avançavam para novos territórios expandindo sua ideologia e pisando naqueles que se opunham. O exército alemão, apesar de continuar vivendo os terrores das batalhas, já cantavam vitória antes do tempo, e aproveitavam o pouco tempo que tinham de paz, para comemorar suas conquistas.

Saymon Klein era um que já via a conquista do nazismo à sua frente. Seu trabalho era um dos mais simples na atual conjuntura da época: garantir o controle da sociedade francesa que estava a mercê do comando alemão. Porém, em pleno verão francês, não tinha muito o que fazer. O que restava é fumar um cigarro e ficar de papo pro ar com seu parceiro de patrulha.

— Nada como mais uma tarde de verão – comenta Klein.

— Deixa eu te fazer uma pergunta doida. Você sente falta da emoção do campo de batalha, ou prefere o atual momento?

Klein reflete por um momento. Seria uma pergunta fácil para qualquer um, afinal ninguém quer presenciar o festival sanguinário do campo de batalha. Mas, para alguns, que foram moldados para serem guerreiros contemporâneos, essa questão era mais complicada.

— Sinceramente? Sinto falta da ação. Aqui já ficou morto depois que chegamos. Os franceses são muito submissos. Não me leve a mal. É ótimo para o nazismo. Mas cadê o desafio?

— Olha que quem muito deseja, acaba conseguindo.

Como um presente do universo, os dois acabam presenciando uma pequena briga perto de um beco, com dois homens, aparentemente bêbados, dizendo palavras de baixo calão, um para o outro.

— Olha aí! Conseguiu. – Ironizou o soldado.

— Não era bem o que tinha em mente, mas fazer o que né?

Se sentindo ridicularizado por ter que perder tempo com dois bêbados, Klein e seu parceiro vão em direção à briga e acabar de uma vez por todas com a pequena briga.

— Ok vocês dois! Vamos logo parar com is... – No momento que Klein tocou no ombro de um dos briguentos, o homem que, aparentemente, estava bêbado, avançou como um expert em artes marciais, agarrando suas pernas e derrubando o soldado. Pego de surpresa, Klein nem percebeu que, logo em seguida, um punho vinha em direção ao seu rosto. Zonzo, sentiu suas pernas sendo puxadas e, olhando com mais atenção, percebeu que estava sendo arrastado por um beco.

Depois que sentiu seu corpo estabilizar no chão, procurou uma arma para pôr um fim nisso. Contudo, percebeu que já não tinha em seu alcance nenhuma arma.

— Procurando isso? – Klein escutou a voz, olhou para cima e viu seu parceiro. Ou pensava que era seu parceiro.

—Como pôde?! Você não tem vergonha em se justar com essa escória?! – esbraveja Klein.

— A única vergonha que sinto é de ter te aturado todo esse tempo. Mas finalmente tenho certeza de que você tem todas as informações que precisamos para sabermos os segredos que os seus superiores têm consigo.

— Você deve estar sonhando, se acha que eu vou entregar algo para vocês. Eu prefiro morrer a trair minha nação!

Como um sorriso irônico, o dito traidor se aproxima de Klein.

— Quem muito deseja, acaba conseguindo!

Com uma raiva incessante, Klein cospe na cara do traidor. Limpando com um certo nojo, porém, ao mesmo tempo, não querendo demonstrar que Klein subjugou-o, o falso nazista dispara outro golpe em seu rosto, com mais força, para apaga-lo.

— Caramba John! Não foi um pouco exagerado? Agora vamos ter que carregá-lo até o carro. – Esbraveja um de seus parceiros.

— Bom, pelo menos espero que ele fique desacordado até conseguirmos sair da França. – Responde o outro parceiro.

