Notas iniciais
Gente, estou muito feliz com as indicações. Sei que ainda está no começo e para ser indicada tem que ter muita confiança em mim. Muito obrigada por embarcar comigo em mais esta estória.Grande beijo:vanx25, aliciapslove, Stephanne, Carol. É muito bom ter vcs há tanto tempo comigo.

Capítulo 03- Toques

Uma história se escreve com muito mais que um toque

A avó de Bella desceu as escadas a passos rápidos, após ouvir o grito da neta. Bella fechou os olhos como que para apagar da mente o que viu. Era apavorante saber que na propriedade Swan alguém seria capaz de uma barbaridade dessas. Mas quem? Anos antes aconteceu algo parecido. Bella não era a protagonista, claro, na outra ocasião. Mas todos contavam a estória na propriedade Swan.

Vovó observou o semblante de Bella. Sua pele normalmente corada, estava pálida. Sentou-se em frente à mesa e segurou a mão de Bella para acalmá-la. O mordomo recolheu o pote e os itens de café da manhã enquanto Bella mantinha o olhar distante. Temia ao pai. Ele teria sido capaz de matar? Quem fez isso? E se foi o pai, foi ele a fazer a primeira vez também?

O grito de Bella tinha sido tão alto que os filhos do caseiro, Edward e Jasper, invadiram a casa pela sala alarmados e preocupados com o que o pai de Bella poderia ter feito com ela. Encontraram a avó conversando com Bella, consolando-a.

—Não, princesa. Ninguém o matou— garantiu.

—Então o que, vovó? Alguém com o mesmo anel que ele teve o dedo arrancado —lembrou ausente, com sensação de irrealidade. Repassou na mente a história que sua mãe contou certa vez. Uma briga entre Charlie e seu irmão mais velho, Jhon, aconteceu tempos antes de Bella nascer, por ciúme de Renée. Jhon era pai da prima Alice, e a briga aconteceu quando Laysa, sua mulher, estava grávida. Jhon era um almofadinha mulherengo que usava mulheres e as abandonava. O ciúme de Charlie era justificado por Jhon ter sido o primeiro namorado de Renée. Rennée casou com Charlie, que sempre fora apaixonado por ela, mas Jhon nunca se cansou de cercá-la. Depois da briga, Jhon desapareceu misteriosamente, e o dedo anelar cortado foi enviado para Renée contendo a aliança de casamento com o nome de Laysa. Com seu desaparecimento, o casamento dos pais de Bella ficou mais tranquilo, embora cheio de subserviência da parte de Renée.

—Seu pai não faria isso só por Paul ter te beijado, libélula. Seria muita arbitrariedade. Nem ele seria capaz de algo tão cruel.

Bella olhou-a uns instantes, suspeitando que nem Charlie nem sua avó soubesse o que Paul fez. Será que eles acharam que Bella encontrou-se naquela situação degradante, com o short baixado, por vontade própria?

—Ele não só me beijou, vovó Laura. Ele me imobilizou, torceu meus braços nas costas, mordeu meus ombros, tirou meu short e... —Bella interrompeu-se sem jeito, olhou para trás, e Edward a observava com o olhar duro, os punhos cerrados. Teria sido Edward a cortar o dedo de Paul? Perguntou-se desconfiada, lembrando que ele não amanheceu no quarto. —Bom, foi isso —encerrou envergonhada. Sua avó abriu a boca horrorizada.

—Então este canalha não merecia ter somente o dedo cortado. Tinham que ter cortado seu pinto e enfiado o cabo de vassoura no culo dele. Isso que ele merecia! —vovó defendeu indignada.

—Concordo —vaticinou Jasper divertido e sentou-se à mesa ao lado de Bella. Jasper era mais extrovertido que Edward, conversava tranquilamente com diversas idades e tipos de pessoas. —Ainda bem que ele sumiu, porque sabendo disso agora, eu mesmo quebraria sua cara e arrancaria suas mãos— comentou solidário. — Charlie fez certo em não chamar a polícia. Para mim, não existe isso de prender abusador. Se tem um crime que merece pena de morte é de violência sexual. Se ele só fosse preso, sairia em pouco tempo. Pelo jeito ele está acostumado a machucar mulheres. Só agora atentei que a ex-namorada dele vivia cheia de marcas roxas.

Uma discussão se iniciou sobre o assunto. Vovó Dwyers concordou com os argumentos de Jasper. Edward somente observava encostado à parede, com olhar vigilante em Bella, que tinha os olhos distantes, pensativa sobre o caso de pena de morte. Paul teve sua sentença? Charlie fez isso? Ele seria capaz de matar alguém só por pensar ter beijado Bella?

—Charlie nunca terá a chance de fazer isso com ninguém mais —Bella assegurou, interrompendo-os. —Eu não quero nunca mais me envolver com pessoas do sexo masculino —declarou convicta.

Os três observaram-na atentos. Vovó falaria algo para consolá-la, mas viu que não era o momento. O mordomo entrou na sala com olhar hostil para os filhos dos caseiros. Não era permitido que eles tomassem tais liberdades de entrar no casarão, mas com a condescendência da avó ficava difícil de enxotá-los. Ergueu o queixo e virou-se para Bella.

—Srta. Isabella, está na hora de voltar ao seu quarto —o mordomo instruiu afetado. — Seu pai ordenou que você não saísse hoje.

—Só se for por cima do meu cadáver! —vovó retrucou beligerante. —Vamos comigo agora para cidade fazer compras —determinou. Edward assentiu para a avó de Bella, aprovador, saiu calado como entrou e caminhou para o celeiro. A avó abriu os olhos assustada com o conhecimento do que flagrou nos olhos de Edward, posse. Bella viu a direção que Edward tomou, esperou o mordomo contrariado voltar à cozinha e olhou para a avó, comunicando com o olhar que iria lá fora. A avó entreteve Jasper, Bella saiu disfarçadamente pela porta lateral da casa e caminhou olhando para os lados em direção ao celeiro. Edward estava sentado no chão, ao lado do seu cachorro. Ela ajoelhou-se em frente à caixa de madeira e tirou o jabuti para fora. Ele escondeu a cabeça.

—Você disse que iria ficar longe do sexo masculino —Edward lembrou enquanto acariciava o pescoço de Wolf. —Isso inclui o Jabuti, o cão e eu —enumerou sério. Ela olhou-o desconfiada, mas ele era exatamente assim. Fingia despretensão quando na verdade queria fazê-la rir. Ela entrou na brincadeira.

