Capítulo 7- Perdas

Uma história se escreve com muito mais que uma perda

Ela ouviu o som da caminhonete e deixou sua cama vestida numa camisola bege de seda e renda. Atravessou o corredor, ouviu barulhos na cozinha do térreo, abriu a porta do quarto dele e deitou-se na enorme cama de casal para esperá-lo. Ele entrou minutos depois, os reflexos alterados pela bebida, tirou as roupas e deitou nu, sem vê-la. Ela aproveitou o instante de vulnerabilidade e o acariciou na virilha.

—Por Deus, menina, o que faz aqui? —Espantou-se ao registrá-la.

—Eu não consigo ficar longe de você —declarou com olhos apaixonados. —Eu te amo.

Ele balançou, instável. Não podia mais resisti-la. Há meses ela o seduzia, e ele negava-se por achar inviável essa atração. No entanto, a coragem que lhe faltava quando estava lúcido o levou agora a subir cautelosamente sobre ela e desfazer lentamente da camisola.

—Eu não devia...

Ela o calou-o com um beijo. Ele tocou-o com mãos experientes e delicadas. Foi tenro e amoroso como um homem sedento. Ela fingiu ser ingênua e inocente, agindo como a virgem delicada e dócil que ele esperava. Ao fim, ele gozou dentro dela, com orgulho masculino por tê-la desflorado, tal como ela esperava.

Ele agora lhe daria tudo, ela pensou enojada e com ânsias de vômito ao tê-lo caído sobre ela. Ela agora seria dona de tudo aquilo. Não seria mais vítima de caridade. Não precisaria mais ter uma vida regrada de luxos, quando o bastardo retinha o que não lhe pertencia.

***

Por toda madrugada, Bella sentiu a presença masculina às suas costas e perfume familiar. Curvou-se e aconchegou-se mais nele. Ouviu um resmungo e seus cabelos foram afastados da nuca para beijos molhados serem plantados, ao tempo que uma mão possessiva cobria seu peito como se ali fosse seu lugar. Ela sorriu sonolenta e voltou a cair em sono profundo.

Quando acordou pela manhã, ele já não estava no quarto. Bella tomou um banho, vestiu uma roupa de garota, porque queria estar bonita, passou um gloss e protetor solar, e preparou-se com determinação militar para encontrar Jéssica no decorrer do dia e enfrentar o que viesse a acontecer. Fez o lanche da manhã sozinha estranhando o silêncio quando a casa estava cheia de garotas. Comeu vagarosamente sob o olhar atento do mordomo.

Na varanda da casa dos caseiros, quatro garotas sentavam-se em volta de uma mesa de madeira rústica com Edward num extremo e Jasper no outro. O rapaz louro tocava e cantava músicas de James Blunt alternando com modões da região. Edward alimentou mais cedo os bichos de Bella, brincou com Wolf e estava matando tempo ouvindo o irmão sem tirar os olhos da mansão para ver se Bella acordava.

—Desculpe por ontem— Alice sibilou baixinho ao seu lado, tirando-o da distração. Ângela percebeu o pedido de desculpas da amiga e aproveitou a deixa para também desculpar-se.

—Eu também, Edward.

—Qual o motivo dos cochichos aí? — Jasper brincou, intrometido. —Não roube a cena, Edward. Eu sou o cantor —ralhou zombeteiro. As meninas riram. Alice se explicou.

—É que estamos pedindo desculpas por uma coisa que fizemos —esclareceu atenciosa.

Edward adiantou-se a fim de não desenvolver e espalhar o assunto.

—Para mim, está tranquilo.— concedeu Edward. —Assunto encerrado —adicionou sério.

—Encerrado nada! Quero saber —reclamou Jasper. —Não me deixem de fora —exigiu e pôs o violão de lado fingindo greve. Rosalie explicou sem jeito.

—Ontem a Jéssica fez uma coisa muito chata com Edward.

—O que? —Abriu bem os olhos, curioso.

Tânya propôs-se a falar. —Não julgue a Jéssica. Ela é super legal, animada, alto-astral— intercedeu servil.

—Eu só nunca entendi essa implicância dela com a prima dela —acentuou Rosalie, apontando para a mansão Swan. —Normalmente as doidices da Jéssica são divertidas e normais. Aula de sexo, apostas para ficar com um garoto. Normal mesmo... —Olhou pesarosa para Edward. —Mas ontem ela saiu dos limites.

—O que ela fez? —Jasper questionou agora sério e protetor com o irmão.

Foi Ângela quem explicou:

—Ela tinha a intenção de usar Edward como experiência real numa aula de felação— relatou séria por baixo dos óculos retrô.

Jasper abriu a boca chocado, horrorizado.

—O que?

—Isso mesmo —Alice afirmou indignada. —Ela o obrigou a subir em cima de uma mesa de centro, tirou a roupa dele e iria usá-lo lá, para todas verem.

—E vocês? O que iria fazer? —questionou Jasper, incrédulo. —Todas iriam participar da aula, inclusive a Bella iria tirar uma casquinha? —Apontou para mansão revoltado.

—Sim— Alice assentiu confusa com sua expressão.

Jasper levantou-se, aproximou-se de Edward e deu-lhe um tapa sonoro na nuca.

—Seu viado sortudo do caralho! —praguejou e balançou a cabeça, censurando-o. —Por que você não me chamou para a festinha lá também, seu egoísta? —reclamou puto da vida.

—Para, porra! —o mais novo esfregou a nuca.

— Aquela mulher lá do bordel ficou perguntando por você enquanto você estava aqui só na fuleiragem— acusou inconformado. Edward fechou a cara e balançou a cabeça, censurando-o com um tsc tsc.

Alice saiu em sua defesa.

—Você não está entendendo, Jasper— repreendeu-o e tocou o braço de Edward para se solidarizar. —Ele foi forçado. Foi contra a vontade. A Jéssica o estava chantageando com algo que prejudicaria sua família.

—Mas o que seria? —questionou desentendido e calou-se ao registrar a presença silenciosa de Bella encostada a uma pilastra. Estendeu a mão e chamou-a. —Olá, cabelo de fogo! Junte-se a nós. O que traz você aqui no submundo dos empregados? — Ofereceu o banco de madeira ao lado do seu para que ela sentasse.

Bella tinha saído a pouco da área de serviço e hesitou incerta entre ir lá ou não. Agora não precisava mais disfarçar de suas colegas a amizade com os filhos do caseiro, além disso, seu pai não estava em casa, já que a caminhonete não estava. E pelo visto Jéssica também não estava. Só Rosalie, Tânya, Alice e Ângela estavam na varanda dos caseiros.

—Vi você tocar e vim ver— justificou-se sem jeito e olhou para Edward. Ele estava entre Alice e Ângela. Não soube como agir com ele, já que não tinham conversado sobre nada. Sentou-se ao lado de Jasper. Não cumprimentou às demais garotas. Foi uma reação reflexa. Encarava ainda com ressentida condenação a atitude delas na noite anterior ao se isentarem de se intrometer para não ter problemas com Jéssica. Covardes. Agora estavam cercando-o como se nada tivesse acontecido. Hienas traidoras!