***

John “soneca” Smith era bem conhecido por ser esquentado. Não levava desaforo para a casa. Isso se deve ao fato de a fama de seu pai não ser das boas. Bartolomeu Jones Smith era um grande aviador, que lutou na Primeira Guerra Mundial, venceu inúmera batalhas a serviço da Inglaterra. Mas um erro pode ser fatal. Enquanto estava em uma missão de reconhecimento, Bart Smith se deparou com dois Aviões Fokker. Smith até era habilidoso pelo ar, mas dois contra um era covardia. Tendo que desviar dos tiros de dois aviões alemães, Smith pensava em uma maneira de sair vivo daquela situação. Nesse tempo que ele perdeu para raciocinar já custou caro para o piloto. Levando tiros de metralhadora na traseira de seu avião, Smith tinha que usar todo seu conhecimento para sobreviver a queda.

Por sorte – ou não – o piloto conseguiu sobreviver à queda. Só que, minutos depois, seus algozes do ar apareceram. Smith tinha total certeza que aquele era seu fim, entretanto, ele apenas foi capturado. Ele não sabia naquele momento, mas ele iria ter preferido morrer naquela hora. Horas depois de ser preso, começou uma maratona de torturas que quebraria qualquer um. E foi isso mesmo que aconteceu com Smith. Em uma série de espancamentos, perfurações, e outras medidas que daria pesadelo a qualquer um, ele não tinha outra alternativa a não ser entregar os planos que a Inglaterra tinha até então. Isso afetou drasticamente o exército inglês. Desde a missão de reconhecimento, Bart Smith era considerado desaparecido, até alguns anos depois encontrarem o corpo dele próximo a fronteira da Alemanha. Mesmo apresentando sinais de tortura, o exército inglês o culpou pela série de derrotas que o país sofreu, afinal, ele era um dos poucos que obtinha informações das estratégias inglesas.

Por isso, a vida de John Smith não foi fácil. Sua mãe nunca contou a verdade sobre seu pai. Para ele, Bart apenas sofreu um acidente de avião em uma de suas missões. Mas, o povo inglês sabia que Smith era um “traidor”, graças a um vazamento para a imprensa. John aprendera a brigar na prática, para poder honrar o legado de seu pai, e isso fez com que ele se tornasse um garoto problema. Sua mãe não sabia o que fazer, pois ela sabia que seu finado marido morreu sob tortura nas mãos dos alemães, mas decidiu guardar esse segredo para si, pois temeria que fosse um choque permanente para seu filho.

Mas isso foi um fardo muito grande para ela. Ela sofreu um colapso nervoso quando John tinha 12 anos e morreu, em decorrência de uma isquemia. Por ser de menor, ele teve que ir viver em uma casa de menores, até completar sua maioridade. Com tantos fatalidades e traumas em sua vida, o garoto começou a sofrer episódios de narcolepsia, afetando ainda mais sua vida, que já não era fácil. As crianças do orfanato o apelidaram de soneca, pois nunca era demais tirar sarro da vida do pobre garoto.

Quando John Smith completou 15 anos, ele recebeu uma carta e reconheceu a letra de sua mãe no envelope. Nesta carta, ela detalhou tudo aquilo que ela sabia sobre a morte de seu pai – a batalha no ar, a tortura, o fato dele ter entregado todos os planos para a Alemanha. Isso fez com que uma corrente de emoções passasse pela sua cabeça e coração. Ele ficou confuso com muitas coisas: Por que sua mãe escondeu isso dele? Por que o exército não entendia o lado de seu pai? Por que a Inglaterra não amparou sua mãe e ele?

John Smith tinha apenas uma certeza. Seu pai não merecia todo esse julgamento. A culpa não era dele, qualquer um entregaria o país por muito menos. Essa revolta e ainda mais orgulho que ele sentia pelo pai o incentivou a ser um piloto. A partir do dia que ele recebeu aquela carta, ele estudou e treinou para ser o melhor piloto que a Europa já conheceu. Não foi fácil, mas no decorrer dos anos ele conseguiu fazer seu nome, tanto na escola, quanto no exército. Apesar de seu problema com a narcolepsia, o exército inglês não titubeou ao convoca-lo para a legião de soldados que, a beira de uma possível segunda grande guerra, iriam enfrentar novamente a Alemanha, desta vez mais forte com o espírito do nazismo cravado na nação.

