Notas iniciais
Olá, leitores, Estou voltando à ativa depois de eventos com divulgação do livro, festas de fim de ano e férias. Muito obrigada por me acompanhar nessa nova aventura. Quem me conhece sabe que ainda amo Twilight, amo Robsten/Beward e continuo escrevendo fics por amor aos personagens. Agradeço muito a vcs por estar comigo. Grande beijo a Sayonara de souza e Sophie por acreditar na fic ainda no começo e ter indicado. Boa leitura a todos.

Capítulo 4- Negação

Uma história se escreve com muito mais que uma contrariedade

Após o inusitado ocorrido, Bella fez o caminho de volta para a mansão Swan, atordoada, percorrendo distraída a distância de grama e jardins iluminada por postes médios, os pensamentos divagando no que Edward fez. Sentia-se muito estranha, confusa e até um pouco magoada. Freou os passos antes de entrar na mansão e olhou incerta para a casa dos caseiros. Ele estaria em casa? A luz apagada no quarto dele nos fundos da casa denunciava que ele não estava nele.

Ela caminhou sob as sombras os 200 metros que separava sua casa da dele. Queria confrontá-lo para saber o que houve. Ouviu sorrisos altos vindo da varanda e, esquivando-se de olhares, passou despercebida para os fundos da casa, para a entrada privada que dava acesso ao quarto dos meninos.

A porta encostada permitiu que entrasse sem chamar atenção. Wolf a recebeu cheirando-a. Bella sentou na cama de Edward sem acender as luzes, a única iluminação era da abertura da porta, que amenizava seu medo do escuro. Inspirou o familiar e confortável aroma de Edward. Dois extremos diferenciavam Edward de Jasper. Sobre a cama de Jasper tinha um violão, CDs jogados e roupas amontoadas. A cama de Edward não tinha informações sobre ele. Ele ainda era um forasteiro. Bella deitou-se comodamente em sua cama e olhou para o teto. Wolf lambeu sua mão adulador, ressentido porque lhe era proibido deitar na cama de Edward. Esme proibia.

—Cadê Edward? — ela questionou ao cachorro. Wolf ergueu as orelhas e olhou para fora, como se a entendesse. —Chame-o para mim.

O cachorro desencostou a porta com a pata de um jeito inteligente e deixou o quarto. Bella suspirou nervosa. Fingiria normalidade? Ignoraria o ocorrido? Não podia deixar passar, decidiu, iria ser honesta como sempre foi, embora temesse o que aconteceria entre eles daqui em diante.

Wolf apareceu primeiro entre a fresta da porta, Edward logo atrás, acendeu a luz e assustou-se ao ver Bella. Olhou-a quase com cautela. Ela leu o incômodo e a recusa em seus olhos, como se ele quisesse voltar porta atrás. Ela levantou-se e confrontou-o antes que ele pudesse recuar.

—O que foi aquilo? —encurralou-o direta porque nunca precisou ter dedos com ele.

—Nada— negou intimidado.

—Nada? —balançou a cabeça. —Você grita comigo, depois me beija, me apalpa e diz que não foi nada? —criticou-o.

—Fala baixo, Bella. Esme pode vir aqui. —alertou baixinho. —E a Tânya também está lá fora. Você não quer que todas as suas amigas saibam que você está aqui. —repreendeu-a

—Eu não me importo. —rebateu sem ceder, mas sentou-se na ponta da cama. —Eu não sabia que você gostava de novinhas, para estar andando para cima e para baixo com a Tânya.—atacou de queixo erguido, com uma alusiva consciência estranha entre eles. —Pensei que gostasse de mulheres mais velhas.

Ele demorou um momento observando-a, como se não soubesse ao que ela se referia.

—Aquela mulher popular que você ficou naquela noite... —comentou sem jeito. A compreensão brilhou nos olhos dele.

—Er... —esfregou a fronte, sem conseguir encará-la, culpado pelo que fez momentos antes. —Não gosto mesmo de novinhas. São aborrecidas, cobram muita atenção e são dramáticas —afirmou, aproveitando a deixa para evadir do assunto anterior.

—Ah... —Estendeu a mão e acariciou a cabeça de Wolf inexplicavelmente magoada, mas não o deixaria livrar-se de responder pelo que fez. —Bem, então imagino que aquilo que aconteceu lá na pista foi só um beijo bobo e insignificante de amigos adolescentes —supôs tranquila, com uma estranha sensação espremendo seu estômago. Ele observou-a com as mãos em punho nos bolsos da calça um longo tempo.

