Crônicas Saxônicas Um
5 889 Dc - Calix Meus Inebrians
Alfredo me convocou, tinha vários assuntos a tratar comigo. Mas antes fomos caçar. Bem, eu cacei, ele fez de conta, com os servos e javalis guiados pelos criados. Foi extremamente tedioso, tanto para mim quanto para ele. Também jantamos juntos na maioria das noites e conversamos mais, mas sempre antes de muito orar, porque Alfredo era muito devoto. Ele me falou de Deus e eu o encorajei, mas ele me conhecia muito bem, sabia que eu não era devoto como careceria. Então ele me ofereceu um comando. Eu devia ter previsto que Alfredo somente desejava manter seus olhos e suas mãos em mim, mas ainda assim o subestimei. Ele me ofereceu um alto comando se eu casasse com uma de suas protegidas, era uma moça de 16 anos, que possuía muitos bens. O pai dela havia morrido e ela não tinha irmão algum. Deveria ser um monstro de mulher, porque não era possível que não existisse um homem sequer interessado em tudo o que ela herdara. Mesmo assim, eu aceitei. Eu só queria um comando. Eu era jovem e meu mundo girava apenas entorno do meu ego. Eu queria sangue em minhas mãos. Sangue e prestígio!
O festim. O festim era em comemoração ao Yule, o Natal dos dias de hoje. Alfredo organizara uma grande festa, com inúmeras apresentações, porque aquele era o ano da paz, o ano da paz porque Alfredo a conseguira pelas mãos do Senhor. O mesmo senhor de Aelle, que a Alfredo se mostrava extremamente devota e casta, e delicada. Mas Aelle não era mais a mesma, não tinha mais a mesma fé. Ela estava mudada. Descobri naquela tarde antes do início dos festejos. Encontrei-a no pátio, sentada ao centro, próxima a uma escultura feita pelos romanos.
— Pensei que tivesse partido — ela falou comigo em dinamarquês, quando passei por ela, me surpreendendo. Havia algumas pessoas ao nosso redor, fitei-as e depois me sentei ao lado de Aella, que completou: — Acreditei que o tivesse perdido também.
— Perdido? - indaguei, mas não fiz outro comentário, dei de ombros. Eu estava mesmo perdido, iria me casar, e não contei a ela.
— Você é amigo de Alfredo?
— Não — falei surpreso e notei que a expressão no rosto dela amenizou. — Ele só não quer me perder de vista. Sou um cão sarnento que o atrapalha.
— Então somos dois — ela disse fitando as pessoas que passavam. Encarei-a curioso. — Por isso me mantém vigiada — e levou os olhos dos pés que brincavam até o canto do pátio, onde dois homens aparentemente bem vestidos jogavam conversa fora. — Pare de encará-los, Uhtred! — ela me advertiu e voltei a sorrir, focalizando num pássaro que pousara sobre a mureta.Ela sorriu, mas logo depois suas feições se fecharam, — Ele me castiga porque acredita que em inverdades. Eu poderia tem algum futuro ainda. Muitos earls se interessam por mim. Alfredo, no entanto, me mantém numa redoma, como se somente a ele pertencesse.
— Você... se deita com ele? — perguntei hesitante. Ela não respondeu diretamente.
—- Ele é um cínico, um hipócrita, morre de desejos por mim e não me permite fazer nada!
Eu quis repetir a pergunta, mas não achei que tivesse autonomia para isso, não era da minha conta a vida dela, apesar de eu muito desejar que fosse.
— Ele acha que você e eu fomos amantes, quando estávamos com os dinamarqueses.
— O que? — perguntei rindo, eu estava lisonjeado. Ela riu também e depois baixou os olhos.
— Você se deita com ele? — repeti, ela me encarou como se disse que aquela não era uma pergunta pertinente a mim, porém, tocou de leve no meu braço com seu braço e disse que não. - Alfredo é muito forte, resiste às tentações. - Ela se arrepiou, acho que de náuseas. Alfredo me dava náuseas. - Talvez eu estivesse melhor se me deitasse com ele.
— Não, não estaria - falei grosso e mirei os dois homens que a vigiavam. Ela riu do meu ciúme, mas não falou nada sobre ele.
— Você não é feliz aqui, é? — perguntei. A resposta não veio em figuras de linguagem.
Então era sorriu, sorriu de uma forma quase parecida com a forma com que sorria a Ragnar, o Intrépido. Eu também deveria ter desconfiado, mas não tinha a capacidade de previsão ou pelo menos senso de observação. Do outro lado do pátio, e andando com o sorriso arreganhado, vinha Aethelwold, o sobrinho nada ortodoxo de Alfredo. Ele me puxou para perto, me deu um forte abraço e eu pude ver, por sobre o ombro dele, que um dos homens que vigiava Aelle, disfarçadamente, se levantou e saiu apressado pelo corredor.