—Milagre você ter vindo —Jasper comentou receptivo e pegou sua mão. —Elas estavam justo contando que ontem a Jéssica quis usar Edward de cobaia. Você estava junto, né?

—Sim— assentiu e olhou de viés para Edward. Ele observava-a atento, também incerto de como agir.

—Bem, só quero alertar que pegaram o homem errado— Jasper discursou. — Tinham que ter pego eu. Quê que a mulherada vê nesse cara? —Apontou divertido o irmão— Mal-humorado, contido, apegado a bichos. As mulheres têm que gostar de caras descolados como eu, artistas, gentleman, mas ninguém informou isso a elas. Olha só... —Apontou-o com drama zombador. —Duas gatas em volta dele e eu aqui com minha irmã e você, cabelo de fogo: a filha do chefe!

Todas riram de seu discurso. Bella riu sem jeito, cansada de ser isolada e protegida como se nem fosse uma normal menina de sua idade. Ainda tratavam-na como fora de alcance.

—Não sou intocável, Jasper. Os meninos que não me dão bola— entrou na brincadeira e piscou a ele com olhar de paquera. Ele pôs a mão no coração e fez drama como se tivesse sido atingido por uma flecha.

—Rá, quando algum dá, é só por pena —Tânya atacou-a petulante. —O que eles vão ver em você, perna longa magricela? Mulher tem que se ter carne para pegar. — Ilustrou apalpando a própria coxa. Bella retesou inicialmente com o ataque, mas recuperou-se rápido e ergueu o queixo.

—Cuidado com a inveja, Tânya. Ela incha, engorda, dá efeito sanfona e você pode ficar mais flácida do que já é! —Improvisou com ar superior. Uma rodada de gargalhadas aconteceu. Tânya bufou enfurecida. Edward sorriu de canto admirando sua nova coragem.

—Foi a Bella que livrou seu irmão ontem das brincadeiras de Jéssica, Jasper —Alice voltou a dizer, forçando amizade com Jasper. Ele olhou para Bella surpreso que ela tivesse se exposto.

—E o que ela fez? —perguntou a Alice.

Tânya intrometeu-se novamente.

—Ela o salvou com uma capa e espada. A super, super, super grila! —zombou teatral. Bella fechou os punhos encolerizada.

—Não se esforce muito para as piadas, Tânya. Com sua inteligência de ostra, seu cérebro pode explodir. Bum! — gesticulou uma explosão abrindo as mãos, dramática.

—Meu Deus, você defendeu a honra dele, Bella? —Jasper ofegou divertido, disposto a desviar a discussão. —Irmão, essa garota é um terror para os homens. Você acha que existe outras dela? —Abraçou Bella pelos ombros. —Afaste ela de mim. Não quero uma amiga dessas para acabar com meu barato— gracejou e ficou fingidamente sério. —É sério, cabelo de fogo, se você me ver numa dessas, por favor, não me salve! —gracejou com as mãos unidas numa prece. —Só se for para me usar também —adicionou malicioso.

Bella olhou vagamente à prima Alice, que cochichou algo para Edward com familiaridade e mantinha a mão no seu braço. Ele não a repeliu nem se manteve reservado. Pelo contrário, ele a olhou cálido, como vinha fazendo há alguns dias. Bem, ele era adolescente e gostava de meninas, o compreendia. Além do que, nada ficou claro entre eles. No auge da adolescência e beleza física, Edward devia querer manter um cercadinho de meninas ao seu dispor. Bella lembrava que na noite anterior Tânya revelou ter feito oral nele, também teve a vez que Bella o viu com a prostituta, além disso, ele tinha uma namorada na escola. O que sobrava a Bella, afinal? Era só uma ficante. Nada mais.

Ela deu um sorriso forçado após a constatação e esfregou a mão úmida a calça cargo verde.

—Pode deixar, Jasper, vou me lembrar disso numa próxima vez— Deu um tapa no ombro dele amistosa. —Qual o homem não iria querer ser estudado por meia dúzia de garotas? —comentou mordaz. — Numa próxima, irei me juntar a elas e gritar: viva os homens bonitos!, ao invés de proteger sua duvidosa virtude. —Levantou-se. —Tô indo, gente. Até mais. Vamos comigo, Wolf. —Estendeu a mão chamando-o. Ele estava deitado na frente dos pés do dono. Ela não deu um novo olhar a Edward, Wolf levantou-se e a seguiu rumo do celeiro. Os colegas observaram quando ela pegou o patins no celeiro e caminhou em direção à escuderia.

—Ela agora vai usar o cachorro para puxá-la de patins na pista de corrida da escuderia —contou Jasper com um rolar de olhos. Admirava-a por sua capacidade de se divertir só. Solitária, mas resolvida, sem pressionar ninguém.

—Até mais— ouviram Edward despedir-se e descer com mãos nos bolsos o rumo do rio.

Bella deu velozes voltas na pista puxada por Wolf com uma corda amarrada na correia de peitoral do cachorro. Depois correu de patins pela pista com ele ao seu lado, exercitando-se. Queria cansar-se e parar de pensar.

Quando esteve exausta e incômoda com o sol, tirou o patins e seguiu para o celeiro para passar um tempo com seus bichos. Soltou-os, tirou uma revista do bolso e deitou no feno. A rã pulou indisciplinada para a beira do lago artificial. O Jabuti fez um caminho lento e tortuoso para fora. A galinha ciscou e acurrucou-se debaixo do braço de Bella, o bico em sua axila fazendo cócegas.

—Você vai cheirar justo aí depois de eu dar tantas voltas de patins no sol— zombou e fez um carinho na cabeça da galinha. Wolf deitou-se do outro lado. Ela abriu a revista e folheou-a curiosa.

—Por que está disfarçada de alface? —a voz zombeteira de Edward a tirou da distração.

Ela olhou para si, observando a regata de renda verde limão e calça cargo verde claro.

—Não é de alface, é de moita— gracejou de volta, receptiva. Ele aproximou-se e sentou-se ao seu lado, entre ela e o cachorro.

—O que você está lendo?

—Revistas de hentai. Jéssica trouxe ontem à noite e fiquei curiosa— citou neutra. Ele pegou a revista e observou bem os desenhos.

—É vulgar.

—Estou gostando — gracejou e tomou da mão dele para continuar a ler, relaxada. —Dá uns friozinhos na barriga —contou a ele. —Tô meio que apaixonada por um japonesinho desses de papel —adicionou brincalhona e voltou a ler, cômoda. Ele observou-a sentindo-se incomodado. Ela estava normal, bem-humorada e acessível, mas este normal tinha certo distanciamento. Esperou que hoje ela fosse agarrar-se nele como um inoportuno carrapicho, mas ela foi discreta e indiferente mais cedo. Pensou que fosse uma atitude para disfarçar, mas agora não compreendia.

—Está me trocando por um cara de papel? —fingiu desgosto, inclinou-se e beijou suavemente o ombro dela.

