Coração de loba

30 Acerto de contas


Narrado por Renesmee


O sol mal havia surgido no horizonte quando acordei com um peso no peito. A noite anterior parecia um sonho confuso, daqueles que a gente prefere esquecer. Eu ainda podia ouvir os gritos abafados de Bella, o som dos bem-casados sendo esmagados entre meus dentes, e o rosto do meu pai quando tentou defender o indefensável.

Mas naquele momento, tudo parecia insignificante diante do que eu encarava agora.

Harry havia piorado. Leah passou a noite no hospital com ele, e eu só dormi porque ela praticamente me arrastou de volta para casa. Senti meu coração apertar só de imaginar minha amiga lidando com aquilo sozinha.

Estava de pijama ainda, sentada no sofá com uma xícara de café frio nas mãos, quando o celular vibrou. Atendi sem olhar o número.

— Alô?

— Renesmee? — era a voz da senhora Biers, mãe de Riley. Ela parecia... nervosa. — Você tem notícias do Riley?

Fiquei em alerta no mesmo instante.

— Ontem ele disse que passaria o domingo comigo, depois iria direto pra república. Por quê?

— Ele não chegou. A república está fechada, ninguém na faculdade viu ou falou com ele desde ontem à tarde.

Permaneci em silêncio por um instante. Meu coração acelerou.

— Isso é estranho... — murmurei. — Ele não me mandou nenhuma mensagem.

— Eu... eu já liguei para a polícia, mas eles disseram que é cedo pra considerar um desaparecimento. Disseram pra esperar vinte e quatro horas — a voz dela tremia. — Ele falou algo com você? Algum problema? Alguma briga?

— Não, senhora Biers. Ele só disse que ia descansar comigo e depois voltaria — tentei soar tranquila, mas algo dentro de mim dizia que não estava tudo bem.

Assim que desliguei, liguei para o Riley. Uma vez. Duas. Três. Sem resposta. Chamei no chat. Nenhuma visualização.

Levantei de um salto e fui direto ao hospital. Leah estava no quarto com Harry, mas antes mesmo de subir, passei pela recepção para buscar um café novo.

Foi quando vi a televisão ligada, em um canal local de notícias. A legenda em vermelho me prendeu imediatamente.

"ATAQUES DE GANGUES EM PORT ANGELES DEIXAM FERIDOS E DESAPARECIDOS."

Meus olhos subiram automaticamente para a lista de nomes rolando na tela. Um frio percorreu minha espinha. Aquilo... era perto da rota entre nossa cidade e a faculdade.

"Por favor, não... Riley, não."

Me aproximei da tela. A imagem mostrava carros virados, sinais de luta, policiais e bombeiros trabalhando em meio ao caos. A lista de desaparecidos reapareceu na tela.

Meu estômago revirou.

Eu li uma vez. Duas. Três.

E lá estava.

Riley Biers.

Meus lábios se abriram num sussurro inaudível. Senti meu corpo fraquejar e minha visão escurecer por um instante.

— Riley... — sussurrei, como se, de algum jeito, ele pudesse me ouvir.

Eu precisava fazer alguma coisa.

Eu ainda estava parada diante da televisão da recepção, os olhos fixos na lista de nomes que passavam em letras vermelhas. Ataques em Port Angeles. Desaparecidos. Uma sensação gélida desceu pela minha espinha enquanto meu coração parecia bater fora de compasso. Riley… por que você não me respondeu? Por que não chegou na república?

— Filha?

Virei o rosto devagar e vi Charlie se aproximando. Seu olhar preocupado me atravessou.

— Você tá bem?

Assenti, embora não tivesse certeza se era verdade. Meus olhos ardiam e minha garganta estava seca.

— Você soube? — perguntei, apontando para a tela. — Ataques… em Port Angeles. E meu namorado… ele sumiu.

Charlie suspirou, se aproximando mais. Colocou a mão no meu ombro, num gesto reconfortante.

— Ainda é cedo pra tirar conclusões. Talvez ele só tenha perdido o celular. Vamos tentar manter a calma, certo?

Assenti novamente, dessa vez sem nenhuma convicção.

— E a Bella? — perguntei, sem saber bem por que. Talvez por ainda tentar entender a bagunça que se formara desde o quase-casamento.

Charlie desviou o olhar.