— Não acredito que está aqui, Uhtred! — falou ainda sorrindo, olhando-me nos olhos.
Era um rapaz muito bonito, alto e forte, de pele muito clara e cabelos negros e longos, que viviam sempre esvoaçando com o vento. Era o verdadeiro rei, mas Alberto usurpara o trono quando o irmão morreu e Aethelwold ainda era muito jovem para governar. Agora que tinha idade, não governava porque Alfredo envolveu o sobrinho com a imagem de beberão, desleixado e irresponsável. Também jamais o deixara ir aos campos de batalha com receio que Aethelwold se sobressaísse e os homens passassem a amá-lo. Eu conhecia Aethelwold desde menino.
— Senhora — disse ele tomando a mão dela e beijando, e se demorou naquele gesto, fazendo-a ruborizar.
— Pare com isso, Aethelwold — ela disse, tirando a mão de dentre as dele. — Você sabe que somos observados.
— Não em todos os momentos — ele sussurrou sorrindo e depois deu uma piscada. — Será uma pena não poder acompanhá-la ao festim, senhora.
— Não se preocupe com isso, já tenho quem me acompanhe — e me fitou com carinho, o mesmo carinho que me dispensava em Mildrand e eu respondi que a acompanharia até o fim do mundo. Eles mal ouviram esse comentário porque, instantaneamente, no pátio, surgiu Alberto.
— Eu não sou feliz aqui, Uhtred — ela disse em dinamarquês, de forma rápida. — Mas eu vou ser esta noite porque irei cantar para você!
Senti meu coração explodir, o desejo quase me corrompeu e eu quis agarrá-la naquele instante e levá-la dali, mas assim que Alfredo se aproximou, notei o grande apreço que ele sentia por ela. E deveria ser doloroso não poder tê-la, mas deveria ser ainda mais doloroso ver Aethelwold tendo-a. Por um momento acreditei que Aella só estivesse querendo fazer ciúmes em Alberto. Mas vi o modo como ela o fitava, como falava com ele e como fechava os olhos quando ele a tocava. Não era assim que ela agia quando com Ragnar. Ela detestava Alfredo.
as não atendi. Pouco depois, uma nova batida, e então, a voz de Aella. Levantei e fui até lá, abrindo a porta do jeito que estava vestido. Ela olhou para minhas roupas e franziu a testa, mas entrou mesmo assim, mesmo sem ser convidada.
Eu fui ao festim acompanhando-a e pude ver que Alfredo não gostou nem um pouco. Ele tinha mandado que eu resolvesse alguns negócios antes daquela noite, eu tinha a certeza de que ele queria me acupar para eu não poder comparecer à cerimônia. Mas Aella resolveu os negócios para mim, ela tinha muitas amizades e eu não duvidei que ela usasse seus favores como usava a belíssima ruiva que meu amigo de batalha Leofric tinha. Alfredo não gostou de me ver, muito menos a mulher dele. Mas do que ele não gostou mesmo foi quando pediram que Aella cantasse e ela cantou. O rosto de Alfredo trocou de cores até chegar a um carmim. Ele estava espumando de raiva. E espumou ainda mais quando Aella se voltou e cantou para mim. A voz de Aella era algo comparado às harpas que eu escutava quando criança, um som angelical e gracioso, que fascinava. Mas Aella quase nunca cantava, porque ela vivia numa vida de mentiras e tristezas. Alfredo a mantinha por perto para se lembrar de que existiam tentações e que elas deveriam ser combatidas com muito esforço. Mas enquanto Aella cantava, o que menos os homens faziam era combater as tentações. Eles a cobiçavam e estava escrito em seus olhos. No entanto, eu era o único a quem ela dirigia todas as atenções. Eram para mim seus olhares, eram para mim suas músicas, era para mim sua voz. E Alfredo se retorcia no trono improvisado, Beocca, ao lado dele, tentava acalmá-lo, mas Alfredo continuava a se retorcer. Não eram suas dores, suas doenças, era a inveja e o desejo. E quem era eu para receber um agrada daqueles de tão bela senhora senão um homem sem terras nem seguidores. Mas naquela noite eu era tudo e todos, eu tinha Aella e Aella me teve, em todos os sentidos, em sua cama limpa e cheirosa, durante a madrugada adentro, até o raiar do dia.
Eu deixei as terras de Wessex com a cabeça repleta de lembranças e nenhuma inquietação, porque havia descoberto o que foi que Ragnar encontrou ao mergulhar nos olhos de Aella para torná-la sua.
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