—Não me beije —ralhou carinhosa. —Estou fedendo a sol, suor e galinha molhada.

Ele desviou a boca para a curva aveludada do pescoço, experimentando.

—Está cheirosa —tranquilizou-a bajulador. —Temperadinha e assada no sol. —Ambos riram. Ela deixou a revista de lado e virou-se para ele, deixando a galinha manhosa deitada.

—Estou? —questionou agradada.

—Sim. Tem cheiro de xampu e protetor — completou com o nariz mergulhado em seu cabelo solto.

—Tive que tomar banho. Pensei que tinha feito pipi na roupa quando acordei— contou natural. —Só faltava essa! Dormir com um garoto e molhar ele — zombou divertida. —Depois vi que não. Só estava úmida na calcinha.

Ele arregalou os olhos em dúvida, seguido da constatação veio o choque e apertou os lábios para não rir. Olhou-a como se ela fosse incompreensível, um bichinho de laboratório.

—E você não sabe por quê? —quis saber desconfiado.

—Não. Parecia clara de ovo. Era nojenta —franziu o nariz, com horror.

Ele adotou uma postura solene.

—Os meninos falam sobre isso. Estou numa fase em que eles falam sobre isso —noticiou com fingido desgosto. Ela suspeitou desconfiada. —Você ficou assim porque dormiu comigo —revelou a ela.

Ela olhou-o incrédula.

—Nada a ver— negou ofendida com sua presunção.

—Sim, Bella. Reação natural do organismo —garantiu indisposto a se estender. Não por timidez, mas porque garotos não falavam disso abertamente com meninas —Meninos ficam duros, meninas ficam úmidas. Isso é biologia.

Ela ficou repentinamente vermelha, envergonhada por ter deixado algo tão básico passar. Droga. Que fácil era contar a ele coisas sem preocupar-se se eram exclusividade de meninas. Não tinha culpa, afinal. Isso era mais uma descoberta adolescente. Tentou soar mais experiente e segura sobre um assunto tão natural.

—Sim, agora eu sei. Mulheres são como fêmeas no cio— relatou animada como se fosse uma grande descoberta. Ele abriu a boca horrorizado. Ela era chocante.

—Não, Bella. Não assim tão pejorativo...

—É sim. Veja o Wolf. —Apontou o cachorro. — As cadelas que estão em época fértil o atraem. E com mulher é quase a mesma coisa. É como se meu corpo estivesse preparando para o homem —contou bancando a adulta descolada. —Wolf só vai atrás de cadelas que estão nesse estágio, embora a parte de cheirar o rabo é um tanto anti-romântica e desagradável de ver —citou com uma cara cômica. —Seu cachorro é um sedutor muito mal-educado pro meu gosto. Wolf nem bajula nem corteja. O negócio dele é olhar com ar de superioridade, se aproximar com pouca precaução e montar em cima pra fazer a rápida união clandestina. E as cadelas sem amor próprio também nem lutam por um tratamento melhor. Depois ele sai todo altivo, com cara de ‘sou bom’ e num dá nem ‘tchau, boa semana’. A cachorra se encolhe e vai suspirar enquanto espera mais uma ninhada de bastardos — dramatizou trágica.

Ele observou-a em silêncio fascinado. Ela era a garota mais desmiolada que conhecia. Não podia ficar solta por aí. A escola prestigiosa que incitava o esnobismo não deu a ela malícia suficiente, ao contrário das outras. Enquanto tentava se mostrar descolada, tinha total ignorância em questões práticas de vida.

—Tudo bem? —Encostou-se mais nele, o nariz em sua bochecha.

—Tudo —assentiu e deu-lhe um selinho. —Você não é normal. Meninas de fazendas geralmente são tímidas, recatadas, são florzinhas. Elas não falam palavrões, nem coisas desse tipo.

—E você gosta de meninas assim?

Ele pensou sobre isso, inclinou e deu um selinho de volta nela.

—Gosto de meninas —salientou machista, segurou uma mecha de seu cabelo seco ao vento e cheirou. —Quer dizer então que você gosta de cortejo? —plantou beijinhos ao lados de sua boca.

—Sim —assentiu aberta.

—Então vamos continuar, er, com isso? —Apontou para os dois.

—Acho que sim. O que você acha?

—É meio precipitado.

—Ninguém precisa saber — defendeu. Seria por ela, não por ele. Ela queria ter alguém, ainda que não fosse a única.

—Não é seguro.

—Por medo do meu pai descobrir?

—Por tudo. São tantas coisas —deitou no feno, acomodou-a no braço e segurou-a na nuca para trazê-la mais perto dele.

—Então você não quer? —questionou insegura, mas não queria pressioná-lo. Agora que o calor da emoção e a adrenalina tinham passado, pensar com clareza era mais fácil. Sob a luz da razão e não da emoção, temia as medidas conseqüentes de Charlie. Ele não agiria como um pai normal com conselhos e repreensões. Ele seria violento e vingativo. —Podemos fugir. —Ela brincou, mas sem muita graça. Ele riu e acariciou-a no braço, subindo e descendo os dedos.

—E o quê? O que faríamos? —Entrou na brincadeira.

Ela animou-se por ele ter encontrado graça num momento tão incerto e tentou tornar o assunto divertido.

—Você poderia trabalhar de mecânico— sugeriu animada.

—Um mecânico que até hoje só limpa peças —lamentou realista.

—Mas você tem muito talento. Sempre foi o melhor dos aprendizes. Sabe trabalhar muito bem em motores de carro comuns, segundo Jasper— adulou-o com beijinhos no queixo. —Eu, por outro lado, não sou muito talentosa, mas posso ser manicure —Segurou a mão dele conferindo que estavam precisando de cuidados —Também sei fazer unhas de galinhas. —Riu, virou-se um pouco e segurou carinhosamente o pé com unhas pintadas de Anastácia.

—Tenho certeza que você vai achar mais pessoas por aí que tenham galinhas como bichinho de estimação —zombou.

—Oxe, por que a crítica? Por que é fácil aceitar um pintinho de estimação e não uma elegante e honrada galinha, como Ana? Afinal, meu pintinho cresceu e virou uma galinha.

—Ninguém vai querer ter o trabalho de transformar uma galinha numa extravagante perua que um dia se vai comer.

Bella abriu a boca horrorizada e lhe deu uns cutucões na barriga.

—Como alguém pode ser tão mau a ponto de comer um bicho de estimação! Não se come cachorros. Nem gatos ou cavalos. Também não se deve comer galinhas de estimação, coelhos de estimação ou porquinhos. Que falta de respeito e consideração com dona Ana!

—Bem, espero que você não resolva ter uma vaca como bichinho de estimação. Devem ter sido pessoas como você que tornaram a vaca sagrada na Índia.

—Bah, talvez dê dinheiro inovar. —Piscou zombeteira. —É um super negócio. Manicure de vacas— defendeu divertida. —Além de manicure, também sei banhar e secar cachorros. Poderíamos ter um pet shop!

Ele riu comovido, inclinou-se sobre ela e roubou um e outro beijo. Ela riu e mordiscou seu lábio superior.

