Coração de loba
6 Um amigo
Narrado por Jacob Black
Liguei de novo.
Chamada encerrada. Sem resposta.
Suspirei, jogando o celular no sofá com um pouco mais de força do que o necessário. O número de vezes que eu havia tentado falar com Bella naquela semana já era patético — até pra mim.
Ela estava se afastando. Eu sentia.
E, por mais que eu tentasse fingir que não, aquela distância doía.
Levantei e puxei uma camiseta preta da gaveta, passei a mão pelo cabelo preso num rabo de cavalo baixo e saí porta afora. A brisa fria da noite bateu no meu rosto quando entrei no caminho de terra que levava à praia. Os sons da vila se tornavam mais distantes, substituídos pelo eco das ondas.
A fogueira já ardia quando cheguei. Quil e Embry estavam sentados na areia, jogando pedrinhas em direção ao mar, como dois garotos entediados.
— Até que enfim, Jake! — Embry falou. — A gente pensou que tinha desistido.
— Tava resolvendo umas coisas. — Sentei ao lado deles.
Meus olhos foram direto para o outro lado da fogueira, onde Sam, Emily, Paul, Jared e a tal da Kim estavam sentados, rindo de alguma piada interna. Sam tinha o braço em volta de Emily, os dois grudados como se o mundo não existisse ao redor.
Embry soltou um “tsc”.
— Olha só esse grude... Dá até azia.
— Não sei como a Emily conseguiu cair nessa. Sam era completamente outro cara antes... agora parece que só enxerga ela.
— E deixou a Leah como se ela não fosse nada — Quil completou, cruzando os braços.
— Escroto — murmurei.
Era isso que sabíamos. Que Sam Uley sumira por meses, voltara com esse ar de “eu sei de tudo” e trocara Leah por Emily como quem troca de camisa. Nunca explicou nada. Nunca pediu desculpa.
Só... virou esse líder silencioso que todos pareciam seguir por algum motivo que ninguém entendia.
Antes que o silêncio ficasse mais pesado, ouvi passos na areia.
Virei e vi Seth, animado como sempre, vindo com um pacote de biscoitos. Ao lado dele, Leah — com cara de poucos amigos — e atrás dela...
Renesmee.
Usava um suéter vinho que contrastava com o tom da pele e o brilho castanho dos olhos. O cabelo solto dançava com o vento e, por um momento, me pareceu… fora de lugar. Tipo uma pintura antiga em uma moldura moderna. Delicada, mas com algo firme no olhar.
— Trouxe reforços — disse Seth, já se jogando ao meu lado. — Tô com fome e não confio nos marshmallows do Paul.
Nessie sorriu e sentou-se a poucos passos de mim. Nos entreolhamos por um segundo.
— Oi — ela disse, baixinho.
— Oi — respondi, com um sorriso discreto. — Você veio.
Ela assentiu.
— Ando aceitando convites perigosos.
— Ainda bem que nao trouxe seu gato— Sorri.
Ela riu, aliviada.
— Salem está oficialmente proibido de escapar por uma semana. Estamos em fase de reconciliação.
— Boa sorte com isso. Gatos são mestres em ignorar promessas.
Houve uma pausa confortável entre nós. Ela olhou para a fogueira, os olhos refletindo as chamas, e por um instante eu a observei em silêncio.
Tão nova, tão sozinha.
Lembrei da minha mãe. Mesmo tão pequeno quando ela morreu, às vezes ainda acordava com a sensação do perfume dela no travesseiro. A falta dela era como um vento gelado: não se via, mas sempre estava ali, principalmente nas noites silenciosas como aquela.
Renesmee perdera a mãe há uma semana.
E mesmo assim, estava ali, tentando sorrir, tentando fazer parte de alguma coisa.
Não disse nada sobre isso a ela.
Mas naquele instante, decidi uma coisa:
Ela não ia passar por aquilo sozinha.
Se ninguém mais se importasse, eu me importaria.
Porque alguém precisava estar ali por ela.
E talvez, só talvez… esse alguém fosse eu.
Eu não sabia exatamente quando começou, mas em algum momento da noite, a garota que chegou à praia de suéter vinho e passos tímidos começou a rir das minhas piadas ruins.
E isso era uma coisa rara.
— Você tá me dizendo que destruiu um micro-ondas tentando esquentar um marshmallow dentro de um ovo de Páscoa?
— Ei — falei, levantando as mãos. — Era um experimento científico. Uma tentativa nobre de criar a sobremesa definitiva. Eu só... subestimei o poder de expansão do chocolate.
Renesmee riu com as duas mãos no rosto. Era aquele tipo de riso que vinha de verdade, sem pose, sem controle.
— E o micro-ondas?
— Morte instantânea. Fumaça, cheiro de queimado, e minha irmã gritando como se eu tivesse explodido a cozinha inteira.
— E você?
— Culpei o Embry.
— Ei! — Embry protestou lá de trás, onde estava deitado olhando as estrelas. — Isso é calúnia, tá? Só porque eu pareço culpado não quer dizer que fui eu.
Renesmee riu mais uma vez, e eu sorri. Tinha algo nesse som que fazia o peito ficar mais leve.
Era bom vê-la rindo.
Era bom fazer ela rir.
Leah estava sentada a poucos metros de nós, de pernas cruzadas, com o olhar perdido no mar.