***

John Smith estava dirigindo o carro nas ruas de Paris, em direção à cidade de Rouen, onde um hangar estava à espera dos espiões ingleses e do seu melhor piloto. Mesmo sabendo também dirigir um carro como ninguém, seus parceiros não estavam muito confiantes com as atitudes de John.

— Soneca, você tem certeza que está bem para dirigir? – perguntou um deles, que estava no banco da frente.

— Claro que estou! Por que a pergunta? – Perguntou John, tentando aparentar que está calmo.

— Bom, primeiro que você quase quebrou a cara toda do nazi. Segundo que você o jogou no porta-malas e bateu a perna dele quando tentou fechar a porta. Várias vezes.

— Desculpe se não fui gentil com ele. Da próxima vez, carrega ele no colo e bota ele pra mamar!

O segundo parceiro que estava no banco de trás tentou acalmar os ânimos.

— O que o Carl está tentando dizer é que achamos que você está levando para o lado pessoal.

— Se vocês ficassem algumas semanas com esses merdas que se dizem seres humanos e ouvir o que eles falam, ver o que eles fazem e fingir que está tudo bem, vocês não iriam conseguir guardar dentro de si por muito tempo – desabafou John – aquele nazista teve o que mereceu. E Hitler vai pagar de uma maneira pior.

Qualquer um que se opunha ao regime nazista, sabe o quanto Hitler é uma pessoa hedionda. É normal você desejar que o ditador pague pelas suas consequências. No caso de John Smith, qualquer punição para Adolf Hitler não era o suficiente. Por alguma razão, John botou na sua cabeça que Hitler estava presente na tortura de seu pai, embora nada fosse confirmado. Os fatos até mostravam o contrário, pois Hitler era apenas um mensageiro naquela época. Mas John não mudava de opinião. Hitler estava lá e ele vai pagar caro pela morte de seu pai. Por causa dessa vingança pessoal que ele tinha com Hitler, ele não pensou duas vezes para entrar nessa missão de espionagem. Por ter uma excelente fluência em alemão, o piloto foi convocado para se infiltrar no exército alemão, para sequestrar um soldado que poderia ter informações valiosas para poder reverter a guerra. Quem vê de fora pode até argumentar que a Inglaterra está se rebaixando ao mesmo nível de seus inimigos que fizeram o mesmo plano na Primeira Guerra Mundial, mas na guerra não se ganha com gentilezas. Mãos devem ser sujadas. E John Smith não tinha medo de sujar as mãos. Mesmo tendo um desprezo pelo nazismo, maior que qualquer um, o piloto conseguiu em algumas semanas, se infiltrar na França ocupada e agir como um soldado nazista qualquer.

John Smith, junto com seus parceiros, seguiam pelas ruas de Paris, seguindo para a autoestrada, com destino à Rouen. O único problema que eles tinham que enfrentar é passar pela blitz perto da fronteira das cidades. Apesar de estar inteiramente ocupada, O nazismo segurava com punhos firmes a nação francesa, pois, além dos países aliados tentarem resgatar o país de volta ao que era, a Alemanha ainda tinha que controlar o próprio povo francês que, de vez em outra, queria se libertar das garras do Fuhrer.

— Estamos chegando na batida policial. Já comecem a se trocar aí. – John alertou. O trio sabia já sobre os oficiais do nazismo nas fronteiras de cada cidade. Por isso, John conseguiu furtar dois uniformes para seus companheiros. Só restava torcer para que Klein continuasse quieto no porta-malas.

John foi desacelerando o carro propositalmente, para que os outros dois pudessem trocar de roupa a tempo. Quando o carro chegou ao grupo de policiais, John parou o carro, tentando voltar ao papel que desempenhou nessas semanas que se passaram. O guarda nazista que foi verificar quem estava no carro estranho o trio de supostos nazistas e suas roupas amassadas.

— O que vocês estão fazendo por essa região? – Indagou o soldado nazista.

— Temos negócios a tratar em Rouen. Parece que um bando de arruaceiros tentou botar fogo em uma de nossas instalações – Respondeu John.

— Estranho. Não ouvi nada sobre isso.

