Corra Para Os Meus Braços- Edward & Bella
5 Capítulo 5- Proteção
Notas iniciais
Capítulo 5- Proteção
Uma história se escreve com mais que uma ameaça
Edward passou no celeiro para alimentar os bichos de Bella, depois se deitou sobre o feno e tirou sua gaita do bolso. Tocou por duas horas, lembrando-se de sua mãe, que o obrigou a cuidar de si mesmo muito novo. Teve que aprender a viver só e adaptar-se. Isso o fez desenvolver o julgamento observador e obter uma maturidade que ia de encontro a sua idade. Seus ombros jovens às vezes negavam-se a suportar o que lhe era exigido. Sentia-se como a serpente colocada no paraíso. Sua missão era maior que sua força de vontade. Até porque, não podia magoar Bella.
Wolf deitou ao seu lado e esfregou o focinho na sua mão, como se sentisse sua luta interna. Edward levantou-se, caminhou para casa e parou ao olhar a imponente mansão Swan. O abajur do quarto de Bella estava aceso. Edward chutou uma pedrinha e obrigou-se a caminhar para casa.
Entrou distraído em seu quarto e sobressaltou-se ao deparar-se com Esme sentada na cama. Ela tinha as mãos juntas sobre a coxa, ansiosa.
—Filho, vim conversar com você... —começou nervosa. — Está dando certo com a menina da escola? —improvisou sem jeito porque foi Jasper quem contou a ela sobre uma garota que ele estava ficando.
—Esme, não quero falar de meninas com a senhora.
—Mãe —exigiu. Ele suspirou.
—Ok, mãe... Eu não tenho nada com Kaira.
—E com Bella? —foi ao ponto. Suspeitava há tempos que não era mais só amizade que havia entre os dois. E daqui para um relacionamento íntimo não custaria muito, por Edward ter costume de dormir no quarto dela.
—Com Bella? —repetiu reflexivo. —Você sabe... O de sempre —contou sem vontade.
—Não é o de sempre. Bella é uma mulher agora. Não se pode ignorar isso. Não são mais crianças que somem pelos matos procurando bichos.
—Você acha que eu não notei? —evidenciou amargo. Esme encheu-se de coragem por ele não ter se armado como um ouriço. Ele parecia confuso e vulnerável.
—Você sabe quanto poderia prejudicar todos —repetiu o que sempre lhe cobrava.
—Nunca prejudicou— respondeu hostil à intromissão. Tratando-se dela, sempre se fechava. Caminhou até o guarda-roupa e tirou um cobertor. Se ela começasse a cobrar, iria dormir no celeiro.
—Nunca prejudicou porque o pai dela não tem tempo para notar, mas outras pessoas frequentam a casa e podem ver. Rosalie, por exemplo, poderia falar às amigas dela. Você devia se preocupar, se gosta dela.
—Rosalie falaria porque não gosta de mim e quer me ver pelas costas— destacou azedo.
—Não, Edward. Claro que Rosalie gosta de você. Ela só tem ciúmes de minha preocupação, quando você... —Ela iria dizer que ele era um adotivo, mas Edward não era só isso para ela. Amava este garoto com todas as suas forças e percebia nele uma vulnerabilidade que abalava e movia seu coração de mãe. Queria ter o poder de lhe dar alegria e responder às dúvidas que seus olhos revelavam.
Ele baixou a guarda. Esme sabia das coisas. Ela orquestrava a família com harmonia e sabia lhes dar amor. E a preocupação dela soava tão honesta que o comoveu.
—E se não for comigo, com quem ela ficará? —questionou infeliz e sentou-se cansado na cama. Ela sentou-se ao seu lado e tocou seu ombro.
—Não sei, filho. Ela tem Alice. Tem a avó. Não é a criatura indefesa que parece — salientou afetuosa. Ele assentiu relutante, mas se queria o melhor para os dois tinha que ouvi-la e impor espaço.
Segunda-feira, Edward acordou cedo e viu Carlisle parar em frente à mansão e recolher Bella e Jéssica para levá-las à escola para meninas. Jéssica saiu primeiro e sussurrou algo sarcástico e provocador a Bella ao vê-la. Bella resignou-se, e Edward torceu secretamente que ela se rebelasse um dia contra as perseguições da prima. Indignado, Edward pôs sua mochila nas costas e subiu na bicicleta para ir à escola rural com Jasper.
Resolveu aceitar namorar a tímida colega de escola que há dias os colegas caipiras armavam para que ficassem. Ela era boa pessoa. O nível médio estava cheio de casaizinhos, e ele cansou-se de isolar-se. Precisava entreter-se e desviar os pensamentos de Bella. Depois da aula, os irmãos foram para a mecânica da escuderia. Edward manteve-se distante e calado. Jasper tentava conversar sobre o novo casalzinho, mas Edward não lhe deu assunto.
