Coração é terra que ninguém vê
32 Cego (de ciúme) como um morcego
Notas iniciais
— Não, Tom... Eu não estou bem!
As palavras de Diana não saíram da mente de Thomas Tresser. Ele podia sentir a dor revelada naquelas palavras. Elas lhe disseram muito mais do que a voz de Diana se propunha a dizer. Sua voz, sempre firme, apesar de aveludada, estava falha, sussurrada, revelando a ele o quanto suas emoções estavam fragilizando-a, roubando-lhe as forças e a valentia inata de uma guerreira amazona.
O choro, abafado pelo terno, emitia um som quase inaudível e suave. Ele só fora capaz de perceber que ela inda estava chorando porque seu corpo se movimentava ritmicamente, embalado pelos soluços que vez ou outra ela emitia, buscando fôlego.
Ele precisou de toda força de vontade que tinha para manter-se focado na tarefa de confortá-la. Mas era difícil não deixar-se envolver pela necessidade crescente de beijá-la incessantemente, rompendo o caminho das lágrimas com beijos apaixonados e declarações do amor desmedido que ele sentia por ela. Ele queria poder dizer-lhe o quanto ela era especial e merecia todo amor do mundo. Queria poder sanar a dor que provavelmente Bruce Wayne tinha causado ao seu coração e que fazia com que Nêmesis o odiasse ainda mais.
Ele já havia percebido que havia algo entre eles. Que Diana tinha sentimentos pelo playboy e que Bruce parecia ser recíproco. O que ele nunca entendera é porque, apesar da evidente paixão que nutriam um pelo outro, eles não estavam juntos.
Para Tom, era inadmissível que um homem agraciado com a dádiva de ser o centro das afeições da princesa rejeitasse seu afeto. E ainda mais incompreensível era o fato de que esse sentimento era correspondido por ele. A questão era: ‘Por que esse idiota prefere não estar com ela?’, ele parou de pensar em Bruce e se concentrou em Diana e na necessidade de ampará-la.
Tom deu a ela seu olhar mais tenro. Ele nunca imaginou que pudesse fazer isso por uma mulher a quem desejara tanto. Há poucos minutos ele tentava se controlar para não passar dos limites, tomando seus lábios. E agora, ao invés de desejo, seus olhos emitiam um carinho tão afetuoso que o surpreendeu. Ele nunca imaginou que um homem como ele, completamente incrédulo e cínico graças aos percalços dolorosos da vida, poderia emanar um sentimento tão generoso e desvinculado de segundas intenções como o que ele estava dando a Diana naquele momento.
Ele só queria protegê-la, livrá-la da dor, fazê-la sorrir. Por mais que a desejasse, por alguns instantes, olhando em seus olhos, ele pode dedicar-lhe um sentimento tão forte, carregado de afeto e cuidado, que era capaz de suprimir a vontade primitiva de possuir a mulher de seus sonhos, em trajes mínimos, rodeada pelos seus braços.
— Então, você vai me dizer o que está acontecendo? – Ele disse calmamente, dando a ela uma xícara de chocolate quente que acabara de fazer.
Eles sentaram no sofá da sala e Tom não deixou de notar que Diana não se dispôs a trocar de roupa e colocar algo mais adequado. Ela graciosamente tomou um gole do chocolate e olhou pra ele, com um sorriso tímido, mas ainda sim, um sorriso.
— Eu devo estar horrível, não é? – Apesar da pergunta, os olhos não pareciam mostrar preocupação com a aparência.
Nêmesis sacudiu a cabeça, numa mistura de divertimento e preocupação. Então, com uma voz macia, ele perguntou novamente o que aconteceu.
— Nada, Tom... Não aconteceu nada – Diana fungou – Eu acho que me excedi com o champanhe e, do nada, me deu uma vontade ridícula de chorar. Deve ser saudade de casa, da minha mãe das minhas irmãs – ela baixou os olhos – Eu saí de lá correndo para não parecer estúpida... Sinto muito não ter me despedido.
— Nada, Diana? Sério? – Tom bufou. Ele não acreditou em nada disso. – eu não vou insistir em uma coisa que você não quer explicar... É evidente que você não confia em mim o suficiente pra me dizer o que está havendo, mas, pelo menos, me deixe ajudar! – Ele tentou não revelar o desapontamento e sua voz. A omissão dela foi interpretada por ele como se ele sequer fosse um amigo pra ela.
