Coração de loba
7 Trabalho escolar
Narrado por Jacob Black
O cheiro de café fresco preencheu a cozinha assim que abri o armário e peguei minha caneca favorita — aquela azul escura, com o desenho descascado de um lobo branco. Ironia pura.
— Você vai ligar pra Bella hoje? — perguntou meu pai, com a voz tranquila, mas carregada de algo mais profundo. Preocupação talvez. Ou só teimosia.
Me servi de café até a borda, tomando o cuidado de não derramar nada, e levei a caneca à boca.
Engoli antes de responder:
— A hora que Bella quiser falar comigo… ela sabe onde me encontrar.
A resposta foi seca. Mais do que eu gostaria. Mas era sincera.
Dois meses.
Dois meses tentando, ligando, indo atrás, aguentando o silêncio dela.
Agora era a vez de ela decidir.
Billy não respondeu de imediato. Ele apenas me observou com aquele olhar que dizia tudo e nada ao mesmo tempo. Eu sabia que ele se preocupava.
Mas também sabia que ele confiava em mim o suficiente pra não forçar a barra.
Terminei o café de um gole só, peguei minha mochila no canto da cozinha e passei ao lado da cadeira de rodas dele.
Antes de sair, parei por um instante e apertei o ombro dele com firmeza.
— Tô indo.
— Vai com calma, garoto.
Assenti e saí.
O céu estava coberto por nuvens, como de costume, e o ar tinha aquele cheiro de sal e terra molhada que só La Push tinha. Cheguei na escola antes do sinal tocar. Não que eu fosse exatamente o modelo de pontualidade, mas naquele dia eu só queria distrair a cabeça.
No estacionamento de terra batida, reconheci Quil e Embry sentados nos degraus de concreto da entrada, com cara de quem já queria estar de férias.
— Olha só quem resolveu aparecer cedo — zombou Quil, mordendo uma barra de cereal com preguiça.
— Ainda nem começou a aula e já tô com sono — disse Embry, esticando as pernas.
Joguei a mochila no chão e me sentei ao lado deles.
— Vocês já olharam o calendário das provas finais?
— Provas? — Embry fingiu espanto. — Cara, eu tava fingindo que esse assunto não existia.
— Tenho que passar em história — resmungou Quil. — Se não, minha avó vai me fazer trabalhar com ela no verão na feira de artesanato. De avental e tudo.
— Eu ia pagar pra ver isso — comentei, rindo.
— E você, Jake? Vai bem?
Dei de ombros.
— O suficiente pra não repetir de ano. Já é uma vitória.
O sinal tocou, e todos começaram a entrar. Mas antes que eu me levantasse, olhei por um instante pro horizonte, onde o mar não dava trégua às rochas.
Bella ainda não ligava.
Mas Renesmee, com seu sorriso contido e olhar atento, estava ali, todo dia.
E por mais que eu negasse, uma parte de mim… estava começando a prestar atenção.
A sala de aula de Literatura já estava quase cheia quando entrei, jogando minha mochila na carteira de sempre, no fundo. Estava pensando em qualquer coisa, menos nos verbos modais e figuras de linguagem, quando vi aquela cabeça castanha brilhar sob a luz fraca do teto.
Renesmee Clearwater.
Sentada duas fileiras à frente, com o caderno aberto e a expressão concentrada.
Ou fingindo concentração — difícil dizer.
Me levantei devagar e fui até ela. Bati com a ponta dos dedos na mesa.
— Morning, Seattle Star.
Ela levantou os olhos e arqueou uma sobrancelha, mas o sorriso não tardou a vir.
— Seattle Star?
— Ué, morou na cidade grande, né? Toda chique. Ar de superioridade. Palavras bem escolhidas. Mochila sem um único rasgo. Tem até gato com nome de bruxo.
Você é praticamente da alta sociedade pra gente aqui da reserva.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Nesse caso, devo começar a te chamar de quê?