A semana se arrastou tediosa e lenta. Uma impaciência crescente incomodava Edward. Estava irritadiço e inquieto por ter que passar parte da manhã de mãos dadas com uma menina que via desde sempre, mas não conhecia nem tinha afinidade.
Certa quarta-feira, Charlie entrou apressado na oficina, cuspindo xingamentos e disse que iria matar a filha. Edward atentou-se, desviando minimamente o olhar do que fazia para ouvir a conversa.
—O que ela fez, Charlie? —Sam questionou ao segui-lo pela mecânica. Edward limpava com escovinha a saída de ar condicionado do painel do carro particular de Charlie. Charlie entrou no carro de supetão.
—Não sei. Dessa vez a contravenção não foi jogar ovo podre na superiora ou colocar ratinhos nos quartos das colegas. Parece que ela chutou alguém e será suspensa. —explicou raivoso. Edward fez menção de descer do carro, mas Charlie o conteve. —Fique aí, moleque. Eu quero esse painel bem limpo! —ordenou austero. Edward se alinhou, rígido, no banco do passageiro e continuou seu trabalho. Sam sentou no banco de trás e Charlie deu partida, saindo da área da mecânica.
—Mas por que ela agrediria alguém depois de tanto tempo sem envolver-se em problemas? Ela já é uma moça —Sam defendeu.
—Não dá para entender filhos. Eles nascem trabalhosos. São simplesmente assim —lastimou-se. Edward abriu o porta-luvas do carro para continuar limpando e deparou-se com algo que o fez arregalar os olhos. Uma minúscula calcinha de renda rosa. Imediatamente fechou o porta-luvas e fez-se de invisível, mas o questionamento sobre quem seria a dona da calcinha rodeava sua mente.
O trajeto de Hethel até a escola para meninas de Norwick aconteceu rápido. Charlie adorava velocidade e corria sem limites. Preso ao cinto, Edward percebeu o olhar compenetrado e cheio de indagações do patrão.
—Você me lembra alguém —Charlie comentou entretido e olhou Sam pelo retrovisor. —A diferença é que ele era irreverente, gaiato, zombador e você fechado e sério. Seus olhos e cabelos também são diferentes, mas é como estar vendo-o na altura e perfil— considerou neutro. Edward continuou o seu trabalho, fingindo desinteresse.
—Você é obcecado por ele. O vê em tudo —Sam repreendeu. Charlie continuou estudando Edward.
—Você não se parece com seu pai— continuou dizendo.
—Puxei a família da minha mãe —Edward justificou com um improviso. Jasper e Rosalie eram louros como Carlisle, mas Esme tinha cabelos escuros.
—Seu pai é um bom funcionário. No início eu pensei em não aceitá-lo por ter tantos filhos, mas após ter sido abandonado por August, fiquei sem opção e tive que recorrer ao amigo de infância de Renée. Foi um bom negócio. Mão-de-obra comprometida e qualificada falta no mercado— comentou tranquilo. Edward estranhou. Era a primeira vez que o via quase elogiando alguém. Era uma pessoa desagradável que só sabia exigir e criticar.
Charlie desceu com Sam, os dois vestidos com os macacões brancos da engenharia. Edward permaneceu no carro, observando a antiga construção do internato para meninas. Nunca tinha ido lá. O lugar lhe pareceu sombrio e isolado. Odiaria ter que estudar ali. A escola rural que estudava e o grupo de escoteiros lhe proporcionavam contato com pessoas e com a natureza. Aquele lugar obviamente só proporcionava solidão.
Charlie colocou a cabeça dentro do carro.
—Desça, garoto!
Edward o obedeceu sem questionar a demanda. Seguiu-o até o portão. Dois seguranças meia idade e gordos os receberam. Charlie explicou que ia à Direção e entrou no corredor que levaria à sala da superiora.
—Pode ficar aqui —instruiu a Edward, apontando para um banquinho no centro do edifício.
—Eu vou com você —ofereceu Sam, preocupado com o tratamento e exposição que Charlie faria a Bella.
