Crônica de um Engodo

1 Capítulo 1 - A despedida


Eu estava no meu carro voltando do trabalho. Som ligado, ar ligado. Estava de noite e eu ainda meio sem rumo sobre o que fazer naquela cidade para onde eu havia acabado de me mudar a trabalho: Goiânia, capital do rock nacional, do arroz com pequi, das baladas sertanejas – que, por sinal, eu odiava. Eu não queria ir para casa naquela noite.

O relacionamento que eu tinha na época não estava indo nada bem. Era evidente para mim que dos dois anos que ficamos juntos, o último estava levando nossa vida a dois ladeira abaixo. Eu me sentia pronto para um rompimento, e no fundo até me culpava um pouco por achar que do outro lado eu tinha uma pessoa bem mais frágil que eu. Éramos dois homens, eu assumidamente homossexual e ele ainda encontrando dificuldades até para se aceitar. Confesso que já cheguei a me culpar por diversas vezes sobre o desconforto que ele devia ter ao lado de um cara como eu, que a qualquer momento poderia o expor para família, trabalho e para a sociedade só pela nossa convivência. Aquilo já estava insustentável para ambos.

Peguei a Avenida Marginal Botafogo, sentido Universitária. Eu queria achar algum lugar para sair sem ter que me esbarrar com alguns de nossos amigos em comuns. Àquela altura, todos os amigos próximos que eu tinha naquela cidade, fora trabalho, eram nossos amigos em comuns. Eu ainda não havia conhecido Goiânia como todos falavam porque acabei adquirindo os mesmos preconceitos que o companheiro tinha, e evitava ter os meus ciclos próprios por razões de ciúmes dele.

Já havia alguns meses que mal conseguíamos nos comunicar e naquela noite eu estava decidido a acabar com tudo. Só de eu me entender como uma pessoa que o incomodava pelas minhas maneiras desprendidas de pensar a vida, eu me sentia sufocado. Eu precisava viver o meu mundo e até aquele momento eu estava me privando até de ser quem eu era. Era como se eu me forçasse o tempo todo para caber dentro de uma caixa de sapato, eu nesses meus 1,85m de altura.

Meu celular apitou barulho de mensagem. Era ele dizendo que ficaria no plantão até mais tarde naquela segunda-feira. Parei o carro no acostamento e resolvi responder de uma vez.

— “olha, felipe... de verdade, acho melhor terminarmos por aqui.” (18:45h) – Respondi. Simples e direto.

Ele pareceu reticente. Fiquei ainda alguns minutos parado aguardando sua resposta. Até que logo ele mandou assim:

— “entendo...” (18:56h).

— “a gente mal tem tempo de conversar, seu trabalho tem exigido muito de voce e eu não quero mais lhe parecer um problema.” (18:56h) – respondi já com os olhos marejando.

— “tudo bem se é o que vc quer.” (18:58h) – ele disse. Fiquei imaginando o que estaria se passando em sua mente sobre eu trazer de novo à tona o assunto do término, e agora por mensagem de texto.

— “continuo te respeitando muito, apesar de tudo.” (19:03h) – mandei em seguida. – “espero que a gente consiga se dar bem como amigos, pelo menos. Pq como namorados, já ta claro que não funcionamos.” (19:04h).

— “com certeza.. e realmente temos que lidar com isso da melhor maneira” (19:04h). – ele respondeu. — “fiquei pensando muito nessa semana e pelo visto não tem outro jeito.” (19:05h).

— “espero que você encontre alguém que preste atenção em tudo que você fala..rs” (19:06h) – respondi.

— “tb espero que vc seja muito feliz com alguém muito melhor que eu.” (19:06h).

— “eu te admiro tanto, e acho vc uma pessoa fantástica..” (19:08h) – a essa altura eu já não conseguia conter o choro.

— “que isso, vc que é um cara fantástico. Todos os meus amigos gostam muito de você” (19:09h). – ele respondeu. — “eu nunca fui uma boa pessoa, nunca mereci um cara como voce” (19:10h).

Every carpet, every floor / Cada tapete, cada andar

Everywhere I look up for / Por onde quer que eu procure

Climbing up the walls, I’m climbing up the walls / Subindo pelas paredes, eu estou subindo pelas paredes

What goes on behind these doors / O que se passa por trás dessas portas

I’ll keep mine and you’ll keep yours / Eu vou manter os meus e você os seus

We all have our secrets, we all have our secrets / Temos nossos segredos, todos temos nossos segredos.