—Sim, Bella— concordou com olhos baixos, mas ela viu algo que não compreendeu no seu semblante. Pesar, talvez. Suspirou resolvida e ficou em pé.

—Então vou para casa —abriu a porta pensativa. —Em todo caso, você beija bem, amigo. —declarou travessa e piscou.—Estou indo. Tenho que arrumar minhas roupas para a escola — jogou um beijo no ar tranquila e o deixou.

Em seu quarto, Bella trancou a porta atrás de si e deitou-se em sua cama, sentindo-se estúpida por parte secreta dela ter desejado que ele dissesse que o beijo foi algo mais. Intimamente desejava poder ter mais de alguém... talvez mais dele. Fechou os olhos e pensou no beijo, em seu sabor, nas mãos dele. Foi esquisito ter gostado. Bem, como ele disse que não foi nada, iria tentar esquecer e voltar ao normal.

A semana se iniciou. Ela pensou que iria esquecer, mas seus pensamentos sempre voavam para aquela direção traiçoeira. Não gostava de associar aquela sensação que tirava o fôlego ao seu amigo, então tentava calar a sensação no fundo do cérebro.

Alice era a única que conseguia livrá-la da constante distração. E finalmente Bella se dignou a responder as perguntas sobre Paul que sempre evitava. Ninguém tinha notícias dele.

—Eu tinha bebido, Alice— confidenciou. —Estava meio tonta, por isso o deixei me beijar.

—Mas pelo que você disse, ele não só te beijou, ele te molestou— reprovou séria. Embora menor em tamanho, Alice era mais velha e mais madura que Bella. —Por que você não o chutou e bateu nele como você sempre fez com Mike desde que éramos crianças?

Bella deixou os ombros caírem envergonhada sempre que tocava nesse assunto e deitou em sua cama do dormitório escolar com as costas no travesseiro.

—Eu achava que estava a fim dele —contou a ela. —Todas vocês já tinham beijado, tinham ficado, e eu nada. Eu fiquei deslumbrada quando o cara mais assediado que conhecia se fixou em mim —justificou-se sentindo-se tola e infantil. Era como se tivesse passado anos desde aquele dia. — Eu não sabia que ele seria um idiota.

Alice continuou especulando, mas Bella distraiu-se na comparação do que sentiu por Paul e Edward. Com Paul foi degradante, infame. Com Edward foi... Fixou o olhar no chão, com um aperto no estômago. Não sabia explicar ainda. Era como se tivesse acordado uma parte dela que não sabia que existia. A parte feminina. Sempre teve dúvidas se não sentiria o mesmo que as outras meninas sentiam, tinha dúvidas se sairia da indiferença natural com meninos, então soube que a pessoa que podia mudá-la esteve tão perto dela.

Droga, não podia estragar a amizade. Tinha que parar de pensar nisso.

Sexta-feira, pediu ao pai para ir a casa de Alice reunir-se às suas amigas. Ele permitiu sem relutar ao saber que Jéssica iria. Tânya, Rosalie e Ângela também se ofereceram para o fim de semana de meninas. Bella tinha se preparado psicologicamente para as provocações públicas de Jéssica, mas por algum motivo que Bella não compreendia, Jéssica estava mais prestativa e menos implicante.

Outra semana se passou. Bella evitou chamar Edward por celular para não forçar e dar ideia de perseguição, mas ficou sabendo por meio de um comentário de Rosalie com Tânya que ‘o irmãozinho chato e tedioso iria passar dois fins de semana em acampamentos com a tropa sênior de escoteiros’.

Bella protelou ao máximo ter que revê-lo, três semanas em programas improvisados. Finalmente escapou dos convites das meninas de passar os fins de semana juntas e deu uma desculpa para ir para casa. Porém, não conseguiu livrar-se completamente. Jéssica disse que passaria o fim de semana na mansão Swan e Tânya se ofereceu novamente a passar o fim de semana na casa de Rosalie.

Durante o caminho para casa, Carlisle avisou que Edward e Jasper viajaram com a escuderia para um competição de F1 na França. Os bichos e Wolf foram as únicas distrações de Bella. Nesse meio tempo de solidão e incerteza, Bella encontrou o número do telefone do Jean e lhe ligou. Ele lhe fez uma proposta irresistível.

“Só quero seu corpo, seu rosto e seu cabelo, princesa.” Ele brincou ao telefone. Ela riu de seu jeito irreverente. Não sabia se ele flertava ou se brincava, sabia que por telefone era fácil conversar com ele.

“Não quer mais nada, não?”