—Consegue imaginar nossa vida? Você chegando todo sujo, com cheiro de graxa e faminto, e eu correndo para cozinha para fazer comida toda fedendo a pets? —ela gracejou e acariciou seu cabelo.

—Não consigo, porque você não sabe cozinhar —brincou drasticamente e pôs uma perna sobre ela, ainda brincando com sua boca numa deliciosa intimidade.

—Mas sei fazer biscoitos de aveia.

—Rá, tão duros que talvez pudéssemos construir uma casa e fazer a parede com os biscoitos que você faz.

—Não critique meus biscoitos —ralhou dramática. —Não sei cozinhar, mas sei comer, então vamos inverter as coisas— propôs. — Você cozinha, eu só como.

—Boa ideia— subiu sobre ela para encaixar melhor sua boca. Ela moveu-se e o recepcionou, segurando sua nuca. O beijo foi delicado inicialmente, mas cresceu gradualmente à medida que ele enfiava a língua em sua boca. Ela pôs a mão dentro da camiseta dele, acariciou suas costas e puxou-o contra ela, tentando testar as diversas formas que sua boca e seu corpo se encaixavam, os beijos profundos e estonteantes ficando mais e mais íntimos.

—E já que descobrimos que adoramos manter as mãos e boca um no outro, à noite —afastou-se para dizer, sedutora. —Vou te dar um banho para tirar as graxas de você, depois vamos fazer amor a noite toda —Acariciou os músculos na nádega sobre a calça jeans comodamente, como se fossem o lugar exato de suas mãos. Ele estremeceu impressionado com sua reação física rápida a ela. Essa parte fogosa e desinibida dela o encantava.

—Da onde você tirou tanta inspiração?

—De filmes e livros antigos.

Uma nuvem sombreou os olhos cinzas dele, mostrando tristeza repentina, como se ele se lembrasse de algum inconveniente.

—Se fôssemos mais velhos, talvez —Acariciou com as costas das mãos a bochecha dela pesaroso. —Eu adoraria viver com uma pessoa tão original e positiva como você —declarou simplesmente. —Mas somos muito novos. Eu queria enfrentá-lo, Bella, juro que queria, mas me sinto impotente. Não vai dar nada enfrentá-lo agora! —evidenciou exasperado, e ela teve a impressão que ele não falava só dos dois.—Teremos que viver uma coisa de cada vez. Estudá-lo. Montar estratégias.

Ela assentiu confusa.

—Tudo bem. Eu só estava brincando. Não quero te pressionar a nada —comentou para tranqüilizá-lo. Não queria que as coisas ficassem tão pesadas. Aliás, que fossem mais pesadas do que já era.

Wolf levantou a cabeça das patas e observou-os. Ela estendeu a mão e acariciou o cão. Edward apoiou a cabeça com o cotovelo no chão, observando-a ainda com parte de seu corpo sobre ela. Ela gostou da posição. Gostava de contato físico. Gostava de ter alguém.

—Sua namorada brigou ao me ver tentar te beijar? —questionou referindo-se ao dia que foi à escola dele e foram surpreendidos pela garota morena.

—Não. Eu disse a ela que você era filha do meu chefe— justificou como óbvio.

—Hmmm, a perseguidora que vive te assediando —completou sorridente.

—Como você sabe? —gracejou e mordiscou-a no pescoço. —Eu não disse isso, mas Jasper disse aos outros que eu era seu babá e que ele não seria só teu amigo se você o perseguisse como a mim.

—Ôh, eu não sabia! —Abriu a boca dramática. —Agora tenho mais um para assediar. Meu cercadinho está dando cria! —zombou com uma piscadela presunçosa. Ele riu, mas a diversão foi contida com um beijo possessivo. Ela gostava disso, da nova intimidade e desse lado divertido e aberto dele. A língua de Edward ocupou o interior feminino, ela sugou deliciada com o calor que irradiava em seu corpo e formigava na barriga.

Ele deixou sua boca e desceu pelo queixo, garganta. Ela gemeu e esticou-se oferecida. Ele desceu os lábios ao seu decote, afastou a alça e beijou-a no seio, vagarosamente. Era bom este acesso e intimidade. Ela acariciou seu cabelo incentivando-o. Ele rodeou a língua na ponta rosada e sugou o bico, como se fosse o dono. Ouviram um rosnado reprovador e olharam juntos para o lado. Os olhos inteligentes de Wolf os censurava. Bella riu alto. Edward deitou a cabeça em seu tronco.

—Você pode e nós não, é, Wolf? — brincou Bella e dividiu uma mão na nuca de Edward e outra na cabeça de Wolf. —Dizem que nossos animais começam a se parecer com nós —comentou com uma sensação gostosa de felicidade. —Wolf parece com você. O olhar, a expressão observadora e cautelosa, o formato dos olhos, a cor cinza nuvem, além da amizade fiel— enumerou.

Edward ponderou observando o cão.

—Não fisicamente, mas no comportamento pode ser que tenha alguma semelhança.

—Com qual dos meus bichos você acha que eu me pareço? —Ela questionou animada.

—Entre a galinha ou a perereca? — destacou provocador.

—É rã, não perereca! —corrigiu-o sorridente. Ele olhou sério para a galinha.

—Bem, você tem pé de galinha, pernas de rã e olhos do jabuti —arreliou zombeteiro.

—Legal. Se você adicionasse aí pele de lagarta, um rabo de lagartixa e me colocasse no caldeirão, depois de ferver iria sair uma draga cuspindo fogo! —riu divertida. Ele mordiscou seu ombro.

—Já disse que você é linda. E não se parece com nenhum de seus bichos. Seus pés são lindos, suas pernas, seus olhos.

—O Jean vive repetindo isso. Acho que vou acabar acreditando —gracejou, afastou-se um pouco e puxou a perna. —Tem certeza que você acha meus pés lindos? —Puxou a calça folgada e mostrou o pé a ele. —Eu sempre quis ter pés 35 como os da minha mãe e acho pouco romântico pés tamanho 38, embora tenha muita sensibilidade neles.

—Você precisa se observar mais um pouquinho, Bella— repreendeu, puxou o joelho dela e posicionou a perna dela em volta de seu quadril. —Você é bonita. É a mais bonita entre todas as suas colegas e as meninas aqui de Hethel. Não estou mentindo para você. Se eu fosse te comparar a algum bicho, seria às suas levianas borboletas, que você prende, quer cuidar, mas que elas voam na primeira oportunidade. São desprendidas e inquietas. Individuais e independentes. Parecem ser fracas, mas são fortes, sempre se transformando sem ajuda de ninguém.

Ela olhou-o deslumbrada com a comparação. Sabia que ele a considerava e a queria bem. E essa nova abertura e cumplicidade era uma novidade que amava nessa relação. Ainda que não fossem para frente como casal, era bom saber que seu amigo a admirava e se importava com ela.

—Obrigada por dizer— Abraçou-o. Ouviram um barulho de caminhonete chegar dando várias buzinas animadas e ficaram alertas.

—Meu pai.

