Coração é terra que ninguém vê
31 Botando as garras de fora
Selina estava impaciente com o sumiço de Bruce. Ela decidira não procurá-lo porque seria provável que ele estivesse em alguma de suas investigações sigilosas. O Departamento de Polícia de Gotham era conhecidamente um antro de corrupção, logo, não a surpreenderia se ele a estivesse usando para distrair as atenções enquanto ele se esgueirava pelo local em busca de pistas.
Mas depois de quase duas horas de ausência, a sedutora mulher de olhos profundamente verdes – como esmeraldas – começou a perder a paciência. A polícia não a via com bons olhos e a high society de Gotham era irritante e só lhe fornecia alguma diversão nas ocasiões em que ela se apropriava de suas joias, mas este não era o caso.
Depois de meia hora, estar ali naquela festa – sem Bruce – era apenas entediante, mas somada com mais uma hora e meia da ausência dele, o tédio se transformou em fúria. Ela jurou para si mesma que usaria seu chicote em Bruce, caso ele não tivesse uma boa desculpa para deixá-la sozinha. E dessa vez, ela sorriu pra si mesma, não seria para satisfazer seus fetiches.
Ela observou quando Diana desceu as escadas elegantemente, chamando a atenção do salão. Havia um discreto sorriso no rosto da princesa, praticamente imperceptível para maioria, mas não para Selina. Miss Kyle acumulara experiência de sobra na vida para interpretar as pessoas. Ela recorreu à memória e lembrou que a amazona não estava a vista há bastante tempo – assim como Bruce. ‘E esse sorrisinho no rosto é indício de uma certa satisfação’, a Mulher Gato disse a si mesma.
Selina não era estúpida e sabia muito bem que Diana não é o tipo de pessoa capaz de permanecer incógnita em um ambiente em que ela está presente. Não havia dúvida: Ela também sumiu!
Diana era muito alta, elegante, incrivelmente curvilínea, irritantemente bonita e idolatrada por todos. ‘Se ela estivesse no salão de baile, haveria dezenas de idiotas rodeando-a e bajulando-a. Tenho certeza que ela não estava aqui’, Selina ponderou.
Seus olhos de repente se encheram de fúria quando, poucos minutos depois que Diana descera as escadas, Bruce executou o mesmo caminho. Dada a sua experiência, não foi difícil deduzir que ele estava com a Mulher Maravilha.
Selina Kyle não era o tipo de mulher que se sentia ameaçada por quem quer que fosse – mesmo que sua rival fosse a Mulher Maravilha. Deduzir que Bruce estava com outra mulher e não com ela estava longe de abalá-la. Pelo menos, não como abala a maioria das mulheres, que sofrem passivamente com a rejeição. Selina era uma lutadora que desde a infância teve que brigar com a vida e cuidar de si mesma. Saber que tinha uma rival acendera nela seu instinto de luta e não de recuo.
Não seria uma ‘princesinha imaculada e entediantemente perfeitinha’ que tirariam dela o que ela queria. Ela preferia não admitir para si mesma, mas ela sabia que Bruce amava Diana. Contudo, para sorte dela, ela também sabia que Bruce colocara sua princesa em um pedestal tão elevado de perfeição que acabara por não se achar merecedor dela.
De Selina não... Ela era tão quebrada quanto ele. Ambos tinham cicatrizes emocionais profundas, adquiridas desde a infância. Ambos tiveram que amadurecer antes mesmo dos dez anos de idade, por causa dos acontecimentos trágicos que lhes roubara a infância. Era como se olhar no espelho: um era reflexo do outro. E ela iria usar isso em seu favor.
Além disso, ela era absolutamente consciente do seu apelo sexual sobre Bruce e de sua capacidade de seduzi-lo, dada a intimidade sexual que compartilhavam a um bom tempo.
Selina nunca quis um relacionamento com quem quer que fosse, nem mesmo com Bruce. A verdade é que ela achava o Batman mais excitante que sua versão sem capuz. Não é que ela não gostasse de Bruce, afinal ele era incrivelmente bonito, rico e um amante vigoroso. Mas o morcego lhe despertava os sentimentos mais luxuriosos e a relação gato-rato deles sempre deu certo, sem cobranças, sem apegos.
Contudo, há um certo tempo, ela experimentara sentimentos que nunca havia sentido antes. Ela começou a se sentir sozinha; a querer a companhia de alguém, um amigo, um amante. E ela percebeu que sempre amara Bruce, mas mantinha a distância para proteger-se de seus próprios sentimentos – o que por si só é irônico, já que Bruce também é bem versado nessa postura de afastar as pessoas que ama.