E foi assim que o clima entre os dois encheu-se de certa paquera. Bella combinou com a avó de durante a semana ir fazer as tais fotos com Jean. A avó tirou Bella da escola com a desculpa de levá-la ao médico e durante a sessão de fotos, Jean encheu a bola de Bella. Repetiu que ela era linda, única e passou-lhe segurança. A avó de Bella observou os dois com atenção e dúvida, mas sorriu agradada ao ver a neta relacionar-se fácil, com toques e sorrisos, nada malicioso. Jean tinha mais de 20 anos e tratava Bella com o respeito de um adorável irmão mais velho. A avó de Bella assinou um contrato de serviços como responsável de Bella e deu-lhe aval de trabalhar com o portfólio.

Bella animou-se. Não se importava em ser uma espécie de cabide, apenas um corpo ou um pedaço de carne. O importante era ser algo, já que não tinha nenhuma perspectiva que não fosse a filhinha fútil e inútil de um pai controlador. Jean James confidenciou a Bella que embora fosse filho de um empresário americano de classe alta, decidiu aventurar-se no mundo por conta própria livrando-se do pai ditador e fazer seu próprio dinheiro como free lancer em fotografia. Ela queria fazer isso também. Semear a independência do pai.

Um mês após ter beijado Edward, parte de Bella já tinha se resignado em não vê-lo. Acontecia às vezes, nesses 7 anos, de ficarem algum tempo sem se ver. Só uma parte pequena dela se rebelava e ardia, algo abaixo do cantinho esquerdo do peito. Parecia saudade, uma saudade diferente da que já sentiu até recentemente. Pelos segundo fim de semana ele tinha viajado com a escuderia, como auxiliar de Sam.

Domingo, seu pai sumiu estranhamento e, de novo, não a levou à igreja, embora tivesse combinado mais cedo. Decepcionada pela falta de consideração depois de tantos dias sem passar um tempo juntos, Bella pegou seus itens de manicure e foi ao celeiro ficar com seus bichos. Tirou a galinha Anastácia para fora e sentou-se no canto da parede, sem importar-se em macular seu bonito vestido de domingo.

—Me dê as unhas, Ana —pediu e segurou o pé da galinha. Molhou o pincel no vidro de esmalte e pintou unha por unha da galinha de rosa shock. A galinha submeteu-se quieta. Suas penas também foram pintadas de rosa shock por Bella no dia anterior com papel crepom. Agora suas unhas tinham o mesmo tom de rosa brilhante. —Bonitona —elogiou com um sorriso. —Agora você, Wolf —estendeu o pincel em direção ao cachorro.

—Nem pense em fazer isso com o meu cachorro! —uma voz familiar e rouca surpreendeu-a e lhe provocou um arrepio cálido de prazer. Embora fosse uma ameaça, ela leu a diversão no seu tom. Ergueu o olhar e congelou olhando-o, a alegria de vê-lo se condensando numa massa doce e pesada em seu peito. Edward. Ele, que raramente sorria, tinha um sorriso no canto do seu lábio, como se tivesse agradado em vê-la. Ela não soube como reagir. Sentia tanta saudade dele, mas ficou estática. Ele estendeu a mão num inusitado convite.

—Vem aqui, carrapicho — chamou carinhosamente. Ela registrou algo no seu tom de voz que fez doer mais aquele cantinho abaixo do seu peito, levantou-se e caminhou até ele. Parou em frente a ele e deu-lhe um beijo tímido na bochecha.

—Como você está?

—Bem, acho. — olhou-a detidamente, como se quisesse dizer algo mais. —Só não estou conseguindo... —torceu os lábios, reflexivo. Ela franziu o cenho confusa.

—O que?

Ele demorou uns segundos pensando, enquanto sorvia o familiar cheiro do perfume e sabonete dela, admirando os cabelos ruivos soltos no meio das costas.

—Estudar, trabalhar, viajar... — improvisou. Não podia revelar-lhe o tumultuo emocional que vivia ultimamente.

Ela olhou-o, sem entender.

—Então pare de trabalhar. Você é muito novo para se ocupar tanto. Tem Carlisle para te sustentar.

Ele riu sem humor e esfregou a nuca. Ela era tão desprendida e positiva. Admirava isso nela, também.

—E por que você me chamou de carrapicho? —questionou como se só agora tivesse se atentado. Eles pareciam meio incômodos um com o outro. Ele inclinou-se, pegou a galinha com penas rosa e colocou-a na caixa de madeira cercada de telas.

—Eu pensei em carrapato, mas ficaria muito pejorativo— arreliou zombeteiro. Ela abriu a boca com horror ofendido.