Ela fingia não prestar atenção, mas eu conhecia minha prima.
Cada vez que Nessie ria, os olhos de Leah se apertavam um pouco mais.
Cada vez que eu respondia com outro comentário bobo, Leah mexia na pulseira do pulso como se quisesse dizer alguma coisa... mas não dizia.
E quer saber?
Ela que explodisse. Eu não estava fazendo nada de errado.
— Você sempre é assim? — Nessie perguntou, já mais à vontade.
— Assim como?
— Engraçado. Despreocupado. Tipo... não importa o que aconteça, você sempre tem uma piada pronta.
Pensei por um momento. Olhei para o fogo crepitando, para os rostos iluminados ao redor.
Por dentro, eu estava um caos. Bella me ignorava. Sam dominava a vila como se fosse o novo rei de La Push. E todo mundo parecia saber de um segredo que eu ainda não conhecia.
Mas com ela ali...
era como se o peso saísse um pouco dos ombros.
— Acho que quando a vida é complicada, a gente aprende a rir mais fácil.
Ou pelo menos tenta.
Ela me encarou por um momento. Seus olhos eram mais profundos do que eu esperava. Tinha tristeza ali. Mas também força.
— Você parece alguém que já entende demais das complicações.
Sorri de lado.
— E você parece alguém que ainda vai descobrir algumas.
Ela sorriu também, mas foi um sorriso mais... suave.
Leah se levantou de repente, limpando a areia da calça.
— Vou pegar um refrigerante — disse, direto. — Querem alguma coisa?
— Tô bem, valeu — respondi.
Nessie negou com a cabeça.
Leah se afastou com os passos rápidos de quem precisava sair de perto. Eu não disse nada.
Nem precisava.
— Ela tá brava comigo? — Nessie perguntou em voz baixa.
— Não — respondi rápido demais. — Quer dizer… Leah é meio complicada. Você vai se acostumar.
Ela não é do tipo que fala muito quando tá incomodada. Só fecha a cara e sai andando.
— Ah, então ela me odeia.
— Não, ela odeia 97% das pessoas. Você tá só no estágio de observação.
Ainda tem chance de subir pra lista neutra.
Ela gargalhou de novo.
E por algum motivo que eu não entendi muito bem…
aquela risada virou minha música preferida naquela noite.
Narrado por Renesmee
A fogueira estalava de vez em quando, soltando faíscas que subiam como pequenas estrelas incandescentes antes de se apagarem no ar. A noite estava fria, mas havia algo quente naquela cena — como se o riso, o som das ondas e a luz das chamas criassem um escudo temporário contra o mundo.
Estava sentada com as pernas cruzadas sobre uma pedra quando ouvi um grito animado.
— Vai, Quil! Acerta ele!
Olhei para frente e vi os meninos — Jacob, Embry, Seth e Quil — numa espécie de luta improvisada sobre a areia. Embry corria em círculos como um louco, Quil tentava derrubá-lo, e Jacob ria alto, claramente se divertindo com o caos.
— Vocês lutam igual uns filhotes de urso desajeitados! — gritei, rindo.
— E você ainda não viu nada, princesinha da cidade! — respondeu Quil, com um sorriso travesso.
— Melhor queimar a língua com refrigerante do que provocar o Quil — disse Leah, surgindo do meu lado com duas latas geladas.
Me entregou uma.
— Valeu — sorri, aceitando.
Ela sentou-se ao meu lado, olhando os garotos com os olhos semicerrados.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, observando a bagunça deles. Embry caiu de bunda na areia, Quil aproveitou pra rolar por cima e Seth fingiu que era um árbitro profissional, dando risadas enquanto Jacob fingia narrar tudo como um locutor de rádio.
— Você pareceu bem interessada na conversa com o Jake — Leah comentou, sem olhar pra mim.
Virei o rosto em direção a ela, surpresa com a observação.
— Eu? Nah… Só achei ele engraçado. Ele tem um jeito leve, meio bobo até. Me faz rir.
Leah deu um pequeno sorriso, mas não era exatamente divertido.
— Sei que você tá passando por muita coisa e precisa de amigos. Jake é bom nisso. Ele é um ótimo amigo.
— Você fala como se eu tivesse que manter distância.
Ela então se virou de lado e me encarou diretamente.
Havia um tom firme, quase protetor na voz dela.
— Só tô dizendo que é melhor você ver o Jacob apenas como um amigo, Nessie. Ele só tem olhos pra uma garota. Desde sempre.
— Ah — abaixei os olhos, tentando esconder a pontada estranha que senti no peito. — Namorada?
— Não. Mas se depender dele, será.
Esperei ela continuar.
— O nome dela é Bella Swan — Leah disse, num tom neutro, mas carregado. — Filha do Charlie Swan, amigo do Harry e chefe da polícia de Forks. Ela aparece e desaparece da vida dele, mas Jake... ele nunca mudou. Sempre foi ela.
Olhei de novo para Jacob.
Agora ele ria com Quil, a camisa coberta de areia, o rosto iluminado pelo fogo.
O mesmo sorriso de antes.
Mas agora… com outro peso.
— Entendi — respondi, baixinho.
Leah tomou um gole do refrigerante e voltou os olhos para o mar.
— Só não quero te ver magoada. Tá bom?
Assenti.
E naquele momento, por mais que tentasse…
não consegui mais rir das piadas de Jacob da mesma forma.
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