Crônicas Saxônicas Três
5 897 DC - ANO OITO - Segunda Parte
Eram minhas últimas noites ao lado de Gisela. Noites em que custei a adormecer pensando na fraqueza de Dagfinn. Como podia um homem tão grandioso se humilhar de tal forma? Será que amar era aquilo mesmo? Era venerar uma mulher a ponto de se perder por ela? Eu não conseguia compreender. Se bem que nada do tipo tinha me ocorrido nessa vida, mas eu rezava com incansável fervor toda vez que Gisela estava para dar a luz, porque não desejava que nada lhe acontecesse. Eu a amava, ela era minha vida, meu tudo. Na época eu não enxergava, mas eu tinha o que Dagfinn e Grisilla tinham, só que eu era jovem, cheios dos anseios de guerra, cego para as coisas do coração.
Repasso aqui a história com os detalhes que recordo. Talvez uma e outra coisa não se passasse realmente dessa forma, mas já estou senil, esperando a morte que nunca chega, e minha memória, para certos detalhes, se afrouxou.
Era a manhã do meu último dia em Synningthwait, o povoado dinamarquês perto de onde vivi quando criança, Gisela me acordou com um doce beijo e me levou até a varanda de nossa casa, que ficava defronte ao rio. Ali tinha preparado uma pequena e deliciosa refeição matinal; sentávamos um de frente ao outro. Sempre fui muito confiante quanto a mim mesmo, que bom guerreiro não é? Mas o pressentimento que tive naquela manhã foi diferente de qualquer outro que tive em minha vida.
— O que foi? — perguntei curioso quando Gisela juntou as mãos sobre o colo e fitou o rio.
Ela não respondeu, já sabia qual era seu destino, ficar ali, sob a custódia de Dagfinn, que a protegeria a qualquer custo porque havíamos nos tornado amigos. Ali perto, em Dunhom, também estava Ragnar, que auxiliaria caso Dagfinn necessitasse.
Gisela, no entanto, estava distante e eu sabia que não era normal nela tal atitude.
— O que foi, querida? — perguntei num tom mais baixo e afetuoso.
— Earl Dagfinn.
— O que tem ele?
— Ele vai com você.
— Não, ele não vai comigo — respondi.
— Não foi uma pergunta que lhe fiz, Uhtred, foi uma afirmação.
— Dagfinn não irá comigo. Ele ficará aqui com sua gente. Você sabe muito bem que ele não lutará contra...
— Sim, ele lutará. Foi ele mesmo quem me disse.
— Como assim? — disse chocado, mas me mantive calmo. Então era com Gisela que o desgraçado estava na tarde do dia em que fomos mais ao sul procurar por guarnições.
— Ele está confuso.
Eu respirei fundo, mas o aborrecimento me tirou a calma. Levantei, dei as costas a Gisela e fechei os olhos, tentando não chorar. Eu a amava e agora ela tinha outro homem na cabeça.
— Está atormentado pela culpa, pela culpa de ter deixado a mulher à beira da morte e pela culpa de ter se deitado com uma escrava. Ele me implorou para que eu falasse com Grisilla, queria que eu descobrisse se ela havia se desinteressado por ele. Não pude lhe dizer que não. Estava desolado. — Ela fez uma pausa, caminhou até onde eu estava e segurou minha mão. — Você poderia falar com ele, Uhtred.
— EU? — quase me engasguei quando a voz saiu alta demais.
— Sim — Gisela riu. — Eu apenas ouvi seu desabafo, mas não tenho intimidade com ele para poder aconselhá-lo.
— E que conselhos acha que eu poderia lhe dar?
Fitamo-nos por instantes até que ela desviou os olhos dos meus.
— Sobre o que mais vocês conversaram? — perguntei com ciúme, o sangue me subia fervendo a cabeça.
