Notas iniciais
Obrigada a todas vocês que voltaram.
à um prazer continuar escrevendo. à bom sonhar.
Obrigada a Lily Swan por ser a primeira a arriscar-se recomendar a estória. Valeu pelo incentivo

Capítulo 2- Me abraça

Uma história se escreve com muito mais que uma palavra...

O motorista enviado para buscar Bella estacionou em frente à escola para garotas de Norwich sexta-feira no horário combinado. 16h. Neste fim de semana, Bella esquivou-se de todos os convites de amigas. Também evitou Alice. Não queria aborrecer o pai e, se Alice estava em sua casa, Charlie tratava Bella com mais rispidez e frieza. Óbvio que se sentia só e que gostava de companhia, mas toda aquela conversação sobre meninos comum às primas e amigas às vezes lhe cansava. Bella não tinha muito a falar. Os meninos não lhe davam um segundo olhar, principalmente perto de beldades como elas.

—Este carro é legal de dirigir, Sam? —questionou sugestiva e esticou-se no banco de trás, analisando internamente o Range Vogue SDV8. O moreno parrudo, usando macacão da escuderia do pai de Bella, olhou-a pelo retrovisor.

—Sim —assentiu amistoso. —Ele tem o motor violento.

—Deixe-me dirigir um pouco —pediu com olhos brilhando. Há alguns dias, Sam, o mão direita do pai de Bella, permitia que ela dirigisse na estrada deserta que levaria a Hethel. Ela não tinha carta para dirigir ainda, só em seis meses teria, mas ele não resistia a seu pedido.

Ele estacionou, ela sentou-se no banco do motorista, ajustou o banco, retrovisor e pôs o cinto. Sam sorriu encorajador. Adorava-a. A menina arteira e inquieta que estava sempre se metendo em problemas com o pai. E Sam não a ajudava a ficar longe deles. Desde que ela tinha onze anos permitia que ela dirigisse alguns carros escondida do pai.

Ela acelerou, optou por passar as marchas no manual e suspirou deliciada com a paisagem. Em qualquer parte do mundo o tempo passava velozmente, mas em Hethel o passo do tempo era lento e tranquilo. Florestas fechadas rodeavam a pista de ligação para fazenda. As reservas e áreas protegidas de Norfolk era um dos patrimônios da Inglaterra. A vista era agradável como o ar puro rural.

Normalmente, a 500m da entrada da propriedade, Sam assumia a direção do carro novamente. Porém, antes de chegar à estrada particular da fazenda, cruzaram com uma caminhonete Ford preta. Ela prendeu o ar ao registrar o condutor e tentou encolher-se no banco para não ser vista. Porém, notou pelo retrovisor o carro fazer a volta, ela acelerou para escapar, mas ele foi mais rápido, ultrapassou-a e fechou-a.

Assustada, ela pisou no freio bruscamente e girou de uma vez o volante. Mesmo a pouca velocidade, a traseira rodou, ela girou novamente o volante e seu destino foi a cerca da estrada. Freou e conseguiu dominar antes de bater numa árvore. Foi jogada para frente, mas o cinto de segurança a protegeu.

Piscou longamente para situar-se e ouviu o som de sua porta ser aberta.

—Sua imprestável, monga de merda! — exasperou Charlie, ameaçador em todo o seu tamanho. Ela foi puxada abruptamente do banco e parou em pé, ao lado do carro.

Desceram do carro de Charlie dois ajudantes. Jasper e Edward. Olharam-na com cautela e impessoalidade.

—Você arranhou meu carro! —Charlie acusou enquanto acariciava a frente do carro como se ele fosse frágil.

—É só um carro... —resmungou Bella. — O que são coisas, pai? — chiou baixinho, trêmula pelo susto, enquanto esfregava o cotovelo lesionado ao batê-lo na porta. Suspirou magoada por ele não perguntar se estava bem. Ela olhou para Edward de esguelha. Ele olhava seu braço, mas mantinha a expressão distante. Bella balançou a cabeça comunicando que estava bem.

—Você fala isso porque não sabe quanto custa nada! —Charlie estava dizendo. — Não sabe quanto vale sua mensalidade, seu uniforme, a comida que você come! —vociferou a ladainha que ela já estava acostumada. Bella encolheu-se e esperou-o fazer o inventário do carro. —Vá o resto do caminho a pé para pensar um pouco —apontou em direção à mansão. Bella arregalou os olhos em alarme, calculando o restante de caminho que faltava. Em outro caso não seria difícil. Era acostumada a andar toda a propriedade do pai a pé com o cachorro de Edward. Porém, usando saia abaixo dos joelhos, camisa social manga longa, colete e sapato de boneca, seria mais complicado. Suas meias calças brancas iriam encher de carrapicho e seus pés encheriam de calos nos quase três quilômetros que faltavam para chegar em casa. Poderia ir pelo asfalto e livrar-se dos carrapichos, mas aumentaria um quilômetro.

—... E você, Sam, nunca mais irá buscar Bella! —ordenou irado. Sam olhou-a consternado quando ela deixou cair os ombros e seguiu seu destino por dentro dos matos sem nem mesmo olhar para trás. Edward observou-a até sair de vista.

Ninguém compreendia por que Charlie alardeava tudo no que se referia à filha. Por que ela não podia dirigir, se Charlie permitia que até Edward, que era mais novo que Bella, dirigisse pela propriedade?

Quando Bella chegou, meia hora depois, ao casarão, vermelha e suada, com os pés doendo e tranças mogno esvoaçadas, Edward a esperava com um copo com água ao lado da imponente casa, que passara por uma reforma depois que a senhora da casa morreu e não tinha mais a aparência rústica de casarão de fazendas, mas sim, a frieza e sofisticação de uma mansão em estilo hexagonal, com telhas embutidas e vidros verdes. O cachorro de Edward foi ao encontro de Bella no meio do caminho. Edward tinha se livrado de Charlie dizendo precisar ir ver o pai.

Ele ofereceu a Bella o copo com água e um chocolate Toblerone que tirou do bolso. Bella sentou-se exausta ao seu lado no batente e segurou-se para não chorar de frustração.

— Estou acabada como uma bota velha — Bella zombou com humor negro, bebendo um gole para não permitir que a lágrima de autocomiseração corresse. —Eu não o compreendo — lamentou vencida. Edward a observava em silenciosa análise, discretamente submetendo-a a uma inspeção breve, mas minuciosa. Ela notou seu olhar preocupado. —Eu não me machuquei —garantiu. Ele concordou movendo a cabeça. —Só fiquei assustada— adicionou. —Ele queria que eu fosse como mamãe. Pulcra, composta, previsível e sempre obediente. Ela não se aventurava com nada. Era conformada com a vida, conformada em ser segundo plano na vida dele. Não dirigia, não cozinhava, só enfeitava e o agradava —Ela finalmente chorou, saudosa e solitária. Ainda sentia falta do desprendimento e alegria da mãe, que sempre justificava as grosserias e erros do pai, que sempre a protegia quando o pai queria lhe corrigir com o cinto, que sempre tomava seu partido para defendê-la quando Bella quebrava sem querer algumas de suas réplicas de carros.

As lágrimas de Bella surpreenderam Edward. Ele não soube o que fazer ou falar para consolá-la, então se manteve reservado. Se fosse ao contrário, ela o abraçaria, como fez certa vez quando ele se mostrou débil. Depois, ele nunca mais ele deixou que alguém ultrapasse sua inexpugnável barreira de defesa. Não era fácil para ele tocar e consolar pessoas. Só tinha a oferecer seu silêncio e companhia em solidariedade.