Edward sentou-se em frente a um jardim, num local onde a estrutura se identificava ao centro de uma teia de aranha, sendo o jardim o ponto de encontro de vários corredores. Ouviu gritos de Charlie e olhou em direção ao fim de um corredor. Avistou Charlie gesticular e vociferar com Bella. Perto deles tinha uma senhora com jeito de severa disciplinadora no seu coque e roupas cinzas e um segurança calvo e magro na casa de quarenta anos. Charlie puxou a trança de Bella até que ela se dobrasse para trás, depois a empurrou grosseiramente. Sam a segurou pelos ombros antes que ela caísse e instruiu algo em seu ouvido. Bella assentiu, ajeitou os ombros, em seguida caminhou ereta rumo a um corredor lateral. Olhou distraída em direção ao banquinho de cimento. Seus olhos se iluminaram ao registrar Edward, ela sorriu disfarçadamente, então sumiu no corredor.
Edward esfregou os punhos revoltado pelo tratamento de Charlie, pôs a cabeça nas mãos e apoiou o cotovelo nos joelhos.
—Hei, Edward —ouviu-a sussurrar atrás de uma parede. Ele olhou para o lado oposto da diretoria assustado, olhou de um lado ao outro para conferir se alguém os via, então olhou novamente a ela.
—O que faz aí?
—Estou indo ao meu quarto buscar minhas coisas.
Ele levantou do banquinho e caminhou até ela num beco ao lado da parede de uma sala. Ela usava um vestido de alças amarelo acima do joelho, balonê. Ele estranhou. Ela deveria estar de uniforme vinho. Ele fez um inventário minucioso e notou o vestido amassado, marcas de barro na ponta da saia, manchas vermelhas nos braços e uma mais acentuada no rosto.
—O que aconteceu? —perguntou com rosto sombrio. —Seu pai te bateu?
—Não foi nada. Só um tapa na cara— deu de ombros. Ele examinou-a novamente, conferindo uma marca de arranhado no pescoço. Tocou a mancha preocupado. Logo ficaria roxa.
—Você se meteu numa briga?
—Não —baixou o olhar sem jeito. —Fui pega tentando fugir.
—Como assim? Para que você queria sair? — questionou preocupado.
—Eu tinha que encontrar o Jean —confidenciou baixinho. Ele entrecerrou os olhos confuso. Jean...? — Como não consegui falar com minha avó, iria tentar sair escondida. Coloquei a cadeira atrás dos quartos na hora do almoço e iria pular o muro, porém deparei-me com um segurança antes de conseguir. Ele me encurralou, sorriu de um jeito bem safado e me chantageou a fazer sexo oral nele, como a Jéssica faz, para que ele me deixasse sair —explicou indignada. Edward abriu a boca horrorizado. — Eu neguei. Ele me prendeu pelos braços. Eu esperneei e me debati. Ele pareceu ter gostado disso e me apertou na parede. Droga, ele era dois de mim! —exclamou revoltada. —Aí eu finquei minhas unhas em seu rosto tirando sangue, depois fatalmente seu saco teve um encontro com meu joelho. —revelou travessa. — Ele conseguiu me pegar de novo antes que eu subisse o muro e me levou arrastada para secretaria. Estou suspensa por tentativa de fuga e agressão —noticiou tranquila. Edward balançou a cabeça chocado.
—Meu Deus, Bella, os problemas te rodeiam. Quem é Jean? Você tinham um... Encontro?
Ela hesitou. Não tinha falado sobre Jean com ninguém, porque tinha vergonha de se expor. O que diriam, se soubessem que a filha de Charlie estava fazendo fotos? O que diria seu pai? Sentiria-se insultado? Bem, de Edward não precisava esconder. Ele era seu amigo e não a criticaria pela aventura.
—Iria fazer mais umas fotos. Jean James conseguiu um contrato e viria me buscar para que eu fosse para o estúdio improvisado. Quando preciso sair, minha avó me leva, mas hoje não consegui falar com ela —esclareceu sem rodeios.
—Mais fotos? Que fotos você está fazendo?
—Para cartões e catálogos de pequenas lojas de roupas e bijuterias, por enquanto. Mas Jean está atrás de novos contratos.
Edward torceu os lábios com desgosto e tocou novamente na mancha vermelha no seu pescoço, como se quisesse apagar.
—Seu pai vai te matar se descobrir.
—Não me importo. Essa é uma ameaça constante, de qualquer maneira —tentou minimizar o caso, mas ele fez uma carranca por seu conformismo e descuido. —Por que Charlie trouxe você? — Ela atentou-se curiosa.
—Foi um acaso. Eu estava limpando o carro, e ele apareceu.
—Eu adorei você ter vindo —adulou-o, acariciando seu ante-braço. Ele cobriu a mão dela com a dele, chateado. Nem na escola ela estava protegida de abusos.
—Na escola que eu estudo essas coisas não costumam acontecer —comentou reflexivo. — Nunca ninguém iria propor algo assim. Os funcionários, homens ou mulheres, nos tratam como filhos. Tem suas vantagens estudar lá— comentou e olhou com repulsa em volta, para onde as meninas ricas de Norfolk e de grande parte da Inglaterra eram matriculadas.