— O General Schmidt prefere deixar essa baderna em sigilo para não dar voz a esses vândalos.

— E quem são esses? Não vi eles na tropa – apontando para os outros dois no carro.

— São novatos. É bom já aprender na prática como se portar com esse pessoal que ainda não entende quem é que manda aqui.

— Ok. Só avise para deixar o uniforme mais ajeitado. Isso não é só uma roupa. É um símbolo.

— Foda ser babá desses novatos. Você me entende né.

Eis que um barulho de batidas ecoa dentro do carro. Os dois parceiros de John se entreolham, quase que uma conversa telepática, para que se preparem para o pior. John continua rígido, pois qualquer erro pode ser fatal.

— Que barulho é esse dentro do carro? – Pergunta o soldado, já desconfiado.

Os três espiões tentam disfarçar tanto a surpresa quanto o nervosismo.

— Posso falar com você em particular? – Pergunta John.

O soldado consente e John imediatamente sai do carro e puxa ele um pouco mais pra longe do carro. Aproveitando, o inglês já avalia a situação, observando tanto o cenário, quanto o número de inimigos. Fora o soldado que foi verifica-los no carro, ainda estava presente mais três soldados. Também tinha dois carros prontos para cada dois nazistas. John raciocinou e decidiu que era melhor resolver na diplomacia, já que um confronto físico não estava favorável para ele e seus companheiros.

— Aconteceu um episódio um pouco antes do general nos convocar para Rouen – Disfarçou John – Klein e eu estávamos curtindo uma folguinha ainda há pouco e fomos para o bordel da Madame Louise. E meio que aconteceu um contratempo.

— Eu não entendi soldado.

— Uma das putas tentou apunhalar o Klein. Ela conseguiu feri-lo, mas ele conseguiu reverter a situação. Pegou um dos vasos e bateu na cabeça dela, afinal ele estava sem roupa e, consequentemente, suas armas – John deu uma pequena risada da situação, mas o semblante do outro soldado não foi recíproco – Enfim, capturamos essa puta e colocamos no porta-malas, pra dar uma lição nela. Vamos leva-la a Rouen e dar um jeito nela junto com os outros baderneiros.

O rosto do soldado era incógnito ao ouvir toda a ladainha de John. Os parceiros de John, dentro do carro, estavam estranhando a demora e suas mão já repousavam em alerta no coldre, se preparando para o pior. O soldado nazista se aproximou do porta-malas e John Smith estava logo atrás, avaliando a situação. Ele poderia acabar com o nazista aqui mesmo enquanto seus parceiros se encarregavam dos outros. Ele poderia pegar sua arma e tentar atirar em todos, mas seria mais difícil. Ele poderia apenas estrangular o nazista e escondê-lo, a tempo de eles poderem fugir. De qualquer maneira, qualquer cenário não era 100% de efetividade.

O nazista se virou para John, ainda com sua face petrificada e finalmente disse.

— Acabe com a raça dessa puta!

John tentou não exibir seu alívio e fez a saudação nazista antes de entrar no carro. Seus parceiros entenderam que ficou tudo bem, porém continuavam em alerta.

— Vocês não querem que meus homens os acompanhem para ajudar contra essa pequena rebelião? – Perguntou o nazista.

— Não se preocupe. – Respondeu John – Como você mesmo disse, é uma pequena rebelião. Além do mais, o General quer mandar um grupo seleto para não virar uma balbúrdia. Mesmo assim, irei elogiá-lo aos meus superiores pela sua iniciativa.

John e seus parceiros seguiram em frente com o carro, todos mais aliviados. John até ficou mais sonolento após esse episódio, sua adrenalina devia ter despencado e, com sua narcolepsia, não há corpo que aguente. Trocou de lugar com Carl e o resto da viagem foi tranquila. Por enquanto.