—Vocês não são do sexo masculino para mim —zombou com um sorriso relutante, esquecendo a contrariedade.— Nenhum dos três me olharia com segundas intenções.

Ele ergueu o olhar para ela uns segundos. Ela estava ajoelhada na frente da caixa, acariciando o casco do bicho, usando camiseta fina branca e calça de moletom. Não usava sutiã. Seus seios apontavam altivos para o teto. Ele absteve-se de responder engolindo saliva.

—Falei sério —ela voltou a dizer. — Ficarei longe de meninos.

—Preferirá meninas? —questionou curioso e desviou o olhar, culpado. Segurou seu caderno de desenho que guardava no cantinho e reteve ali sua atenção. Ela abriu a caixa e soltou os outros bichos. A galinha ciscou tranquilamente perto de Wolf.

—Não. Meninas, não, eca! —brincou. —Só quero me defender daquela sensação impotente de ontem. Não quero pensar que outro garoto seria capaz —confidenciou baixinho. —Eu devia ter sabido que essa minha sede de companhia me levaria a algo assim.

Ele observou-a pesaroso. Apesar de ingovernável ao ponto do pai restringi-la de tudo que era jeito, era sua amiga. Consolou-a quando sua mãe morreu, porque seu pai não queria ver ninguém. Foi uma das únicas vezes que a abraçou por iniciativa, escondido de todos. Calou-se quando a descobriu brincando com armas de fogo do pai. Separou-a de uma briga com a filha de um engenheiro. Admirou-a quando ela quebrou o braço ao cair do cavalo, porque ela não chorava de dor, mas de medo que o pai matasse o cavalo. Escondeu-a em sua barraca quando ela fugiu de casa de bicicleta para persegui-lo no acampamento escoteiro em que ele estava, depois voltou com ela para casa para que ninguém descobrisse que ela fugiu. Brigaram uma única vez, quando ela subiu no trator por incentivo de Sam e acelerou pela propriedade. Irado, Edward correu atrás dela e subiu no trator. Tirou-a esperneando e gritando, depois a arrastou até o celeiro.

—Não basta você se por em perigo, agora quer colocar o emprego de Carlisle em perigo também?! —gritou com ela.

—Sam viu e deixou! —defendeu-se mortificada com seu tom arbitrário, quando ele era sempre condescendente, mas entendeu que estava em ameaça alguém que ele considerava, Carlisle.

—Atirar o trator no rio não vai chamar a atenção do seu pai —comentou num tom mais brando, porem iracundo. —Resolva-se consigo, Bella. Existem outras formas de chamar atenção. Dedique-se à escola, tire notas boas, cuide de você —aconselhou, saindo da constante neutralidade essa vez. Ela lhe dava pena. Até ele que tinha muitos motivos para se rebelar, tinha uma vida normal. Era um dos mais condecorados escoteiros, dedicava-se com afinco ao curso de mecânica, ia bem nos estudos, fazia seus desenhos, tocava sua gaita. Não andava necessitado de companhia. Gostava de estar só. Ela era sua única debilidade, por saber que ela o necessitava.

De tanto observar a disciplina e responsabilidade de Edward, Bella ficou mais governável no último ano. Não roubou mais peças na oficina, não fugiu de casa para dormir no celeiro com os bichos. Mas quando decidia quebrar regras, Edward sempre estava lá para presenciar, como no dia que Sam deixou-a dirigir e Charlie flagrou e quando ela resolveu que beijar meninos era sua próxima experiência, com Paul.

—Esse seu negócio com Paul, foi só uma experiência ruim e ponto, Bella— tentou tranqüilizá-la.

—Eu me sinto culpada por ter sido tola, e é bom saber que eu tenho você para conversar sem me censurar—sorriu cálida e engatinhou até ele, prevenindo-o do que iria fazer. Antes que ele pudesse raciocinar algo para contê-la, ela enlaçou o pescoço dele e o abraçou, encolhendo-se acurrucada sobre a coxa dele. Ele sentiu-se indefeso diante da fragrância suave amortecendo seus sentidos. Ela era muito física, toques. Essa mania dela de abraçá-lo quando menos esperava o perturbava. Já bastava ser obrigado a ter a cabeça dela descansada em sua perna quando ia lhe fazer companhia vendo TV no quarto dela. Era muito para aturar. Além de ter que passar horas jogando com ela ou vendo filmes antes que ela dormisse em seu ombro.

Ela suspirou e descansou o rosto em seu pescoço, cheirando o familiar e tranqüilizante aroma.

—Você é meu irmãozinho, meu tesouro —repetiu calorosa. Ele suspirou e tolerou com indulgência as fungadas arrepiantes no pescoço, desejando livrar-se dos cabelos e perfume que o sufocavam, mas perdeu a resistência e a segurou, impotente. Ela era macia e cálida em seu colo. Adorava seu peso, seu calor, sua confiança. Apertou-a forte, os dedos fazendo traços preguiçosos na cintura. —Me fale hoje de sua mat, tesouro— ela pediu manhosa, adulando-o para que ele falasse de si ao menos uma vez.

—Não— negou sem hesitar. Ela estava acostumada com sua negativa. —Me fale você porque seria a segunda vez que seu pai faria isso.

Ela aconchegou-se mais nele e passou os instantes seguintes contando toda a história de sua mãe com tio Jhon.

Bella foi à cidade com a avó. Por ser domingo, só o hiper-mercado novo, lanchonete e sorveteria estavam abertos. Comprou osso para o fiel Wolf, ração para o preguiçoso Joaquim, uma pulseira de pérolas falsas para o pescoço da afetada galinha Anastácia e filés para a fujona rã. Nunca ia a rua sem comprar algo para Edward. Doces e biscoitos estavam no topo da lista, embora ele tivesse pedido que ela diminuísse. Mas ela sempre levava. Doces era a linguagem deles.

Antes de voltar para a propriedade Swan, Bella foi abordada por uma pessoa vagamente conhecida.

—Olá, gata! —foi cumprimentada pelo rapaz com cara de forasteiro que estava no bar na noite anterior. Vovó mediu-o dos pés à cabeça. Ele pôs o braço sobre os ombros de Bella. —Sou Jean James. Eu te vi ontem à noite no bar. Aliás, você deixou a festa cedo demais —reclamou com dramático ressentimento. Bella retesou desconfortável com a invasão de espaço pessoal, principalmente por causa do ocorrido na noite anterior. Ela tentava esquecer, mas o trauma ficou.