— Ele me contou que Grisilla anda estranha, que não é mais a mesma. Eu lhe disse que uma mulher sofre muito durante o parto, não há dor que se equipare a parir. Além disso, ela quase morreu ao dar a luz, e é um milagre que esteja viva. Disse a ele para dar tempo ao tempo, pois provavelmente ela só está se recuperando do acontecido. Mas ele me confirmou que ela está distante e que, talvez, tenha se zangado quanto ao incidente com a escrava. Jurei a ele que aquilo não era motivo para que ele se alardeasse, afinal, eu sabia que fora Grisilla quem dera a ordem à escrava...
Balancei a cabeça, consentido, e disse:
— Então por que tenho que falar com ele?
— Para aconselhá-lo a falar com Grisilla. Ele precisa de um empurrão, está realmente consternado, Uhtred. Ele acredita que Grisilla esteja querendo voltar a viver com Aeldred.
— Não sei — balancei a cabeça, sentindo-me esquisito pela idéia de conversar com outro homem sobre mulheres. Fiz uma careta e Gisela pegou na minha mão, apertando-a com ternura. — Porque você não fala com sua amiga?
— Ora, Uhtred. Acha que já não fiz isso? Acontece que os dois... bem, eles estão brigados... por uma bobagem.
— A escrava.
— Não. Por causa de Aeldred. E ela não quer falar no assunto. Também não tenho coragem de atormentá-la, está tão frágil... Ah, Uhtred...
O fato de Grisilla querer voltar a vida anterior seria motivo de morte para uma mulher e, conhecendo Dagfinn como conhecia, era sabido que a traição da esposa renderia um caro preço. Ele não era condizente com traidores, logo, acredito, não seria condizente com quem estivesse muito próximo dele e o atraiçoasse.
Gisela me atormentou com tamanho afinco que fui obrigado a conversar com Dagfinn.
Era uma tarde ensolarada — se eu tivesse esperado para conversar com ele durante a noite possivelmente o que iria lhe dizer não teria surtido efeito porque ambos estaríamos bêbados, já que aquela era uma noite de festa, era o casamento de Finan com a filha resgatada de um pastor saxão, era uma bela menina que logo se adaptou à vida pagã -, quando encontrei Dagfinn no rio. Ele estava descalço dentro do rio, os calções arregaçados até os joelhos, os braços na cintura e os olhos nas montanhas. Percebeu-me de imediato, mas não disse nada, esperou que eu me aproximasse e lhe falasse. Porém, me surpreendi quando ele falou por primeiro.
— Vejo que finalmente vem tirar satisfações comigo. — Fez uma pausa. — Devo pedir-lhe desculpas, Uhtred, não quis passar por sua autoridade, mas sua esposa... bem, ela me pegou num momento de desespero.
— Gisela tem uma intuição surpreendente quando se trata dos sentimentos alheios.
Dagfinn sorriu. Era um homem alto, bem mais alto do que eu; era forte e belo, e tinha cabelos claros e olhos escuros num rosto quadrado e bem delineado; as cicatrizes nem eram percebidas porque o sorriso estava sempre estampado em seu rosto. Mas agora, entristecido por estar perdido em seu amor pela esposa, não compreendia, assim como eu, como lidar com a situação.
Éramos dois homens inexperientes naquele assunto, mas matadores de dragões, se estes aparecessem.
— Está fazendo calor hoje — disse, para tentar quebrar o silêncio. Depois, respirei fundo e continuei, rindo: — Pensei que teria de lutar com o senhor.
— Pensou? E por quê? — ele falou com alegria na voz, voltando o corpo na minha direção.
— Bem, achei que Gisela tinha se apaixonado pelo senhor.
Ele soltou uma divertida gargalhada e depois balançou a cabeça de um lado a outro.
— Uhtred, quem você acha que sou para que sua mulher se apaixone por mim assim tão facilmente? Não passo de um pobre dinamarquês que perdeu o rumo.
Sorri para ele, mas não lhe disse nada.
— É Grisilla. Falei com sua esposa sobre ela.
Suspirei, sem saber o que lhe dizer, e envergonhado por já estar ciente de assuntos que, acreditava eu, ser proibidos entre os homens.
— Andei fazendo bobagens, Uhtred, e estou sendo castigado por isso.
— Que homem não faz bobagens?