—Você quer dizer que eu sou carrapicho porque eu grudo em você? —questionou insultada. —Se for por isso, rejeito o apelido. —Deu um passo atrás, os braços cruzados fingindo chateação.

—Não é nesse sentido, Bella —adulou-a, e ela gostou de vê-lo tão diplomático. —Eu tenho uma coisa para te mostrar — mudou de assunto parecendo animado. —Quero fazer algo para que você me perdoe por aquele fim de semana na escuderia —avisou desajeitado e tenso e caminhou para a saída. Ela pensou sobre o que ele se referia e acompanhou-o ouvindo-o contar sobre o prêmio que a equipe ganhou na corrida e a comemoração na cidade que todos os funcionários foram.

Ele levou-a ao box da escuderia onde ficavam os carros de teste. Ela parou em frente a um carro, ele entrou, inseriu o cartão e apertou o botão da ignição. O ronco do motor soou. Bella assustou-se com sua ousadia repentina e esperou. Ele saiu do carro e pediu que ela entrasse. Ela entrou curiosa. Ele inclinou-se e demonstrou todos os comandos do painel, explicando diligententemente e seguro.

O cotovelo dele roçou inocentemente no seio de Bella e ambos olharam-se assustados e conscientes, surpresos com o choque que os percorreu. Ele ignorou a emoção e explicou o procedimento como se ela não soubesse. Ela observou-o falar com um novo interesse, avaliando sua bonita boca, sentindo-se inoportunae torpe por querer que ele a beijasse novamente.

—Bella, presta atenção. Eu não quero que você faça algo tolo.

—Eu sou mais velha que você, Edward. Então você não tem que cuidar de mim —provocou brincalhona.

—Eu sou homem, sei mais que você sobre carros —defendeu solene, caminhou até a frente do carro e estudou o barulho no motor com o ouvido quase encostado no capô.

—Hei, o que você está fazendo? —Ela sorriu ao vê-lo inclinado. —Vai ouvir o coraçãozinho do carro? —Zombou divertida. Ele ficou satisfeito com o que ouviu e voltou para o lado dela.

—Estou vendo se a criança está bem.

—Homens, homens. Você é igual meu pai —acusou risonha, mas viu os olhos cinzas-nuvens-claras mudarem para tempestuosos com a menção de Charlie.

—Não me compare ao seu pai —pediu entre dentes. —Em nada eu pareço a esse crápula.

Ela assustou-se com seu tom. Sabia que Edward não gostava de Charlie por absorver as chateações dela, mas não conhecia esse ódio que viu. Edward tratou de dissimular, voltando a explicar o comando. Ela tocou o braço dele.

—Você já pilotou alguma vez? —interrompeu e acariciou o braço estendido sobre o painel.

—Só uma vez.

—Então por que não dirige você? Eu já perdi o interesse —ofereceu e subiu a mão no bíceps dele, por cima da camisa xadrez. Ele congelou, esperando-a tocar e observou-a, a atração entre eles zunindo no ar. O olhar dele desceu para sua boca.

—Não.

—Por que não? Você já dirigiu uma vez.

—Sim. Uma vez, sob a supervisão de Sam. Mas alguém pode vir.

—Você mesmo disse que todos saíram para comemorar. Só sua família está na fazenda— persuadiu-o matreira.—Mostra que sabe dirigir melhor que a mulherzinha aqui. Eu provei aquele dia que sou boa. — desafiou e levantou, saindo do carro e parando junto a ele. Ele encarou-a sopesando o desafio, afastou-se e olhou a pista. Assentiu contragosto e entrou no carro, pôs o capacete e programou os comandos. Ela sorriu e bateu palmas ao vê-lo acelerar cautelosamente. No meio do circuito, ele ganhou segurança e exigiu mais do motor. Bella abriu a boca e cobriu-a com a mão ao vê-lo passar numa velocidade alta e gradativa, sempre acelerando mais. Uma volta, duas, e cada curva ele adicionada audácia e segurança.

Após seis voltas em alta velocidade, ele diminuiu a aceleração e voltou devagar ao box. O raro sorriso estava nos seus lábios ao tirar o capacete. Ele desceu eufórico, Bella caminhou até ele e enrolou os braços em volta de seu pescoço.

—Uau! —beijou-o no rosto estalado e molhado. —Achamos o futuro piloto da nossa equipe! —congratulou sorridente.

Ele rodeou os braços em sua cintura e ergueu-a minimamente do chão, alegre, e girou-a de um lado a outro com o prazer da adrenalina do proibido circulando suas veias e comandando sua ação. Ele beijou-a na testa, desceu entre os olhos, pálpebras. Ela ficou tensa, algo vibrou no ar, e ela antecipou sua próxima ação, secretamente ansiando.