— Ela não quer sair de casa. Edward tá com ela. Disse que precisa de um tempo… Não sei se pra digerir tudo ou fugir de si mesma.

Fiquei em silêncio, digerindo aquela informação. Bella sempre teve um talento especial pra fugir.

— Nessie… — Charlie me olhou nos olhos, hesitante. — Há algo entre você e Jacob?

Minhas sobrancelhas se uniram automaticamente.

— Não. Claro que não.

Ele assentiu devagar.

— Eu… agora sei do que aconteceu no passado. De como tudo começou. E, sinceramente, o único errado nessa história toda foi o Jacob. Ele era mais velho, tinha responsabilidades. Você era só uma garota, Nessie.

Soltei uma risada amarga, sem humor.

— Eu odeio o Jacob, Charlie.

Meu tom saiu seco, firme. Mas por dentro, meu coração parecia ainda mais pesado. Eu o odiava… não odiava?

Charlie me olhou como se quisesse dizer mais, mas parou ali.

— Eu preciso ir — murmurei, dando um passo para longe dele.

— Nessie…

— Obrigada por vir — interrompi, tentando sorrir. — Eu te aviso se tiver notícias do Riley.

E sem esperar resposta, caminhei pelo corredor do hospital, sentindo que, a cada passo, o chão sob meus pés ficava mais instável.


Narrado por Jacob


O sol mal havia rompido entre as nuvens espessas daquela manhã cinzenta, e eu continuava ali, parado do lado de fora do hospital, o capacete preso ao guidão da moto, o coração preso no passado.

Vi quando Renesmee saiu pelas portas de vidro, os passos rápidos e duros como se tentasse fugir de si mesma. A caminhonete azul engasgou antes de ganhar a rua. Eu não pensei — apenas subi na moto e a segui. Não havia mais cerimônias entre nós. Só restavam verdades atravessadas na garganta.

Ela estacionou próximo ao mirante de La Push. O lugar onde o mar sempre parecia entender silêncios. Parei a moto a alguns metros. O vento bagunçava os cabelos dela, como se tentasse distrair sua fúria.

— Nessie! — chamei, descendo da moto.

Ela se virou devagar, como se o nome que eu usara fosse uma ofensa pessoal.

— O que você quer? Por acaso esta mw seguindo?— perguntou, os olhos vermelhos, não sei se de choro ou raiva.

— A gente precisa conversar.

— A gente não tem nada pra conversar, Jacob.

A forma como ela disse meu nome, sem apelido, sem ternura... Doeu.

— Eu desisti daquele casamento por uma razão.

— Isso é problema seu. Seu e da Bella — ela retrucou, cortante como uma lâmina.

Ela deu dois passos em minha direção, e meu coração traidor reagiu, acelerado. Ela parou a poucos centímetros, me olhando como se quisesse esvaziar tudo o que sentia em um único olhar.

— Eu te odeio, Jacob. Com todas as forças do meu coração.

Essas palavras deveriam me matar. E talvez tenham matado uma parte de mim. Mas mesmo assim, eu a amava. O imprinting nunca prometeu reciprocidade.

Ela me deu as costas, os cabelos esvoaçando ao vento como uma cortina de despedida.

Fiquei ali. Plantado.

Eu, o homem que amava a mulher que o odiava.

Eu, o lobo marcado pelo imprinting que nunca teria paz.

E o pior de tudo?

Eu merecia.


O cheiro veio como uma rajada gélida, cortando o ar e me fazendo parar onde estava. Um rastro inconfundível, adocicado e cruel. Vampiro.

Meus olhos se estreitaram enquanto encarei a linha escura das árvores à frente. E lá estava ele.

Edward Cullen.

Alto, imóvel, com a mesma expressão fria e superior de sempre. Me encarava como se soubesse exatamente o que eu estava sentindo — e talvez soubesse. Maldição.

Caminhei firme em sua direção, e o desgraçado sumiu. Desapareceu floresta adentro como um vulto.

Não hesitei. Corri atrás dele, o cheiro me guiando até a velha clareira.

Foi ali, sob a luz difusa filtrada pelas árvores, que o encontrei. Ele me esperava.

— Veio se esconder no seu velho ninho? — provoquei, parando a poucos metros dele, o peito arfando.

— Vim cobrar de você o sofrimento dela.

