Cotton Candy

5 Dragonis


Notas iniciais
"A origem determina apenas o seu passado, mas não o seu presente."

Não tenho nenhum conhecimento sobre o mundo exterior, sobre a minha raça. Desde que me lembro, sou criado por dragões. Não sei porque tenho domínio sobre a língua humana ou porque meu corpo é igual ao deles. Nunca me deram um nome, por isso me dei a liberdade de escolhê-lo. "Dragonis".

Os dragões são seres míticos, e mesmo com todo o conhecimento humano sobre eles, poucos são os que os virão. O mundo lá fora me rejeitou, por motivos que sonho em compreender, e desde então, os dragões são meu lar. Mas eu não posso negar que conhecer o mundo à fora seria bom.

Meu jeito de agir, rugir, meus instintos... eu me sinto um dragão de verdade, esse é o meu "eu". E nenhum humano vai me convencer a mudar o meu jeito de ser. Desfaço a fogueira no cume da montanha e salto, pairando por alguns segundos no ar, equilibrando-me de cume em cume e seguindo para onde os dragões estão reunidos — o que levaria horas, dias talvez, se eu fosse andando a pé pela estrada — para treinar. Todos já acordaram, estão treinando o voo.

Não é comum para um ser humano aceitar a presença de um dragão, então a luta de um deles é a sobrevivência, foi difícil até mesmo pra me aceitarem como um deles. Decido me juntar a eles, já que eu estou com apenas uma veste curta nas pernas, isso pode ser um grande aprimoramento de minha resistência, nessas planícies de gelo.

Continuo sentado, na temperatura de aproximadamente uns quarenta graus negativos. É insuportável até para mim, que fui criado para suportar qualquer tipo de clima, mas logo estabilizo minha mente e consigo suportar.

Depois de umas cinco horas de treino, alguns dragões me trazem peixes crus, que como sem hesitar e aceno com a cabeça, em agradecimento. Me levanto.

Saio da planície e vou direto para as montanhas, onde permaneço treinando meu salto até a noite, sem nenhuma pausa para comer. Essa era minha rotina. Talvez não fosse a melhor, mas não é a pior, estar com aqueles que ama é revigorante, pode limpar a sua alma um milhão de vezes e ainda te dará o mesmo prazer, a mesma leveza, essa é minha motivação.

Como cada ser humano, eu também tenho uma ambição, mas não é em prol de mim mesmo, mas sim dos dragões. Sonho com o dia em que os dragões e os humanos poderão conviver em paz. Sem se preocupar um com a hostilidade do outro. Sem o egoísmo humano.

Algo inesperado ocorre. Ouço um rugido vindo de onde os dragões estariam. Um humano normal não escutaria um gemido desses nem com todo o esforço deles. Agucei meus sentidos especificamente para poder me juntar aos dragões. Tento relaxar, tentando pensar que é o simples rugido de agrupar, mas soou diferente... como se... eles estivessem em perigo.

Começo a soar frio só com a possibilidade e pulo de cume em cume, com toda minha velocidade, quase rasgando a pele meu meus pés perfurados pela ponta de cada cume. Mas avanço cada vez mais, até que depois de uma meia hora, estou no local.

Mas é pior. Nenhum dos dragões está aqui, exceto pelo corpo de dois dos dragões no chão. Provavelmente ainda não estão mortos, mas a simples imagem me paralisa por alguns segundos. Percebo que devo agir.

Salto aproximadamente 50 metros para o chão, e minha descida é contida pelo monte de neve agrupado no pé da montanha. Corto minhas costas no que poderia ser fatal, mas resista.

Corro em direção aos humanos e antes que percebam, me jogo em cima deles e estou esmurrando um dos homens, com uma armadura por cima de uns dez agasalhos, que quase o imobilizam. A primeira visão deles não é a de um humano, e sim a de um monstro.

Eu esmurro o primeiro tão forte e tão rápido, tantas vezes, que o deixo inconsciente sem muito esforço. Mas tem mais uns cinco ou seis, apenas esperando que eu vire para me acertarem com suas armas.