***

Klein acordou, porém, sua visão continuava escura. Além disso, não conseguia se mover e nem falar. Deduziu então que estava amarrado, nas mãos e nos pés. Outra coisa foi que sentiu seu rosto molhado, com um liquido mais espesso que água. Provavelmente estaria sangrando bastante, pelos golpes que sofreu de John. Sua mente botou todas as peças no lugar novamente, lembrando a traição de seu suposto parceiro. Sua raiva aumentou de maneira que ele pensou que poderia rasgar as cordas com sua força. Mas estava enganado. Além de estar fraco, o local apertado também não ajudava muito. Então sentiu que o mundo parou. Na verdade, apenas o carro parou, ouviu duas vozes, e uma ele reconheceu que era do traidor. Como não conseguia falar, tentou bater contra a parede ou porta – Não sabia por causa da escuridão – Implorando por ajuda. Ao ouvir alguém perguntar o que era aquele barulho, Klein bateu ainda mais, com mais força e esperança. Ouviu a mentira do John e torceu para que a pessoa não caísse no seu blefe. Após alguns segundos de silêncio, que para ele parece que durou dias, ouviu mais algumas palavras e sentiu o seu espaço correr novamente. Toda a sua esperança se dissipou como fumaça.

Precisava sair daquela situação, pois não sabia os planos que os espiões tinham para ele. Tento se acalmar para poder pensar com clareza e lembrou então de uma técnica que aprendeu ainda no alojamento. Já ouviu relatos de soldados que conseguiam sair de algemas ou amarras nas mãos, deslocando seu polegar, com intuito de afrouxar o eixo. Nunca tinha feito na prática, mas situações desesperadas pedem medidas desesperadas. Por sorte, suas mãos estavam atadas bem próximas, fazendo com que elas pudessem manipulá-las entre si. Agarrou seu polegar direito e fez bastante força, até sentir que seu pequeno osso mude de lugar. Com muita dor, conseguiu seu objetivo, surpreso que tenha conseguido na sua primeira vez, sem orientação nenhuma. Com tanta euforia dentro de si, nem percebeu a dor que sentia. A euforia aumentou mais ainda ao sentir a corda se afrouxar um pouco, mas o bastante para poder mexer suas mãos e se livrar da amarra. Agora o outro desafio era botar seu dedo no lugar, com a escuridão e o nervosismo, porque ele sabia que iria lutar, e precisava das suas mãos intactas. Com um pouco mais dificuldade por causa da instabilidade do carro em movimento, e muitas dores, Klein conseguiu botá-lo no lugar, mas a dor ainda estava lá. Desamarrou seus pés e aguardou o momento exato que iria lutar pela sua vida.

***

Após algumas horas de viagem, John e seus parceiros chegaram no hangar em Rouen, onde um avião de médio porte estava à espera deles. Já era final de tarde e a viagem estava programada para que chegassem o quanto antes na Inglaterra. Quantos antes soubessem os principais planos dos nazistas, melhor. John Smith descansara bem durante o resto da viagem para que não houvesse sonolência durante o trajeto pelo ar – muitos temiam por causa de sua condição. John saiu ainda meio sonolento do carro e Carl foi até ele.

— Tem certeza que você já está de boa para pilotar? Perguntou Carl, desconfiado.

— Até quando você vai ter medo de eu pilotar o avião?

— Até quando você parar com essa palhaçada de dormir a qualquer hora.

John riu e foi checar o avião antes de poder decolar. Sendo um avião de médio porte, não haveria muito trabalho para tirá-lo dentro do hangar. Mesmo assim, tinha que dar tudo certo, pois essa missão era o primeiro passo para poder chegar a frente do nazismo.

— Ei! Vocês não estranharam o silêncio do nazi no porta-malas, depois do que houve na blitz? – Indagou Bill, enquanto saía do carro.

— Talvez ele tenha aceitado o fato que foi capturado. Assim que é bom que é menos trabalho pra gente! – Respondeu Carl – Agora seja um bom menino e tira ele de lá.

— E por que você não vem me ajudar?

— Para de chorar e vai tirar o cara de lá. Só vou fumar rápido aqui.