—De onde você é? —Vovó questionou para comunicar a Bella que ela estava perto e que a defenderia como um cão com osso.

—De Nova York —explicou e alisou o cabelo de Bella olhando-o como se a cor e textura fosse rara.

—Veio a passeio?

—Sim. Disseram-me que na terra onde a princesa Diana nasceu tinha as mulheres mais bonitas do Reino Unido. —segurou o queixo de Bella. —Comprovei ser verdade.

Bella comportou-se tensa, mas depois da atenção protetora da avó, relaxou e comprovou que ele era legal. Sentaram-se na sorveteria. Em outros tempos, pensou que as avós faziam caras feias desencorajando gracinhas sobre suas netas, mas ao invés disso, vovó encorajou Bella a conversar. Ao fim, trocaram telefones e endereços de e-mails. Bella voltou mais relaxada e alegre para casa.

Segunda-feira, iniciou-se a semana escolar. Bella era grata por este ser o último ano da prima Jéssica. Ela a atormentava diariamente.

—O que aconteceu com Paul? —questionou maliciosa. —Todos estão dizendo que ele levou uma surra do seu pai. O que você fez dessa vez, hein? —lixou a unha com ar acusador. Alice, sentada em sua cama, torceu os lábios censurando as implicâncias de Jéssica.

—Nada —Bella retraiu-se. Não contaria à prima a vergonha que passou. Fingiria que nada aconteceu. Se as pessoas pensavam que Paul foi punido só por ter beijado a filha de Charlie, que pensassem. Ela que não iria dizer a verdade e se degradar mais.

—Vou para sua casa este fim de semana —anunciou Jéssica. —O fato de Mike me levar para os testes dá a ele a impressão de exclusividade —zombou, estendeu a mão e observou as unhas pintadas de rosa-pink. Bella odiou a ideia. Contava que as amigas se organizassem para dormir na casa de Ângela este fim de semana, não em sua casa. Suspirou chateada.

Sexta-feira, Bella voltou para casa com o administrador, Carlisle. Desde que Charlie proibiu Sam de buscá-la, era Carlisle que ficara responsável por seu transporte. Coitado de Carlisle! Já não bastava cuidar de toda propriedade, manter a Swan House apresentável, administrar asfaltos da pista de teste, entrevistar e contratar funcionários, ainda tinha mais este peso sobre as costas. Bella observou-o. Seus cabelos louro, corpanzil e pele bronzeada lhe dava um ar rude, mas Carlisle era muito educado.

A amiga de Rosalie, Tânya, também pediu para vir passar o fim de semana na casa de Rosalie. Elas sentaram-se no banco de trás com ares de adoração para Jéssica. Todas as garotas lhe cercavam por ela ser a mais velha da turma, mais popular e mais ousada. Bella não confiava na prima. Conhecia-a desde pequena e sabia seu poder de entrar em problemas e enfiar os outros dentro.

Bella não entendeu por que seu pai veio jantar, quando nunca fazia questão. Não queria que ele ficasse lhe passando vergonha na frente de Jéssica e dando a ela mais motivos para implicá-la. Mas foi inevitável. 19h Charlie sentou-se à mesa para jantar com vovó Dwyers, Jéssica e Bella.

—Você precisa andar com Jéssica para ela te ensinar bons modos —Charlie comentou, servindo-se de frango ao molho Alfredo. Jéssica olhou Charlie por baixo dos cílios, grata. —É minha sobrinha que mais dá gosto. Ninguém nunca viu Jéssica metida em histórias feias. É uma menina exemplar. Só tira notas altas —elogiou. Bella abriu a boca horrorizada. Se tinha alguém que trapaceava e colava na escola era Jéssica. Sorte estarem em anos diferentes, mas Ângela penava em levar Jéssica nas costas em notas e trabalhos.

—Eu não estou preocupada com o hoje, como muitas meninas, tio —Jéssica adulou-o. —Eu me espelho no senhor porque quero um futuro bom.

A avó de Bella parou de comer e observou a dissimulação e falsidade de Jéssica com ojeriza. Bella negou, balançando a cabeça. Não queria começar uma desavença. Deviam aproveitar o bom humor de Charlie e viver em paz. Jéssica foi dormir no quarto de hóspedes. Bella não fazia a mínima questão que a prima dormisse com ela, como fazia com Alice.

Devido à semana sem ver Edward, sentia a familiar falta dele, mas como Jéssica estava em casa, para não expor a ele, não foi vê-lo na oficina da escuderia quando chegou nem no celeiro. Além do que, ainda estava de castigo. Seu pai não a deixaria perambular pela propriedade.

Tomou um banho, vestiu o pijama e desligou as luzes, deixando só o abajur ligado. Deitou na cama, fechou os olhos e diminuiu ao máximo a luz do abajur. Esperou impaciente por volta de meia hora. Edward não veio. Ela mandou uma mensagem para o celular dele.

Venha aqui. Quero falar. Sentindo só. Tá escuro.

Mais quinze minutos se passaram, ela sentiu sua presença, ele entrou pela varanda e sentou-se na ponta da cama. Ela aumentou a luz no abajur.

—Ana e Joaquim sentiram saudade de mim? —questionou sorridente.

—Não —negou com um tom velado que ocultava se ele falava sério ou se zombava.

—E o Wolf?

—Também não.

Ela sentou-se na cama e encostou os ombros nos dele.

—Você sentiu?

—Não —negou tranquilo. Ela abriu a boca para reclamar, mas sorriu. Ela podia azucriná-lo, mas sabia que ele gostava de sua companhia. No entanto, uma suave melancolia obscureceu seus olhos azuis ao imaginar que não tinha ninguém para sentir sua falta. Não era ninguém especial, nem fez nada especial... Queria um dia escrever seu nome na história. Assim, talvez, seu pai a enxergasse.

—O que foi? —Edward questionou, observando-a. —Não vai chorar por isso, vai? —arreliou-a com olhos zombeteiros. Ela disse a si que o adorava. Era tão fácil lidar com ele.

—Não. Não vou chorar. Mas é triste saber que não sou importante para ninguém —lamentou conformada, mas sem cobrança.

—Por que você não coloca uma vassoura ali? —apontou para a parede em frente à cama. Ela franziu o cenho.

—Pra quê? —atentou-se curiosa.

—Toda pessoa que é sozinha e solitária põe uma vassoura no quarto para conversar. É só pôr uma meia cheia de pano na ponta e fazer os olhos— relatou sério. Ela olhou-o em dúvida, mas um brilho divertido nos olhos dele denunciou sua brincadeira.