Ela e Bruce estavam distantes a um bom tempo até que um certo dia, ele resolveu aceitar sua proposta sedutora para sua cama e, diferente de antes, algo havia mudado. Ela sempre apreciou as noites quentes com o Batman ou Bruce em sua cama, mas de repente ela queria mais. Ela o queria para si... E se fosse preciso, ela não hesitaria em tirar a princesinha de seu caminho.
(...)
Bruce beijou o rosto de Selina e recebeu de volta um sorriso sedutor. Selina era uma perita em esconder as emoções e não deixou que ele percebesse qualquer sinal de fúria em seus olhos. Ela viu Diana sorrindo para um homem louro que a acompanhara e discretamente manteve os olhos sobre a amazona. Era hora de dar o primeiro passo para tirar Diana do caminho que a levaria até seu prêmio: Bruce Wayne.
Diana e Tom estavam no bar, conversando amigavelmente. Selina logo percebeu, pelo olhar do loiro atraente que ele estava apaixonado pela princesa – ‘Qual o problema desses homens? Ela é tão certinha que uma noite de sexo com ela deve ser entediante... Se bem que a princesinha não deve fazer sexo, ela só deve fazer amor. ’, ela bufou em pensamento – Era mais uma carta em sua manga.
Selina convenceu Bruce a acompanhá-la até o bar. Ela disse que estava entediada e precisava de uma bebida. Propositalmente, ela se aproximou de Nêmesis e Diana, simulando uma atitude amigável para lhes fazer companhia. Catwoman percebeu imediatamente a tensão se instalar nas expressões de Bruce e Diana. Eles disfarçaram bem o desconforto, mas não o suficiente para enganá-la.
— Então, me digam vocês dois... Vocês estão namorando? – Ela exibiu um sorriso curioso – Não me poupem dos detalhes sórdidos. Eu adoro conversas apimentadas e esta festa está ridiculamente monótona.
— Não! Nós não somos um casal. Somos só amigos – Diana negou rapidamente, deixando Tom um pouco desapontado.
Ele dirigiu o olhar para Bruce, encarando-o:
— Senhor Wayne, é um prazer finalmente conhecê-lo. Diana sempre fala muito bem de você – Bruce abriu um sorriso ao saber que ele era um tema presente em sua vida – Mas eu confesso que ainda tenho dúvidas. Eu não quero ofender, mas a sua reputação não é das melhores. Na verdade, é das piores...
Tom sentia um ciúme crescente de Bruce à medida que seus sentimentos para com Diana aumentavam proporcionalmente. Ele não foi capaz de conter a necessidade infantil de ofendê-lo que o estava dominando ao ver Bruce em sua frente.
— Outch! Essa doeu! – Selina provocou. Ela esperava justamente esse tipo de saia justa quando resolveu se aproximar de Tom e Diana. Ela queria provocar todos quanto pudessem e fazer sua jogada de mestre para plantar a semente do ciúme em Bruce, Diana e Tom.
— Sua reputação o precede, Bruce, querido. Mas eu confesso que eu considero essa a sua melhor parte. – Selina continuou, fazendo questão de abraçar seu acompanhante e sussurrar algo em seu ouvido, mordendo o lóbulo da orelha, para que Diana visse o quanto eles eram íntimos.
— Me chame de Bruce – Ele exibiu um sorriso propositalmente superficial para Tom – Bom... Se a princesa não fosse um farol de verdade, senhor...??
— Thomas... Thomas Tresser – Tom respondeu.
— Bom, Thomas... Se eu não soubesse que a princesa é um estandarte da Verdade, eu poderia desmenti-la por espalhar o boato de que eu tenho virtudes – Bruce piscou para Diana, que riu timidamente, deixando Bruce e Tom encantados e Selina furiosa.
Tom e Selina partilharam o mesmo incômodo quando Diana exibiu um iluminado sorriso que se projetara não só nos lábios, mas também nos olhos, parcialmente apertadinhos, que lhe conferiam uma dose de ingenuidade absurdamente apaixonante. O jeito que Bruce olhava pra ela, apesar da sua simulação na pele do playboy ainda trazia no olhar um afeto que ele não conseguira esconder de duas pessoas tão perspicazes.
— Você é o homem mais generoso e altruísta que eu conheço, Bruce. Graças a você, centenas de mulheres e crianças têm sido assistidas. Foi você que me ajudou a realizar meu sonho de ajudar as pessoas – Diana exibia sua admiração por Bruce abertamente.
— Obrigada, princesa, mas eu ouso dizer que você é a única mulher que enxerga minhas qualidades. – ele piscou sedutoramente só para manter o papel de conquistador galante – Além disso, você é o anjo aqui. Eu só assino os cheques.