— Você não esta em condições — rosnei.

— Você partiu o coração dela. E sei que você teve um imprinting.

As palavras dele cortaram mais fundo que qualquer garra.

— Eu não escolhi isso, Edward. Não pedi. E você sabe.

Ele deu um passo à frente, os olhos brilhando com fúria.

— Mas mesmo assim continuou com Bella, prometeu a ela um futuro que não podia dar.

— Quer saber? Bella sempre amou você. No fundo, você sabe disso. Ela nunca foi minha. E agora ela está livre. Vai lá, comemore.

O soco veio antes que eu pudesse terminar de respirar. Rápido. Preciso. Edward avançou com uma força que me empurrou metros para trás. Eu cambaleei, mas nem caí.

Foi quando um rugido tomou a floresta.

Sam.

O lobo castanho atingiu Edward com violência, derrubando-o no chão. Quase no mesmo instante, os outros da matilha surgiram de entre as árvores, cercando o vampiro caído com os dentes à mostra, prontos para dilacerá-lo.

— CHEGA! — A voz dela cortou o ar como uma lâmina.

Bella.

Ela surgiu correndo, os olhos arregalados, o cabelo solto balançando como uma tempestade ao seu redor.

— Saiam de perto dele! — gritou, se colocando entre Edward e os lobos, os braços estendidos como se pudesse protegê-lo.

Sam rosnou, hesitante.

Eu me aproximei lentamente.

— Bella — murmurei, ainda sentindo o gosto amargo da raiva.

Ela me olhou. E, por um segundo, meu coração parou.

A dor nos olhos dela era como fogo. Uma mistura de mágoa, desilusão... e decepção.

— Você já causou dano suficiente, Jacob. Basta.

Eu abaixei a cabeça, incapaz de responder.


A tensão ainda vibrava no ar quando Carlisle surgiu no limite da clareira. Sua expressão era grave, os olhos dourados percorrendo cada um de nós. A presença dele sempre carregava um certo peso, uma autoridade silenciosa. E dessa vez, não era diferente.

— Chega! — a voz dele soou firme. — Não é hora para isso. Estamos perdendo tempo precioso com brigas antigas.

Sam rosnou baixo, ainda em posição de ataque, mas recuou um passo. Eu também soltei o punho cerrado. Minha mente fervia, mas eu sabia que Carlisle nunca falava por impulso.

— Do que está falando? — perguntei, ainda com o peito arfando.

Carlisle olhou para Bella, depois para Edward, antes de pousar os olhos em mim.

— Victoria conseguiu formar um exército — ele disse. — Um grupo de recém-criados. Jovens, descontrolados... e letais. Ela vem atrás de Bella.

Meus olhos automaticamente buscaram Bella, que agora se colocava ao lado de Edward. Eles pareciam tão unidos, e aquilo me causou uma pontada amarga no peito. Mas não era hora de sentir. Era hora de agir.

— Eles são muitos? — perguntou Sam, já voltando à forma humana ao meu lado.

— Mais do que esperávamos — respondeu Carlisle. — E não estão vindo sozinhos. Victoria tem um aliado. Um líder para seu exército. Alguém que os mantém unidos e os guia.

— Quem? — minha voz saiu dura. Eu já pressentia.

Edward foi quem respondeu. Ele fechou os olhos por um instante antes de encarar todos.

— Eu vi a mente dela — disse com frieza. — O nome dele é Riley Biers.

Senti como se o chão tivesse sumido sob meus pés. Meu coração bateu forte. Riley? O Riley da Nessie?

— Isso não pode estar certo — falei, a voz rouca. — Ele... Ele estava com a Renesmee. Ele era humano.

— Não é mais — disse Edward, os olhos sombrios. — Victoria o transformou. Ela o escolheu. Ele está liderando por ela.

Um silêncio caiu sobre a clareira. Um silêncio pesado.

— Nessie... — sussurrei, quase para mim mesmo.

Meu corpo inteiro ficou em alerta. Um redemoinho de sensações tomou conta de mim. O rosto dela veio à minha mente — a maneira como ela me olhou, cheia de dor e ódio — e agora isso. O maldito estava do lado errado, e ela não sabia. Ou pior... já podia estar em perigo.

— Eu preciso ir — disse, já me virando.

— Jacob! — chamou Carlisle. — Seja cuidadoso. