Cotton Candy

2 Clyver Ordywood


Notas iniciais
"Como posso culpar um humano por seguir sua natureza maléfica?"

Acordo. Como. Trabalho. Durmo. Eis a minha rotina.

Desde que meu pai morreu, minha vida tem sido assim. Minha mãe arrumou um cara rico e em menos de 2 meses estava casada, e desde então, eu sofro desses abusos. Não tenho mais liberdade. Não sou mais "eu mesmo".

O único homem que já me entendeu foi meu pai, o único que me mostrou as verdades do mundo, que realmente procurou me deixar ser o que eu sempre quis ser. O homem que eu admirava ao mesmo tempo que amava. Lembro de meus tempos de criança inocente, quando podia sair livremente pra floresta próxima a minha vila e brincar de arco-e-flecha, caçar. Viver.

Meu pai era um homem simples, que conquistou o respeito de todos da vila, o mais forte. Superou a morte de seus pais enquanto era uma criança e seguiu a vida. Ninguém nunca o viu sem o seu velho sorriso no rosto.

Porém, era um homem extremamente pobre. Foi assassinado, carbonizado na frente de meus olhos, num dia em que passávamos fome, por roubar um pão.

Minha vida nunca mais foi a mesma, porém é um fardo que terei de carregar, e terei de superar.

Desço de meu quarto, e me deparo com as faces de minha mãe e meu padrasto me encarando, fixando-me por estar atrasado pra mesa.

- Ora... seu... pirralho babaca! Eu te deixo viver e em troca você faz isso comigo? — solta meu padrasto, berrando e segurando minha gola.

- Chama isso de viver, senhor? — ele me fixa — Você é maligno. Não sabe o que é ter opinião própria, não sabe o que é ter uma vida digna.

Sento-me na mesa, como se nada estivesse acontecendo, e desvio o olhar. Até que vejo seu braço se aproximando num tiro certeiro de meu rosto. Ele berra palavras inaudíveis quando numa fração de segundo, desvio o rosto e faço ele bater sua mão na madeira da cadeira e começar a sangrar.

Minha mãe tenta segurá-lo, mas tanto eu como ela sabemos que acabou pra nós.

- V-Você... não... fez isso, você fez? Você... não... fez... isso. Não fez! — seu tom é ensurdecedor, ele começa a espumar pela boca e seu rosto está vermelho.

- Senhor, você tá babando... cadê seus modos? — solto, num tom extremamente sarcástico.

- Clyver! Pare! — minha mãe grita.

Meu padrasto está vermelho como eu jamais havia visto. Pensava que não havia nada que ele pudesse fazer pra mim agora, porém ele apenas se afasta. Estranho, até que vejo a direção que ele rumou.

Do outro lado da cozinha, ele agora está segurando uma faca. Gelo.

- Não... eu... senhor, por favor, isso é perigoso!

- P-Perigoso... é?! Perigoso! Mexer comigo também, pirralho estúpido! — ele se aproxima, enquanto eu dou alguns passos para trás por precaução, ele atira a faca em minha direção.

Pela primeira vez, desejo estar morto. O que acontece me endivida eternamente. Minha mãe, a mesma que sempre me desprezou e pouco se importava com minha existência, se pôs entre mim e a faca. Sua testa atingida em cheio.

- Desculpa, Clyver... — ela fala num tom baixo, como se fosse desabar a qualquer momento. Meu padrasto desaba, perplexo. — Eu não pude viver... até ver você se tornar alguém forte... adeus.

Estou chorando. Por quê? Eu nunca me importei com ela, por que agora?

Não. Eu sempre tentei me esquecer disso, mas por mais cruel que minha mãe fosse, ela era minha família, minha mãe. Eu não conseguia entender, por que ela fez isso? Ela... ela era a vilã, meu objetivo, meu maior inimigo, meu desafeto.

Abraço-a enquanto ela desaba, criando uma possa de sangue no chão. E enquanto eu estou abraçando seu corpo frio, ouço uma risadinha sínica vindo do outro lado.

- Bem feito, hah! Bem... feito! Vá dar uma de heroína no inferno!

Não medi meus atos, simplesmente peguei a faca ensanguentada e joguei ao lado de seu pescoço, rasgando a sua camisa mais cara.

- Seu... idiota! Como pôde... como?! Vocês não eram casados? Idiota! Seu monstro, insensível! Você devia morrer, seu verme!

Ele se levanta, com o rosto inexpressivo, mas que em si, me mostrava todo o ódio que ele sentia agora. Medo me percorre enquanto me empurro em direção à parede. Rapidamente corro em direção à porta e saio, trancando na cara dele, pensando que ele não seria capaz de sair de casa e expôr um assassinato, mas errei.

Logo atrás de mim, ouço os passos colossais de meu padrasto, e vejo a faca ensanguentada em sua mão. Noto que sua mão ainda sangra, e ainda mais com a força que ele aperta a faca.

Corro, corro em direção à floresta, adentro-a rapidamente, mas sei que não posso correr dele, não agora. Estou completamente emotivo, pálido, aos soluços. Desabo no chão tempo o suficiente pra uma faca me atingir em cheio nas costas.

Quando acordo, estou imerso numa possa de sangue, e de acordo com o que meu pai me havia ensinado, estava excedendo o limite de sangue que eu poderia derramar antes de morrer por hemorragia. Lembro-me de seus ensinamentos e rapidamente pego algumas folhas, enrolo-as e em algum tempo, consigo aplicá-la sobre minha gélida pele ferida através da roupa.

Ao meu lado, morto, está ele. Suicídio. Os urubus estão comendo sua carne. Vomito muitas vezes antes de conseguir me arrastar até uma árvore próxima.

Consigo achar algumas ervas para aplicar em meu ferimento, que obviamente não conseguiriam um efeito muito bom, porém, já ajudariam, então rapidamente aplico cada uma e elas exercem seus efeitos: "alívio, cicatrização, desinfecção".

Rio. Rio como se nunca tivesse sido tão feliz antes. Mas não como algo sínico. Sinto que, definitivamente, estou vivo outra vez.

Antes de deixar o lugar e seguir meu rumo, penso que já devem ter passado muitos dias desde o acontecimento, já estou recuperado, apesar de todas as cicatrizes e sequelas que isso vai deixar. Em meus ombros levo o homem que fora meu padrasto, apesar de todo o rancor, ele merece um enterro digno. Não posso me deixar levar por emoções. Ele é um ser humano, e dividimos isso.

Enterro seu corpo quase aniquilado pelos urubus e cubro de terra. Por fim, jogo algumas flores e empunho uma aljava que fiz enquanto passava o tempo de recuperação, assim como meu arco.

Assim como minha mãe havia dito, eu devo me tornar alguém, apesar de toda a dor que sinto agora, não posso deixar levar por isso, então apenas seguirei meu caminho. Eu não sou apenas um pedaço de lixo, eu sou Clyver,

5 anos depois

Apesar de toda a lembrança do horrível dia em que minha mãe morreu em minha frente, traço meu caminho, pois, de uma coisa tenho certeza. Meus pais continuaram vivos, enquanto eles estiverem comigo, dentro de meu coração. E só então, entendo como meu pai sempre se sentiu, e dou um sorriso.

Eu sou Clyver Ordywood, o arqueiro.

Notas finais
Próximo capítulo: Dante, o guerreiro.