O cachorro tomou uma atitude. Arrastou o focinho na perna de Bella para consolá-la. Bella estendeu a mão receptiva e acariciou sua cabeça. —Obrigada, Wolf —chamou-o pelo nome que lhe deu teimosamente, sem o consentimento do dono.

—Edward, o que faz aqui atrás? —Esme surpreendeu-os com olhar de repreensão. Carlisle apareceu logo atrás. Edward olhou-os em silêncio, aborrecido pela intromissão. Bella recompôs-se e adiantou-se em explicar:

—Só estamos conversando, Esme —justificou. —Ele veio ver como eu estava depois de quase bater o carro do meu pai. —Esfregou suavemente o rosto para secar as lágrimas. Carlisle e Esme eram muito protetores com Edward. Sabiam que se quem os surpreendesse fosse Charlie, não seriam só olhares de repreensão que receberia. Charlie tiraria satisfações com Carlisle. A primeira regra de contratação do administrador fora de que seus filhos se manteriam longe de Bella.

—Filho, você sabe suas responsabilidade. —Carlisle aconselhou. Edward flexionou os dedos impaciente. Começaria toda a ladainha.

—Sim, senhor —concordou sem sombra de submissão nos olhos cinza e fez um gesto rebelde com a sobrancelha para que ele os deixasse sós. Carlisle os olhou desgostoso e saiu de mãos dadas com Esme. —Vou para lá. —Edward apontou para o celeiro e seguiu na frente. Bella acompanhou-o à distância, na companhia de Wolf.

Sete anos se passaram desde que o conheceu. Muita coisa aconteceu desde então. Aos onze anos, Bella entrou na escola para meninas. Só vinha em casa nos fins de semana. No último ano, suas vindas em casa não eram constantes. Para livrar-se de tê-la perambulando por lá, Charlie permitia que ela passasse alguns fins de semana na casa das primas e amigas.

Bella entrou no familiar celeiro e olhou em volta. A fazenda despertava nela várias emoções, principalmente saudade de sua mãe, pesar pelo que aconteceu. Pesar porque a vida de sua mãe poderia ter se estendido mais um pouco. Desde que ela se foi, Bella não era mais a mesma. Vivia com uma opressão profunda no peito. Por outro lado, gostava de vir à fazenda para estar perto da avó, que ainda vivia na fazenda. Gostava dos funcionários, e, principalmente, gostava de estar perto de seu pai.

A família de caseiros era outro caso. Com eles se sentia acolhida de verdade, embora com a filha deles se sentisse por vezes intimidada. Rosalie era bonita demais para aquele lugar esquecido. Sorte Carlisle ter conseguido uma bolsa na conceituada escola de meninas que Bella estudava. Já os garotos optaram por estudar em escolas rurais. Foram lobinhos e escoteiros até os quatorze anos e fizeram curso técnico de mecânica. Somente no último ano Jasper e Edward ingressaram como aprendizes na mecânica da escuderia com os melhores engenheiros da Inglaterra. Charlie Swan e Sam Ulley.

Jasper, além de bom na parte elétrica de carros, era um músico nato. Desde os sete anos de idade tocava violão como ninguém. A área de atuação do curso de Edward era mecânica e motor, mas ele ainda era aprendiz. Seu trabalho hoje limitava-se a limpar e lubrificar peças. Ele não mudou muito desde que Bella o conheceu. Continuava desconfiado, fechado e silencioso. Ele falava pouco, observava muito. E não gostava de toques desnecessários. Eram raras as vezes em que o via sorrir. Esme ganhava, às vezes, seus sorrisos relutantes. Ele a considerava muito, principalmente por ela respeitar seu espaço. O cachorro também ganhava seus sorrisos e afagos. Bella ganhava seus sorrisos quando fazia algo tolo. No mais, ele era sempre reservado. Bella o considerava seu melhor amigo, mas sabia não ser a melhor amiga dele. Ele não tinha um amigo. Não falava de si e não permitia que ninguém o conhecesse de verdade.

Ele foi adotado por Esme depois da noite no lago de gelo, quando, depois de serem surpreendidos abraçados, Bella explicou a Esme e Carlisle a condição do menino. Esme compadeceu-se e disse ao pai de Bella que o menino era seu filho. Como o pai de Bella nunca o tinha visto na fazenda, aceitou a mentira sem questionar, mesmo que antes da contratação ela tivesse dito que tinha somente dois filhos. Inicialmente, Edward agia deslocado na casa dos caseiros. Parecia um pingüim, tenso e receoso. Andava com os braços presos ao lado do corpo, nunca falava, só aparecia pela casa nas horas das refeições. O restante do tempo ficava sozinho no quarto desenhando, ou no celeiro construindo outro carrinho. No início, só Bella se comunicava com Edward. Com o passar do tempo, ele aprendeu a língua inglesa e passou a se socializar.

A gaita continuou a ser tocada a cada noite. E algumas vezes ele fugia para dormir no quarto de Bella. A cama auxiliar estava sempre pronta, esperando-o. Ele dividia-se entre o quarto de Bella, o celeiro e o quarto na casa dos administradores. Sempre aparecia depois de Bella apagar totalmente as luzes e se deitava em silêncio. Esse era o sinal para chamá-lo: deixar o quarto escuro.

Bella aprendeu com os caseiros o que era viver numa casa em que adultos e filhos amavam-se e respeitavam-se entre si. Seu faminto coração queria tanto daquilo, do amor que era oferecido a Edward, o filho do coração de Esme, que ele pouco absorvia.

—Eu estou cansada de ser certinha para agradá-lo —Bella resmungou depois de encolher-se num canto do celeiro. Edward também sentou no chão, pegou seu caderno e lápis e passou a desenhar, embora ela soubesse que tinha sua atenção. —Eu queria fazer algo errado, escandaloso— desejou ressentida, abriu o chocolate e dividiu com o cachorro.

—Não faça nada para se arrepender— aconselhou neutro. Entre eles havia essa camaradagem e cumplicidade que ela não encontrava com nenhuma de suas colegas. Bella ajoelhou-se em frente a uma caixa de madeira de 1x1m cercada de telas, abriu e tirou uma galinha de dentro.

—Olá, Anastácia— cumprimentou-a mais animada. Ela adorava seus bichos. Edward tomava conta deles durante a semana. Acariciou a cabeça da galinha afavelmente, em seguida guardou. Cada um dos bichos que eles criavam tinha uma história para eles. O mais novo estava com eles há dois anos. Bella abriu outro compartimento do móvel de madeira. Dentro dela tinha um jabuti. Wolf latiu, e seu Joaquim escondeu a cabeça. Bella acariciou o casco. —Olá, rapaz. Não se esconda dos problemas. Enfrente-os! —gracejou. Por fim, abriu a terceira porta e tirou uma rã. A rã saltitou para o seu pescoço. Ela riu, soltou um gritinho e a rã pulou para o colo de Edward. —Fujona traidora! —acusou rindo.

Edward torceu o lábio divertido.

—Também, tem que ser muito excêntrica para criar um sapo.

—Ela não é um sapo— Bella defendeu afetada. —É uma digna rãnzinha. Juliane, diga que você não é um sapo — pediu solene.

—Não vejo a hora de poder comer todos eles, inclusive seu Joaquim —Edward zombou. Bella adorava quando ele estava de bom humor.