—Não faça, se for se arrepender. —Ela alertou quando sentiu na atmosfera uma violenta mudança. Ficaram cara a cara, nariz encostado e respirações de boca aberta próximas. Não podia acontecer de novo. Não podiam estragar tudo. Ela pensou.

Ele afastou-se minimamente, sem jeito.

—Eu não sei de onde veio isso... —confessou de repente, acompanhando com o olhar a língua de Bella que umedecia a boca ressequida. —Não posso lidar com isso.

—Eu não sei do que você está falando —ela fingiu não saber, querendo ignorar o ocorrido.

—Você sabe sim, Bella. —Estendeu o polegar e esfregou-o nos lábios separados de Bella. —Até recentemente eu te via quase como um menino, ou irmã, agora... —confessou e deslizou o polegar dentro de sua boca, na parte úmida do lábio inferior. Ela mordiscou-o por instinto. Ele balançou a cabeça com autocensura. —Mas não é o que eu quero —negou-se e encolheu as mãos ao lado do corpo.

Ela observou o dilema em seus olhos e tentou soar prática, com um novo poder nascendo nela, vindo do orgulho.

—Eu não sou a fim de você, Edward— defendeu-se da nova rejeição. —Foi legal nossa experiência —atinou-se a dizer. — Didática. Descobri que não fiquei traumatizada com Paul. Posso beijar qualquer cara por aí, até meu amigo Flippy — brincou zombeteira, só para amenizar o clima entre os dois. — Você podia me ajudar na prática. Até que beija bem —Piscou charmosa, dizendo a si que o convite era um blefe. —Não faz mal amigos se beijarem, faz? Para contribuir com a experiência de uma iniciante? —Gracejou, e seu intento era alcançado, porque Edward relaxou.

—Deus me livre de ter que suportar, mesmo que para experiência, outro beijo molhado que me babou até a testa— espetou, porque assim ficavam à vontade.

Ela fingiu de ofendida, mas leu a diversão.

—Tenha piedade! Eu mal beijei um, por isso preciso aprender. Você deve ter adquirido experiências saindo com mulheres de vida fácil —brincou e envolveu os braços comodamente em volta do seu pescoço. Ele prendeu as mãos ao lado do corpo para não voltar a tocá-la. Tinha que afastar-se porque percebia que a amizade entre eles se convertia em algo sugestivo e perigoso. Ela era um caos. Um caos encantador. Uma tentação. Doce e provocativa.

—Vida fácil? —atentou-se.

—Sim. Aquela prostituta da boate. Se continuar tão pegador, daqui uns dias ficará como Wolf, pai de todos os cachorros bastardos das cadelas de menos de cem km daqui.

Ele negou, balançando a cabeça, com semblante horrorizado.

—Eu nunca, nunca, ficaria com uma prostituta, Bella —enfatizou sério. —Nunca.

—Então o que você fazia com ela...?

Som de pegadas o livrou de responder. Viraram juntos o rosto e afastaram-se instintivamente. Jéssica sorria maliciosa, olhando a aproximação dos dois acusadoramente.

—Hmmm, quer dizer que a santinha ataca novamente —zombou referindo-se a Paul. Essa seria uma acusação que Bella teria que ouvir para vida toda, além da culpa de não saber o que aconteceu a ele. Não teve coragem de procurar sua família e perguntar onde ele estava, porque se o mataram, o corpo foi ocultado em algum lugar.

—Só estamos conversando — Bella justificou e olhou em volta, temendo o que exatamente Jéssica teria visto.

—Hmmm, com o corpo bem coladinho com o garoto dos estábulos? —escarneceu. —Quer dizer que o caladão esquisito sabe beijar, hein.

—Você não tem nada com isso, Jéssica —Bella contra-atacou nervosa, suas mãos tremiam de temor pelo que ela faria.

—Eu não, mas meu tio, sim —salientou. Edward deu um passo à frente, assumindo uma postura ofensiva. Bella segurou seu pulso para tranqüilizá-lo.

—Meu pai não precisa saber, Jé —pediu implorativa. Jéssica olhou as unhas com afetada candura.

—É, ele também não precisa saber que o filho do caseiro estava pilotando um de seus brinquedinhos —salientou mordaz. —Eu posso não falar... —ponderou cheia de veneno.

—E o que você quer em troca?

—Não sei... —Levantou uma sobrancelha dramaticamente. —Deixe-me pensar. —Tomou um tempo no seu teatro, depois bufou com exagerado lamento. —Não sei o que pedir agora. Vou deixar de crédito para pedir num momento especial. Enquanto isso, aproveitem por ter uma amiga como eu —deixou o galpão rebolando alegremente. Bella suspirou.