— Não, Tom... Por favor, não... Eu... não é isso! – Ele percebeu que ela ia começar a chorar de novo e se arrependeu do que disse, se aproximando dela para pedir desculpas.
— Eu sinto muito... – ele baixou os olhos.
— Eu confio em você, Tom. Eu confio de verdade – ele percebeu a sinceridade em sua voz – Mas agora, eu estou muito confusa sobre tantas coisas. Eu... Só estou cansada... Muito cansada.
— Eu entendo, Diana... Eu realmente entendo, mas me incomoda ver você sofrendo sem poder fazer nada. Eu só quero poder fazer alguma coisa por você. – Diana nunca o vira tão emocionalmente sensível – Eu queria entender o que está havendo pra poder te ajudar, mas se você ainda não está pronta pra se abrir comigo, eu posso entender.
Ela sorriu, bagunçando o cabelo e depois a barba loura por fazer de Thomas Tresser, o que causou arrepios na pele do agente.
— Deixa eu cuidar de você, Diana – Ele disse sem pensar, baixinho, quase com medo que ela o tirasse de sua vida por achar que ele estava se aproveitando as situação.
Ela não o mandou embora... Ao contrário disso, Diana lhe dera o sorriso mais doce que ele já tinha visto. Mas como ela não disse nada, ele permaneceu com a sensação de insegurança dentro dele.
Se Nêmesis fosse honesto consigo mesmo, aquilo o estava incomodando. Ele era um homem dono de si e seguro há tanto tempo que nem lembrava a última vez em que uma mulher o deixara nervoso. No fundo ele duvidava que isso tivesse acontecido alguma vez na vida. Ele era bonito, inteligente e sábio o bastante pra ‘pular fora do barco’ quando uma relação começava a se aprofundar. Ele não queria o risco de se envolver demais e acabar se apaixonando.
Mas com Diana as coisas fugiram do controle. E sem que ele percebesse, ele já estava perdidamente apaixonado. Sentado ao lado dela no sofá de seu apartamento, tentando consolá-la por causa de uma desilusão provocada por outro homem. Ele se sentia patético, mas não conseguia sair de lá.
— Eu estou sendo estúpido... Você não precisa de mim pra cuidar de você. Você não precisa de ninguém pra fazer isso – ele emitiu um suspiro desolado – Você é a Mulher Maravilha!
Seus olhos castanhos dourados perfuraram o coração de Diana. Todo amor contido em sua preocupação genuína acabaram atingindo-a de maneira profunda. Ela vacilou e desviou o olhar.
Tom decidiu não pressioná-la e disse
—Vamos esquecer isso... Todos nós fazemos coisas estúpidas às vezes. Algumas pessoas mais do que outras.
Diana riu.
— Por que você está aqui, Tom? – Ela estava com um brilho no olhar.
Ele fez uma expressão de quem foi pego em flagrante e desviou o olhar.
Diana cruzou as mãos, recostou-se no sofá e sorriu.
— Você também não é do tipo que foge das respostas, agente Nêmesis.
Tom Tresser olhou nos olhos azuis dela. Ele suspirou, inclinou-se no sofá e cruzou as mãos juntas, como ela tinha feito. Ele então suspirou antes de dar uma resposta cuidadosa.
— Eu sinto sua falta, Prince... Isso é tudo... Eu pensei que viria aqui apenas para me certificar que você estava bem. Eu achei que iria embora assim que visse você, mas eu não consigo ir... A verdade é que eu sinto sua falta.
Diana respirou fundo e abriu a boca para murmurar uma resposta inteligente, mas não conseguiu encontrar uma. Ela não conseguia se mover.
(...)
No dia seguinte, Diana já passara dos dez minutos de atraso e ainda não havia se teletransportado à Torre de Vigilância da Liga para o monitoramento. A cada minuto que passava a ira de Bruce aumentava exponencialmente. Ela não fazia ideia, mas na noite do baile, sentindo-se culpado por tê-la magoado, depois da patrulha habitual em Gotham, ele voou no Batwing até Nova York para certificar-se de que ela estava bem, como fizera inúmeras vezes.