—Eca, Edward! Para de ser selvagem! Não se come jabuti! —Bateu no braço dele. Ele riu e acariciou a rã no seu colo. Ela ficava tranquila perto dele. Wolf latiu condenando a rã por estar no colo de seu dono. A rã pulou e saltitou para a área externa do celeiro. Bella alarmou-se para buscar de volta.

—Não deixe meus bichos fugir só porque não quer ser babá! — acusou brincalhona.

—Quando ela sentir fome, ela volta —ele garantiu tranquilo, com a atenção em seu desenho.

Bella sorriu conspiradora como se lembrasse de uma grande fofoca e inclinou-se para falar baixinho.

—Sei de algo escandaloso que vai te chocar —começou arteira. —Sabia que presenciei algumas meninas do internato fazendo sabão? —contou divertida.

—Sabão? —franziu o cenho, desconhecendo a expressão.

—Sabão, Edward! É assim que chamam. Estavam colando o velcro, esfregando a pepeca — rolou os olhos impaciente.

Ele olhou-a com horror.

—Onde?

—No quarto ao lado do meu. A Jéssica convenceu Alice e eu de bisbilhotarmos pela fresta da porta. As meninas vizinhas sentaram uma na coisa da outra, se esfregaram, depois ficaram chupando as teta e por último colocaram a boca uma na pepeca da outra — enumerou zombeteira. Ele arregalou os olhos cada vez mais chocado com sua naturalidade em contar. — Eca. Foi nojento. —Franziu o nariz. —Acredita que depois a Jéssica teve a audácia de pegar no meu peito e convidar eu e Alice para fazermos igual?

Ele balançou a cabeça censurador e voltou sua atenção ao papel, fazendo agora traços impensados.

—Você foi? —questionou neutro.

—Não! —negou ofendida. —Eca! Eu gosto de meninos! De preferência grandes e morenos como Paul —desejou com ar sonhador. —Não bribas* brancas e sem cor como Jéssica.

Ele deu de ombros.

—Você também é branca —destacou. —E algumas meninas parecem gostar dos dois. Jéssica por exemplo —citou indiferente, lembrando da última empreitada de Jéssica que era a caçada a Paul.

—Eu não gosto de pererecas — trocadilhou irreverente e abraçou mais o cachorro, agora revitalizada do contratempo com Charlie. —E se sou branca, pelo menos pego um solzinho de vez em quando —assegurou orgulhosa e estendeu o braço bronzeado para ilustrar.

Ficaram mais um tempo conversando comodamente, depois Bella ouviu o som da caminhonete do pai chegando à mansão e correu para casa pelos fundos. Durante o jantar, comeram em silêncio, Bella, a avó e o pai, servidos pelo mordomo contratado desde que a mãe de Bella morreu.

*Briba= espécie de lagartixa de 10 cm, transparente. Fica geralmente em tetos de apartamentos e casas.

No dia seguinte, Bella vestiu uma calça de brim creme, botas, camisa manga longa xadrez, chapéu e saiu cedo para correr a cavalo pela propriedade, com Wolf ao lado deles. Não importava se seu pai controlava seus horários na internet, não importava se ele podava suas visitas à escuderia. Ela sempre teria seu cavalo e seus bichos para curtir, pensou rebelde. Por volta de onze horas, registrou o movimento de pessoas na pista de testes da escuderia, guardou Thor na baia e deixou-o aos cuidados do ajudante no estábulo.

Tomou o caminho da escuderia a menos de um quilômetro. Entrou suada e com as tranças bagunçadas. Guardou o chapéu atrás de uma cadeira e sentou num lugar vazio no canto da arquibancada reservada para espectadores. Viu Paul em toda sua imponência conversar com outros pilotos e transitar com altivez e segurança de si. Desde que ele começou a fazer testes para integrar a equipe, os treinos passaram a receber um número maior de espectadoras, filhas de funcionários. Bella aproximou-se mais, encostou-se disfarçadamente a uma parede e observou algumas meninas suspirarem por ele. Com dezoito anos, moreno, de olhos verdes e cabelos jogados de lado era o sonho de consumo de qualquer garota.

Sentiu um olhar sobre ela e sorriu sem jeito ao ver Edward no outro extremo a observando de braços cruzados. Ele torceu os lábios criticamente e rolou os olhos censurando-a por seu deslumbramento, a seguir entrou para oficina.

Ela atravessou a arquibancada, passou ao lado de Paul e deu-lhe um sutil olhar minucioso. Ele tinha sob o braço sua namorada, a bela Kate. E era tão charmoso e promissor como o Lewis Hamilton da Mercedes, ex namorado da Nicole do Pusycatt Dolls, que passou alguns anos na escuderia da Mclaren.

Ninguém tomou nota da presença da filha do engenheiro chefe. Talvez, se ela usasse a saia tão curta como Kate, seria notada, pensou contrariada. Porém, se tivesse com aquelas estranhas manchas roxas nos braços, na coxa e no olho direito, iria era esconder, não mostrar.

Bella passou direto por Jéssica, torcendo que sua prima não a visse, e seguiu o caminho da oficina.

—Olá... —cumprimentou Edward incomodada por ele tê-la surpreendido apreciando Paul. Era tão estranho ter um melhor amigo homem. Se ele fosse menina, ela iria ressaltar os dotes físicos de Paul sem vergonha ou constrangimento. —Feliz aniversário, amigo — saudou-o carinhosa. No pouco que Edward falava sobre si, revelou a idade que tinha e que dia fazia aniversário. —O abraço eu te dou mais tarde— prometeu com uma piscada amistosa. Ele assentiu dando pouca importância. Ela sentou-se no chão encostada à parede. —Aff, as meninas cacarejam em volta dele como galinhas sem cabeça — criticou com superioridade.

—Você também faria isso — acusou.

—Eu não! — garantiu ofendida. — Só acho ele bonito, mas não irresistível. —defendeu obstinada.

—Eu não compreendo vocês. Ele dirige mal— criticou torcendo os lábios.

—Hmmm, que foi? Tá com ciúme? — arreliou-o zombeteira. —Você também é gatinho. Se não tivesse essa cara de indisponível, outras meninas, além de Ângela, viveriam no seu pé.

—Eu não quero garotas no meu pé — defendeu-se injuriado.

—Eu queria — Bella desejou sonhadora. —Não garotas, lógico — corrigiu sorridente. —garotos como Paul —suspirou deslumbrada, observando Edward limpar umas peças de motor. A mesa cheia de peças minúsculas estava rodeada de material de limpeza e lubrificação. — Falando em garotas, ontem eu vi Jasper comentando com os mecânicos que vocês iriam sair para comemorar hoje à noite seu aniversário e que eles iriam pagar uma acompanhante para tirar seu cabaço —zombou. — Palavras dele — adicionou brincalhona, fazendo aspas, levantou e posicionou-se ao lado dele —Deixa eu ir com vocês? —ela cutucou-o provocadora.

—Não —negou inexplicavelmente carrancudo.

—Poxa, seria tão legal —tentou convencê-lo persuasiva. Edward levantou a escovinha e esfregou a peça, ignorando-a. Ele gostava de trabalhar em silêncio, mas ela nunca o deixava em paz, quando podia. Ele não precisava estar lá. Seu expediente era somente de segunda a sexta. Mas entre ficar em casa ou se esconder dela na escuderia para não ser obrigado a caçar répteis e insetos, ele preferia trabalhar. Ela insistiu. —Eu tenho direito de ir comemorar com você. Sou sua única amiga. Eu te conheci primeiro— defendeu teimosa. — Precisamos comemorar o fato de termos agora a mesma idade, por seis meses —destacou divertida.