— O homem que está no front de batalha, oras — disse como se eu soubesse a resposta. — Mas eu quis paz e vim para Synninghwait para acalmar meu coração. Só que minha paz foi abalada, mesmo não procurando guerra... Reviro as noites em claro...
— O senhor não teve culpa do que aconteceu — fiz uma pausa para pensar no que ia dizer. — Mulheres vêm e vão, e devemos guardar as melhores em nossos corações como recordação do que tivemos de bom...
— Ah, Uhtred, quisera eu poder dizer essas palavras com tanta convicção.
— Mas, senhor, sua esposa está bem, precisa apenas descansar e voltará a ser o que era em questão de dias...
— Aí é que está, Uhtred! — e apontou o dedo para mim. — Será que a mesma moça com quem me casei ainda estará lá?
Não soube o que lhe dizer de imediato. Fitei as pedrinhas ao redor dos pés dele e depois a água rolando rio abaixo. Então o filho mais velho de Dagfinn, Gunnar, apareceu correndo com o irmão de cinco anos atrás dele. As duas crianças pararam logo ao meu lado e fitaram o pai como que pedindo consentimento para entrarem n'água.
— Venham, meninos — ele permitiu, e atirou um pouco de água com o pé nos dois.
— Só um pouco, senhor — disse Gunnar -, ou mamãe tira nosso couro.
— Ô se tira — riu Jerrik, o mais novo. E os dois se jogaram na água fresca.
Ficamos por um longo tempo em completo silêncio, ouvindo apenas as águas e os pássaros ao redor.
— Eu acredito que ela ame o inglês, o senhor de Eoferiwc — Dagfinn falou depois que os meninos correram pela relva a se secar. — Não há outra explicação. Lembra-se do dia de meu confronto com ele?
— Aeldred — murmurei quase inaudível.
— Sim, Aeldred. Ela interrompeu a luta. Por que faria isso se sabia perfeitamente que eu venceria?
Permaneci calado, refletindo.
— Ela o ama e talvez tenha querido voltar com ele para Eoferwic, mas não o fez por causa das crianças — e Dagfinn fitou os filhos, agora já completamente vestidos e correndo de volta para casa.
— Senhor, pelo que Gisela me contou, ela tem certeza de que sua mulher o ama muito.
— Tem? — ele voltou os olhos para mim parecendo um menino interessado num brinquedo.
— Tem — repeti, mas a afirmação não deteve sua atenção, acho que ele esperava mais de mim. Dagfinn voltou o olhar para as montanhas, cruzou os braços e fechou os olhos. Então eu lhe disse: — Perdoe-me, Gisela tem completa certeza...
— Ah, Uhtred, obrigado — murmurou, mas não senti que ele fosse sincero, ele apenas queria que eu o deixasse sozinho.
Dei alguns passos para longe do rio e me peguei pensando em Gisela. Ela diria que não tinha me esforçado o suficiente. Era bem verdade que não tinha dado qualquer passo com Dagfinn, porém, eu não era político, muito menos uma lavadeira para ficar de conversa com outros homens, eu era um guerreiro, um senhor da guerra, e tinha mais com que me preocupar, partiria na madrugada seguinte. Mas o rosto de Gisela fechando-se numa expressão zangada me fez parar e voltar para a beira do rio.
Dagfinn me fitou com impaciência.
— O senhor virá comigo a Eoferwic? Foi o que ouvi dizer por aí.
— Não há que se preocupar com sua mulher e seus filhos, Uhtred. Serão bem protegidos.
— Isso quer dizer que vem comigo?
Ele parecia querer dizer que sim e ao mesmo tempo, não. Bem se via que travava uma batalha interna.
— Se eu for e ao retornar para cá, minha mulher ainda estiver aqui, é porque me ama e ama as minhas terras. Do contrário...
— O senhor não acredita ser mais fácil conversar com ela? — intentei desconfiado da própria pergunta.
— Não estamos nos falando nesse momento.
— E o senhor vai à guerra sem se entender? E se... por Odin que não aconteça... mas se...
— Se eu for para o inferno, ela estará livre.
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