"Índio Fortão do Interior"?
— Ui — fiz uma careta. — Só se for com respeito, Star. Com muito respeito.
Ela riu mais uma vez e fechou o caderno, virando-se um pouco para me olhar melhor.
— Tá estudando pra prova de Literatura?
— Pra ser honesto? Não muito. Mas Quil disse que vai rolar uma redação valendo ponto extra. E se eu escrever algo decente, talvez a profe me dê um voto de confiança.
— E o que seria "algo decente" vindo de você?
— Tô pensando num poema dramático sobre os sofrimentos de um adolescente órfão de micro-ondas e viciado em cereal de chocolate.
Ela riu com gosto dessa vez, segurando a barriga.
— Ok, agora sim. Isso eu pagaria pra ler.
— Tá combinado então — respondi, ainda sorrindo. — E você? Tá conseguindo acompanhar? As matérias daqui são meio diferentes da sua escola em Seattle, né?
Ela assentiu, mais séria agora.
— Algumas coisas eu já vi, mas outras… tô um pouco perdida. Os professores aqui são bons, mas falam rápido. E as aulas práticas de Biologia... bom, não tinha isso lá.
— Se quiser ajuda, posso dar uma força. Tenho umas anotações antigas, e sei uns macetes pra entender os resumos. Além disso, sou ótimo em procrastinar com responsabilidade.
— Isso existe?
— Quando você tem Quil e Embry como melhores amigos, existe.
Topa?
Ela hesitou por um segundo, depois sorriu.
— Topo. Mas só se tiver marshmallow na sessão de estudos.
— Feito. Te ajudo nos trabalhos, você me salva da redação da morte e ainda temos açúcar como bônus. A gente forma uma boa equipe.
— Vamos ver — ela disse, me lançando um olhar que era meio desafiador, meio divertido.
Voltei pra minha carteira sorrindo.
Porque sim, Bella ainda não ligava.
Mas talvez a vida estivesse tentando me mostrar que existiam outros jeitos de se sentir bem com alguém.
E Renesmee…
Ela era mais do que parecia.
E eu estava começando a perceber isso.
Narrado por Renesmee Clearwater
A casa dos Black era diferente de tudo que eu estava acostumada em Seattle.
Pequena, feita de madeira escura, com janelas grandes e cortinas simples. O cheiro de lenha, café forte e algo com alho vinha da cozinha, como um convite informal pra ficar mais tempo do que deveria.
Jacob abriu a porta e fez uma pequena reverência exagerada, como se fosse meu mordomo.
— Bem-vinda ao meu palácio, Seattle Star. Cuidado com a realeza de rodas.
— Ah, claro — ri. — Onde assino o livro de visitas?
— Direto com o rei. — Ele apontou para a sala.
E ali estava ele: Billy Black.
Sentado em sua cadeira de rodas, com uma camisa de flanela vermelha e uma expressão que misturava curiosidade e simpatia. Os olhos eram parecidos com os de Jacob, mas mais sábios.
Menos inquietos.
— Então você é a sobrinha do Harry — disse Billy, estendendo a mão. — Renesmee, certo?
— Pode me chamar de Nessie — respondi, apertando a mão dele. — É como todo mundo tem feito ultimamente.
— Nessie, então. É um prazer ter você aqui.
Fique pra jantar. Vai ter o famoso macarrão especial Black.
Ou como Jake chama… “a salvação em tempos de desespero.”
Jacob bufou.
— Isso porque uma vez ele colocou açúcar no molho e fingiu que era culinária havaiana.
— Inovação, filho. Coisa que você não entende.
— Billy piscou pra mim. — Aposto que você vai gostar.
— Bem melhor que as cantinas da escola — comentei, sorrindo.
Jacob me guiou até a mesa da sala onde ele já havia deixado os cadernos, duas canetas, uma pilha de folhas amassadas e... uma caixa de marshmallows.
— Isso aqui é pra manter o cérebro funcionando.