—Comigo não vai — assegurou sério.

—Por favor, Edward. Nunca saímos juntos —implorou matreira, puxando a manga de sua camisa. —Nunca saí para um lugar que não fosse uma sorveteria ou lanchonete. Queria fazer algo excitante e errado só uma vez. Que história vou contar para os meus netos? Minha avó conta que na época dela, em mil novecentos e pedrinha, ela já rolava nos matos com um vizinho aos quinze anos de idade. Eu nunca rolei com ninguém que não fosse o Wolf! —reclamou com um bico. Edward olhou-a repreensivo. Ela o chocava sendo tão direta. Era a menina mais estranha que conhecia. Tratava-o como a uma menina e falava coisas para ele que não queria saber.

—Bella, você esquece quem é teu pai? —lembrou impaciente. —Você acha que vai conseguir sair conosco? Não.

—Droga! Tudo você põe dificuldade!!! —acusou e deixou cair os ombros, magoada. Caminhou para a porta de saída vencida. Ele lhe dirigiu um olhar desconfiado antes que ela deixasse a porta. Deu de ombros e voltou ao que fazia.

Aquele era um dia em que ela estava particularmente entediada. Queria sair. Mas não queria nem ver sua prima. Cansou-se de Jéssica. O olhar zombeteiro e ao mesmo tempo acusador de Jéssica sempre a ofendia. Bella era refém de uma situação e obrigava-se sempre a ceder aos caprichos de Jéssica. Assassina. Era assim que Jéssica a chamava. Bella não negava, embora seu maior crime fosse assassinar formigas.

Enquanto atravessava o caminho da escuderia até sua casa, Bella olhou repetidas vezes para trás para ver se seu pai não a flagrava. Cada ano que se passou se sentiu mais distante dele e da fazenda. Antes tinha tanto apego, tantos sonhos, mas à medida que se viu indesejada, sentiu-se deslocada. Edward estava entre as pessoas que a prendiam lá. Era a única pessoa que não queria nada dela, que não usava a influência de seu sobrenome, como Jéssica. Também tinha a avó que a prendia lá e vive-versa. A avó só permanecia na fazenda por causa de Bella.

Bella subiu as escadas que levavam ao quarto de sua avó. Bateu duas vezes na porta.

—Olá, vovó —abriu a porta e entrou. Sua avó teclava no notebook. Agora com sessenta e dois anos, vovó carregava aquela beleza clássica de Rennee, ruiva com fios brancos, mas não solene e graciosa como Rennee. Vovó parecia rebelde mesmo na terceira idade.

—Olá, Bella. —Deixou o computador de lado e girou o corpo para dar atenção a Bella.

—Vovó, eu queria sair hoje à noite —pediu sem rodeios. Era fácil ser direta com a avó. Ela nunca lhe censurava ou negava-lhe algo. Conhecia seus bobos segredos, até sua recente paixonite por Paul. E pelo que Bella ouviu ao passar perto das fãs de Paul, Paul e Mike iam para o bar onde Jasper levaria Edward.

—Para onde?

—Para o Navigator —explicou displicente.

—E o que quer de mim? —Franziu o cenho prevendo a fria.

—Que a senhora me leve —revelou tranquila. A avó olhou incerta para o computador de mesa. Sempre que Bella pedia algo, limitava-se a passeios diurnos na cidade, compras de presentes e mimos para seu amigo secreto, mas nunca tinha pedido para fazer algo irresponsável ou que seu pai abominasse. Uma mensagem piscava no canto da tela minimizada. —É aniversário do Edward — Bella adicionou persuasiva.

A avó deu um suspiro rendida.

—Tá, Bella. Eu te levo. Eu vou jogar cartas enquanto vocês se divertem. —concedeu e voltou a sentar-se em frente ao PC. —Eu não queria ser essa pessoa boa, que permiti você conseguir o que quer —desejou dramática enquanto teclava. —Pessoas boas morrem rápido. Não viu sua mãe? Seu avô? —acentuou distraída. —Eu só sou boazinha com você. Não espalhe para ninguém que você é minha fraqueza. Para o seu pai, eu sou uma megera. —sorriu perversa. —Não vou fazer a vida dele fácil. Quanto mais ruim eu for para ele, mais vamos competir o lugar aqui na terra. Pessoas ruins não morrem, já falei isso para você, Bella?

—Sim, vovó, você já disse. —concordou sorridente e abriu a porta. Restava agora terminar de convencer Edward.

Depois de tomar banho, Bella secou os cabelos e encheu-os de bobs e fixador. Queria estar bonita e ousada como nunca esteve. Cortou uma calça jeans surrada de marca e desfiou as pontas. No fim da tarde aprontou-se, calçou as botas e sentou na cama com a porta da varanda aberta. Apagou a luz do quarto e esperou, recorrendo ao código para requisitar Edward. Vinte minutos depois de compulsivos olhares pela janela, Bella ouviu passos. A sombra de Edward apareceu antes dele. Ela sorriu triunfante. Ele não era o mesmo menino de sete anos atrás. Desde que completou doze anos, ele cresceu aceleradamente e ultrapassou-a em um palmo. Horizontalmente também ele em nada lembrava o menino mirrado. Tinha todos os músculos do tamanho ideal.

—O que foi, Bella, que você quer? —inquiriu e sentou-se já arrumado para noite na ponta da cama. Ele não tinha mais sotaque. Seu tom baixo e de ar entediado fez Bella sorrir. Ele espantava qualquer um com seu jeito árido. Só ela sabia que ele não era tão mau como parecia.

—Você sabe o que quero. Vou sair para comemorar seu aniversário com você ou sem você. —noticiou séria, levantou e acendeu a luz. Edward piscou diante da claridade e, quando fixou o olhar nela, olhou-a friamente, como se visse uma sapa de pernas longas. Ao ler seu olhar, ela deu um muxoxo e sentou-se na cama desanimada.

—Você ao menos devia fingir que me acha bonita. —ela reclamou com um bico.

—Eu não disse que você está feia.

—Sua cara disse tudo.

—Você precisa de amigas. Meninas dizem uma às outras se estão bonitas ou não — ressaltou sem olhá-la. Não queria se fixar na área exposta pelo curto short dois palmos acima do joelho.

—Amigas não dizem de verdade —ela retrucou teimosa.

—Alice diria.

—Alice não está aqui —Bella ressaltou. —Eu só tenho você aqui. Custa você dizer se os meninos vão olhar para mim ou não? —implorou insegura.

Ele olhou-a novamente. O short jeans curto desfiado nas pontas não era o padrão de Bella, mas se ela queria mesmo impactar, conseguiria. A bota jeans envelhecido deixava-a mais alta sete centímetros. Sua altura sozinha já chamaria atenção. A camisa branca amarrada na frente dava ar sensual, mas não vulgar. Edward franziu o cenho incerto sobre o que dizer.

—Está bem —deu de ombros.

—Está bem? Isso é tudo? —reclamou. —Eu passei uma hora arrumando o cabelo. Custa você dizer se combinou a bota cano baixo com a bermuda? Se minha pulseira combinou com a camisa?

—Já disse que você precisa de amigas —ressaltou incomodado. — A única coisa que notei aí é que você está de short. No mais, nem vi que sua bota era cano baixo. Homens não vêem essas coisas. —defendeu-se e caminhou para a varanda. —Como você vai? —questionou preocupado. Ele sempre esperava que ela fosse aprontar alguma arte, como criar bichos escondida, agenciar namoradas para o cachorro nas propriedades vizinhas, pular no lago sem roupa, caçar borboletas para soltá-las no seu quarto, prender pererecas, ralar o joelho nas pedras. Mas nunca sair para a noite escondida do pai.