Behind every door is a fall, a fall and / Por trás de toda porta está uma queda, uma queda e

No one’s here to sleep / ninguém tá aqui pra dormir.

You were always faster than me / Você sempre foi mais rápido que eu

I’ll never catch up with you, with you / Eu nunca apanharei você

On I can feel them coming for me / Oh, eu posso senti-los vindo a mim.

(No one’s here to sleep – Naughty Boy Feat. Bastille)

E terminamos. Nesse instante lembro que senti uma mistura de alívio, medo, ódio, angústia, euforia, tudo junto. Parecia que eu ia explodir. Eu não sabia também por onde recomeçar minha vida, quem eu era, do que eu gostava, com quem conversar. Não poderia ser tão injusto dizendo que nunca tive os meus próprios amigos na cidade, sem contar os do trabalho e os que eu fiz através de Felipe, até porque, sim, conheci algumas pessoas nesse tempo. Pensei em dois deles nesse instante. Colegas com quem eu evitava convívio maior por causa da implicância que Felipe tinha com todas as pessoas que se aproximavam de mim.

E Felipe era psicólogo clínico. Ele ministrava aula em universidade, era envolvido com pesquisa e ainda atendia em consultório particular quando não estava no hospital, onde também dava plantão durante as segundas e quartas à noite. Sempre muito ocupado preparando palestras, materiais, atendendo pessoas e eu lidando com o pouco tempo que sobrava para as nossas intimidades. Pouco tempo esse que ele aproveitava muito mais com a gente dando atenção aos amigos dele do que para nossa própria relação. Foi dureza.

Peguei implicância total com a cidade, com a cultura, com as pessoas. Eu já vim morar em Goiânia namorando ele, então cheguei até achar que íamos casar logo que eu terminei a faculdade. Mesmo vendo que estávamos perto de viver esse rompimento, quando a coisa acontece você custa a lidar bem com a realidade. Agora eu teria meus primeiros tatos com a fase de luto, no campo afetivo. E depois disso reconstruir a minha pessoa.

Liguei pra Mirela, uma amiga de trabalho e contei o ocorrido. Ainda estacionado no acostamento da Marginal Botafogo e com o pisca alerta ligado, fiquei por quase vinte minutos no telefone desabafando aos berros com ela. Mirela perguntou se não era melhor nos vermos em algum bar afastado do entorno da Universitária. Pensei: onde? Na minha cabeça Goiânia era um ovo, então para esbarrar com conhecidos nossos era muito fácil. E eu estava fragilizado, não queria ver ninguém mais. Mirela ainda insistiu em me levar num bar em que ela tinha ido com mais duas colegas nossas, daí fui.

Fomos para o Setor Oeste, já quase chegando ao Zoológico, perto do apartamento dos pais do Felipe.

— Mirela, eu não sei o que pensar.— eu chorava feito criança. — A sensação que tenho é a de que perdi o meu melhor amigo pra sempre.

— Ai Guto, não exagera. Relacionamento é assim mesmo.— ela respondia pacientemente, servindo meu copo com água com gás e limão.

— Agora tudo vai me lembrar daquele filho da puta, cada detalhe nessa cidade, nesse estado, tudo!— eu resmungava. — Poxa, nosso namoro colaborou muito com minha permanência aqui.

— Mas Guto, estamos na capital.— Mirela insistia. — Essa cidade é um mundo e o que não falta é gente nova pra você conhecer.

— Ah Mirela, eu já tava querendo terminar esse namoro faz tempo, mas fiquei tão preocupado com a maneira como ele poderia agir e ele ainda foi frio comigo.— eu comentava chorando. – Felipe sempre foi muito apegado a mim, e ele tem uma natureza tímida, introspectiva, ele tem dificuldades pra se expressar, dificuldades de lidar com esse tipo de coisa.— nossa, eu gesticulava tanto.

— Guto agora você tem é que se preocupar consigo mesmo.— dizia Mirela segurando minha mão. – Esquece o Felipe, porque se ele encarou bem esse término por texto, é sinal que ele já vinha esperando essa atitude da sua parte há muito tempo.

— É, ele sempre foi muito covarde...— comentei reticente enquanto limpava o rosto. A essa altura eu já não estava nem aí pra quem estivesse olhando.

— Agora Guto olha só pra você.— Mirela insistia. – Levanta essa cabeça, gaste mais tempo consigo e vá se cuidar mais.