Açúcar alimenta neurônios. Informação científica.
— Claro, doutor Black.
Billy observava a cena com aquele sorriso discreto de quem está se divertindo mais do que demonstra. Até que ele pigarreou e disse, num tom casual:
— Ah, Jake. Charlie Swan vai passar por aqui hoje à noite.
Senti Jacob parar por um segundo.
Foi quase imperceptível.
Mas eu vi.
— Vai? — ele perguntou, tentando soar desinteressado.
— Disse que precisava conversar sobre umas peças da caminhonete. E trazer uns livros que a Bella esqueceu da última vez.
Bella.
O nome pairou no ar como fumaça.
Fingi que estava lendo o título de uma apostila, mas por dentro, algo travou no meu peito.
Jacob voltou a escrever como se nada tivesse acontecido. Mas seu olhar estava um pouco distante.
Menos leve.
Menos... meu.
Billy, no entanto, se manteve tranquilo.
— Você fica pro jantar, Nessie?
— Fico, sim — respondi, com um sorriso. — Quero conhecer esse macarrão lendário.
Jacob forçou um sorriso e me entregou uma folha.
— Vamos começar com Biologia. Se sobreviver a isso, você merece sobremesa.
E eu ri.
Porque, naquele momento, eu ainda queria acreditar que ele estava ali só comigo.
Mesmo que outra parte dele ainda pertencesse a alguém que eu nem conhecia direito… mas já sentia inveja.
O jantar estava pronto. A mesa simples da cozinha foi coberta com dois pratos fundos, pão amanhecido cortado em rodelas, e o tal macarrão especial Black — que, para minha surpresa, não era nada mal.
Muito alho. Muito molho. E um gosto reconfortante que lembrava casa de avó.
Jacob se sentou ao meu lado, ainda com o cabelo um pouco molhado do banho rápido que ele tomou antes do jantar. Billy estava na cabeceira, animado como se fosse dia de festa.
E foi então que a porta bateu duas vezes.
Billy se adiantou com um sorriso.
— Deve ser o Charlie.
Jacob se levantou para abrir a porta e logo surgiu ali um homem alto, de bigode farto e expressão sempre meio desconfiada. Ele usava um casaco grosso de xadrez, e os olhos percorreram a cozinha até pousarem em mim.
— Charlie — Billy disse —, essa aqui é a Renesmee, filha da Elizabeth Clearwater. Tá morando com o Harry agora.
Foi um segundo.
Talvez dois.
Mas o jeito que Charlie travou os olhos em mim…
Não era o de um estranho conhecendo a sobrinha de um amigo.
Ele congelou.
O embrulho em sua mão quase escorregou. O olhar fugiu do meu rosto como se queimasse.
E então ele limpou a garganta e tentou um sorriso.
— Ah. É mesmo?
Elizabeth… fazia tempo que eu não ouvia esse nome.
Assenti, forçando meu melhor sorriso educado.
— Minha mãe falava pouco sobre La Push.
— Ela... é uma mulher difícil de esquecer. — Charlie desviou o olhar novamente.
A frase ficou no ar como uma nota fora do tom.
Ninguém comentou.
Billy apenas trocou o assunto para peças de caminhonete, e logo os dois mergulharam numa conversa mecânica e confortável.
Jacob, percebendo meu desconforto, tocou de leve meu braço por baixo da mesa.
Um gesto silencioso, mas cheio de cuidado.
Depois do jantar, pedi licença e saí para tomar um pouco de ar. A varanda da casa dos Black era pequena, mas tinha vista direta para o céu de La Push, completamente limpo naquela noite.
Cheio de estrelas.
Um céu que a cidade nunca me deixou ver.
Me apoiei no corrimão de madeira, abraçando meus próprios braços.
— Tava meio carregado lá dentro, né? — disse a voz já conhecida atrás de mim.
Jacob.
Com duas latas de refrigerante na mão.