Ela deu as costas e parou em frente ao espelho do quarto, marcando mais um pouco a sombra escura acima dos olhos.

—Minha avó vai me levar. Ela vai me cobrir. Papai nem mesmo vai perceber que não estou em casa... Ele nunca percebe. — adicionou fingindo indiferença. Olhou-o de lado e flagrou-o observando-a. —Você não é um bom amigo —acusou com drama teatral. —Eu preciso de uma opinião masculina porque quero ser notada por um garoto —destacou. Ele arqueou uma sobrancelha especulativa. Ela nunca usava maquiagens, e ele achou estranho... E diferente. Um pouco bonito, talvez. —Droga, o que eu tenho de errado? Daqui uns tempos chego à maioridade e nenhum menino olha para mim! Eu devo ser tão desinteressante como uma cadeira —reclamou dramática. Ele entrecerrou os olhos surpreso. Não conhecia esse seu lado inseguro. Ela sempre pareceu resolvida consigo, nunca foi muito ligada à beleza. Mas desde que Paul virou o alvo da maioria das meninas, ela insistia em fazer parte da disputa para se afirmar como garota.

—Os meninos olham para você —ele assegurou para adulá-la.

—Quem? —desafiou com a sobrancelha arqueada.

Ele moveu-se em dúvida, pensativo.

—O Mike —citou incerto. Ela riu desiludida.

—Ai ai, o Mike —zombou. —Ele não passa de um metido, pomposo e almofadinha.

—Paul também é almofadinha.

—É, mas Mike seria o último menino a quem eu beijaria. Eca! Ele é um lambe-botas! Eu o conheço desde que eu tinha cinco anos! Isso é nojento! — Franziu o nariz e aplicou um batom vermelho. —Além disso, os meninos me tratam como uma respeitável irmã, sempre pedindo minha ajuda como cupido —relatou ressentida. —Todas as minhas amigas já tiveram mais experiências que amassos no muro. Eu nem ao menos fui beijada! —reclamou. Fosse por ela ter jeito masculino, por gostar de bichos exóticos, por ser muito magra e alta, por ser filha de um homem déspota ou por ser rica, algo nela espantava os meninos, e Bella se ressentia com a rejeição. —Até você já deve ter beijado, Edward —acusou. —Podia ajudar sua amiga renegada!

—Ô Khui! —amaldiçoou sob sua respiração. Bella olhou-o repreensiva e aproximou-se, tocando seu antebraço.

—Não fique xingando em russo. Eu sei o que significa. —desaprovou com doçura afetada.

—Bella... —ele olhou a mão no seu antebraço e se deteve como se tivesse esquecido o que iria lhe dizer. Afastou-se arisco, deixou o quarto, contrariado, e desceu da varanda pela árvore.

Nove da noite, Bella sentou-se fascinada no bar na beira da estrada, do outro lado da cidade. A danceteria era o point para os jovens caipiras das redondezas. O salão rústico de três andares tinha a animação de danceteria no térreo e ambientes discretos e íntimos no segundo andar, cheio de sofás e reservados. Depois de ser deixada pela avó com a recomendação de que Bella ligasse quando quisesse ir embora, a avó foi para a casa de amigas jogar baralho apostado. Bella desconhecia algo desconvencional que a avó não fizesse. Ela bebia cerveja, fumava charuto, namorava pela internet, flertava homens mais novos e usava blusas muito decotadas.

Animada com a novidade de estar só, à noite, e em um bar, Bella perambulou por todos os ambientes da casa noturna. Avistou Edward, Jasper e Rosalie no balcão do bar. Edward foi o primeiro a registrá-la, balançou a cabeça em negativa e caminhou em direção a ela.

—Você veio — acusou ao interceptá-la no meio do salão, onde dezenas de pessoas dançavam. Ela sorriu alegre e surpreendeu-o com um abraço, os braços em volta do seu pescoço.

—Sim. Eu vim mesmo sem sua ajuda— provocou-o e deu-lhe um beijo estalado no rosto. —E feliz aniversário, seu ingrato! —Apertou a bochecha na sua contente por aquela sensação de liberdade, de poder abraçar seu amigo num lugar público e ninguém dar ao menos um segundo olhar. Ele recebeu o abraço incomodado e tentou afastá-la, tenso e preocupado. Ela o abraçou mais e deitou a cabeça em seu ombro, sentindo-se estranhamente feliz. O perfume familiar dele envolveu seu nariz. Ela registrou vagamente o som em volta, as pessoas dançando e sorriu contra o seu pescoço. Tocava Adelle. I Can't Make You Love Me.

—Estamos dançando — noticiou alegre. Ele desfez cautelosamente do abraço, deu um passo atrás e ganhou distância.

—Vamos para perto de Jasper e Rosalie — ele instruiu antes que algum funcionário da escuderia os visse e tirasse conclusões precipitadas. —Tenta não chamar atenção e não é para beber — exigiu sério. Por ser bar de interior, o estabelecimento fazia pouco caso da lei de bebidas a menores. Ela sorriu e segurou sua mão até chegarem ao balcão. Cumprimentou os gêmeos, foi recebida com indiferença por Rosalie e com afeição por Jasper. —Fica por aqui que eu vou dar uma volta —Edward avisou, sem saber como se comportar naquela situação inusitada.

Bella pediu um refrigerante para si, mas convenceu o atencioso Jasper de deixá-la experimentar a cerveja que ele bebia. Tomou meia garrafa no bico querendo parecer descolada. Rosalie olhou-a surpresa com sua mudança repentina. Bella costumava ser discreta e vestir-se com calças jeans e camisas. Edward registrou quatro dedos de sua barriga de fora à distância com profunda desaprovação, temendo que ela arrumasse problemas quando foi ao banheiro e rapazes lhe cercaram. Um deles parou na frente dela e segurou seu rosto com as duas mãos.

—Gata, você tem o rosto exótico que é o sonho de consumo de qualquer fotógrafo. Que boca é essa! — elogiou-a com um riso bêbado, sacou algo no bolso e ofereceu um cartão a Bella. —No dia que você tiver a fim de ganhar um dinheiro extra é só me procurar. Jean, meu nome —piscou e voltou para perto de seus amigos, jovens que pareciam forasteiros, com jeito de viajados e sofisticados que cresciam em clubes de golfe e tênis. Bella sorriu grata, guardou o cartão no bolso traseiro e foi ao banheiro. Quando voltou, outro grupinho de caras familiares interceptaram-na.

—Bella? —Mike questionou surpreso. —Eu não acreditei que era você! —Pôs o braço sobre o ombro dela possessivamente e mediu-a de cima abaixo.

—Sua amiga, Mike? — Paul questionou. Bella olhou-o surpresa por vê-lo descomposto, com a camisa aberta em três botões, bebendo uísque no bico. Notou um brilhante anel de diamante no seu dedo mindinho e quis perguntar o que significava. Se era uma jóia da família ou se tinha algum outro significado.

—Sim. Crescemos juntos — vangloriou-se orgulhoso.

—Fiu, fiu! —Paul assoviou cheio de aprovação masculina no olhar. Bella remexeu-se desconfortável. Suas incomuns pernas longas e fortes chamavam atenção, quando o comum naquela região eram garotas baixas, de tornozelos roliços e coxas grossas como Rosalie. —Queria saber o que é beijar uma garota que tem sua superioridade afirmada diante das outras — Paul gracejou um trocadilho. Bella sorriu lisonjeada, despediu-se e foi sentar-se próxima a Rosalie novamente, exibida e segura, movendo os quadris em convite à apreciação, um pouco tonta por ter bebido de estômago vazio.