– O que diabos é esse moleque?! Ele não é uma criança qualquer! Tome cuidado! — diz um homem segurando uma clava de ferro. — Isso pode requerer algum esforço.

– Apesar de tudo, é só um mendigo que se perdeu, heh, não quer aproveitar e vender o corpo dele junto com o dos dragões? — diz um segundo.

A fala me gela. Eu jamais permitiria que ele vendesse o corpo de um daqueles que cuidaram de mim a vida toda, se há alguém que deve pagar com toda a vida, são eles.

Soco um homem que vejo estar banhado de sangue, que reconheço como o de um dos dois dragões, e lhe removo a clava. Porém os outros cinco correm até mim e me acertam em pontos vitais, usando suas armas. São clavas, espadas, armas de precisão, martelos. Sei que não posso desistir, se é pelos dragões, eu o farei. Continuo resistindo e aguentando cada um deles, e consigo nocautear mais dois, porém, depois de aproximadamente uma hora de combate pelas planícies com os outros dois, um tiro da arma perfura meu crânio. Caio no chão.

Os dois se aproximam de meu corpo gélido, pálido e imóvel no chão, mas não os dou tempo o suficiente. Rapidamente uma sensação de culpa me ocorre, por ter deixado os dragões se machucarem. Eu me reergo, minha visão está embaçada.

O que estou fazendo? O que são esses gritos em minha cabeça? Quem é esse monstro que estou vendo...? Isso... sou eu? Não posso mais me controlar. Uma figura de olhos completamente brancos e inexpressiva quebra as armas de ferro com apenas um soco, uma mão demoníaca. Agora entendo. Entendo porque fui rejeitado como humano. Entendo tudo. Sinto que tudo o que posso trazer agora é a infelicidade de todos ao meu redor.

Eu realmente sou um monstro. E mesmo assim, os dragões cuidaram desse monstro, por todo esse tempo. O ensinaram a viver.

Noto alguns dos dragões feridos na imagem que abate meu cérebro. Sobrevoando o garoto e lhe agradecendo, derramando lágrimas que eu jamais havia visto deles. Então se despedem e desaparecem da imagem.

Estou inconsciente, não estou? Isso... só pode ser um sonho. Eu não sou esse monstro... sou? Agora os dois homens estão mortos, em poças de sangue no chão, seus corpos completamente deformados, e tudo se torna preto.

Quando a luz retorna, estou num lugar completamente diferente, aquele monstro... era eu. Me pergunto quanto tempo se passou desde que sou aquele monstro, penso que talvez uns três dias, ao avaliar de acordo com os ferimentos agora cicatrizados em minha pele.

Meu cabelo, completamente arruinado, cicatrizes por todos os lados, marcas de mordidas, armas, tiros. Me sinto exausto. Talvez eu nunca mais volte a ver os dragões, eu os abandonei. E isso foi tudo meu mérito. Eu nunca deveria ter ficado com eles. Se eu fui rejeitado pelos humanos, é claro que tinha uma razão, claro que tinha uma lógica por trás disso! Eu sou um berseker, um monstro!

Mas, não. Depois de avaliar tudo... isso não foi monstruoso. Dia pós dia, mil assassinatos ocorrem. Dia pós dia, ninguém se dá conta da dor do outro. Dia pós dia muitos passam fome por causa da injustiça. Isso sim é monstruoso! E, posso garantir que não são os dragões os verdadeiros monstros, muito menos um rosto assustador e demoníaco. A monstruosidade reside dentro dos humanos.

5 anos depois

Trilharei meu próprio caminho. Reencontrarei minha família. Com o controle desse poder sobrenatural, eu posso muito bem mudar. Mudar completamente. Trazer apenas a felicidade para todos os que me rodeiam. Não é impossível. Não se eu acreditar que posso e esquecer de minhas capacidades. De minha origem humana.

Eu sou Dragonis, o berseker.

Notas finais
No próximo capítulo: Patrick, o invocador.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.