Enquanto Carl acendia um cigarro e John continuava dentro do avião, Bill foi ao porta-malas, mal podendo esperar para chegar na Inglaterra, sua amada terra. No momento que Bill abriu a porta, um ser furioso pulou para cima dele. Na surpresa, ele não conseguia gritar, na verdade ele até sentia se afogar. Demorou para perceber que ele tinha sido esfaqueado no seu pescoço. Antes de tudo escurecer, ele viu o rosto de fúria e palavras em alemão que ele não conseguiu distinguir. Não importava, afinal não veria e escutaria mais nada.

No tempo em que se iniciava no exército, além de ouvir falar sobre o truque do deslocamento de polegar, outro truque que foi bastante relevante para o momento em que ele se situava, era ter um compartimento secreto para alguma arma branca. Como todo homem naquela época, ele tinha o seu próprio canivete. Muitos soldados riam do fato dele esconder a pequena faca dentro de sua cueca. Bem, quem é que está rindo agora, não é? Klein não poderia perder tempo, faltava só mais dois. E aquele traidor teria a pior morte. Pegou a arma do espião inglês e foi se esconder atrás de uns caixotes que estavam no fundo do hangar.

— Então Bill? Ele tá muito pesado pra você? Por que a demor... – Carl viu o corpo imóvel de Bill atrás do carro e Klein não estava lá. Sua reação foi uma mistura de horror e fúria – Billy?! Meu Deus John! Vem rápido! O Nazi escapou e matou o Bill!

— O que?! – John desceu imediatamente do avião, já com a arma em punho – Cadê aquele filho da puta?!

— Não sei, mas ele tá armado! Ele pegou a arma do Bill! – Alertou Carl.

— Ok eu vou contornar o hangar pra ver se ele escapou pelos fundos. Você procura por aqui! Não mate ele! Mas se quiser, pode machucá-lo bastante! – John saiu, com uma raiva que poderia dar medo a qualquer um.

Carl se manteve alerta, a procura de qualquer sinal que evidenciasse o caminho que Klein tomou. Mas parece que sua fúria estivesse o cegando, afinal ele matou seu melhor amigo. Carl estava deixando suas emoções a frente de sua razão. Mesmo assim, ele era um soldado, então ele sabia o que estava fazendo. Ele viu uma série de pegadas de sangue que se encaminhou até os fundos, onde estava uns caixotes. Foi sorrateiramente até o entulho, tendo certeza que o inimigo estava lá. Manteve sua pistola a altura para que pudesse atirar ao virar. Quando chegou perto e virou, não viu ninguém. Embora esteja confuso, continuava em alerta, o nazista poderia ter saído pelos fundos. Antes que pudesse ir verificar, Carl ouviu o carro ser ligado.

— Ah não! Esse filho da puta não vai escapar! – Carl foi correndo e, ao avistar o carro, começou a atirar. Com seus tiros, estourou tanto os vidros quanto os pneus, para não dar moleza para Klein. Quando parou de atirar, ele foi em direção ao carro. Enquanto se aproximava, não viu nenhum movimento dentro do carro, nem sinal de que Klein poderia estar vivo ou morto. Ao se aproximar mais do banco do motorista, viu que não tinha ninguém. Antes que pudesse raciocinar para onde foi, Carl não sentiu mais nada. Um tiro na sua cabeça aconteceu, pois Klein estava escondido perto do portão, onde correu após ligar o carro.

— Arschloch! – Disse Klein e depois cuspiu na cara de Carl. Antes que John pudesse chegar, Klein pegou a corda que tinha sido amarrado e se escondeu dentro do avião. Após se esconder, John chegou correndo ao hangar, pela porta dos fundos.

— Carl! Pegou ele? – Ao chegar perto do carro, viu o corpo de seu segundo companheiro, também morto. John tentou manter a racionalidade, olhando para todos os lados. A vontade de matar aquele nazista ali mesmo era muito grande, mas as ordens eram para capturá-lo e leva-lo vivo para a Inglaterra.