—Tira o olho, cara, é a filha do Charlie —alertou Mike.

—Sério? Esta é a Isabella? —Paul questionou com um novo brilho nos olhos.

—Sim.

—O que deu nela? —indagou com renovado interesse. As comuns tranças ruivas não faziam mais parte do conjunto. Seus cabelos cheios e livres dava-lhe o ar sexy e indomável.

—Diga com quem tu andas que eu digo quem tu és —zombou Mike. —Se ela anda com meninas maliciosas e de fácil diversão, no popular, com putas, é o que ela se torna. Ela é prima da Jéssica.

Edward ouviu a conversa encostado à parede com revoltada hostilidade, mas decidiu deixar de lado o caso. Não se intrometeria. Bella voltou a beber com Jasper, Edward observou e deu de ombros impotente. Era uma escolha dela. Ela queria quebrar regras, então que passasse pela experiência. Bella sorriu de canto, flertando Paul.

Edward sentou-se em silêncio ao lado dela, disposto a protegê-la discretamente. Perto deles, um bando de caipiras dividiam a atenção de garotas alegres e de vida fácil. Profissionais do sexo oferecendo-se em shorts curtos, chapéus e camisas amarradas na frente. Uma delas cercou Jasper, convidando-a ao discreto terceiro andar. Edward e o irmão eram os únicos no bar que eram indiferentes ao olhar sugestivo de quem se oferecia para o prazer.

—Olá, Jasper —Paul cumprimentou o moço louro. Jasper assustou-se com o cumprimento do panaca que costumava ignorá-los, mas devolveu o cumprimento. —Sua irmã? —Paul apontou Bella com fingida camaradagem.

—Não. É Isabella Swan. Filha do Charlie Swan. Nosso patrão —enfatizou tranquilo, destacando a inacessibilidade da garota. Olhe de longe, almofadinha!

—Ela está com vocês?

—Não —negou incerto. —Ela está só, acho — Olhou Bella, depois Edward. Sabia que a amizade deles, filhos de caseiros e de patrão, não devia ser exposta. —Eu vim comemorar o aniversário do meu irmão —improvisou apontando para Edward, que tinha o olhar duro no copo que segurava. —Ela é Swan. Não se mistura com empregados —segredou.

—Então parabéns! —Paul aumentou uns decibéis e pousou o braço forçosamente em volta dos ombros de Edward, encarando Bella.

Edward afastou-se numa clara rejeição a contato e fez um gesto de desprazer a Bella, comunicando com o olhar que ela conseguiu o que queria. Acenou frio e afastou-se novamente para uma área mais isolada, com mesas altas e poucas luzes amareladas.

Bella encolheu-se sob o olhar sugestivo e cheio de significados de Paul. Nunca tinha sido olhada assim. Devia ter registrado o alerta. Seu estômago vibrou como tivesse tragado dezenas de rãs saltitantes. Rosalie sorriu e deixou-a. Jasper deu de ombros e afastou-se, porque sabia da paixonite de todas as meninas por Paul. Bella mexeu as mãos uma na outra nervosamente.

—E então, você é filha do Charlie?

—Sim.

—Ele realmente tem que esconder você muito bem —comentou casualmente. —Se eu tivesse te observado atentamente, teria terminado o noivado há mais tempo —Tirou um fio do rosto de Bella e pôs atrás da orelha.

O toque de Paul a incomodou. Acostumou-se tanto a ser intocável e olhada como a filha do chefe ou como a protegida garotinha, que se sentiu desconfortável com o atrevimento.

—Então este anel de diamantes no seu dedo é o anel de noivado? — questionou para ter um assunto.

—Sim. A vadia não merecia ficar com nada meu. — Deu um sorriso sombrio, depois olhou Bella com olhos brilhando. Bella sorriu sem humor. Não gostou de como ele falou da ex namorada. No mínimo deviam ter brigado hoje, depois dela ver todas aquelas meninas lideradas por Jéssica ser muito óbvias nas investidas. Bella também esteve deslumbrada por sua beleza, mas agora que o conhecia, o fascínio acabou como uma nuvem de fumaça.

—Você não deve ter me notado porque pouco vou aos testes. Fico mais na mecânica —justificou-se e olhou em volta. Presenciou o momento em que Edward subia as escadas com uma mulher com a aparência de uns 30 anos de idade. Nunca suspeitou de seu interesse por mulheres mais velhas. Aliás, sempre notou que garotas novinhas o entediavam. Ele não dava um segundo olhar a tímida Ângela, que vivia suspirando por ele.

O casal subia de mãos dadas. Ele olhava-a com fascinação. Bella experimentou uma contração no estômago de apreensão. O que fariam lá em cima? Edward saberia como agir? Vovó sempre disse que rapazes novinhos se apaixonavam fácil por mulheres experientes porque elas sabiam o que fazer. Ele estaria preparado para não se envolver?

—Você quer dançar um pouco? —Paul convidou estendendo a mão.

Bella olhou incerta para sua mão e olhou mais uma vez para o corredor em que Edward sumia no segundo andar.

—Pode ser.

Segurou sua mão e acompanhou-o, sentindo-se inexplicavelmente fria, com calafrios percorrendo seu estômago. Uma música de James Blunt, you ́re beautiful, iniciou-se. Paul olhou-a com estudiosos olhos, segurou sua cintura e iniciou a balada lenta. Ela desviou o olhar do seu, os pensamentos preocupados com Edward.

—Você tem namorado? —Ele questionou baixinho, o rosto próximo a sua orelha. Ela afastou-se inconscientemente, rejeitando a proximidade.

—Não —negou distante. E embarcaram numa série de assuntos em que Bella respondia mecanicamente, o olhar ausente com um sentimento que não compreendia. Seu olhar seguia compulsivo para o segundo andar.

—Quer dar uma volta? —Paul convidou, apontando para fora. Ela assentiu distraída. Ele passou no balcão, pegou mais uma bebida e segurou a mão dela, conduzindo-a para a área externa. O vento frio surpreendeu-a. Quis cobrir-se e ter de volta suas confortáveis roupas. As árvores da reserva em volta deixavam o clima mais frio. Bella abraçou-se odiando o frio. Paul percebeu seu desconforto, seus braços arrepiados, pôs o braço sobre seus ombros e afastou-se mais do bar, rumo ao estacionamento.

—Meu carro está ali... — ele apontou. Um alerta vibrava no canto do cérebro de Bella. O efeito da cerveja deixou seus reflexos letárgicos. Ela notou vagamente entrar na caminhonete. Alguma música romântica começou a ser tocada. Ele disse algo, ela respondeu, mas não registrou o que dizia. Ainda lembrava-se do olhar de Edward. Ele nunca olhava a nada nem a ninguém daquele jeito.

Percebeu o toque de Paul no seu braço, mas não deu atenção. Lembrou-se que Edward raramente lhe tocava. Normalmente era ela que forçava toques e abraços. Ele relutava em devolver o afago. Sempre a tratava com respeitável cautela. A única vez que o viu vulnerável, foi quando eram crianças, no lago de gelo. Desde então, ele nunca permitia que suas emoções fossem dissecadas e analisadas por ninguém. Era um rapaz sem relacionamentos. Por que então ele sorriu para aquela mulher?