—Jéssica.

Disseram ao mesmo tempo.

Os dois sentaram-se de uma vez. Bella teve a sensação do sangue fugir das veias, os dois, tensos e preocupados.

—Ela devia estar fazendo aula de volante com meu pai— Bella suspeitou. —E agora? Tô preocupada.

Ele abraçou-a pelos ombros também apreensivo. O que Jéssica tivesse feito ou fizesse decidiria seus passos. —Fica tranquila, carrapicho. Ele não vai fazer mal a você, pode ter certeza— assegurou entre dentes. —Se ele te tocar... —ameaçou.

Bella o interrompeu alarmada.

—Não quero que você se intrometa.

Ele abraçou-a mais e beijou-a no rosto.

—Eu estou meio perdido, Bella. Não sei o que será da família de Carlisle e estou preocupado também —confessou sincero. —Mas fique certa de que ele não vai tocar em você— garantiu. Ela resolveu ignorar a ameaça no seu tom e sorveu seu cheiro para acalmar-se. Rosalie entrou apressada no celeiro e parou surpresa ao vê-los abraçados e trocando carinho. Aproximou-se cautelosa.

—Jéssica nos convidou para almoçar na mansão. Disse que está comemorando algo especial.

—E? —Edward questionou hostil. Bella não tentou afastar-se ou disfarçar o que Rosalie viu. Até então, a bela loura sabia da amizade, não do romance entre os dois. Rosalie estudou-os concluindo a obviedade da situação.

—Ela convidou nossa família.

—Eu não vou— negou ríspido.

A loura com corpão e cabelos longos cacheados aproximou-se mais do rapaz e ajoelhou em sua frente.

— Se você se importa com Bella, seria bom ir— aconselhou neutra.

—Isso não é da sua conta.

—Passou a ser desde que meu irmão e ela estão juntos. E conhecendo Jéssica como conheço, ela deve estar aprontando alguma.

Bella segurou o queixo dele e o fez olhar para ela.

—Você não precisa ir. Já estou acostumada a Jéssica. Será muito mais fácil sem você.

—Acontece que minha família vai estar lá —relutou desgostoso.

—Então vá por sua família, por mim não. Não quero te preocupar nem ser um peso. —Olhou para Rosalie. —Que horas será o almoço —olhou no relógio. 10h30.

—Ela marcou uma da tarde— Rosalie avisou.

—Ah, então vou para casa.

Antes que ela se levantasse, Edward a puxou pela mão e deu-lhe um beijo forte na boca, ignorando Rosalie. O beijo expressava temor, dúvida e também uma promessa de que estariam um para o outro. Quando terminaram, Rosalie tinha os olhos arregalados, surpresa e impressionada, olhando-os como se fossem incompreensíveis.

—Até mais, tesouro —Bella despediu-se calorosa.

Bella entrou em seu quarto pela varanda e ficou fazendo tarefas de casa até que ouviu o movimento de risos e conversas na sala de jantar. Ela demorou até que o mordomo veio chamá-la. Desceu as escadas hesitante, como se caminhasse para a forca. A mesa de jantar tinha onze cadeiras ocupadas. Sobrou-lhe um lugar entre a avó e Edward. De um lado do pai sentava Sam, do outro Jéssica. Bella encarou determinada a prima, mas também ressentida porque a prima sentava-se ao lado do seu pai, em sua cadeira, e tinha um olhar de desafio. Idiota. Bella pensou. Tem tanta implicância comigo que quer tomar meu lugar de filha!

—Bom dia, pai. — Deu-lhe um beijo no rosto tímido, cumprindo a formalidade. — Bom dia, Tio Sam, Carlisle, Esme —acenou para eles. —Olá, vovó. —beijou-lhe e sorriu triste à avó, comunicando-lhe com os olhos tensos e cheios de ansiedade que estava nervosa com algo que pressentia. A avó olhou-a tranqüilizando-a. —Olá. —acenou aos outros, como se não os tivesse encontrado mais cedo e afastou a cadeira para sentar.

Pães e cremes foram servidos de entrada. Bella recolheu-se ao silêncio, enquanto perto dela colegas de escola tagarelavam, os adultos conversavam entre si. O nervosismo não a permitiu virar-se para Edward.

—Bom, vocês devem estar se perguntando por que convidamos o engenheiro chefe, o administrador, seus filhos e minhas amigas —Jéssica começou. Bella captou que ela referiu-se a nós, como se fosse da família e perguntou-se aonde a prima queria chegar. —Eu quero dividir com vocês minha felicidade —contou com dramática alegria. —Eu conto uma novidade... —Olhou para Charlie com olhos coquetes, e ele segurou sua mão, parecendo orgulhoso. —O tio, quer dizer, Charlie, conta a outra novidade.

Bella franziu o cenho curiosa e olhou-os com um pressentimento estranho. Sentiu a mão da avó sobre a dela.

—Estou muito feliz com Charlie, porque acabei de ser presenteada com um carro— contou emocionada. —Eu não sei o que fiz para merecer, mas agradeço muito, querido, por ter você na minha vida —Inclinou-se e deu-lhe um selinho nos lábios. O coração de Bella começou a acelerar. Seu pai sorriu e bebeu uma dose de uísque, o olhar sorrindo como Bella há tempos não via.

—Caros amigos, família e amigas de Jéssica —disse o nome dela com intimidade. —Vocês sabem que há anos sou viúvo e que ninguém, além de Renée, jamais me despertou interesse— sua voz sofreu uma inflexão ao falar de Renée. —Jéssica sempre esteve perto como sobrinha, uma moça ingênua, cristã, com índole louvável, honesta e generosa...

A garganta de Bella fechou ao pressagiar o que ele falaria. Sua outra mão foi segurada por baixo da mesa. Edward. Olhou de canto de olho para ele, ele tinha o olhar frio e impassível em Charlie.

—...Jéssica tornou-se uma companhia impressionante, me fez sorrir de novo e me faz feliz. Como sou um homem a moda antiga, pedi Jéssica em casamento. Em um mês, quando ela completar dezoito anos, nos casaremos.

A ameaça de pânico cresceu na garganta de Bella. Abriu a boca e encarou o pai com olhos incrédulos. Apertou os cantos da mesa nervosa.

—Eu não vou permitir que você case com essa...

—Você não tem que permitir nada, Isabella!— Charlie rebateu duro e apontou o dedo em riste para a filha. Jéssica pôs a mão no braço de Charlie, apaziguadora.

—Não fique nervoso com ela, Charlie —falou-lhe com a voz baixa e suave. —Ele deve estar com ciúmes do pai como eu ficaria, no seu lugar —acalmou-o com falsa complacência. Ele assentiu apaziguado.

Bella balançou a cabeça indignada.

—Meu Deus, será que o senhor é cego? Ela é uma mentirosa, uma puta!

Ele fechou os punhos irado.