—Pelo menos ela vai ficar calada por uns dias. Qualquer fofoca dela prejudicaria sua família e você.

—Você também.

—Eu já estou acostumada. — Deu de ombros.

Bella segurou o braço dele e fizeram o caminho de volta ao casarão pelas sombras, preocupados e temerosos.

—Odeio essa galinha sem pena! —Ele rosnou indignado.

—Não fale assim das galinhas. Anastácia ficaria ofendida de ser comparada à Jéssica —tentou abrandá-lo. —Pelo contrário, Anastácia é uma galinha muito digna e não sai dando bola por aí para ninguém —ressaltou solene. Ele olhou-a de canto em parte chateado por ela ter que conviver com pessoas maldosas como Jéssica, em parte encantado com sua facilidade de relevar. Ela segurou a mão dele na dela e avaliou suas unhas. Restos de graxa escondiam-se nas unhas mal cortadas. —Vamos lá para o seu quarto que eu vou arrumar suas unhas —propôs para distraí-lo. Ele decidiu aceitar pelo mesmo motivo que ela propôs.

—Ok. Mas nem pense em pintar minhas unhas de rosa! —alertou sério. Esse Edward acessível era bem melhor. O silêncio entre eles foi cômodo até a casa dele.

Ela olhou-o de viés, cheia de palavras.

—Eu não quero que a implicância dela mude nossa relação —comentou sincera. —Também não quero que as coisas fiquem estranhas por causa daquele beijo ou das minhas brincadeiras.

—Eu também não, Bella —concordou objetivo. —Mas também não estou a fim de problemas maiores para mim e para eles. —Apontou para sua casa a poucos metros.

—Eu sei —lamentou novamente magoada pela sensação de rejeição. Não entendia o que sentia, mas o ar de paquera e possibilidade de algo mais com Edward deu-lhe um pouco de esperança e entusiasmo. Não andava ávida por encontrar um par, mas a comodidade com Edward, aliada à nova e poderosa atração química era um estimulante a querer a experiência. Tudo era muito novo e também não sabia como lidar com essa mudança entre eles. Por isso o compreendia. E se tinha que agir somente como sua amiga, faria. Tornaria o clima descomplicado entre eles.

Passaram no celeiro para pegar a nécessaire de manicure de Bella, então entraram pelos fundos da casa para o quarto de Edward e Jasper. Bella encheu uma vasilha de água fria e sentou-se na cama de Edward. Estendeu a mão e chamou-o.

—Senta aqui—gracejou com um tapinha na cama. Relutante, como todas as vezes que ela o obrigava a cuidar das unhas, ele sentou-se. Ela começou lixando as unhas. — E você e Tânya? O que tá rolando?

—Nada —respondeu sucinto.

—Você deve tá pegando ela sim, então o que tanto conversam quando ela vem? —questionou curiosa. Ao terminar de lixar cada unha, passou creme para amolecer cutículas.

—Nada. Com mulher eu não preciso conversar. Elas falam por mim e por elas, como você. —provocou.

—A diferença é que você me adora.

—Nem tanto. —Deu de ombros. Ela ergueu o olhar e sorriu. Ele não negou, e ela sentiu prazer como se tivesse comido um Toblerone. Ele protegia-se dela como se quisesse e temesse o afeto. Ela queria livrá-lo dessas defesas inexpugnáveis contra pessoas e aliviar a solidão constante que ele vivia... Que ambos viviam. Ele programou músicas no celular com a mão livre. Ela começou a tirar cutículas, mas a carícia na mão grande e o modo como admirava seus dedos não faziam parte do trabalho. Sentia o olhar dele sobre ela, a respiração dele era doce e saborosa em sua garganta.

Fitou-o em silêncio, querendo algo, ansiando pelo que não compreendia. Ficou com a boca muito seca, uma incômoda sensação de palpitação no peito.

—Vai ficar me encarando? —Ele arreliou ao ver que ela parou o que fazia e o observava. Ela riu e baixou novamente o olhar para as unhas. —Não sei para que você insiste em fazer, sendo que amanhã vou mexer com graxa.

—Prefere ficar com a unha de tatu? —gracejou carinhosa, embora soubesse que ele reclamava, mas adorava que mexessem em suas unhas. Quantas vezes, em outras ocasiões, ele perguntava: já terminou?, com ar decepcionado. Desde então ela compreendeu que ele gostava que ela demorasse, embora nunca admitisse.

