Cotton Candy

4 Kenai Kazuya


Notas iniciais
"Não sou igual aos outros. Eu sou alguém, não apenas mais uma peça de jogo."

O vento forte marcava a minha execução. Os olhares fixos em mim, espantados. As expressões de terror, como se eu fosse algum monstro, algo que os levaria à morte. O silêncio era profundo e iminente naquela passagem. Os pássaros passavam entre as montanhas rapidamente. Um clima diferente de tudo que já vi.

Sussurros sobre um garoto que supostamente teria quebrado o tabu, que teria usado magia entre as montanhas, entre o território da linhagem de guerreiros Kazuya. Eu.

- Pessoal... isso não foi magia... sabe? Eu... apenas... erm... empurrei ele. Isso, eu o empurrei. Um empurrão isento de qualquer magia.

Os sussurros se tornaram mais fortes, isso durou algum tempo, até que sinto algo passar pelo meu pescoço, e logo minhas veias gelam. Sonífero.

Acordo numa cama confortável, num quarto bastante iluminado e com cortiças na parede. Reconheço os mosaicos presentes no teto como os do Palácio Real, e logo entendo a situação.

Entre as duas montanhas e o vilarejo dos guerreiros, está a maior das montanhas, e no topo da colina, está o ilustre castelo do Palácio Real. É onde estou.

Desço da cama. Estou vestido com um avental branco, e nada além disso, o suficiente para cobrir o meu corpo. Minhas mãos presas atrás de meu corpo por meio de cordas revestidas, tão fortes que minha mão dói, e roxeada, sangra. A porta reage e se abre, com uma imagem inesperada.

"Acabou". Penso. Mas deve haver alguma saída. Em minha frente, se ergue o tribunal, cuja repercussão foi tão alta, que estão aqui presentes todos os testemunhos do caso, e, inclusive o Rei.

- Venha para a frente do tribunal, réu. — diz o rei, numa voz extremamente calma e solene, como esperado da figura de maior respeito por aqui.

- Sim, senhor. — digo, respeitosamente, e sigo até a frente — Há algo para ser tratado comigo, aqui? — digo, mesmo sabendo do que se trata, apenas esperando que ele esclareça tudo pela visão dele.

- Pois sim, meu caro, então, comecemos o julgamento. — rapidamente, noto que os olhares se fixaram em mim, por todos os lados — Kenai Kazuya, acusado de romper o tabu real, o mais espreito de todos. Quem aqui está a favor da punição imediata de Kenai, que se proclame.

Apenas um homem idoso se levanta para prestar caso:

- Eu vi tudo... — ele gagueja lentamente — só podia ser magia... e todos aqui podem confirmar isso. Porém... ele é só uma criança, não acha que podemos deixá-lo sair com apenas advertências? O senhor não está sendo extremamente rígido com uma imagem de pouco caso da linhagem?

É tudo que ele diz, até um soldado executá-lo com um rápido tiro na cabeça, e convocar os servos reais para limpar. Desvio o olhar, com certa ânsia de vômito. Por que ele tentou me defender? Mesmo sabendo que qualquer um que se oponha às regras deve ser executado? Eu não posso ver as pessoas morrerem em minha frente assim.

Então reparo que a imagem daquele velho era exatamente como a de meu pai. Um homem robusto, com opinião própria, contestador. E com isso me pergunto como meus pais devem estar sentindo, já que, sem alguma dúvida isso foi um acontecimento de conhecimento geral.

- Isso é o que acontece com quem tenta discordar da lei. Querem provar desse remédio? — diz o rei, fazendo pouco caso de tudo. — Acho que é o suficiente, temos um testemunho, se todos aqui presente puderem me confirmar se o que viram foi magia, será rápido. Kenai será executado imediatamente. Então vou perguntar o contrário, quem se opõe ao executo de Kenai?

Ninguém. Por 10 minutos de puro silêncio, ninguém levanta a placa, até que uma mulher ergue levemente a placa, mas logo abaixa, ao perceber que está sendo fixada por todos.

- Pois bem. — o rei se levanta, com um tom de caso terminado — Servos, imediatamente. Quero que convoquem todos para a estação pública na entrada das montanhas. Não quero nem um camponês de fora. O julgamento ocorrerá as 17:00 em ponto.