— Não seja bobo, Bruce – Os olhos de Diana ainda brilhavam – Você é muito mais que uma conta bancária. Você tem um grande coração.
— Bruce? O ‘meu’ Bruce? – Selina fez questão de interromper e destacar que tinha propriedade sobre o playboy mais famoso de Gotham. – Percebe-se que você não o conhece bem, querida. Não me leve a mal, mas eu o conheço profundamente, se é que você me entende, e definitivamente, Bruce só tem um interesse na mente: sexo.
Diana exibiu uma carranca e Selina se aproximou dela sutilmente para cochichar em seu ouvido, mas de forma que Tom ouvisse:
— O que ele fez por você não tem nada a ver com altruísmo, querida... Ele só quer levar você pra cama. – Ela sabia que não era isso, mas era preciso colocar dúvidas na mente de Diana e despertar o ciúme de Tom.
Diana estava visivelmente desconfortável e incomodada com a situação. Seu olhar já não era tão alegre. Agora ela estava olhando para baixo, evitando encarar Bruce e Selina.
Bruce estava começando a ficar furioso e por mais que quisesse interferir, ele não poderia sair do papel superficial de sua versão medíocre. Além disso, ele tinha percebido o jogo de Selina e, por experiência, era mais fácil levar as coisas do jeito que estavam do que desmenti-la e ela jogar mais veneno ainda sobre Diana, estragando tudo. Ele sabia que diferentemente de Selina, Diana era ingênua, romântica, sensível. O jogo duro de Selina poderia ser traiçoeiro se ela resolvesse que Bruce merecia sofrer e ser ridicularizado. Então, ele deixou de lado a vontade de fazê-la engolir as palavras e apenas sorriu.
— Mas se você e seu... amiguinho bonito quiserem se juntar a nós esta noite... – Selina continuou provocando – Eu garanto que você vai ter uma noção bem melhor de como ele é diabolicamente vigoroso. – Ela lambeu os lábios e roçou os dedos sobre o peito de Bruce.
— Chega, Selina... – Ele rosnou, irritado. Depois sorriu, voltando a si e ao personagem que tanto o incomodava – Nossos amigos ficarão constrangidos, minha cara.
Ela deu de ombros e sorriu, desdenhosa, olhando para princesa com um olhar de triunfo que dizia ‘esta noite, ele é meu’.
Bruce tentou fazer Selina parar, mas ela continuava a segurá-lo de forma sedutora, acariciando-lhe o peito, ronronando e lambendo sua orelha vez ou outra. Diana sofria a cada investida da morena petit, enquanto Tom parecia se divertir com o desconforto de Wayne.
Depois de um certo tempo, Bruce conseguiu tirá-la de perto de Diana, prometendo levá-la para dançar. Selina aproveitou-se do fato de que estava bêbada – pelo menos, aparentemente – e beijou Bruce com paixão, de forma que todos os olhares se voltaram chocados para o casal, dada a cena picante e exagerada de línguas expostas.
Nessa hora, tentando esconder o rosto com as mãos, Diana saiu do salão apressadamente, sem esperar por Tom. Ela não tinha tempo para se despedir... Algumas lágrimas já faziam seu caminho através das bochechas e ela sabia que não iriam parar. Ela precisava chorar tudo que guardara desde o início da noite.
Tresser só a vira correndo em direção a porta de saída. Ele queria deixá-la em casa, cuidar dela, dar-lhe a atenção e carinho que ela merecia. Ele tentou ir atrás dela, mas alcançar uma heroína com poderes de vôo não é uma tarefa fácil. Ele voltou ao salão para despedir-se de alguns oficiais do Governo e quase socou Bruce quando ele o procurou, aflito, querendo saber onde Diana estava – com uma aparente preocupação. Nêmesis simplesmente o ignorou e deu-lhe as costas. Era o melhor que ele podia fazer para não surrá-lo por magoar Diana.
Tom pegou o celular no bolso e digitou um número. Depois de mais de 20 tentativas, sem ter resposta, ele decidiu tomar seu caminho... Ele suspirou e desejou sorte a si mesmo!
(...)
*** Nova York ***
Diana estava ouvindo a campainha tocar, mas não tinha energia para se levantar. Já era tarde da noite, de qualquer forma e ela ponderou que não era hora para visitas. Ela decidiu que ia apenas deixar que o ‘convidado inesperado’ fosse embora.
Ela estava cansada. Havia voltado voando do baile de caridade em Gotham, onde Bruce estava aos beijos com Selina Kyle – com quem ele assegurava não ter um envolvimento, mas para todos os efeitos, era sua amante. Ela deveria entender Bruce. Deveria entender que era só um ato, que não era real, mas ela não podia mentir para si mesma. Não quando ela tinha o Laço da Verdade em suas mãos – com que se apegara assim que entrou no apartamento, como se fosse um rosário, servindo de auxílio às suas orações.