— Um pouco — murmurei. — Seu pai cozinha bem, mas... acho que a sobremesa foi o silêncio constrangedor.
Ele me estendeu a lata. Peguei.
— Charlie é um cara decente. Mas vive preso no próprio passado.
Assim como metade de La Push, na real.
— E você?
— Eu?
— Ele olhou o céu, depois pra mim. —
Tô tentando... não ser como eles.
Ficamos em silêncio por um tempo. O vento batia devagar, frio, mas não desconfortável.
— O céu aqui é diferente — comentei.
— É.
Jacob se sentou no degrau da varanda, encostando as costas na coluna. — Quando tudo dá errado, eu venho aqui. Só olho pra cima.
As estrelas não mentem. Elas não mudam.
São só... o que são.
Me sentei ao lado dele. O ombro dele roçou no meu, mas não me afastei.
— Senti um pouco de paz agora — sussurrei.
— E você merece sentir isso.
Mesmo que só por um momento.
Olhei pra ele. E, pela primeira vez desde que cheguei a La Push...
não pensei em tudo que perdi.
Pensei no que, talvez, ainda pudesse encontrar.
Narrado por Jacob Black
O motor da minha caminhonete ainda vibrava quando estacionei em frente à casa dos Clearwater. As luzes da varanda estavam acesas, e a silhueta de Harry surgiu rapidamente ao abrir a porta, como se estivesse à espera dela.
Renesmee abriu a porta do passageiro devagar, como se estivesse saindo de um sonho. Com uma expressão suave e calma — diferente da de quando chegou aqui há algumas semanas.
— Obrigada pela ajuda... e pelo céu — ela disse, com um sorriso discreto.
— Sempre que quiser, Seattle Star.
Ela riu. Acenou. E correu até a varanda com passos leves, levando consigo aquele ar doce e silencioso que ela sempre deixava para trás.
Eu ainda a observava atravessar a porta quando ouvi passos atrás de mim.
Leah.
— Ela parece mais tranquila — comentou, encostando-se na lateral da caminhonete com os braços cruzados.
— É. Hoje foi um bom dia — respondi.
Ela ficou em silêncio por um momento, depois virou o rosto e me encarou.
— Jacob… posso te perguntar uma coisa?
— Manda.
— O que você quer com a Nessie?
A pergunta me pegou desprevenido. O tom dela não era acusador, mas... firme. Como uma irmã mais velha colocando o dedo na ferida antes que infeccione.
— Eu gosto dela — respondi, sem hesitar. — Gosto da companhia dela. Ela me faz rir. Me escuta. Me entende.
E não, Leah... eu jamais brincaria com ela.
Ela assentiu, mas não baixou a guarda.
— Ela perdeu a mãe há um mês, Jake. Tá sozinha num lugar novo, com pessoas que mal conhece.
Você é a única coisa constante e confortável que ela tem agora.
— E é por isso que eu cuido dela — rebati, com mais calma do que eu esperava. — Não é só amizade, Leah. Mas também não é jogo. Eu tô sendo sincero com ela. Comigo.
Leah respirou fundo. Por um momento, achei que ela ia me dar um sermão daqueles. Mas o olhar dela amoleceu um pouco.
— Nessie é mais forte do que parece.
Mas o coração dela… ainda é novo demais pra aguentar outra decepção.
Olhei para a porta da casa, agora fechada, e imaginei Renesmee em seu quarto, talvez já abraçada com o gato esquisito dela. Sozinha. Em silêncio.
— Eu sei disso — disse, enfim.
Leah se afastou da caminhonete, mas antes de entrar em casa, virou-se pra mim.
— Só não machuca a garota, Jacob.
Ou eu mesma vou te dar um soco no meio da cara.
— Anotado, sargento Clearwater.
Ela riu de leve, mas o aviso estava dado.
E eu sabia.
A partir dali... tudo que eu fizesse com Nessie teria consequências.
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