—Você fala isso por causa desse ocorrido com o segurança?
—Por tudo. Lá na escola tudo é diferente. Não há malicia. Respeitamos as meninas, porque crescemos com elas. E quando rola alguma coisa, é naturalmente.
—Você nos encara como putas ricas e mimadas —evidenciou sem jeito.
—Não você. Você está mais para lagartixa fujona que se arrasta nos muros da escola —zombou para amenizar a gravidade do ocorrido. —Mas a maioria delas são assim por causa do proibido. Essas regras cristãs fazem com que essa veia sexual se agrave justamente onde é reprimida. É que quando as coisas são proibidas, aguçam a curiosidade.
—Eu não. Alice também não.
—Não. Alice também não —sua voz se suavizou e sofreu uma inflexão ao falar de Alice. Bella percebeu, mas longe de sentir ciúme, aceitou que ele estava na fase de gostar de meninas. E fofa como Alice era, era fácil admirá-la. Além de ser linda com seus longos cabelos castanhos e nariz arrebitado.
Bella olhou em direção ao fim do corredor e notou seu pai ainda na sala da direção.
—Acho que não vai ser muito legal o papai nos encontrar juntos aqui.
—Eu sei —concordou. —Ainda bem que você está bem.
—Estou —apertou a bochecha dele. —Obrigada por se preocupar, superprotetor —piscou zombeteira.
—Não é superproteção —negou altivo. —É senso de dever.
—Só porque um dia eu te salvei da febre e te dei banho? —cutucou-o na cintura brincalhona. Esses feitos eram seu grande trunfo. Sempre iria arreliá-lo com isso.
—Não. Porque você não reflete no que vai fazer —salientou. Ela parou a mão em sua cintura, acariciando-o sobre o macacão preto com amarelo da oficina. Ele segurou sua mão, impedindo-a de tocá-lo quando era tão problemática a relação e os toques dela desencadeavam sensações que ele queria evitar. Nas últimas semanas conseguiram relacionar-se sem contratempos, mas os toques nunca deixaram de perturbá-lo.
—Hmmm, além disso, admita que você gosta de me cercar. —Inclinou-se para ele. —Sinto sua falta —declarou e acariciou seu queixo de barba rala com a mão livre. Olhou para os corredores vazios e abraçou a oportunidade de fazer algo errado e proibido, quebrando regras da escola. Encostou os lábios nos dele, ousada.
—Não, Bella —repreendeu-a, mas ficou imóvel quando ela lhe deu outro selinho úmido.
—Não se assuste, Flippy. É beijo de amigo —riu amistosa ao ver sua relutância. —Agora vá. —Deu-lhe um tapinha no bumbum quando viu Charlie saindo pela porta da Direção. —Charlie já vem. —Empurrou-o em direção ao corredor.
Ela demorou uns segundos para sair do beco e caminhar ao seu quarto para buscar sua mochila. Minutos depois encontrou o pai no portão.
—Você está de suspensão por três dias— noticiou ríspido. Sam esperava com a porta traseira aberta, esperou-a entrar como que para protegê-la de explosões de Charlie, depois assumiu a direção do carro. Charlie sentou-se no banco de passageiro. —Eu não sei mais o que tirar de você, Isabella! Concedi uns dias com suas amigas, porque sua avó e Sam me torram a paciência, mas você não merece nada! Não sei mais como te punir! —soltou transtornado. —Filhos é uma merda. Tente criá-los em segurança e só se ganha más-criações em vez de educação, revolta em vez de gratidão, travessuras em vez de obediência.
Bella queria sinceramente perguntar o que fez de tão errado que o ofendesse tanto. Estava pronta para discutir a questão e ser alvo de mais gritos, porque Charlie não sabia conversar, só gritar e impor-se, e surpreendeu-se quando sentiu a mão de Edward cobrindo a sua no banco, apesar de sua postura de distanciamento enquanto olhava pela janela. Ela sentiu o conforto do toque e suspirou resignada. Não valia a pena discutir com Charlie quando a razão sempre era dele.
Nos dias seguintes, Edward teve normais aulas pela manhã e trabalhos à tarde, mas sempre estava preocupado com o que Bella estaria fazendo. Sexta-feira, surpreendeu-se quando saía da sala para o intervalo e Bella apareceu no galpão de bicicleta acompanhada de Wolf, ambos respingados de chuva.
Foi Jasper a apontá-la. Com seu cabelo em tranças duplas dentro de um chapéu e calça cargo caqui, parecia mais um garoto magrela que uma menina, só a diferenciava por causa da bicicleta vinho de cestinha. Edward percorreu a distância que faltava até ela.