—Não estamos falando de você, Bella, que mal conhece um cara, já dá para ele dentro de um carro! —acusou-a mordaz referindo-se a Paul. Ela abriu a boca para argumentar, mas calou-se, humilhada por ele falar disso perto de Carlisle e Esme. Deixou cair os ombros. Ele já tinha tomado seu partido e decidido de que lado ficar. Escolheu Jéssica, não a filha. Baixou o olhar e sentiu a mão de Edward em seu joelho, confortando-a. Olhou-o de canto, com olhos cheios de mágoa e dor. Queria ser abraçada. Queria contato físico. Mas não queria sufocá-lo com suas necessidades e incluí-lo em seus problemas.

O clima ficou pesado na mesa. Tânya foi a primeira a levantar e parabenizar Jéssica. Outros se levantaram. Edward não se moveu. Vovó inclinou-se para Bella e cochichou em seu ouvido: — Não se importe tanto, preciosa, eles se merecem—disse baixinho e conspiradora. —Seu pai é um tolo. Onde já se viu isso de se dá a piriquita? A gente empresta!—distraiu-a. —Além do mais, a priquita é sua e você empresta pra quem quiser, desde que tire muita vantagem e faça com responsabilidade. — aconselhou solene. Bella suspirou renovada após a bem-vinda distração. Iria passar por aquilo com dignidade.

O momento pesado atenuou-se quando o almoço foi servido. Travessas de saladas e réchauds foram colocados na mesa pelo empregado. O cheiro era bom, mas a fome de Bella transformou-se num bolo na garganta. Sua vontade era encolher-se no celeiro, perto de seus bichos, que era onde se sentia aceita. Não compreendia pessoas. Eram todas estranhas. Como papai iria casar com sua própria sobrinha? Era imoral.

Adiou as lágrimas para quando estivesse sozinha, assim excluiria as pessoas de seu sofrimento. Bella serviu-se de salada e pôs azeite sem levantar o olhar. Todos pareciam entretidos em seus alimentos. Bella sentiu o olhar vigilante de Edward ao seu lado e estendeu a mão para ele. Ainda temia que algo acontecesse.

—Vocês sabem, Charlie gosta de pratos típicos caipiras como todo bom Norwikiano aprecia —estava dizendo Jéssica, com olhar fixo em Bella, ameaçando-a com novas surpresas. Edward mexia o garfo no prato vagarosamente e levou pausadas garfadas de creme de milho com frango ao molho à boca, atento. —Perguntei mais cedo o que ele queria comer, ele disse galinha caipira— relatou Jéssica e ofereceu uma garfada ao homem ao seu lado. Ele comeu submisso. Jéssica olhou para Carlisle. —Lembre-se, seu Carlisle, de começar a criar galinhas aqui, porque o desejo do meu futuro marido é muito importante para mim.

—Como você quiser, Srta. Jéssica —concedeu Carlisle solícito.

—Eu atormentei o cozinheiro, e ele teve que complementar o prato com bandejinhas de peito de frango— gracejou. —Mas esse tempero bom que está dando o gosto todo especial na comida é a única galinha que criávamos aqui —apontou teatralmente para o quintal. Bella abriu bem os olhos, o alarme percorrendo-a com uma ameaça. Edward engasgou-se ao registrar a assertiva. Os demais pareciam alheios. —Da charmosa galinha caipira que criávamos, só restou as penas rosas e os pés. —Riu maldosamente e tirou uma longa pena rosa do bolso do vestido florido. Bella piscou longamente e sentiu as lagrimas queimarem na garganta, o medo atávico espalhando-se como veneno no seu sangue. Ana não. Por favor, não!

—Eu não acredito que você fez isso, Jéssica —acusou num fio de voz com toda mágoa e dor reunida. Edward tapou o rosto com as duas mãos e esfregou os olhos com a constatação, sem acreditar no pesadelo que se tornava aquele almoço. As maldades de Jéssica iriam ao limite.

—O quê? Matar uma galinha para comer? —questionou com falsa inocência. —Feliz o bicho que morre para alimentar outro— escarneceu teatral. Bella levantou-se de uma vez e inclinou-se sobre a mesa, indignada. Sua avó segurou-a pelo braço para contê-la, mas ela estava no limite, lágrimas brotando de seus olhos.

—Por que ela? —indagou desamparada. Jéssica fingiu desentendimento e olhou em volta como se ela fosse uma louca.

—Tudo isso por uma galinha, Bella? Por favor, vamos parar de drama. Se quiser, fazemos um galinheiro para você, não é, seu Carlisle? — acentuou com ar maternal.

Bella encarou-a, hostil.

—Por que não vai direto ao ponto, Jéssica? Faz logo o que tem que fazer! Diga!

Jéssica sorriu malignamente, o olhar sombrio.

—E o quê? Perder a diversão de saborear a impotência? Nem pensar! —Abanou o ar com superioridade.

—Do que estão falando? —Charlie questionou atento.

—Assunto de meninas, Charlie. —Acalmou-o com uma carícia na mão. —Desde crianças Bella está sempre em disputa comigo, você sabe —adulou dissimulada. Bella pôs as duas mãos na mesa e tentou impulsionar para ir até ela. A avó teve dificuldades para segurá-la.

—Venha, garoto, me ajude— pediu a Edward ansiosa. Ele levantou-se e segurou Bella pela cintura, prendendo-a ao seu corpo. Vovó registrou a preocupação possessiva nos olhos dele. O olhar de ódio quente e vingativo para Jéssica. Em seu tamanho, parecia ameaçador como se estivesse prestes a atacar. Bella suspirou e instintivamente apoiou-se nele, os olhos úmidos.

—Meu Deus, Jéssica, o quê que eu te fiz para você descontar sua raiva de mim num bicho meu? Será que você não consegue parar de me infernizar?!—duvidou revoltada. Os olhos de Jéssica adquiriram um brilho malévolo ao ver Edward segurando-a.

—Desculpe, Bella— Jéssica pediu com falsa humildade. —Eu só queria agradar seu pai. Não sabia que iria te chatear tanto— adicionou com perversidade.

—Sua vadia falsa e desalmada! —Atacou amarga e chorosa.

—Cala sua boca, Bella! — Charlie gritou já tirando desajeitadamente o cinto de couro da calça. Bella enrijeceu e olhou-o alarmada e incrédula. —Você vai aprender a respeitar as pessoas e parar de ser birrenta! —Juntou as duas partes do cinto nas mãos ameaçadoramente. —Você vai pedir desculpas a Jéssica agora, na frente de todos! —gritou transtornado. Ambos se encararam cheios de ressentimento, o ar carregado crepitou na sala. A avó posicionou-se de queixo erguido desafiadora ao lado de Bella.

—Nem pense em encostar nela aqui, seu grosseiro arbitrário!

—Eu sou o pai e vou corrigi-la! —determinou irado.

—Pai, Charlie? —citou zombadora. —Você não sabe a diferença entre ser pai ou carrasco!