—Seu bobo! —Empurrou-o brincalhona. —Fazendo graça com as lamúrias dos outros.

Ele ajeitou os ombros dela e segurou seu queixo, fazendo-a olhar para ele.

—Tenha mais segurança. Você é importante para sua avó. É importante para meu cachorro.

—E para você? —empurrou-o capciosa. Ele pausou pensativo e observou-a. Os grandes olhos de cílios longos pareciam expectativos.

—Bem, você me deu comida e banho quando eu mais precisava, então é importante para mim— relatou dramático.

—É, realmente foi uma boa ação. Tive muitos pesadelos depois de ver você pelado. Você era lindo como o rabo de um burro! Magricela como uma vassoura, pequeno como um camundongo e fedorento como salame! Sobrou alguma coisa boa? —zombou com um sorriso cálido.

Ele iria fazer uma brincadeira torpe e mordaz com ela, mas deteve-se. Tinha tomado banho nu sete anos atrás sim, mas em compensação sempre teve a precaução de ficar de short quando iam para o rio. Ela não tinha essa precaução, óbvio, já que usava suas transparentes peças íntimas que o obrigavam desde muito cedo a desviar o olhar.

Ela continuou dizendo: —Se hoje você está vitaminado assim é por minha ajuda —piscou e apertou o músculos de seus braços para acentuar, ficando surpresa com o tato do bíceps. Os anos transformaram-no num rapaz forte e saudável, com ombros largos. Observou a camisa xadrez abraçando o peitoral com olhos aprovadores. Era uma menina normal. Gostava de apreciar um corpo bonito. E seu amigo era lindo, comprovou orgulhosa dele. — Até esses cabelos lisos e repicados nos ombros só são brilhosos e cheirosos assim porque eu que compro xampus para você e para o Wolf— comentou e deslizou os dedos nos cabelos dele.

—Você esqueceu dessa vez de repetir a ladainha de que eu era um lombriguento. Eu e o cachorro — Ele gracejou e afastou-se para que ela deixasse de tocá-lo e olhá-lo como se ele fosse um pedaço grande de chocolate no ponto de morder.

—Ah, verdade. Mas pode deixar que eu não vou contar esses seus segredos para as meninas que ficarem a fim de você —combinou com um tapinha camarada no seu ombro. —Por que demorou a vir?

Ele esticou as pernas relaxado. Ela observou as coxas grossas apertadas na calça jeans desgastada com curiosa apreciação.

—Rosalie e a amiga dela fizeram um brigadeiro e me intimaram a comer.

—Está comprovado, homens se ganham pela barriga— brincou e caminhou até a frente de um espelho. Segurou a escova e deslizou nos seus cabelos. —Ela é a fim de você —segredou conspiradora.

—Notei.

—E você?

Ele observou-a pentear-se.

—Estudando o caso.

—Hmmm, você gosta de mulheres mais velhas —supôs desconfiada, lembrando-se da mulher que ele subiu para o andar privado, sábado passado.

—Não tinha me atentado a isso, mas sim. Prefiro — acentuou com olhar intenso, e ela não percebeu a inflexão.

Ele podia passar fácil por um garoto mais velho, ela pensou. Com seu olhar sério, olhos cinza como de seu husky siberiano e jeito rude ninguém daria a ele menos de dezenove anos. Por isso as meninas mais velhas o cercavam. Tânya, além de Ângela, viviam suspirando por ele.

—O corpo dela também é bonito. Ela tem seios grandes, como Jéssica —elogiou sincera e virou-se de lado, observando seus seios frente ao espelho. —A Jéssica me implica na escola dizendo o meu é pequeno. Você acha? — Empinou mais, olhando o espelho com honesta dúvida. Ele absteve-se de responder, mas se ela virasse de lado captaria o olhar compenetrado de quem a media. —Bem, não importa. Não servem de nada mesmo, a não ser para doer uma semana por mês —fez um gesto de pouco caso com a escova no cabelo. Seus olhos brilharam repentinamente como se uma luz acendesse no seu cérebro, ela arrastou um pufe e sentou-se mais próxima a ele.

—Eu sei que aboli garotos da minha vida e, consequentemente, o sexo, mas tem algumas coisas que eu queria entender. —confidenciou baixinho. —As partes do seu corpo formigam quando você necessita atenção física? —questionou baixinho.

Ele abriu bem a boca, depois fechou, assustado com a pergunta. —O quê?

—Se formiga... Er, seu pipiu —apontou o olhar para pélvis dele. Para quem mais iria perguntar, senão a ele? Ele olhou-a apalermado. Ela baixou o olhar ao seu seio e afastou o cabelo. —Aqui formiga —acentuou com o olhar. Ele acompanhou seu olhar e observou o mamilo erguido sob o pano. Arregalou os olhos cinza e engoliu em seco. —Tenho vontade de apertar... Algumas vezes eu aperto —ela confessou sem malícia. —Com você também é assim?

Ele suspendeu o ar por segundos, em choque com a pergunta natural. Um calor subiu em seu pescoço e esfregou a nuca.

—Bella, tenho que ir —avisou e caminhou apressado para a varanda. Ela caminhou atrás dele.

—Mas não são nem nove horas ainda —reclamou. —Fica mais. Tenho que te contar as novas da escola Anglicana —conspirou. Ele parecia mal-humorado. Deu-lhe um olhar inquietante, como se fosse censurá-la de algo, em seguida sentou submisso, a cabeça nas mãos parecendo perturbado. Ela encheu-o de estórias malucas de meninas da escola. Ele ouviu-a sem prestar atenção. Deixou-a antes que ela dormisse.

No dia seguinte, ela acordou cedo e foi escondida para o celeiro. Como estava de castigo, ficar lá era mais fácil porque se ouvisse o barulho do carro do pai, correria para casa. Não viu Edward durante o dia. Tentou ouvir notícias de Paul, mas não se falava mais sobre ele na escuderia. Ele teria sido morto e desovado em algum mato?

À noite, soube que todos os filhos do caseiro tinham ido divertir-se na cidade. Tânya foi com eles. Jéssica provavelmente tivesse saído com a turma da escuderia que também foi para algum bar. A avó saiu para namorar, certamente. Papai não apareceu, ainda que fosse noite em que os alojados iam para farra ou para casa; devia estar com algum projeto novo. Restou a ela ficar no quarto, mesmo sentindo-se inquieta e desgraçada. Sua única companhia foi Wolf e o cantar de grilos. Não tinha ninguém on line na internet. E se tivesse, ela tinha pouco mais de uma hora para bater papo, porque o controle dos pais logo a bloquearia. Ficou vendo clipe na companhia de Wolf, que também estava inquieto. Devia estar sentindo falta de cutucar uma fêmea, assim como os outros que saíram em busca de companhia. Parecia que o mundo girava em torno de sexo. Bem, que girasse. Ela que não queria nem saber, depois da quase experiência nojenta e horrível.