Sempre que a saudade dela assumia uma pressão esmagadora em seu peito, ele voava até onde ela estava – antes em Washington e agora em NY – empoleirando-se silenciosamente pela varanda de seu quarto, para observá-la dormir, indo embora antes de ser notado. Contudo, na madrugada daquela maldita noite do baile, ele voltou pra casa angustiado e enfurecido.
Ele estava vigiando-a do topo de um edifício em frente à varanda do quarto dela, esperando-a adormecer para se aproximar. Ele notou quando um homem interfonava insistentemente para um dos apartamentos, do lado de fora. O Batman ficou furioso quando percebeu que era Nêmesis.
Quando Tom finalmente entrou no prédio de Diana, ele resolveu esperá-lo sair. Ele queria ter certeza de que Diana o mandaria embora rapidamente. Contudo, a medida que o tempo passou e Thomas Tresser não fez o caminho de volta, sua decepção foi se expandindo até transformar-se em cólera. Especialmente depois que o agente deixou o prédio com um sorriso no rosto, tendo permanecido praticamente toda madrugada ao lado dela, fazendo sabe-se lá o quê?!
Bruce não conseguiu dormir ao retornar à mansão. Imagens de Diana sendo consolada e seduzida por Nêmesis invadiram sua mente. Então, depois de concluir que não conseguiria dormir, ele decidiu que iria para Torre de Vigilância e pediu a Alfred que remarcasse os compromissos de Bruce Wayne agendados naquele dia.
Ele já estava na Torre, à espera dela há horas. Ele sabia que seu turno só havia começado há dez minutos, mas isso não o deixara menos furioso. Poderiam haver inúmeras razões para ela se atrasar, mas sua mente só era capaz de pensar em uma: ‘A madrugada dela com Tom Tresser tinha sido ‘vigorosa’ o suficiente para deixá-la exausta a ponto de fazê-la perder a hora no trabalho’.
Batman resolveu tentar tirar Diana e sua ‘noite quente de sexo’ da cabeça e começou a trabalhar num dos terminais da sala de monitoramento que precisava de reparos. Infelizmente para ele, era o Flash que estava de serviço com Diana. Bruce sabia que Wally odiava essa parte do trabalho porque era impaciente demais para vigilância e resmungava a ponto de tirar a paciência de qualquer um.
Depois de meia hora ouvindo o Flash resmungar que nunca era escalado em missão com heroínas gostosas da Liga, Bruce perdeu a paciência e o mandou sair, concordando em assumir o seu dever no monitoramento. Wally sumiu antes mesmo dele terminar a frase.
Então, lá estava ele, esperando furiosamente por Diana, que agora estava quinze minutos atrasada. Ele estava consertando uma das placas de circuito de um dos computadores, lutando contra a vontade de quebrar tudo a sua frente, por causa das imagens de Nêmesis seduzindo sua princesa, beijando-a e acariciando-lhe a pele nua, invadindo sua mente.
— Wally, eu sinto muito... Eu sei que estou atrasada, mas... – Diana já estava se explicando antes mesmo da porta se abrir – Só então ela percebeu que as cadeiras estavam vazias e o Flash não estava lá. Poucos segundos depois ela viu Bruce saindo debaixo de uma das mesas dos computadores – Batman, onde está o Flash? Ele devia estar aqui hoje. É nossa escala de vigia – A bela voz da amazona e seu olhar inocente diminuíram um pouco da sua fúria.
— Eu o mandei para casa. Ele estava me incomodando e eu precisava me concentrar – Ele respondeu estreitando os olhos por trás das lentes do capuz.
— Eu entendo você! – Ela disse, bem humorada – Eu adoro o Wally, mas... – Diana não teve tempo de terminar a frase.
— Você está atrasada, Diana – Ele rosnou com raiva, quase cuspindo a fúria entre os dentes e antes que ela abrisse a boca para dizer alguma coisa, ele despejou – Você acha realmente que é uma boa ideia ter um relacionamento com Thomas Tresser? – Ele estava com o corpo praticamente colado ao dela. Seus rostos estavam tão próximos que ela sentiu o calor da respiração ofegante e furiosa dele aquecendo sua pele.