Nessa época eu estava até bem acima do peso. Para não falar “enorme de gordo”, com meus 106kg. Usava cabelo grande e cacheado, rosto sem barba e cheio de espinhas, além de só andar com a postura torta, tendendo a ficar corcunda com o passar da idade. Nisso eu ainda tinha meus vinte e cinco anos, quando havia acabado de terminar a faculdade de Engenharia Civil. Mal sabia me vestir e estava super acomodado comigo mesmo e com a aparência. Afinal, Felipe sempre foi bem desleixado também, e até bem pior. Éramos ambos gordos, esquisitos e arrotávamos a arrogância de dois nerds superinteligentes capazes de julgar o mundo sob todo e qualquer ponto de vista.

Pois, não vou mentir, Felipe sempre foi uma grande referência de pessoa inteligente para mim. Eu o respeitava muito, mesmo ele sendo apenas dois anos mais velho que eu. Quando nos conhecemos eu ainda não havia contado para minha família sobre ser gay. Foi logo quando vim de São Paulo para trabalhar no DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Eu cheguei de fora, ainda aos vinte e dois anos, e não demorou muito para conhecer Felipe.

Minha preocupação em me assumir era deixar a família preocupada pelo fato de eu, enquanto filho caçula, me mudar para outra cidade, morar sozinho, solteiro e ainda cair na... "Putaria". Eu não queria que minha mãe e meu irmão torcessem o nariz para mim pensando milhões de coisas a meu respeito. Pensando que eu poderia estar me envolvendo com gente que não devia, usando drogas, me prostituindo, contraindo DST e o caramba a quatro. Pelo contrário. Procurei pela oportunidade de achar alguém que ia de encontro a todo esse estereótipo que o gay tinha no senso comum do meu mundo.

Realmente foram quatro meses até Felipe aparecer na minha vida. Psicólogo, católico conservador, pessoa de família e com os mesmos gostos que os meus para literatura, música, arte, jogos e entretenimento. Ele também não gostava de sair para noitadas, sempre foi muito caseiro e dado aos amigos e aos estudos. Era carinhoso, atencioso e ciumento ao extremo comigo. À medida que eu vinha me assumindo, eu ia falando pouco a pouco para as pessoas sobre o nosso namoro. Foi interessante porque eu estava bem comigo mesmo enquanto pessoa e com a autoestima lá em cima. Eu estava me conhecendo e vendo que ser gay não era o “problema” que eu achava que era. Porque “gay” não era necessariamente um cara viciado em sexo, em relacionamentos, em ficar com várias pessoas, em dar escândalo. Comecei a quebrar alguns tabus partindo daí e até no ambiente de trabalho nunca escondi o fato de estar num namoro com outro homem. Eu compartilhava minha “novidade de vida” com alguns colegas de trabalho, quais desde essa época começaram a ficar até mais próximos de mim, e me demonstravam apoio. Foi uma virada de página interessante nesse meu primeiro ano em Goiás.

Quando passei no concurso do DNIT, eu primeiro trabalhei no interior do estado. Morei por um tempo em Jataí/GO, mas já costumava ficar por semanas em Goiânia a trabalho. Nesse primeiro ano era quando eu também estava procurando jeito de mudar minha lotação para a capital porque eu ainda estava no oitavo período da faculdade de Engenharia. Somente no ano seguinte que consegui ficar definitivo em Goiânia para voltar aos estudos. Aluguei apartamento, minha mãe vinha ficar comigo de vez em quando, e assim fui preparando minha vida para viver o sonho de uma rotina romântica a dois.

— Guto, eu não conheci esse Felipe pessoalmente.— Mirela comentou. — Mas pelas fotos que você postava junto dele, não sei se ele parecia ser tão feliz assim com você.

— Mesmo?— questionei, levantando a cabeça, depois de gastar uns minutos olhando pro nada, ainda sentado no bar.

— Essas coisas de namoro são bem assim, não adianta.— ela retrucou. – A gente às vezes se perde vivendo a vida de outra pessoa, daí acaba que esquecemos de nós mesmos. Quando foi que você saiu sozinho aqui em Goiânia?

— Ah, tem tempo.— respondi. – Só morando aqui tenho um ano e pouco, mas eu tô desde fevereiro de 2011 no DNIT. — comentei. Estávamos em outubro de 2013, e Mirela começou a trabalhar comigo em 2012.

— Então esse é o seu momento, Guto.— ela comentou. – Vá viver sua vida e desprende um pouco desse povo que você só lidava quando saia junto mais o Felipe.