O fôlego de Paul balançou seus cabelos. Ele dizia algo sobre seus cabelos avermelhados, sua pele clara, olhos azuis, mas ela ainda diluía o sentimento de ter o amigo dando atenção à outra mulher. Uma compreensão estranha apertou seu peito. A mão de Paul tocou seu joelho, e ela recebeu na bochecha um beijo molhado. Foi puxada de volta à realidade. Ele estava inclinado sobre ela.

—Paul... —chamou-o e empurrou seu peito. Ele pousou o nariz em seu pescoço e subiu com a mão por suas coxas. —Paul.

Seu corpo forte subiu sobre dela e imobilizou-a no banco da caminhonete. Ela tentou capitular como agiriam suas amigas: se aproveitariam o momento ou se agiriam com ofendido recato. Paul beijou sua boca, enfiou a mão em sua camisa. O cérebro de Bella parecia cheio de água. Novamente seus pensamentos pairaram em Edward, no que ele estaria fazendo no andar superior. Ele faria sexo com ela? Ele a tocaria com carinho? Bella não sentiu nada com os beijos úmidos de Paul, nenhum arrepio ou contrações no estômago. Ele não a despertava da comum indiferença física. Não a atraía. Será que ela era gay? Ou seria frígida? Suas colegas sempre falavam do pulsar lá embaixo, do calor no pescoço. Mas Bella nada sentia. Nem a comum curiosidade.

Antes que ela se desse conta, foi virada de lado, com a cara no encosto. Bella sentiu instintiva resistência, mas não queria agir como uma virgem inexperiente. Suportou passiva ele deitar às suas costas e beijá-la na nuca. Paul era o sonho de consumo de todas as meninas da cidade. Talvez fosse só carinho, afinal.

—Você é como sua prima...? —questionou malicioso e apertou sua nádega. —Quer dar por trás para permanecer virgem igual Jéssica? —zombou, rodeou-a pelo cós e abriu os botões de seu short folgado. Ela assustou-se, o alarme percorreu sua espinha e balançou a cabeça, rejeitando o beijo incômodo na orelha. —O quê? — Ele riu, baixou seu short bruscamente, imobilizou-a de bruços, com o corpo sobre ela e enfiou a mão dentro de sua calcinha, molestando-a.

—Sai! —Remexeu-se embaixo dele, agora realmente apavorada, o som abafado pelo couro do sofá. Ele animou-se com o movimento e esfregou o órgão excitado nela. Ela arrastou-se, tentando se soltar. Seu joelho acertou o freio de mão, ela gemeu de dor. Ele puxou seu cabelo, puxou o braço dela nas costas, imobilizando-a rudemente, e terminou de tirar o short e calcinha. Bella não acreditou no que ia acontecer. Ele apertou fortemente seu braço. Ela começou a chorar de dor, humilhação e vergonha. Como foi que chegou a esse ponto?

Fechou os olhos e abstraiu-se mentalmente para não registrar o que ele fazia. Chorou em pânico, sacudiu-se, rejeitando-o, e ouviu o som dos seus próprios gritos ser abafado quando a porta se abriu bruscamente e Paul foi arrancado de cima dela. Ela encolheu-se no banco e continuou a chorar. Sons de rosnados, imprecações e um corpo batendo contra o carro foram ouvidos. Ela chorou mais, horrorizada.

Quando os sons de gemidos e socos diminuíram, ela finalmente ergueu-se e vestiu a roupa. Novamente composta, olhou para fora. Os olhos de seu salvador estavam irreconhecíveis. E agora ela teve dúvida se ele era realmente seu salvador ou seu algoz.

—Piranha! —ele xingou-a entre dentes. —Piranha como sua avó e sua mãe! —vociferou. Ela arregalou os olhou. Nunca o viu falar assim de sua mãe. —Se veste, vadia! —Olhou-a com repulsa. Desconcertada e humilhada, Bella baixou a camisa e abotoou desajeitadamente o short, nervosa e trêmula.

—Pai, eu não queria... —começou, mas calou-se ao ler o olhar de ódio.

—É uma puta! — Ele cuspiu no chão e olhou em volta. Paul jazia no chão, encostado com o nariz sangrando no pneu da caminhonete. Bella olhou envergonhada para Sam, que ainda usava o macacão da escuderia. Outros dois funcionários os acompanhavam. Notou Jasper e Edward no canto escuro, ambos com postura assassina, mas contidos. Ela baixou o olhar vexada por ser presenciada naquele estado. Edward encostou-se à parede do fundo do estabelecimento, com olhos frios e hostis em direção a Charlie. Seus olhos cinza de menino mau falavam mais que seus lábios, mas ele não manifestou sua ira. Não podiam chamar atenção de Charlie com a amizade entre eles. Charlie descontaria em sua família.

—Leve este traste daqui e lhe dê uma lição —Charlie instruiu a Alistair. Alistair, um dos funcionários mais antigos de Charlie, colocou Paul na parte traseira da caminhonete, tempo em que Bella descia abatida do carro. Ela encolheu-se atrás de Charlie, os olhos no chão. Sentia o olhar de seu pai como se queimasse, como se gritasse sua decepção. Preferia que ele batesse nela e que a tratasse com violência ao invés do olhar frio e acusador. Aproveitou a distração do pai, quando Alistair assumiu o volante da caminhonete de Paul com outro funcionário, e passou uma mensagem de texto rápida para a avó explicando que iria para casa mais cedo e que em casa lhe explicava tudo. Não deu mais informações para não preocupar a avó.

O trajeto para casa tinha o ar pesado como se uma nuvem do mal pairasse sobre eles.

—Sobe para o seu quarto, sua sonsa! —Charlie demandou grosseiramente logo que estacionou. Ela desceu cabisbaixa e foi recebida na silenciosa casa pelo afetado mordomo. Bella passou por ele segurando as lágrimas e atravessou a sala. Ouviu parte da instrução do pai ao mordomo. —Confisque o celular, não a deixe falar no telefone fixo e corte a Internet! Quero ela isolada no quarto, de castigo e sozinha! —avisou e também foi para o seu quarto. Bella fechou a porta de seu quarto e encostou-se nela. Pôs a mão no estômago e dobrou-se sobre si, chorando convulsivamente.

Tinha prometido para si não chorar com as agressões verbais, frieza e humilhações de seu pai, mas a série de acontecimentos da noite não a permitiu ficar indiferente. Ouviu o barulho da caminhonete velha do administrador estacionar. Estragou a noite de todos, deduziu amarga. Acendeu a luz do quarto e da varanda, trancou a porta e sentou-se na cama com as costas na parede. Não queria que Edward viesse ao seu quarto e a visse tão degradada. Tirou a roupa no automático, tomou um banho e lágrimas se misturaram com a água da ducha. Sempre se dava uma desculpa para as maldades de seu pai, mas não havia desculpas. Ele a repugnava por alguma coisa que não entendia.

Depois de vestir o pijama longo, ela deitou-se na cama e relutou em apagar a luz. Temia a solidão e o escuro. Só a consolava saber que Edward viria, se todas as luzes estivessem apagadas. Ouviu outro som de carro chegando. Vovó Dwyers. A seguir, gritos foram ouvidos, xingações. Bella tampou o ouvido com travesseiros para não ouvir a discussão entre eles. Sabia que o pai não agrediria fisicamente a avó, mas iriam atingir-se até alguém se dobrar. Vovó nunca se dobrava. Era a última a ter a palavra, e Bella não compreendia porque o pai não a expulsava.