John avaliou a situação. Ele não teria saído pelos fundos, pois acabara de voltar de lá. Ele poderia ter fugido, mas apostou consigo mesmo que ele teria ficado para mata-lo, pela traição e sequestro. Escondido no carro claramente que não, pois ele mesmo estava usando como cobertura. Só resta ver se o inimigo está no avião. Se estiver, terá que tomar cuidado para não danificar o transporte.

Indo em direção ao avião, John continuou com a pistola em punho, se preparando pro fato de Klein aparecer para atirar nele. Só que, quanto mais se aproximava do avião, mais silêncio o Hangar tinha. Chegava ser ensurdecedor. John suava, temendo mais pelo fracasso da missão quanto pela sua vida. Não poderia morrer daquele jeito. Ele daria orgulho para seu pai e acabaria com a raça de Hitler, com as próprias mãos, se Deus quiser. John chegou a escada para a porta do avião. Foi subindo bem delicadamente, para não transparecer que estava entrando. Ao chegar perto da porta, continuou com a arma, mas não pretendia usá-la, pois se os tiros danificassem a lataria do avião, poderia comprometer sua ida à Inglaterra. E já basta o fato de perder dois soldados de maneira patética.

Ao passar pela porta, John apontou para sua esquerda, caso encontrasse Klein a sua espera. Para seu azar, Klein estava a sua direita, e no momento que John apontou para a esquerda, Klein pegou a corda e enrolou no pescoço de John, afim de estrangulá-lo. John largou a arma e rapidamente colocou suas mãos na corda, para afrouxar o bastante e não se enforcar. Mas a fúria de Klein parecia que tinha dado uma força a mais para o nazista. Nem parecia que ele tinha passado horas no porta-malas e tivesse sido espancado antes. John usou o peso do seu corpo, empurrando Klein contra a parede, para que pudesse atordoa-lo de algum jeito, mas parecia que Klein tinha tudo sob controle.

— É agora que você vai pagar por tudo, Inglês de merda! – gritou Klein.

John não conseguia falar nada que pudesse distraí-lo. Soltou uma das mãos para que pudesse furar o olho de Klein, ou puxar seu cabelo. Mas foi em vão. Seu corpo estava enfraquecendo e Klein sabia disso. O nazista começou a rir sabendo que estava conseguindo sufocar seu inimigo. O corpo de John começou a ficar mole e pender para o chão. Klein foi abaixando seu corpo pouco a pouco, para que pudesse morrer da pior forma possível.

— Isso seu fracote! Não é tão divertido quando é pego de surpresa numa luta, não é mesmo? – disse Klein, se divertindo com a situação.

Klein estava tão eufórico que nem percebeu que, com John ajoelhado, ele tirou uma faca de dentro do seu coturno e cravou no braço de Klein, e rasgando sua carne para que, enfim Klein o soltasse. Com seu inimigo debilitado, John não perdeu tempo nem para respirar para desferir uma série de socos em Klein. Dois socos de direita, um cruzado de esquerda e um gancho no queixo, foi o bastante para derrubar o nazista.

— Obrigado pela dica do compartimento secreto. – Disse John, enfim respirando.

***

Ao acordar, Klein sentiu uma forte dor no seu braço esquerdo. Observou um ferimento bem feio, que necessitava de pontos, mas que só ganhou um curativo improvisado. Estava bem mais amarrado do que quando estava no carro. Desta vez, com as mãos, braços, pernas, tudo amarrado. Ao olhar no fundo do avião, viu os corpos dos soldados mortos por ele. Uma cena que embrulharia o estômago de qualquer um, mas não o dele. Ele apenas tem orgulho pelo que fez. John estava pilotando o avião, com todo silencio e atenção que um piloto apresenta.

— Se achou que botar os corpos dos seus amigos iria me deixar arrependido ou implorar pela minha vida, pode esquecer – disse Klein – Não fiz mais que minha obrigação como soldado. Na verdade, faria de novo, e de forma pior.

John saiu do seu assento, com uma frieza que Klein nunca tinha visto. Se aproximou bem perto do rosto do soldado alemão.

— Se depender de mim, você não vai implorar pela sua vida. Você vai implorar pra morrer! – Desferiu mais um golpe e deixou Klein novamente desacordado.