Ela suspirou. Queria invadir a parte dele que vivia guardada e isolada. Ela conhecia seu aspecto vulnerável, sabia que ele tinha um coração, conhecia a criança carente que existiu nele, e hoje queria muito essa parte dele. A que queria afeto.

—Sabia que agora formiga mais...? —levantou a questão distraída. Sua voz saiu estranha e tinha os músculos da barriga contraídos.

—O que formiga? —questionou perdido.

—O bico do meu peito —confessou naturalmente. Ele abriu a boca em choque e sem palavras. —Depois daquele dia que você apertou, formiga mais. —terminou de tirar a cutícula e pegou base na nécessaire para passar nas unhas. — Eu fico apertando todos os dias antes de dormir, e é bom —revelou sem pretensões.

—Bella... —chamou-a como se estivesse sem ar. Ela olhou-o preocupada. Ele parecia estar tendo uma apoplexia. —Não fale isso. Por que você fala essas coisas para mim?

—Porque você é meu melhor amigo, não? — questionou inocente.

Ele desviou o olhar para o vestido de domingo dela, as mãos coçando de desejo de tocá-la. Fechou o punho livre negando-se. Sentia como se tivesse aceso uma conexão física a ela em seu interior e não pudesse apagá-la. Seu corpo adolescente comportava-se tenso e incômodo perto dela, com tensão e nervosismo de um semental que tem perto uma fêmea disposta. Essa combinação de inocência e transparência nela a fazia encantadora e caótica para ele, levando-o a querê-la mais com toda ferocidade juvenil.

—É verdade, Edward —continuou transparente e natural. —Tenho uma consciência estranha de você agora, coisa que nunca senti com nenhum garoto. Também está ardendo aqui, ficar longe de você nas últimas semanas —pegou a mão dele que segurava e a colocou a palma sobre o peito esquerdo. —Será que é normal?

—Para de dizer essas coisas, Bella —implorou num sussurro, olhando-a quase com fome animal.

—Não estou planejando te chatear, tesouro. Só não consigo ser indiferente e mentir. —Estendeu a mão dele e voltou a passar base com cuidado.

A porta do quarto se abriu repentinamente e Jasper entrou franzindo o nariz com um pacote de biscoitos recheados na mão.

—Não sei como você aguenta esse cheiro horrível de esmalte, Edward. —Jasper criticou e parou em frente a tv velha do quarto.

—Olá, Jasper —Bella cumprimentou-o.

—Olá, cabelo de fogo. Você conseguiu fazer as unhas dele de novo! Parabéns! —zombou.

—Ele nega, mas gosta. —Sorriu cálida para Edward.

Jasper aproximou-se e observou Bella passar base na última unha.

—Isso é muito metrossexual —acusou. —Coisa de boiola. —Fez uma careta fingida. Edward ignorou-o com um rolar de olhos.

—O que você tem contra os boiolas, Jasper. É homofobia criticá-los. —Bella ralhou brincalhona.

—Eu não tenho nada. —isentou-se levantando as mãos no ar teatralmente. —Eles só dão o que é deles. Não tenho nada contra eles desde que eles não deem o que é meu! —gracejou brincalhão. —Eu até gosto dos boiolas. Quanto mais da raça no mundo, mais mulheres para mim.

Bella riu gostosamente.

—Discordo, porque quem sofre são as mulheres com a falta de homem de verdade na pista! Agora nem se sabe diferenciar mais!

—Nisso eu concordo. É como meu irmão. Não se pode julgar se ele é ou não é. É todo grosseiro e evita tanto as mulheres que se não fosse a coroa loura que ele perdeu o cabaço na casa de estrada e o fato de ele continuar indo afogar o ganso ao menos uma vez por semana eu suspeitaria que ele realmente é boiola, porque as meninas vem aqui e faltam esfregar os peitos na cara dele e ele não pega ninguém —vaiou de boca cheia. —A Tânya até que justifica, porque ela é uma companhia tão boa e inteligente como uma ostra, mas aquela Ângela é totalmente pegável. Hmmm, aqueles óculos e cara de estagiária sexy meche comigo —fechou os olhos sonhador. —Mas Edward deixa tudo passar! —adicionou decepcionado. —Prefere fazer unhas, brincar com Wolf e tocar gaita. —provocou zombeteiro.

—Dá um tempo Jasper! —Edward repreendeu aborrecido. Bella encarou Edward desafiando-o a negar que ficava com prostitutas, ele somente fechou a cara. Jasper acabava de desmenti-lo.

O louro sentou na cama de Edward, junto aos dois.

—Faz minha unha também —ofereceu dramático, estendendo a mão.