—O que você está fazendo aqui? —repreendeu-a baixinho ao conduzi-la toda úmida de chuvisco à lateral da escola.
Ela encostou a bicicleta na parede de madeira e sorriu.
—Vim caçar borboletas e trazer o Wolf para namorar numa fazenda vizinha. Passei a manhã esperando-o enrabar a cadela de um vizinho —contou naturalmente e mostrou a caixinha cheia de borboletas na cestinha. Ele fez uma careta horrorizado com o palavreado que ela usou.
—Você não pode ficar andando por essas estradas sozinhas, Bella —ralhou sério. — Você está de castigo.
—Posso, sim. Desde que ele não saiba. —Piscou travessa.
—É melhor não —mudou o tom para amistoso. — Você já está bem grandinha para viver sendo repreendida.
—Também estou grandinha para estar de castigo, mas isso não tira o poder dele sobre mim. —retrucou aborrecida. —E pare de falar como meu pai, Edward— reclamou. As pessoas só sabiam regulá-la.
—Meu Deus, você sabe que sempre tem alguma consequência quando apronta.
—Por que andar de bicicleta é aprontar? —cruzou os braços, teimosa.
—Não só andar de bicicleta é aprontar, mas andar na chuva, sozinha por aí em fazendas cheias de pião, sendo filha de um homem rico com muitos desafetos. Pior ainda sendo mulher —lembrou-a com uma carranca e apontou-a da cabeça aos pés para enfatizar. Era tão magra e delicada em suas roupas folgadas, e parecia que tinha perdido mais peso ultimamente.
—Eu queria ter nascido homem— resmungou contrariada. —Homens podem fazer o que querem. Além disso, meu pai gostaria mais de mim se eu fosse um —acentuou com um suspiro. —Sabe o que eu acho? —Seus olhos brilharam com um novo pensamento. — Deve ter um homem encarnado dentro de mim. Ele veio no corpo errado. —apontou para si divertida. —E você... —Aproximou-se dele e encostou o dedo em seu peito. —Você tem uma velha de oitenta anos encarnada em você. —acusou divertida. Ele ficou tenso quando notou ela se aproximar mais. —Mas sabe... —disse com a voz macia. —O garotinho em mim gosta muito da velha em você —deslizou os dedos na clavícula dele.
—Não, Bella —segurou o pulso dela.
—Por que você está me evitando? —questionou com dramática mágoa. — Você não foi ao meu quarto ontem à noite. Não tem ido. —Acariciou-o com a mão livre do pescoço à nuca. Ele registrou a comichão ameaçadora e olhou seus lábios. Sentia-se intimidado por seu comportamento dúbio e brincalhão, como se não se importasse em ter nada dele, mas estivesse decidida a testá-lo.
—Estou protegendo... —perdeu o fio da conversa ao ler a ameaça de um beijo quando sua nuca foi puxada para baixo.
—Você? —interrompeu-o risonha. —Está protegendo você da terroristazinha perseguidora aqui?
—Não, Bella. Estou protegendo você de problemas— explicou cansado de resistir, centímetros de sua boca.
—Hmm, fico grata, mas não quero ser protegida —acentuou charmosa, perto demais ao ponto de sentirem a respiração difícil um do outro. Ele afrouxou a mão no pulso dela e as fechou em punho ao lado do corpo para não tocá-la. Dedos finos voltaram a deslizar da sua clavícula ao peitoral bem formado.—Na verdade, Edward, perto de você me sinto terrivelmente perversa, e é você que tem que ser protegido de mim —provocou-o e cerrou a distância, encostando os lábios nos dele num selinho e outro, aproveitando a quietude total dele. Ela tocou-lhe o peito sobre a camiseta e sentiu-lhe o batimento cardíaco acelerado. Esfregou a mão e gostou disso, do modo como se sentia poderosa. —Em todo caso, protegida ou não, o que tem que acontecer, acontece, amigo —fez trocadilhos e deu-lhe outro selinho, seduzindo-o pura e simples.
Foram surpreendidos por uma terceira pessoa os observando. Uma adolescente com idade entre dezesseis e dezessete anos, com descendência indiana e olhos amarelos, cabelos longos e pernas roliças. Ela os encarava com insegurança e timidez. Bella deu um passo atrás suspeitando do olhar possessivo.
—Só um minuto, Kaira— Edward pediu sem jeito e a levou a um canto.