Se Edward voltou, ela não estava acordada. Dormiu com luzes acesas.

A quietude e solidão típicas de domingo de manhã a fez acordar renovada. Não havia sons de carros, só o silêncio e cheiro de verde. Hoje era dia de corrida e parte da elite da equipe viajava. Charlie não ia mais às corridas de seus carros. Dizia-se estar velho demais para viajar e para passar por fortes emoções. Deixava a missão a Sam como engenheiro chefe da equipe.

Depois de vestir uma calça cargo e camisa que a protegesse do sol, Bella deixou a mansão e foi passear com seu cavalo e Wolf. Um sorriso lento abriu em seus lábios ao ter no rosto o sol e o vento. Amava a sensação de liberdade. Correu velozmente sobre o cavalo, não mais desolada. Amava o sol. Abriu os braços e deixou-se voar sobre Thor. Ele levou-a para o caminho que percorria desde que era um potro fanfarrão. Subiu ao portão, depois desceu o caminho do rio.

Ela diminuiu os passos ao aproximar-se da água. Uma cabeça loura morango e outra louro-acinzentada destacaram-se entre as árvores próximas ao rio. O sorriso morreu no rosto de Bella sem que precavesse ao registrar quem era. Edward e Tânya. Sentiu o coração bater estranhamente no peito à medida que se aproximava.

—Olá —cumprimentou sem graça enquanto descia do cavalo. —Vim tomar um banho para me refrescar — informou, sentindo como se estivesse se justificando. Olhou-os de viés para bisbilhotar o quanto eram próximos. Ergueu o queixo contrariada ao ver a mão de Tânya tocando a coxa dele. Peituda papa anjo! Ela se enganava com aquele porte de homem dele. Seu Edward era um bebê perto dela! Ela devia procurar garotos de sua idade.

Bella prendeu Thor na árvore próxima a eles revoltada e observou o shortinho e mini-blusa de Tânya. Oferecida! Uma vez Bella usou aquilo e o resultado foi rápido, então deixava o uso disso para Jéssica e suas seguidoras. Há poucos dias tinha flagrado Jéssica fazer um boquete no segurança da escola de garotas. Sua discípula devia estar prestes a fazer em Edward também. Mas não agora. Não na sua fazenda, na sua árvore e com seu amigo. Com sua brilhante inteligência de chuchu, não sabia como Edward empregava a Tânya mais que um minuto de atenção. Bom, uma vez que a fazenda era dela, não permitiria que Tânya abusasse do menino que viu crescer, pior ainda no local onde costumava ir com ele desde crianças. Por outro lado, se Edward escondeu-se de Bella para ter a companhia de Tânya, quem era ela para questionar? Observou ressentida. Mas não iria facilitar para eles. Ali era seu mundo.

Nenhum deles comentou quando Bella desfez dos sapatos e deixou cair as calças cargo, mas Tânya pôs a mão na boca horrorizada ao ver Bella desabotoar tranquilamente a camisa xadrez, jogar no chão e mergulhar no rio somente com uma calcinha de algodão amarela transparente. O cachorro pulou logo atrás.

—Que horror! —Tânya ofegou. —Garota sem modos!

Bella sorriu endiabrada por tê-la desagradado, quando na escola ela era sempre alvo de piadinhas de mau-gosto de Jéssica e suas seguidoras, deu-lhes as costas e passou a brincar com Wolf, ignorando os dois. Notou pelo canto do olho que Edward parecia carrancudo enquanto se levantava e espanava a calça.

—Que foi, Flippy, que você está enfezado?— Ela indagou fingindo solidariedade. —Comeu abacaxi com casca ou arame farpado? — arreliou e mergulhou sorridente. Ele ignorou-a e ajudou Tânya a levantar-se.

Bella encheu-se de uma estranha mágoa ao ser ignorada. Ele sempre a respondia! Sufocou o sentimento com orgulho e voltou a dar braçadas contra a leve correnteza. Quando olhou para trás e viu o amigo subir a colina com o braço nos ombros de Tânya sentiu o mesmo frio no estômago do sábado passado, como se tivesse sendo traída. Bem, que ele se fosse. Ele era só seu amigo!

Depois de cansar-se no rio, concluiu que ainda tinha energia suficiente para gastar. Entregou Thor ao ajudante de estábulo, passou no celeiro para ver seus bichos e avistou o último carrinho construído por Edward no canto da parede. Teve uma ideia brilhante e empurrou-o para fora, com Wolf no seu encalço, mas estava muito crescida para brincar com Wolf puxando-a. Olhou o estábulo com o único cavalo e deu um sorriso arteiro ao decidir como iria se divertir. Cinco minutos depois tinha cordas longas amarradas na sela de Thor, presas de mau jeito.

Sentou no carrinho com Wolf no colo. Deu um comando com a boca e Thor iniciou o passeio. Ela riu adorando sua invenção. As rodas e pneus de carro de fórmula 1 descartados eram apropriadas para asfalto, não para grama e terra, mas enquanto estava em leve trote, não foi desconfortável. Ela açulou o cavalo a ir mais rápido. —Iup! — Notou que os filhos do caseiro saíram da casa ao vê-a gritar animada quando passou perto do casarão. Seguiu o rumo da entrada da propriedade com o carrinho trepidando nas pedras por falta de amortecimento.—Mais rápido, Thor! —Incentivou com um grito. Ouviu-se um assovio incisivo. Em alerta, o cachorro pulou do carrinho e correu rumo ao seu dono. —Ah, seu traidor! No melhor da emoção você foge! —ralhou brincalhona.

O cavalo correu e correu. Só quando passavam em frente à escuderia ela se atentou que não sabia como parar o cavalo, se precisasse parar de emergência. Thor seguiu o trajeto que costumava correr com Bella durante o dia, em direção ao portão da propriedade.

—Ah, não, Deus, por favor, não! —ela assustou-se ao ver a caminhonete do pai cruzar a entrada. Por que seu pai tinha que aparecer nas horas menos indicadas? Ele passou por ela com olhar de poucos amigos e seguiu o trajeto da mansão com Jéssica no banco do passageiro. O que ela estava fazendo com ele?