Mirela deu a injeção de ânimo que eu precisava. Realmente não era um fim de mundo essa coisa de acabar o namoro, mas eu estava sem chão. Estava em pedaços. Não sabia como lidar, porque até então eu nunca havia passado mais de um ano junto da mesma pessoa. E, poxa, foi tanta coisa que aconteceu ao mesmo tempo, tanta descoberta, tanta...

De repente, para minha surpresa, vejo chegando um dos amigos que eu tinha em comum com Felipe. Era Domênico, e ele estava acompanhado de outro rapaz que eu ainda não conhecia. Domênico chegou e me cumprimentou, mas com uma expressão bem esquisita.

— Oi Gustavo.— ele veio para apertar minha mão. Senti um tom de desapontamento e deboche da parte dele.

— Oi Domênico. — respondi. – Essa é Mirela, engenheira que trabalha comigo no DNIT.

— Esse é Juliano, colega de faculdade.— ele comentou. Apresentou o amigo, ambos sentaram na mesa conosco e continuamos a conversar.

Domênico já sabia do nosso término. Segundo ele, Felipe combinou para encontra-los ali naquele mesmo bar depois que saísse do plantão. Eram 20:40 ainda e Felipe largava às 21:30 do hospital.

Até que ele chegasse dava tempo de ficarmos por mais meia hora, ou quarenta minutos que fosse. Mirela gostou de conhecer Domênico, que não era gay e sempre tinha suas sinas de relacionamento também, e ficava nessa coisa de terminar e voltar com a ex-namorada. Juliano era um cara bem “porra louca”, e no mínimo um parceiro de back de Domênico. Porque Domênico foi paciente do Felipe por um bom tempo, e foi assim que acabaram virando amigos quando Felipe cismou uma vez de começar um curso de Publicidade e Propaganda, onde ficou só por um ano, e isso bem antes de começar a dar aulas. Domênico e Felipe caíram na mesma turma e desde então se aproximaram bastante.

— Mano, é o que sempre falo.— comentou Juliano. – Amor a gente só cura com outro amor.

— Também acho, Guto!— respondeu Mirela com empolgação. — Hora de dar a volta por cima, sacodir essa poeira e cuidar das coisas que você tem pra cuidar que logo aparece alguém.

— Acho que tão cedo não sou capaz de me envolver com outra pessoa.— comentei rindo.

— Não adianta, a gente sempre fala isso Gustavo.— Domênico comentou. — Depois dum relacionamento a gente acaba se perdendo no mundo que construímos do lado daquela pessoa que a gente gosta. Aí quando tudo acaba, é normal a gente ficar sem rumo.

— Foi o que falei a pouco pra ele aqui, Domênico. — Mirela respondeu. — Ele mesmo já estava falando que queria terminar esse namoro faz tempo. Agora fica aí chorando.

— Ah, gente. Chorar faz parte.— comentei. — Fora que não deixa de ser uma perda.

— Agora Gustavo, vai por mim, esquece o Felipe duma vez por todas.— Domênico recomendou. — Vá viver a sua vida, faça as coisas agora só por você e toca o barco adiante. Esquece ele!

Achei aquilo ofensivo. Era como se hoje eu estivesse atrapalhando algo na vida de Felipe e seus amigos. E realmente atrapalharia, se não me dispusesse a praticar o desapego. Pude entender um pouco na hora, mas compreender mesmo acabou sendo só bem depois.

E após meia hora de conversa resolvi ir embora. Mirela só não quis ficar com os meninos porque tinha compromissos ainda naquela noite – ela queria assistir a um seriado que acompanhava toda segunda-feira, e eu também adorava. Mas naquele momento eu não tinha cabeça para mais nada. Tudo o que eu queria era chegar em casa, tomar banho, chorar, chorar e chorar ainda mais.

Porque na minha cabeça passava um monte de coisas. Eu até acreditava que dava conta de encontrar outra pessoa, e que Felipe mal tinha tempo para nosso namoro, quiçá para ter outro cara tão logo. Eu entendi que ele poderia estar buscando um tempo para ficar sozinho, dar mais atenção à família (que reprovava nosso namoro) e dedicar a seus projetos de pesquisa do mestrado. O término do nosso namoro foi bem o começo dum novo ciclo para mim. Eu precisava daquilo. Eu precisava sentir algo como rejeição, perda, enfim, tudo que me pudesse provocar um caos emocional para estimular minha personalidade.

Mal podia eu imaginar que fui livrado dum ciclo vicioso de ilusões sem fim que vinha se arrastando por tempos. E a hora em que toda aquela fantasia se desmoronou, meu amigo... Eu quase entrei em parafusos.