O som irritante da campainha continuou por mais de meia hora e, para piorar, com maior insistência. Ela gemeu e agarrou um travesseiro para cobrir a cabeça, que parecia prestes a explodir. Ela se perguntou como conseguiu atravessar o céu noturno entre Gotham e Nova York ilesa, já que estava completamente desnorteada.
Seu celular fora colocado no silencioso após dezenas de ligações de Bruce e Tom continuamente serem dirigidas a ela. Batman também insistiu com o comunicador até ela gritar que a deixasse em paz porque ela queria dormir. Ele se desculpou imediatamente e disse que ‘só queria ter certeza de que ela estava bem’, com uma voz cansada – o que a deixou mais triste.
Diana bufou e jogou o travesseiro longe. ‘Dane-se, Bruce... Você e suas amantes’, ela gritou e decidiu levantar para saber quem era o enviado de Hades que estava tocando a campainha. Ela saiu da cama ainda soluçando e recitando uma oração silenciosa a Afrodite que a ajudasse a esquecer Bruce.
Ela franziu o cenho ao abrir a porta, vestindo apenas uma camiseta velha com um emblema do Batman que dizia ‘team Bat’, num tamanho dois números maior que suas medidas. Ela não estava preocupada com sua aparência e seu estado de espírito melancólico lhe tirara completamente os filtros de bom senso para que ela cogitasse que precisava trocar-se antes de abrir a porta.
Tom olhou para visão primorosa da princesa na porta. Ela usava uma camiseta básica preta de mangas curtas que cobria-lhe apenas as partes do corpo permitidas pela censura, chegando apenas até o meio das coxas – ou menos. Não estava indecente ou apertada, contudo, Diana era uma mulher voluptuosa e em certos lugares, isso se projetava, mesmo dentro de uma camiseta sem corte: os seios volumosos deixaram sua marca sensual, deformando o emblema do morcego, como se as asas fossem duas montanhas arredondadas e firmes.
Os pés descalços, o cabelo preso num coque desleixado – típico de quem o prendera por praticidade e não para fins estéticos – os olhos inchados e o rubor carmim acentuado das bochechas molhadas completaram a imagem marcante na visão do agente. Ela era linda sem ao menos se esforçar!
—Tom?! – Diana exclamou – O que está fazendo aqui?
— Diana... eu só queria me certificar que você está bem?! – Ele disse um pouco sem jeito, desconfiado das próprias ações e da timidez que ele nunca possuiu. Só ela era capaz de causar esse tipo de sensação nele: insegurança, encantamento.
— Sim ... Eu estou bem – Diana respondeu num tom mais vacilante do que pretendia.
— Bom eu... é... eu só... – Ele não conseguia falar.
— Você veio de Gotham até aqui só pra ver como eu estou? – Ela tentou sorrir. Foi uma atitude muito generosa de um amigo e Diana apreciava isso.
— Você sabe, Prince... Eu estava passando por aqui antes de voltar a Capital e decidi aparecer pra ver se você queria comer alguma coisa – Ele mentiu. – Eu posso entrar?
Só então Diana percebeu que eles estavam parados na porta. ‘Oh, Hades!’, ela suspirou internamente. Mas assentiu com a cabeça e fez um sinal com as mãos convidando-o para entrar.
— Bom, eu não sabia se você ia me receber, mas... eu trouxe algo que você gosta. – Ele mostrou a sacola com comida japonesa – Talvez a gente possa comer juntos... Eu ia te levar pra jantar, mas você saiu sem se despedir! – Ele soltou, temeroso que ela se afastasse com a menção ao baile em Gotham.
— Nossa, Tom, eu não estava esperando ninguém... Eu estou um desastre! – Ela deu-se conta de que estava vestida completamente fora dos padrões de decoro e bom senso.
— Prince, você vai precisar de mais esforço que isso pra chegar perto de parecer um desastre – Ele disse isso sem pensar e teve medo que ela recuasse, achando que ele estava dando em cima dela. – Você está bem, Diana?
Diana olhou para o par de olhos castanhos brilhantes e preocupados com ela e desabou:
— Não, Tom... – As lágrimas voltaram com mais força – Eu não estou bem... Eu não estou, Tom.
Tom a envolveu num abraço protetor e sentiu as lágrimas molhando seu terno. Os soluços dela o angustiaram. Tudo que ele queria era dar-lhe conforto e o amor que ela merecia... E surrar Bruce Wayne!
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