A brincadeira perdeu toda graça ao saber que quando chegasse em casa teria que ouvir suas repreensões. Será que se fechasse os olhos e desejasse com toda fé completaria logo dezoito anos? Droga. Ainda faltava mais de um ano para chegar! Mas quando chegasse, alçaria voo, consolou-se. Passaria de uma vida a outra, como vovó dizia que uma libélula faz. Não viveria mais presa, com as asas cortadas. Voaria distante. Romperia todos os laços com o lugar que só lhe trazia desgosto.

Durante a descida para casa, comunicou-se com Thor por meio de chiados e cochichos que seria um lento percurso. Não fez falta segurar os arreios. O cavalo conhecia os comandos devido à convivência de anos. Em frente ao estábulo, ela desceu do carrinho em parte animada pela diversão, mas em parte apreensiva. Seu pai foi encontrá-la.

—De quem é isso, Bella? —apontou inquisitivo o carrinho. Bella percebeu pelo canto do olho algumas pessoas aproximando-se. A família de caseiros. Jéssica sorriu de canto prevendo a fria de Bella.

—É meu —ela garantiu com queixo erguido ao ver Carlisle aproximar-se com a determinação de quem defenderia o filho. Ele sabia que fora Edward que construíra o carrinho cinco anos atrás.

—Quem construiu essa porcaria? —Charlie voltou a perguntar, desdenhando o carrinho. Ela ressentiu-se com seu descaso com algo que Edward se dedicou tanto. E não podia entregar o amigo, sabendo que o carrinho foi construído com peças tiradas da escuderia por ela sem que Charlie visse.

—Eu que fiz —assumiu todas as consequências. Edward deu um passo à frente para assumir e livrá-la da culpa, mas Carlisle o conteve. Charlie ajoelhou-se próximo ao pequeno carro parecido com um carro de cart e tocou o pneu.

—É merda —torceu os lábios com desgosto.

—Queime-o, tio Charlie. Assim a Bella não tem perigo de se machucar, caso caia —Jéssica ofereceu fingindo preocupação. Charlie observou o carrinho examinando a sugestão. Bella encarou a prima com enganosa calma, Jéssica arqueou a sobrancelha desafiando-a a enfrentá-la e sibilou baixinho: assassina.

—Por favor, pai, não queime —sufocou o orgulho e implorou, preocupada com o valor sentimental do carro para Edward. Uma vez sua mãe aconselhou-a que uma árvore que se dobrava ao vento sobrevivia à tempestade muito mais que a forte e rígida, que se quebrava na primeira oportunidade. Ele podia fazê-la humilhar-se, mas não quebraria seu espírito.

—Você esqueceu que estava de castigo, Bella? —reprovou-a com olhar crítico em suas roupas ainda molhadas, nos cabelos mogno bagunçados e desalinhados.

—Eu só estava com Thor, ninguém mais —justificou-se humilde.

Ele cruzou os braços, olhando-a com superioridade. Os espectadores dispersaram-se sutilmente.

—Eu não vou queimar a sucata, hoje. Mas não volte a usar. Eu queria saber como você pretendia pará-lo —questionou e não esperou resposta, caminhando pensativo para casa, acompanhado por Jéssica vestida num vestido florido da mãe de Bella. Bella olhou-a horrorizada. Como ela ousou invadir seu baú? —Só não entendo por que você gosta tanto de correr. Por que não consegue ficar quieta? —Charlie saiu resmungando.

Depois de um suspiro, Bella sentou-se cansada no carrinho, exausta com o exercício mental de enfrentar Charlie, agora com Jéssica. Excluiu a família de caseiros de ver sua desolação e caminhou para casa. Almoçou em silêncio, abstraindo-se dos comentários de Charlie dizendo que passou a manhã ensinando Jéssica a dirigir. Sim, ela era mais velha que Bella e já iria tirar a carta, mas por que tinha que ser Charlie a ensiná-la?

Subiu para o quarto com uma solidão estranha. Não. Não era ciúme de Charlie. Seu sentimento por ele já deixou de ser há muito tempo ciúme. Talvez ressentimento e decepção. Era sua única filha. Por que ele fazia questão de enfatizar que não a amava? Olhou pela sacada do seu quarto para casa dos caseiros. Jasper tocava na varanda, Rosalie, Tânya e Edward estavam em volta. Ela não podia ir lá, pena. Com Charlie em casa, evitaria complicações. Edward não parecia entediado ou aborrecido. Parecia bem com a garota ao lado. Esme juntou-se a eles e pareciam uma família feliz.

Bella encostou a cabeça de lado no vidro da varanda e observou-os com um indolente e triste sorriso no rosto. Os olhos de Edward encontraram-na. Ela ergueu a palma da mão no ar, acenando. Ele observou-a segundos, como se previsse que ela não estava legal. Ela fechou a porta da varanda, puxou a cortina e entrou. Daria um banho no Wolf depois jogaria no PlayStation sem Edward, já que ele tinha companhia. O que mais poderia fazer?

O pai de Bella saiu após o almoço. Seis da tarde ela vestiu um vestido vermelho de abotoar na frente, e a avó fez um penteado com uma trança escama de peixe. Como todos os domingos, Bella previa que indo à igreja Anglicana na cidade poderia encontrar Alice e Ângela, mas o pai não chegou em tempo de levá-la. Restou à Bella jantar e ir passear sozinha pela propriedade. Passou no celeiro, brincou com seus bichos e pensou que este horário do domingo Edward sempre estava lá, tocando gaita. Porém, ele não apareceu. Obviamente estava em casa pajeando Tânya, pensou com um esgar depreciativo.

O saltinho de sua sandália afundou na grama perto do lago artificial próximo ao celeiro, ela desequilibrou e caiu de joelhos. Levantou olhando para os lados e limpou as pedrinhas. Ela não se considerava uma menina desastrada. Pessoas normais se acidentam, não? Talvez fosse um pouquinho distraída, atrevida frente ao perigo, mas desastrada não.

Avistou a imponente construção da escuderia a menos de um quilômetro, sorveu o suave cheiro de verde e caminhou sem pretensões no rumo da escuderia. A construção de 50.000 metros quadrados era imponente por si só, devido ao seu tamanho. Passou direto pelo corredor do laboratório, setor de peças e caminhou para a silenciosa pista de testes próxima à oficina. Dois carros de modelos anteriores encontravam-se parados, no ponto de teste. Bella olhou-os com um pensamento rebelde impulsionando-a a desafiar seu pai mesmo que ele não estivesse ali. Avistou o cartão-chave na ignição do carro, entrou e apertou o botão de ligar o motor. Suspirou ao sentir a potência do motor. Mesmo sendo de modelo antigo, dirigi-lo não era tão simples quanto parecia. Se não fosse os anos de explicações furtivas que Sam dava sobre o funcionamento do painel de controle e suas disposições, ela não saberia dirigir. O controle era muito parecido com o do Playstation.