Bella caminhou para sua bicicleta e abriu sua caixinha para distrair-se verificando suas novas aquisições. Querer e não poder ter estava lhe machucando, ainda que tentasse levar tudo com leveza. Estava cansada de negar-se o que queria, cansada de pensar nele e ansiá-lo perto dela sempre.
—Já vou, Edward —despediu-se frustrada, quando ele voltou para ela.
—Não —negou sério. —Eu vou te levar até lá perto.
—Não preciso de escolta —rejeitou ofendida por sua preocupação descabida. Ele passava dos limites. —Já tenho Wolf!
—Venha, Bella —puxou-a pelo braço em direção à bicicleta dele chamando a atenção de vários alunos espalhados pela área escolar. Jasper os observou com atenção. —Jasper, leva a bicicleta dela para casa depois— pediu.
—Nem pensar. Eu não vou andar de bicicleta vinho com cestinha —negou-se. Os rapazes a sua volta sorriram, todos do último ano escolar. Os alunos eram provenientes de um acordo de incentivo com o governo e comunidade rural. Em um período os alunos tinham aulas regulares, no outro cursos técnicos agrícolas, mecânica de carro e tratores e cursos técnicos em pecuária e agronomia. Maioria dos alunos da escola rural estavam encaminhados profissionalmente.
—Então amanhã eu venho a pé e a levo para casa —solucionou Edward.
—É. Vai ser muito lindo você andando na bicicleta dela —zombou o mais velho.
—Eu não vejo problema — defendeu-se enfadado, montou na bicicleta molhada e puxou Bella para sentar-se no cano. Ela sentou-se de má vontade, abraçada à caixinha de sapatos cheia de larvas, lagartas e borboletas.
—Não quero que você me trate assim, Edward. Não quero seus cuidados. Não mesmo —evidenciou ressentida. Ele calou-se pensativo, recebendo os pingos finos de chuva diretamente no rosto. Pedalou pela estrada de chão que levava para o caminho da propriedade Swan com Wolf os seguindo.
—Não sabe como me faz desgraçado saber que você está perambulando por aí sozinha. Você já foi machucada uma vez por Paul. Tenho medo que aconteça novamente —justificou-se para serená-la.
—Eu fico bem sozinha, Edward— tentou fugir do assunto porque o assunto Paul a constrangia, mas ficou comovida pela ternura que leu em sua justificativa. — Eu me acostumei —disse baixinho e encostou-se nele, no peitoral aconchegante. Ele inclinou-se e aspirou o cheiro de seu cabelo sob o chapéu, furtivamente. —Você está tão mais vitaminado —ela elogiou para ter um assunto e esfregou o nariz em seu pescoço, contendo-se para não lhe dar uma mordida. —O que está comendo? Ração do Thor?
Ele balançou a cabeça. A facilidade que ela tinha de ir de um tema a outro o surpreendia.
—O de sempre. Feijão e carne da Esme. E você? O que anda comendo que está tão magra?
—Alface e muita folhagem. Quero ficar bem nas fotos —contou animada, agora que não precisava mais ocultar sua nova diversão.
—Lagartas só comem folhas e são roliças —ele enfatizou zombeteiro.
—Então vou comer terra como as minhocas, porque elas pelo menos são longas e magras— gracejou. Ele riu rendido ao seu humor. Ela fechou os olhos e curtiu o som do riso dentro dele com o rosto apoiado no seu peito. Ultimamente ele parecia mais fácil de rir. —Tô evitando chocolate também — ela voltou a dizer. —Mas a dieta de você é o que mais me emagrece —adicionou com um suspiro, depois consertou para não pressioná-lo por atenção. —Você sabe, amigos engordam. Amigos que nos subornam com Toblerones — acusou afetada. —Não sei como amigos dizem que nos querem bem nos dando chocolates. Chocolates dão espinhas, sabia? Engordam. Por que amigos não dão um nabo de presente? Ou mesmo uma cebola? Até um pepino seria melhor presente que chocolate —defendeu solene. Ele riu novamente da efusiva defesa, quando ela adorava chocolate.
—Você não precisa emagrecer.
—Agora não, mas precisei, embora pouco. Só dois quilos. Agora estou com cinquenta e dois, como Gisele Bündchen, minha nova musa. Mesma altura e mesmo peso. Até o busto é do mesmo tamanho —apertou um seio, medindo-o agradada. —Não melões como de Jessica e Tânya, mas laranjas... Aliás, limões —zombou de si mesma.
Ele baixou o olhar e conferiu disfarçadamente os seios femininos livres na camisa. Balançavam-se por causa da estrada de cascalho e eram atrativos. Pouco diminuíram, mesmo que ela tivesse emagrecido. Não pareciam limões. Estavam mais para pêssegos macios, que apontam para cima. Lembrava-se muito bem do tamanho na sua mão e do tato.