As quatro horas que se seguem numa sala trancada, são horrorizantes, eu soluço com meu choro, mas engulo em seco. O que mais me dói é como reagirão meus pais... pessoas tão boas e esforçadas, tendo que passar por uma humilhação dessa, por causa de um filho que infringe leis.

Não consigo me acalmar com isso em mente, até que chegam os homens para me escoltar. Estou na mesma roupa de antes, que rapidamente limpam usando um balde de água ensaboada, sem se preocupar comigo encharcado.

Depois de todo o passeio escoltado por eles, por entre as montanhas e pela vila, descemos até a extremidade mais baixa do reino. O vazio do reino estava compensado com a multidão de pessoas que me esperavam. Cerca de 5.000 homens e mulheres, todos os olhares fixos para mim. Reviro os olhos, dando uma pequena pausa até que um dos seguranças me chuta o rosto com força. Caio no chão.

Logo reconheço o soluço desesperado de minha mãe e meu pai, tentando tampar a boca da doce mulher, agora desesperada que era minha mãe. Porém ele falhou, e logo ela é levada para a prisão. Qualquer barulho era sinal de oposição e constava à prisão perpétua e sem fiança, para servir de bode expiatório.

O turbilhão de coisas que segue em minha mente está maior com isso, mas apesar de tudo, é como se eu não conseguisse registrar o que acabou de acontecer. Apenas uma lágrima escorre pelo meu rosto.

Segue-se de um discurso de aproximadamente uma hora do rei, com todo o público de olhos fechados e a mão no coração. Alguns — pra ser exato dois -, que erraram o posicionamento, foram instantaneamente presos por não seguirem o padrão dos Kazuya.

Então, sou amarrado entre os dois pilares e rapidamente sou erguido. No alto, passando mal, está a figura de um garoto desesperado, sem noção do que estava acontecendo, triste por seus pais. Logo então, segue-se o barulho do primeiro tiro — tradicionalmente, em nosso reino, há um primeiro tiro para deixar o criminoso inconsciente, seguido por outros 100 pelos soldados dali — mas o que acontece é pior.

Assim que meu olhar se fixa pra baixo, vejo meu pai sendo executado. O tiro que eu havia escutado era de meu pai. Ele estava com a arma do soldado que iria começar a sessão, juntamente com o próprio numa poça de sangue. Rapidamente absorvi a cena e soltei um grito de agonia. O silêncio continuou. Até o momento em que uma faca perfura o coração de meu pai, que é arremessado para fora do reino, para servir de comida aos abutres.

Eu estou aos prantos. A sessão logo se reorganiza e o primeiro tiro acerta meu ombro. Porém os outros tiros não chegam. O maior ato de imprudência feito até hoje, provavelmente. Eu criei uma barreira mágica para evitar todos os outros tiros, e em alguns segundos, reúno toda minha força para me jogar no chão e sair correndo para fora do reino. Meu estado é deplorável, mas a barreira conseguiu distraí-los até eu fugir uns 5km o local, segurando o local do tiro meu ombro, o sangue jorrando e comigo tentando estancá-lo. Depois de mais umas duas horas correndo, desabo no chão. Estou próximo a uma montanha. Muito diferente das que eu já havia visto.

Tudo foi perdido. Meus pais. Minha honra. Meus amigos. Tudo.

Mas eu não guardo rancor... porque agora sei, que foi isso que me permitiu seguir em frente com meus objetivos, e se foi preciso, eu aceito isso, sem receios.

Muitos dias depois, continuo a minha jornada, vagando para lugares desconhecidos, procurando aprender o máximo que eu posso sobre magia: o que sempre me fascinou, que sempre me acolheu enquanto eu dormia.

Se para os Kazuya a magia é um tabu, se eles não me aceitam, eu vou achar alguém que me aceite, que me acolha. Como a família que eu não tive. E com toda a força, irei ser alguém. Irei livrar minha mãe dessa solidão eterna, irei orgulhá-la.

Não preciso seguir o caminho que me foi designado. Eu posso ir além. Posso ser maior.

5 anos depois

Durante minha jornada, encontrei muitos anciões, que me passaram conhecimentos importantes.

Me tornei conhecido pelos reinos como "O mago anônimo", por nunca divulgar meu nome, que revelaria meu passado obscuro e as minhas origens. Me tornei alguém grande, assim como sei que meus pais desejariam que eu fosse. Alguém.

Eu sou Kenai Kazuya, o mago.

Notas finais
No próximo capítulo: Dragonis, o Berseker.