Charlie ergueu a mão ameaçador, Edward sussurrou exigente no ouvido de Bella: vá para seu quarto agora, a mente astuta e alerta trabalhando com rapidez. Ela assentiu dócil, porque notou Edward tremer contendo o ódio e leu o perigo. Tudo aconteceu muito rápido. Num instante, ela deu as costas prendendo soluços de mágoa e traição, no instante seguinte o réchaud contendo a galinha caipira ainda com o fogo aquecendo-a tombou na direção de Jéssica, de Tânya e de Charlie quando Bella chegava à escada. Bella ouviu o grito de Jéssica seguido ao grito de Tânya, então um pandemônio se fez. Jéssica gritava e pulava caoticamente.

A avó suspeitou o que aconteceu. Rosalie viu os olhos de menino mau antes que ele fizesse. Ninguém mais viu o que fez o conteúdo ardente derramar-se. Vovó Laura, como enfermeira aposentada, socorreu Jéssica, pediu água com gelo, limpou-a sem muita piedade ouvindo seu choramingo, então instruiu Charlie a levá-las ao hospital porque a coxa e área baixa da barriga estavam muito irritadas. Uma boa desculpa para mantê-los longe. Edward aproveitou a distração e saiu pela porta da sala. Jasper o seguiu.

—Vou vê-la com você! —exigiu a Edward quando ele rodeava a casa. Edward balançou a cabeça.

—Não. Ela não precisa de ninguém para ter pena dela agora —negou mal-humorado.

—E por que você vai? —questionou indignado, apontando para o caminho que Edward seguia, para a árvore na frente do quarto de Bella.

—Porque ela é minha, porra! —evidenciou com agressividade e possessividade que fez Jasper abrir a boca desentendido.

—Sua...? —repetiu enquanto o via subir, afastou-se e voltou sem entender para a casa.

Bella estremecia em soluços, desamparada depois de ter sido tão atingida com os golpes de Jéssica em seu frágil mundo. Não tinha muito, mas o pouco que tinha em sua limitada vida lhe dava estabilidade. A mãe morta, a falta de irmãos, de vizinhos e falta de uma série de atividades e amigos lhe fazia solitária e carente de pessoas. Ter seus bichos e tentar se virar só era um lenitivo contra a solidão. Por que bichos tão simplórios? Por que uma galinha?

Porque a vida da galinha estava traçada para ser insignificante, para não representar nada para ninguém que não fosse um prato na mesa, e Bella identificava-se com ela. Não significava nada, senão um transtorno para o pai.

Os soluços da odiada autopiedade a sacudiam, mas suspeitava que a dor não era só pela perda de Anastácia, mas pelas misérias gerais que seria exposta a partir de agora que Jéssica ganhou tanto poder em sua casa.

Sentiu a presença de Edward antes de vê-lo. Ele estava na porta da varanda, de braços cruzados, observando-a e lhe dando espaço. Tinha experiência de que quando ela estava sofrendo, como quando a mãe morreu, ela isolava-se. Embora ao fim sempre precisasse de braços para ampará-la.

—Foi você?— Ela questionou imparcial sem erguer o olhar.

—Talvez —Não negou nem concordou o feito com a panela. —Quer ficar só? — ofereceu cauteloso.

—Não. Pode ficar. —Continuou onde estava, encolhida no chão, com a cabeça nos joelhos.

Ele entrou mais no quarto, tenso e hesitante e ajoelhou-se em frente a ela.

—Eu lamento. — Estendeu a mão e massageou-a no ombro.

—Eu sei —assentiu e limpou o rosto. —Você era meio que pai —retornou.

—Sim. Passávamos muito tempo juntos. — Sentou-se ao lado dela, encostou-se à parede e puxou-a pelos ombros para o seu peito. Ela suspirou e envolveu os braços em sua cintura.

—Obrigada por vir—inspirou em seu pescoço, o corpo ainda trêmulo pelo choro. Ele acariciou seus braços e beijou-a na cabeça. —Estou triste por ela ter morrido para me atingir, mas também sei que chorar e sofrer é desperdício de energia neste momento. O que me consola é saber que enquanto ela viveu, foi bem cuidada. Foi sã, limpa e bajulada. Juntos, demos muito carinho a ela e fizemos ela importante para nós— disse num suspiro resignado, consolando a si mesma com as palavras.

—Você sempre foi assim —comentou pensativo, os dedos esfregando a nuca feminina.

—Como?

—Abafa a dor e tenta consolar-se para superar rápido.

—Não é fácil —estremeceu sentida.

—Eu sei. E estou com medo agora, Bella —confessou sincero. —Dói uma parte bem aqui saber que você não está bem e não vai ficar. —Apontou para uma parte em sua costela.

—Não se preocupe comigo. Vou ficar bem— determinou decidida, subiu a boca e beijou-o na bochecha. —Não vou perdoá-la, embora. Escreva isso: vou tornar a vida dela difícil —prometeu cheia de rancor.

—Você não pode esquecer que vivemos, os dois, numa corda bamba com ela. Se ficarmos juntos, ela sempre terá um trunfo contra nós. Ainda que ela tenha resolvido adiar falar para nos torturar, ou para usar num momento mais propício— ponderou com sensatez.

—Precisamos ter algo contra ela também —Bella sugeriu pensativa. —Tínhamos que ter provas de que ela não presta. Fotos, filmagens, opinião de conhecidos, uma espécie de dossiê —expôs mais animada. —Não entendo como o Sam permitiu que papai entrasse nessa furada sabendo que a reputação de Jéssica na escuderia é mais suja que chiqueiro. Ela não o ama! —exclamou revoltada, doente porque parte dela ainda queria o amor dele.

—Ela não vai fazer nada contra nós agora, tenho certeza —considerou reflexivo. Antes não compreendia porque Jéssica odiava Bella, agora sim. Desde seu aniversário, quando reencontrou Elizabeth, compreendia o sentimento de Jéssica. Jéssica considerava Bella uma impostora. Toda sua raiva era destinada à herdeira de tudo. E cria que se ficasse com Charlie teria de volta o que lhe pertencia. Já o ódio de Edward era destinado ao verdadeiro culpado. Charlie. Não por causa da ganância, como Jéssica, mas por causa da impunidade. Charlie precisava pagar pelo que fez. Não se importava se a escuderia iria à falência, mas queria ver Charlie, de um jeito ou de outro, sem nada daquilo que ele foi capaz de matar para conseguir. —Ela não vai queimar esse trunfo de um modo tão fácil. Jéssica é fria, calculista. Como a serpente no paraíso —adicionou, comparando-a a si mesmo.

—Ela quer nos manter em suas mãos, só não compreendo por que.

—Não, Bella, ela quer torturar você o máximo que puder—destacou pesaroso. —Por inveja.

—Ela não vai quebrar meu espírito. —tranquilizou-o com um beijo no canto da boca. —Vou enfrentá-la. E se isso significar enchê-la de hematomas, será o que irei fazer. Cansei de ser passiva.

Ele puxou-a e a sentou em seu colo, inclinou-se e beijou-a no ombro.

—Pelo menos ela sabe que agora você vai reagir à altura —apoiou-a. —Estou muito orgulhoso de você, que não se entrega mais, sem lutar.

—Está? —Esfregou o nariz no dele. —Isso é motivo para você ficar comigo bastante tempo?