Desviou o olhar engolindo saliva e entrou pela estrada asfaltada que chegaria a Swan. Bella foi de um assunto ao outro, sem parar de falar. Ele concordava, provocava, criticava suas tolices, ria e descobria que sentia falta de passar um tempo com essa coisinha inquietante e perturbadora.
Parou perto de umas árvores e permitiu que ela descesse da bicicleta a uma distância segura de casa. Já teria perdido os dois últimos horários de aula, então não valia à pena voltar a escola. Passaram no celeiro, conversaram mais um pouco enquanto recreavam os bichos, depois voltaram para suas casas para almoçar.
À noite, antes de sair para o bar de estrada com Jasper, Edward passou no quarto de Bella, entrou sem fazer barulho pela varanda e parou atrás de Bella. Ela olhava distraída as atualizações do face e twitter, no horário em que o computador estava desbloqueado do controle dos pais. Ela viu sua sombra pela tela do notebook e continuou curtindo e comentando.
—Não faz isso, Bella! —Edward repreendeu com desgosto. Bella curtia uma foto que Jéssica tinha acabado de postar em um bar com dezenas de amigos. Os programas de Jéssica sempre pareciam animados.
—Por que não? São fotos legais. Eu conheço a maioria das pessoas— defendeu sem compreender o motivo da critica.
—Você não conhece. Você sabe quem são, mas não é amiga deles —enfatizou e sentou-se ao lado dela num pufe.
—Isso não quer dizer que não posso curtir o que eles estão fazendo.
Ele balançou a cabeça impaciente, censurando-a por não entender seu ponto.
—Você não vê, Bella, que está assistindo a vida de Jéssica? Você vive irritada com o que ela apronta com você, mas quando comenta e curte tudo que ela faz, você está seguindo-a, como as outras cachorrinhas que faltam rolar e deitar quando Jéssica pede. Ainda que você queira somente ser legal com os amigos dela, passa a ideia que você gostaria de estar no lugar dela. Talvez você não entenda porque não tem a malícia necessária, mas a Jéssica faz isso para te provocar, para te mostrar que enquanto você, herdeira do tio rico está em casa presa, sozinha e de castigo, ela se diverte com a liberdade que tem. Enquanto tudo é negado a você, ela pode fazer o que quiser. E se você quiser sair para se divertir, só pode ser na companhia dela— elucidou tranquilo. Bella fechou a tela e olhou-o surpresa. Nunca tinha visto por esse lado. Edward, embora silencioso em sua maioria de tempo e mais novo, era mais observador e sensato que ela.
—Aonde você vai? —questionou curiosa e conferiu-o com interesse. Ele vestia um jeans claro justo e camiseta roxa. O cabelo repicado posicionava-se atrás da orelha, na altura dos ombros. Estava lindo.
—Vou ao bar com Jasper.
—Ah, aquele... — tentou ocultar a decepção na voz. —Homens e suas necessidades físicas. —minimizou a importância com um dar de ombros. Todos os homens da redondeza visitavam aquele tradicional bar. Em seu estilo country agradava a vários gostos porque tinha danceteria, bar, sinuca e os andares superiores para encontros mais íntimos. Não sabia por que Edward não confessava que ficava com garotas de programa, quando não o censurava. Bem, podia ser vergonha.
Ele aproximou-se mais e tocou o ombro exposto pela camiseta de alça do pijama, tentado a acariciá-la e relutante diante da intimidade disso.
—Você não acha errado?
Ela olhou para os dedos que desciam no seu braço, curiosa. Normalmente ele não era de toques, ela sim... Algo se agitou no seu interior. Sentiu seus seios livres dentro do pijama se eriçarem e os olhos dele caírem lá.
—Por que eu acharia? —requisitou tensa, desejando se beliscar e esfregar para não constrangê-la aquelas pontas irritantes. —Se somos só amigos, eu não tenho o direito de censurar você por suas experiências de garoto.
— Faz sentido. — Suspirou e desviou o olhar. Pegou o controle da TV, sentou na cama e ligou num seriado inglês para se distrair. —Vem. —Apontou para a cama displicentemente. Ela lhe deu um olhar confuso. —Eu vim ficar um pouco com você antes de ir —esclareceu Edward.
Ela sentou-se na beira da cama solteirão ainda confusa, ao lado dele. Ele deitou encostado à parede e tinha um braço apoiado atrás do pescoço. Bella observou-o de viés, insegura e incerta em como deveria agir. Tê-lo de modo voluntário em sua cama era novo e estranho.
