Crônicas Saxônicas Um
4 889 DC - FRA STØV TIL STØV
Essa é a parte da uma história infeliz. Não só para mim. Se eu soubesse que ela seria assim, teria impedido que Ragnar tornasse a Mildrand, para a casa onde ele se sentia completo. Não era uma casa grande, mas era de pedra e palha, e abrigava meu senhor e todos que a ele reverenciavam. E meu senhor era um bom senhor, um bom pai, um bom marido e um extraordinário guerreiro.
A morte acompanha guerreiros, e os extraordinários merecem morrer como os guerreiros que são. A morte de Ragnar, porém, foi estúpida e feia. Mas eu jamais duvidei que ele tivesse ido aos grandes salões de festa junto aos demais guerreiros, mesmo que não tenha morrido na batalha. Porque Ragnar Ragnarson era um extraordinário guerreiro e um bom senhor. Ele morreu dentro de sua casa, quando esta foi cercada pelo inimigo, Kjartan, seu antigo servo, que ateou fogo no telhado e não permitiu que ninguém ultrapassasse a porta. Os que se arriscaram morreram a morte da espada, sem qualquer piedade.
A notícia correu rápida até Wessex. Mais rápida do que se eu tivesse cavalgado dia e noite até o assassino, que não estava longe dali. Em Wessex estava o rei Alfredo, sustentando o último reino inglês, e ele fazia planos de paz enquanto orava a Deus, porque Alfredo era um homem devoto ao Senhor. Mais devoto do que muitos dos padres e bispos com suas amantes escondidas pelas vielas do vilarejo. O próprio Alfredo tinha sido um rebelde em dado tempo de sua vida, quando ainda era príncipe e o irmão governava Wessex. Mas tudo tinha mudado. Os reis morrem. Os senhores morrem. Earl Ragnar morreu e era um grande homem.
Nesse meio tempo eu chego a Wintanceaster, em Wessex, reencontro Alfredo depois de anos e ele se surpreende em me ver tão alto e forte, uma cabeça maior do que ele. Antes eu era um pirralho, um menino devoto — ele acreditava — que foi convertido pelos dinamarqueses, transformado em um dinamarquês. Tentei ludibriá-lo como tinha feito das outras duas vezes, mas ele me conhecia. Ou me estudou, junto com Beocca, e me estudando, traçou um plano para mim. E as três fiandeiras, aquelas que unem os fios da vida, zombaram de mim, porque tinham feito Alfredo se sobrepor a todos. Dizia Alfredo que era a vontade de Deus. Eu sabia que eram as fiandeiras. Não importava eu ser filho de um ealdorman das terras da Nortúmbria, não importava meu pai estar morto e eu ser o novo ealdorman. Não importava porque eu era do norte e Wessex era onde estava a realeza, o sangue intocado, o sangue-puro, a devoção infinita. Eu era um senhor, um senhor de ninguém.
Foi no castelo de Alfredo, quando chamado a sua presença, que a reencontrei: Aella estava simplesmente magnífica. Eu não me importei com a presença dos padres e dos bispos que seguiam Alfredo com frenesi, orando para cima e para baixo. Meus olhos somente serviam a ela e a mais ninguém. E eu tive que vê-la de perto, falar com ela, sentir o cheiro dela. Esperei até o entardecer, quando Alfredo iria rezar novamente, e me esgueirei pelos corredores, passando pelo grande salão, e parando diante da porta do aposento de Beocca. Bati duas vezes e entrei, mas ele não estava. Eu sabia que não estaria porque Beocca seguia Alfredo por todos os lado. Mas Beocca tinha me dito que Aella ia todas as noites ler uma parte da história de São Cuthbert. E foi lá que a encontrei, debruçada sobre a mesa. Mas ela não lia. Chorava, e eu sabia por quem.
Num primeiro momento ela não me reconheceu, ergueu os olhos arregalados e surpresos, mas então, assim que a cumprimentei sorrindo, ela mostrou os dente e veio até mim.
— Uhtred — murmurou puxando-me para o anexo ao lado.
— Senhora — cumprimentei-a, que ainda segurava minhas mãos.
Fitamo-nos por instantes, até ela tomar a palavra.
— É verdade? Verdade o que dizem sobre Mildrand?
Fechei os olhos e senti raiva. Mas depois passou, porque eu não poderia sentir raiva por alguém amar Ragnar, o Intrépido. Eu o amava e eu era um inglês. Apertei as mãos dela e depois as beijei, então me ajoelhei e fiz sinal com a cabeça.
— Sim, senhora. É verdade. Eu estava lá, mas não pude fazer nada.
Ela não soltou as minhas mãos, mas senti que não mais as segurava com tanta força.
— Todos foram mortos, brutalmente mortos — lhe disse, mas aquilo só fez pior sua dor. Ela largou as minhas mãos e encostou-se ao canto do anexo, abraçou os joelhos e chorou. Permiti que ela fizesse isso, mas não gostei. Não gostava de mulheres chorosas e Ragnar também não teria gostado. Mas então me lembrei de quando Frida, minha primeira amante partiu. Naquele dia eu também chorei.
Repentinamente Aella se pôs de pé, secou as lágrimas com a barra do vestido de tecido fino, adornado com fios de ouro, e voltou a se aproximar de mim.
— Você ficará em Wintanceaster?
Balancei a cabeça negativamente, mas completei:
— Não sei. Vim até Alfredo porque o padre Beocca marcou-me uma audiência. Não faço idéia do que querem comigo. Mas não tenho mais amigos entre os dinamarqueses. Ragnar, o filho, está na Irlanda, nem deve saber da morte do pai... — parei de súbito, suspirei e Aella tocou-me no braço.
— Fique — murmurou ela. — Haverá um festim. Vá comigo a ele.
Eu ri dela, mas ela deu de ombros na minha zombaria.
— Você será convidado, afinal de contas é um ealdorman.
— Serei convidado se Alfredo assim o desejar.
— E desejará. Se ele não desejar, algum de seus earls o irá fazer.
Parei de sorrir e a mirei. Ela estava diferente, não em sua aparência, porque continuava tão linda quanto quando a conheci, e ela já não era mais uma menina. Mas havia algo nela, não soube definir bem o que... A princípio acreditei ser a convivência com a corte de Alfredo, mas enfim, descobri que era poder. Um poder que somente mulheres mais velhas tinham, e as que continuassem bonitas, no final das contas. Descobri que Aella tinha perdido o interesse nas coisas que a faziam feliz quando junto aos dinamarqueses. Ela não escrevia mais, talvez nem lia, não cantava mais, não sorria mais, e isso era extremamente triste. Mas o pior de tudo, e era esse o motivo que levou Alfredo a castigá-la era que ela tinha perdido a fé no seu deus.
No entanto, ela era influente, os homens a cobiçavam como em Mildrand, alguns tinha até certa liberdade com ela, mas Aella jamais sorria. Talvez sorrisse quando na cama deles, ou talvez não. Então eu senti repulsa dela, repulsa pela pessoa que ela havia se tornado. E me afastei.
Fale com o autor