Ela lutou contra a vontade de beijá-lo naquele momento. Os lábios estavam muito perto e uma onda de calor parecia dominá-la. Contudo, Bruce havia a magoado na noite anterior e, como se não bastasse, ainda estava assumindo uma postura de acusatória, quando na realidade era ele quem estava aos beijos com uma de suas ex-amantes.
— Do que você está falando? – Exclamou Diana.
Ele sabia que estava sendo estúpido, mas já que havia começado a discussão e eles estavam sozinhos, ele não se importou nem um pouco em terminar seu discurso inquisidor.
— Seu namoradinho trabalha para o Governo, princesa. Ele está usando você para espionar a Liga. Será que você não percebe o perigo que está correndo mantendo um relacionamento com o agente Nêmesis? O perigo a que está expondo toda a Liga? – A insinuação do Batman elevou a fúria de Diana.
Ela pensou em dizer-lhe que não havia nada entre ela e Tom além de amizade, mas as palavras de Bruce lhe doeram a ponto de despertar uma raiva há muito descartada. Ele estava lá, furioso com ela, como se ela o tivesse magoado e não o contrário; insinuando que ela tinha um relacionamento com outro homem, quando ela havia passado a noite inteira chorando por ele e, pior ainda, sugerindo que um homem só se aproximaria dela a fim de usá-la para outros objetivos e não porque estava apaixonado.
— Grande Hera, que estupidez a minha, não é Bruce?! E eu achando que ele gostava de mim. Obrigada por abrir meus olhos e me ajudar a perceber como eu sou idiota. – Ela respondeu com ironia e raiva.
— Ironize o quanto quiser, princesa. Mas a verdade é que você não deveria confiar nele, muito menos manter um relacionamento com ele. Você não tem experiência com relacionamentos coisas, Diana. Eu não quero que você se machuque. Eu não quero que você sofra uma decepção amorosa por causa de um idiota que está usando você – Batman diminuiu o tom raivoso, tentando não irritá-la.
— Você realmente acha tão difícil que ele só esteja interessado em mim, Bruce? Você acha que eu sou assim tão descartável? Que ninguém vai gostar de mim de verdade? – A voz dela era quase melancólica.
Batman apenas olhou para ela, sem dizer nada. Qualquer homem interessado em mulheres estaria interessado nela. Ela era tudo que um homem poderia querer em uma mulher. Tudo o que ELE queria.
— Eu não vou discutir com você, Bruce. Cuide do seu romance com sua ‘amiga’ criminosa. Eu estou cansada... – ela vacilou antes de concluir a frase, como se estivesse com medo de tomar um caminho no qual viesse a se arrepender depois – Talvez seja hora de... Seguir em frente – A voz dela era um sussurro fraco.
— O que você quer dizer, princesa? – No fundo, ele sabia o que isso significava.
— Eu sinto muito, Bruce – Diana não conseguiu conter as lágrimas – Eu o vi tantas vezes exibir mulheres a tiracolo com sorrisos e peitos falsos, desejando estar no lugar delas porque você merece alguém honestamente feliz por estar ao seu lado... mas...
— Mas você desistiu, não foi, princesa? Você desistiu de mim! – A sentença na voz dele foi mais dura do que ela esperava.
— Não é justo, Bruce... Não jogue sobre mim o peso de uma escolha que foi sua. Eu poderia esperar por você uma vida inteira... – Ela gritou.
— Mas você não vai. Você não quer mais... – ele rosnou com raiva.
— Há um limite para uma mulher suportar a rejeição, Bruce. Eu já suportei tanto sua rejeição que eu cheguei ao ponto de duvidar se um dia alguém poderia me amar. Eu não quero mais ficar sozinha... Eu... Eu só queria saber como é ter alguém, Bruce!
Ele sentiu o coração quebrar. Ela não estava pedindo muito, mas ele ainda não estava pronto. Batman rapidamente saiu da sala e foi para seus aposentos. Uma vez lá dentro, ele trancou a porta e rapidamente tirou o capuz.
Bruce sentou-se e apoiou a cabeça entre as mãos. Ele também estava cansado. Ele também queria ter alguém. Ele queria que fosse ela. Mas o Batman martelava na sua cabeça que foi melhor assim... que agora ele estava livre para a missão.
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