Pôs o capacete e passou a marcha. Verificou que o volume de combustível era suficiente e pisou no acelerador. O comprimento do circuito de teste era de 5,10km, mas na velocidade gradativa do carro em meio minuto ela o percorreu, em média baixa de 100km/h. Na segunda volta, ela se encontrava extasiada, com a adrenalina correndo nas veias. Queria poder abrir os braços e deixar os cabelos voarem ao vento.

Alcançou 150km/h e iria acelerar mais, porém ao iniciar a terceira volta encontrou um olhar assassino que mandou alertas pelo seu corpo. Diminuiu a velocidade gradativamente até completar a volta e chegar ao box. Tirou o capacete insegura e desceu com as pernas bambas com o misto de adrenalina e apreensão. Ele nunca a olhou daquele jeito.

—Droga, Bella, você quer se matar! —acusou e deu passos ameaçadores em direção a ela. —Não sabe o quanto isso é perigoso para quem não sabe! —ralhou sério.

—O quê que é? Eu não fiz nada para você tá zangado! E você não é meu pai para também brigar comigo! —defendeu-se indignada. Ele olhou-a da cabeça aos pés de um jeito intenso, aproximou-se e organizou o cabelo que se encontrava alvoroçado por causa do capacete. Ajeitou a gola de seu vestido com a expressão profunda.

—Não. Não sou seu pai, e isso é mais um motivo para te sacudir! —Segurou seus braços. —O que ele precisa fazer com você para que você pare de tentar chamar atenção? Cresça, Bella! —apertou-a impaciente. Até ele enfrentou sem questionar as injustiças de sua vida. Ser abandonado pela mãe e largado num lugar que não conhecia ninguém. Por que Bella não enfrentava as suas? As palavras dele foram como um tapa na cara dela. Ela tentou afastar-se magoada. Ele apertou-a ao seu peito. —Você não vai afetar só a ele. Vai enlouquecer a mim também —salientou desgostoso. Ela ergueu o queixo desafiadora e tentou afastar-se de novo.

—Por que eu vou te enlouquecer? Nunca fiz nada para ofender você ou a ele. Ou o simples fato de respirar afeta vocês? —contra-atacou orgulhosa, buscando forças em seu interior para despejar toda aquela frustração que vivia. Edward não podia atacá-la por ela cercá-lo. Se fosse o caso, abriria mão dessa amizade para não ser acusada de mendigar sua atenção.

—Você me enlouquece fazendo o que fez sábado passado, fazendo o que fez agora. Droga, Bella, estou cansado de ter que ficar vigiando você! —Olhou acusador para frente do vestido, seu hálito com cheiro de chocolate como se tivesse acabado de comer um. —Você nem se quer usa mais sutiã, Bella! Por quê?

—O que tem o fato de eu usar sutiã com ser vigiada?

Ele riu amargo.

—Você não sabe mesmo, não é, Bella?— olhou-a com mágoa, ergueu a mão e tocou-a no seio por cima do pano. Ela assustou-se com aquela invasão e recuou instintivamente. Seus olhos se encontraram e o tempo pareceu parar. Ela viu em perplexo estupor uma vulnerabilidade confusa nele. Ele baixou lentamente o rosto até ela, apoiou a outra mão em suas costas, encostou o nariz em sua bochecha e fechou os olhos. Não devia fazer, ele sabia. A habilidade de Bella em indiscipliná-lo já devia ser alerta suficiente para manter-se longe, mas ao invés disso, seus dedos tímidos e incertos sussurraram hipnóticos traços no seio.

Ela estava assombrada com a atitude dele, mas manteve-se passiva, observando-o enquanto sua respiração acelerava. Ele cheirou seu nariz, boca e encostou os lábios suavemente nos dela. Ela abriu bem os olhos surpresa e manteve-se ereta.

Ele deu um acanhado selinho, salpicou outro, tomando sem pedir. Ela o atraia, ele aceitou sem acovardar-se. E não conseguia mais deixar de enredar-se como inseto em suas atrativas teias. Chupou o lábio superior, observando-a, hesitante. Ela o olhava com olhos indolentes, como uma boneca de pano em seus braços. Ele testou-a lambendo-a com a língua, saboreou os lábios da garota que vira crescer e se rebelar contra arbitrariedades, e a convicção dele cresceu. Ninguém nunca conseguia domá-la e controlá-la, mas ele tinha o controle sobre ela agora.

Um fio de sanidade aconselhava-o a aferrar-se à força de vontade em fugir disso, mas reprimiu a sentença. Não queria ouvir repressões agora. Abriu a boca da adolescente com a língua e perdeu a batalha. Experimentou-a. Era tudo que ele imaginava que seria, calor, suavidade e incerteza. Ela estremeceu. Ele fechou os olhos e atacou-a, persuadindo-a a aceitá-lo. Maldição. Nada era o bastante. A fome ruiu dentro dele e esmagou a boca deliciosa totalmente descontrolado, com um som rouco saindo da garganta.Examinou o interior, vasculhou com a avidez de quem nunca tinha experimentado algo tão bom. Tinha fogo em seus lábios. Ela era cálida, naturalmente receptiva e envolvia-o com ardor. Queimava tudo. Seu temor e consciência.E era ao mesmo tempo tímida e doce. Apertou-a mais. Precisava mais.

Bella não estava preparada para a adrenalina e calor que seu corpo experimentou com o beijo inesperado. A experiência tomou-lhe o fôlego e deixou-a tensa. Uma paixão inusitada e desconcertante aos poucos cresceu no seu corpo. Sentir suas mãos grandes apertando-a nervosas no seio formigante foi uma emoção impactante e nova. Abriu a boca impotente e saboreou com a mente em branco essa chuva de sensações.

—Tem a boca linda, Bella. Nunca se esqueça disso— afastou-se só o tempo de elogiá-la, como se dizer aquilo fosse as últimas palavras de um fôlego de vida. —E seus olhos, cabelos, são deslumbrantes —continuou dizendo, chupando seu queixo como se estivesse fora de si, apenas alguém que ela não conhecia, não o reservado amigo. —Tem pernas maravilhosas... E seus seios não são pequenos. São lindos —afagou-a para enfatizar, a boca mordendo-a na mandíbula. —Nunca deixe aquela ratazana de rua convencê-la do contrário.