Depois que os sons se cessaram, Bella ouviu passos nas escadas, então toques suaves em sua porta.

—Bella... —vovó chamou suavemente. —Preciosa, abre a porta para conversar com a vovó.

—Agora não. Amanhã falamos —Bella pediu baixinho.

—Ok, minha libélula. Até amanhã. —despediu-se.

Bella suspirou e deitou-se. Esperou que novas lágrimas viessem, mas já estava mais calma. Apagou a luz no interruptor ao lado da cama. Só o abajur ficou ligado. Esperou até que estivesse pronta para ver Edward. Apagou a luz do abajur e espremeu bem os olhos. Esperou. Esperou até que ouviu seus passos. Ele entraria sem fazer barulho, mas sempre a alertava de sua presença.

—Hei. —Ela saudou-o acanhada. Sentiu o peso mudar na ponta da cama solteirão. Esperou-o falar algo, mas ele não falou. O silêncio entre eles era sempre confortável, mas hoje ela não queria o seu silêncio. Queria que ele lhe censurasse, lhe condenasse por ter dado ideia para Paul e jogasse em sua cara que avisou que ela não deveria ir. Ele ofereceu-lhe um tubo de chocolate Toblerone. Ela recepcionou e pôs sobre a mesinha. Este era seu meio de comunicar que a queria bem. Era um código de amizade. Ela arrastou-se na cama, sentou ao lado dele e encostou a cabeça em seu ombro.

—Me abraça — suplicou humilde. Sentiu sua relutância, mas ele estendeu a mão e rodeou seus ombros. Ela inspirou profundo ao sentir seu familiar e quente aroma. Ele cheirava a couro de carro novo e sabonete de limão. Usava uma colônia de farmácia, réplica do perfume Kouros. —Ele me...Eu não queria... —Bella começou.

—Eu sei —calou-a ríspido, tenso com a compreensão. —Eu o mataria dez vezes, se tivesse oportunidade —rosnou baixinho. Bella procurou censura em sua voz, mas só encontrou compreensão e solidariedade. Depois de tudo, ele era seu amigo. Cúmplices e sobreviventes.

—Está tudo bem agora. —Ela sentiu-se no dever de tranqüilizá-lo. Ele tinha a respiração agitada. Seus músculos tremiam. Ela passou os braços em volta de sua cintura comodamente, aconchegando-se mais. Ele esfregou os dedos em suas costas, distraído. Ela suspirou deliciada. —Eu vi você subir para área reservada com uma mulher. —comentou para mudar de tema. Sentiu-o ficar rígido e afastar-se. —Desculpe. Eu não queria bisbilhotar. É que é estranho ver meu amigo que conheci criança, fedendo a sol e calabreza, começar a ter vida sexual. Dá certo sentimento de proteção... Até um pouco de ciúmes —confessou naturalmente.

—Ciúmes? —questionou cético.

—Sim. Ciúmes bom, é claro. Aquele ciúmes de irmão, de amigo —explicou. — A gente nunca quer crer que as pessoas ao nosso lado amadureceram. Às vezes tenho ciúme até do Wolf quando ele está flertando algum rabo-de-saia por ae —gracejou recuperada, sorriu tímida e abraçou-o mais, abrandada e calma. Queria poder ficar assim, abraçada a ele até esquecer. Ele afastou-se após um tempo e levantou-se em silêncio, anunciando sua saída.

—Dorme aqui —pediu ela suplicante. —Faz dias que você não fica a noite toda —fez drama.

—Nos próximos fins de semanas, chame alguém para lhe fazer companhia —aconselhou prestativo. — Esme sempre se preocupa quando eu venho aqui. E eu sei o quanto você não gosta de ficar sozinha.

—Eu prefiro que seja você. Pelo menos eu sei que você gosta de mim como sou.

—Sim. Eu gosto —acentuou enigmático.

—Então fique. Com você aqui eu não tenho medo do escuro —bajulou-o sorrindo na escuridão do quarto. Ele suspirou incerto. Ela aproveitou sua dúvida, levantou-se, ligou o abajur e puxou a cama auxiliar. —Quer um pijama meu? —gracejou.

—Não —negou sem sorrir. Sob a luz clara do abajur, o fino pano do pijama dela revelava a silhueta dos altos seios, destacando a suave marca dos mamilos. Edward pegou-se olhando-os e imaginou Paul machucando-a. Sua mandíbula travou de ódio.

—Você está com nojo de mim? —questionou insegura. Interpretou seu olhar como repulsa.

—Não. Você é só vítima de mais um almofadinha! —rosnou revoltado. Seus olhos irados deram a Bella a impressão de que sua revolta ia além daquela noite.

—Okay, então vamos dormir. —Desviou o assunto. Não queria vê-lo tão furioso. Ela lhe estendeu um edredom, foi até a varanda e encostou a porta. Deitou de bruços na cama e observou-o deitado na cama auxiliar. —Você é meu tesouro —declarou baixinho. —Ninguém sabe que o menino quieto, de olhos indiferentes, esconde uma pérola dentro da concha. —expressou sorridente e passou a mão carinhosamente em seu braço.

—Por que você diz isso, Bella? —questionou baixo, o olhar distraído no teto.

—Você se preocupa comigo, mesmo que aparente descaso. Não me censura, não me nega nada, verdadeiramente. Eu me sinto protegida perto de você —declarou calorosa.

—Eu não te protegi esta noite —lembrou amargo. —Odeio o Swan — declarou hostil. —Ele devia ter te protegido, não te humilhado mais!

—Você está aqui agora. Isso é o que importa.

Ele desviou o olhar do teto e fixou-o intenso sobre ela, limitando-se ao silêncio. Ela sorriu acolhedora e estendeu a mão para alcançar a dele. Ele afastou-se de reflexo. Os toques dela sempre o alarmavam. Ela insistiu e sequestrou sua mão grande e calosa, suspirou tranquila e fechou os olhos, acomodando sua mão entre as suas junto ao seu peito como se ele fosse seu maior bem. Ele lutou para ficar indiferente ao tato dos seus seios soltos no pulso, mas foi impossível. Ela não era mais uma menina. E sua ausência de malícia o assustava.

No meio da madrugada, ela sentiu sua ausência no quarto, mas já estava em sono profundo. Acordou no dia seguinte pronta para um novo dia. Trocou de roupa e desceu para tomar café. Quando descia as escadas, cruzou com a avó subindo, apressadamente, com a mesma roupa da noite anterior.

—Bom dia, vovó.

—Bom dia, preciosa. Depois falo contigo. —Caminhou rápido para o seu quarto no fim do corredor.

Bella deu de ombros e desceu para o térreo. Encontrou o sisudo criado, que puxou a cadeira para que ela sentasse, depois lhe serviu chá com bolo, sem uma palavra.

—Papai já saiu? —Bella questionou acanhada.

—Ele dormiu no alojamento. E você hoje não pode perambular por aí.

—Uhum —assentiu com um gemido, cortou o pedaço de bolo e comeu. Serviu-se de queijo e abriu o pote de Nutella. Um grito saiu de sua garganta ao registrar o que tinha dentro. Sobre a superfície, havia um dedo mindinho masculino com um anel de diamantes.

O anel de noivado de Paul.

O dedo de Paul.

Deus, por favor, não!

Que não tenha acontecido de novo!


Continua...

Notas finais
Olá, leitores,
espero que tenham gostado.
Continuarei postando mensalmente. Me adicionem no face e participem do conto da Bia Braz no facebook.
Espero que tenham paciência.
Grande beijo.