—Antes eu não gostava dele, sabe, mas agora eu o odeio cada dia mais —disse Edward. Demorou uns segundos para ela se atentar sobre o que ele falava. Charlie.
—O que ele fez? —Deitou de lado na cama para poder observá-lo.
—Nada —negou com olhar ausente. —Mas eu o odeio por sua ganância, por ser arbitrário, pelas grosserias, por eliminar os outros que estão no seu caminho para conseguir o que quer —explicou entre dentes. Ele nunca foi de iniciar assuntos, mas parecia querer se abrir.
—Eu não o culpo totalmente. Ele teve que tomar frente dos negócios da família. E isso deixou-o estressado e autoritário. A vida exigiu isso dele.
—A vida? Rá! Ladrão miserável! —xingou revoltado. Ela arregalou os olhos surpresa por sua exaltação.
—Por que ladrão?—pressionou-o incômoda por seu tom hostil. Ele afastou-se mais para o canto da cama e encolheu-se tenso. Não podia revelar o que sabia.
—Não quero falar dele —negou acuado e ouviram o som da caminhonete velha de Carlisle. —Já vou. Jasper deve estar me esperando.
—Ok. Divirta-se, Flippy. —Beijou-lhe na bochecha. Ele olhou-a segundos como que pesaroso por deixá-la, caminhou para as portas de vidro da varanda e desapareceu. Bella demorou a dormir naquela noite, sentou-se e fez algumas notas no violão. Suas aulas de violão clássico na escola para meninas eram obrigatórias, mas não era uma boa aluna.
Ligou para Alice, que também estava numa festinha com Jéssica, conversaram por um tempo e ligou a tv em clipes. Três da manhã ouviu a caminhonete chegar de volta. Sentiu-se mais tranquila e deitou-se na cama com um suspiro dolorido.
Nas semanas seguintes, os dois continuaram nessa tensão, mas ela não forçou mais. E ele ia ao seu quarto o mínimo possível. Uma nova rotina se adicionou à vida de Edward. Todos os domingos à noite ele aproveitou a ausência de funcionários na escuderia e de Charlie na fazenda e corria por uma hora no carro de teste, fosse com Bella ou sozinho. Descobriu que gostava de desafiar Charlie.
Normalmente nos fins de semanas Jéssica e suas amigas sempre se concentravam na casa de alguém, embora Jéssica sempre desse um jeito de visitar a propriedade Swan. O castigo sem fim de Bella continuava. Certo sábado, Edward ainda não tinha visto Bella porque Jéssica e as colegas dela tinham decidido que o programa deste fim de semana seria na mansão Swan. A casa estava movimentada com a agitação de seis meninas. Gritinhos e risadas altas poluíam a tranquilidade e sobriedade da mansão. Alice dormia no quarto de Bella, então Edward não passou nenhuma vez para verificá-la.
Edward acordou cedo e foi ao celeiro cuidar dos bichos de Bella, como todos os dias. Deixou a galinha rosa ciscar em volta, a rã e o jabuti molhar-se perto do lago artificial, sentou-se no chão em frente ao lago e acariciou a cabeça de Wolf. Foi surpreendido pela presença de Jéssica. Ela usava um dos vestidos floridos da mãe de Bella.
—Olá, garoto do estábulo —cumprimentou-o e observou a galinha rosa com total interesse e diversão. Ele encarou-a de canto e voltou sua atenção para os bichos que circulavam em sua liberdade. Ela riu cínica ao ser ignorada. —Hoje eu vou precisar de um favorzinho seu. —Inclinou-se e acariciou a galinha dócil de Bella, tocando o colar de pérolas ornamentais no pescoço da elegante galinha.
—E o que te leva a pensar que eu vou fazer algo por você? —questionou hostil, odiando que ela tocasse em algo de Bella.
—Um segredo que eu sei— insinuou. — Que poderia acabar com o tratamento amistoso do meu tio com sua família — destacou maquiavélica. —Além disso, a vida de sua amiguinha Bella se tornaria mais difícil, sabe? E eu sei que você se importa. Já vi como você olha para aquela sonsa, como se ela fosse uma princesa de contos, além disso, vi seus beijos —zombou.
Ele pesou as consequências da ameaça. Ele poderia fugir do que o futuro reservava e voltar para Rússia, agora que reencontrou suas origens. Carlisle poderia arrumar emprego na administração de uma nova fazenda, embora estivesse bem mais velho para recomeçar. Mas o que mais o preocupou foi o que Charlie faria contra Bella. O que ele poderia fazer para a vida dela ficar mais solitária e miserável? Deixar de alimentá-la e colocar trancas em suas portas depois de surrá-la?
—O que você quer de mim? —Edward rendeu-se.
Continua...
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