Bella olhou-o por segundos, achando-o irreconhecível, o coração acelerou, pendurou em seu pescoço e atacou-o, cobrindo seus lábios. Deixou de ser participante para se converter na agressora, sugando desajeitadamente sua língua, com a avidez de quem foi privada muito tempo de algo que muito queria. Era estranho beijá-lo, diferente, mas um diferente bom. Nada como aquela babação nojenta que Paul fez. Era seu primeiro beijo de verdade. Apagou-se a luz do seu cérebro. Era somente uma garota, com hormônios hiperativos despertos descobrindo o beijo com aferro.

Não o compreendia. Sequer sabia por que ele estava fazendo. E antes de desfiar o questionamento, sentiu-o recuar, ofegante como se tivesse corrido. Ela espalmou sua bochecha e exigiu que ele lhe desse mais. Um gemido de rendição brotou no peito dele, ele abriu dois botões de seu vestido e seus dedos tocaram a carne do seio com mãos trêmulas e desajeitadas, beliscando e apertando entre os dedos, movendo para atormentar o mamilo. Bella soluçou, dócil, descobrindo que seus seios lhe distribuíam um prazer inexplicável. Sentiu, em dúvida e curiosa, que algo duro empurrava sua pélvis. Registrou o motivo e apertou o quadril a ele por instinto. Estremeceu de novo. Cada descoberta era fascinante e misteriosa. Rompia a adolescência para deixar surgir os desejos de uma mulher. E adorou descobrir seus segredos. Adorou os sons que ele fazia, os grunhidos baixos e os ruídos de sua respiração.

Ele tomou fôlego. Ela empurrou-o para a parede. Queria explorar tudo dessa descoberta. Adorou o gosto adocicado de chocolate em sua boca, o cheiro familiar de sua pele e respiração. O corpo estava aceso e exigente por algo que sempre esteve lá. A conexão das bocas era fácil, se compreendiam. Era confortável e seguro, mas quente e poderoso, com estrelas e explosões. Sabiam beijar-se como por instinto, e ela aproveitou isso. Saboreou e empurrou a língua entre seus dentes. Ele chupou, acariciou e um tempo imedível se passou. O corpo dele tornou-se mais tenso e muito duro. Ela sentiu uma inquietação nas partes inferiores e aproximou-se mais dele. Esfregou-se deliberadamente nele. A calça jeans não o protegia do magnetismo que descobria entre os dois. Pareciam faíscas. O gemido que ele deu em sua boca denunciou sua falta de controle. Ele retrocedeu de repente e afastou-a, com olhar condenador e amargo. Insatisfeita, ela quis avançar novamente.

—Não, Bella— negou atordoado. Ela era Isabella Swan, filha de Charlie. Ele não devia envolver-se com ela, se não seus sentimentos ficariam expostos e planos ameaçados. Não. Bella não passaria das bordas.

Ela beijou-o no queixo, desceu por pescoço, beijos mordidos e molhados. Ele tinha um sabor delicioso. Sabor dele, seu tesouro. E ela queria mordê-lo todo, sem parar.

—Não, Bella. Isso foi um erro! Para! —afastou-a mais brusco quando ela insistiu em beijá-lo. Ele sentia um terror paralisante por não ter nenhuma defesa contra ela. —Eu não devia ter te tocado. Desculpe. Sinto muito — pediu cauteloso, tentando fechar o vestido.

Ela parou, incerta e confusa com o que aconteceu. Ele afastou-a desconfortável, com um pedido mudo de esqueça e cale no olhar, num silêncio esmagador e deu um passo ao lado precavido contra ela.

—Desculpe. Eu não devia ter... — apressou-se em partir, assombrado com as tempestuosas emoções em seu corpo e interior. Criticou-se. Ele, que sempre a viu como a amiga indisciplinada que se jogava no rio em época de fortes correntezas só para desafiá-lo a salvá-lo, de uns tempos para cá via que ela saia da lava e se convertia numa beleza exótica e atordoante. Convertia-se numa mulher, e a cada dia o assustava o modo como a via, embora o que o assombrasse mesmo fosse o sentimento que lhe atormentava. Desde que se descobriu atraído, precaveu-se que deveria reprimir essa atração em favor da lógica. Se não, não pararia de querê-la. E não podia tê-la.

Ainda recordava o dia que registrou que o que sentia por Bella era diferente do que ela sentia por ele. A principio, julgou ser uma emoção puramente física. Depois, vê-la falando sobre meninos, saber que ela queria receber a lição sobre meninos, mexeu com ele. Sempre se sentiu debilitado com sua ternura com ele. Ela foi um sedativo por anos contra a vida solitária. Mas com atração não podia lidar. Ela não era para ele. Por si só, ela representava problemas... Agora sabia que ela era a debilidade do seu espírito e corpo. Estava sob sua pele. E não podia aceitar sem lutar.

Ela observou-o sem ação sumir em direção a casa. O compreendia menos agora. E também sentiu-se vazia, ferida, vagamente consciente de um formigamento estranho no baixo ventre. Olhou tensa para os lados e sentiu como se estivesse sendo observada. Olhou em direção à oficina e um vulto escondeu-se entre as luzes apagadas. Um frio percorreu sua espinha. Seu coração ainda batia forte cheio de emoções confusas após o beijo inesperado. O escuro lhe impediu de verificar quem era o intruso, mas temeu que alguém os estivesse bisbilhotando. Balançou a cabeça atordoada e caminhou pensativa para casa.

O que aconteceu entre eles?

Continua...

Notas finais
Bom, eu sei que foi uma surpresa esse beijo tão rápido, mas vcs sabem que eu não considero o beijo ou o sexo como auge do livro. Não gosto de muito de drama sobre o beijo, porque tenho uma história longa para contar. Quem lê as outras estórias sabem disso. Eu gosto muito de pegas, de beijos, adoro escrever pegações, mas não ponho muito drama em cima. Não gosto de empata beijos nem empata *fodas*, desculpe a expressão. Só expliquei para que vcs não fiquem muito surpresas com o desenrolar.Muitos beijos e obrigada por ler.Estão lembradas que minha fic Flor de Lótus virou livro? Caso queiram conhecer, é só entrar em contato comigo; bialopes30@gmail.comBeijos e obrigada por lerBjks