—Não —Edward negou. —Ela tem que ir embora. Já está há tempo demais longe de casa —sentenciou hostil.

—Para de ser mandão, Edward! —Bella ralhou.

—Eu não sei como você o aguenta, Bella. Ele é muito mal humorado —

Jasper atacou.

—Não sou mal-humorado. Mas o pai dela pode chegar, procurá-la e surpreendê-la fora de casa, então vai ser mais um problema, isso se ele não resolver voltar a bater nela —evidenciou de cara fechada.

O silencio a seguir foi incômodo.

—Sorte que ele parou de te bater nos últimos tempos, né, Bella? —Jasper comentou solidário.

—Os pais batem nos filhos, Jasper —Bella defendeu sem jeito.

—Não depois dos dezesseis anos.

—Quem ama, corrige —declarou solene. — E eu errava ao quebrar suas regras, por isso ele às vezes me batia.

—Existe outras maneiras de corrigir.

—Essa é a dele, Jasper!— aumentou o tom irritada com o assunto e a piedade que via nos olhos deles. Edward ficou em pé e apontou a porta para que ela saísse, precedendo-a. —Desculpe, Jasper. Só que ele é meu pai —ela adicionou envergonhada.

—Tá, Bella, eu não vou falar mal dele.

Antes de deixar o quarto, Bella encontrou Esme e Carlisle saindo da cozinha para a parte dos fundos da casa.

—Bella...? —Carlisle surpreendeu-se ao flagrá-la. Não era a primeira vez que ele a via no quarto dos meninos, claro, mas ele sempre pedia a Edward que não o fizesse.

—Olá, Carlisle... Esme. —Balançou a cabeça cumprimentando. Recebeu um olhar inquisitivo de Esme, que amava Edward e preocupava-se com a ligação dos dois. Desde que os viu a primeira vez juntos, sete anos atrás, eles não permitiam mais ninguém entrar na bolha. E o modo como Edward se comportava agora, com um cuidado possessivo, era mais preocupante. —Eu já vou indo.

—Até mais, Bella. —Carlisle despediu-se. Esme observou o casal caminhar pela parte escura rumo ao casarão, Bella na frente, Edward atrás.

—Ele a adora. E ela não sabe —Esme sussurrou ao marido.

—Ela também o adora, e esse é o problema maior.

Edward acompanhou Bella até que ela alcançasse a árvore que costumavam escalar para entrar no quarto dela. Era fácil. Desde crianças os dois fizeram apoios para os pés na árvore, principalmente por causa de Bella quando ela queria entrar e sair escondida.

—Então boa noite, Flippy. Você tem estado bem calado desde que Jasper chegou ao quarto.

—Eu sou calado.

—Sim, calado, mas não grosso. E hoje você foi —destacou e pôs a mão na árvore, preparando-se para escalar. —Você vai subir? —perguntou incerta, as palavras soando como um ansioso convite. Ele hesitou em dúvida.

—Melhor não, Bella— desviou o olhar querendo se impor algum limite.

—Er, eu sei que não estamos sabendo como lidar com essa coisa nova entre nós, mas se vamos continuar sendo amigos, cabe a gente tentar lidar da melhor forma e levar com naturalidade.

Ele calou-se pensativo e indeciso, tentado a subir... Queria abraçá-la, apertá-la forte para protegê-la a noite toda, e não sabia se podia lidar com isso que ficava cada segundo mais forte.

—Você é um estorvo. —Ele atacou aborrecido. —Isso... —apontou para os dois. —Está me cansando. Eu não estou atraído por você, Bella. —É muito pior. Adicionou mentalmente. Eu não devo me envolver com você, quando um dia vou ser o motivo de você perder tudo que tem.

Ela enrijeceu magoada e surpresa com a nova rejeição.

—Então boa noite, Flippy —desejou e impulsionou o corpo a escalar a árvore. Só quando alcançou os três metros de altura lembrou que estava de vestido e olhou para baixo. Era tão natural subir que nunca se preocupou se Edward ficava lá embaixo ou não. Cheia de suspeita, olhou para baixo antes de pisar a ponta da sacada, a mão apoiada no alumínio do parapeito. Surpreendeu Edward com a lanterna do celular apontada em sua direção. Fez cara feia para ele, ele sorriu de canto como uma criança pega fazendo algo errado, apagou a lanterna e afastou-se com mãos no bolso. Ela balançou a cabeça sem entender suas atitudes dúbias e terminou de entrar na sacada.

Continua...

Notas finais
Espero que tenham gostado e pegado as entrelinhas. No decorrer da semana envio mais um capítulo. Bjks