—O máximo que você quiser.

Angulou sua cabeça para beijá-la, com a desculpa de que precisava tocá-la para deixá-la bem e fazê-la esquecer, embora a verdade é que não conseguia mais manter-se longe. Essa agonizante mistura de fome física e emoção o desestabilizavam. Ela deu um murmúrio inarticulado de aprovação ao tê-lo abrindo sua boca com a língua, ele apertou-a nos braços e chupou seu lábio superior mansamente, desejando, ansiando de um jeito que não queria se negar. Seu peito queimava de necessidade dessa energia contagiante, mas queria reprimir o sentimento enfraquecedor e paralisante. Não podia ficar refém desse sentimento, mas também não sabia o que fazer para não querê-la, para não desejar estar com ela a cada segundo. Apertou-a forte em seus braços. Suas línguas se encontraram, roçaram-se provocadoras, como que testando quem iria parar, ou se iria.

—Obrigada. —Ela agradeceu quando tomou fôlego.

—Pelo quê? —Riu divertido e continuou plantando beijinhos em seu rosto, no canto da boca.

—Por me beijar... Ou melhor, por me colocar no seu cercadinho... Por me querer. Pelo menos com você eu me sinto querida, não indesejada e imprópria.

—O quê? —questionou incrédulo. Ela estava agradecendo-o por querê-la? Quem não a queria? Qualquer um que a observasse bem a quereria, até Jasper.

—Sei que você gosta de meninas e me sinto lisonjeada por ser uma delas —agradeceu neutra, sem julgá-lo. —Você terá a vantagem de ter uma garota legal, amiga, alegre, que não vai te cobrar, não vai ficar te ligando nem enchendo o saco. Ficaremos juntos nos fins de semana e não te perguntarei nada— enumerou com praticidade.

—O quê? —ofegou sem acreditar no que ouvia. —Por que você está me tratando como se eu estivesse te fazendo um favor?

—Porque é— acentuou pragmática. —Mas não fique se achando, você também é minha única opção de diversão —zombou e mordiscou sensualmente seu lábio.

—Eu não sou o único que poderia te querer. Você é bonita e sabe disso —repetiu para convencê-la.

—Bem, ser bonita então é a cereja do bolo em todo o conjunto! — observou animada. —Você também é um gato, cheio de qualidade —brincou com o humor renovado. —Você é discreto, cauteloso, mas protetor e fiel amigo, além de gostoso, vitaminado, que eu tô doida para dar uma mordida. — Gracejou, querendo esquecer o mundo e todos quando estivessem juntos. Ergueu a manga da camiseta no braço dele e deu uma mordidinha no bíceps. Ele riu. Ela moveu-se em seu colo, sentindo um calor duro na nádega. —Não sei quanto tempo temos juntos, sei que enquanto estivermos, vou tirar vantagem e me aproveitar de você —ameaçou maliciosa.

—Como? —repôs divertido.

—Quero dormir com você na mesma cama. Quero te beijar toda hora. Quero dividir mais bichinhos de estimação com você. —Enfiou a mão na camiseta dele e acariciou seu abdômen, então segredou sedutora em seu ouvido. —Quero que você pegue em meus seios todos os dias, porque me faz sentir bonita e deliciosa. Quero ver você nu de novo e te dar banho na minha banheira enquanto canto para você.

—Não! Por favor, isso não! —negou dramático.

—O que?

—Nada de cantar! É uma tortura— zombou carinhoso.

—O que há de mal com minha voz? — questionou insegura e autoconsciente.

—Com sua voz nada, a música que você canta que é horrível— revelou trágico.

—Hmmm, menos mal. — Ela segurou a barra da camiseta e o fez tirar, em seguida beijou-lhe o peitoral.

—Bella... —Chamou-lhe atenção. Ainda era cedo e tinha muitas dúvidas.

—Quero viver o momento. Quero rolar no chão, no celeiro, beijar nus no rio— baixou o rosto e beijou-o no mamilo. Ele fechou os olhos. Ficou mais duro sob ela.

—Você quer me usar para inconscientemente vingar-se e atingir seu pai —justificou seduzido pelo convite em suas palavras.

—Não. Eu realmente quero você, tudo que puder roubar de você.

—Começamos a ficar ontem. Nem sabemos o futuro —destacou, mas gemeu quando a boca de Bella mordiscou sua costela.

—Começamos ontem, mas é como se estivéssemos juntos desde sempre. Pode ser estranho e precipitado pra você, mas pra mim somos íntimos o suficiente. E meu pai não tem nada a ver com isso.

—Não quero ser uma experiência ruim nem te magoar como Paul, que abusou de sua confiança quando você estava vulnerável e bêbada. —Lembrou e viu a dor cruzar o rosto de Bella. Talvez o tempo todo ele estivesse dizendo não, e ela estava forçando, pensou Bella. Não entendia por que ele sempre enfatizava o ocorrido com Paul como se acreditasse que ela foi violentada. Ela afastou-se, em dúvida.—Não é isso que você pensa que eu estou pensando —corrigiu preocupado com a dor de rejeição que viu em seus olhos. —Você acha que eu não te quero, como qualquer adolescente? Eu só não quero te machucar, Bella. Nem seu corpo nem seu coração.

—Meu coração não vai ser machucado. Eu estou preparada para tudo, inclusive para o fim —salientou séria.

Ele fechou os olhos e suspirou. Essa pequena mula teimosa o desarmava. Mais ainda quando era óbvio que ela não queria o mesmo que ele. Ela queria somente uma aventura. Seria cômodo para ele querer o mesmo, emoção sem cobranças. Mas ele a queria de um jeito possessivo e desesperador. Não era o querer suave e frouxo como ela. Era um sentimento sem nome que saltava entre eles, forte como o medo e desgastante como a fome. Ele sabia do que se tratava. Sua mescla de fragilidade e valentia o atordoava e atraía como abelha ao mel, e não podia ficar longe de sua vivacidade.

—Esses dias você gostava de outro, não acho que esteja segura do que quer. — Buscou um último argumento.

Ela fechou os olhos impaciente, chateada por ele continuar batendo na tecla. Não podia lamentar mais o ocorrido com Paul do que lamentava todos os dias. Parecia que isso iria persegui-la para o resto dos seus dias.

—Não fale nele de novo, por favor —exigiu acalorada, inclinou-se e encostou a boca em seus lábios. —Vamos viver o momento. Permita-me aprender o amor com você —convidou-o. Ele suspirou com fome dela, intensa ternura e temor. Abraçou-a forte. Ah, se ela soubesse o quanto não queria negar-se. Ela apertou a orelha contra o apressado pulsar da jugular e sentiu-se segura, flutuando entre a paz momentânea e alegria singela.

—Ficaremos juntos. —prometeu Edward com olhos quentes. —Estarei com você para enfrentarmos Jéssica e aprendermos juntos o amor.

Continua...

Notas finais
Olá, meninas, espero que estejam gostando e se divertindo. É uma estória sem pretensões, sem muito drama, curta, mas prometo muito Beward e carinhos. Grande beijo.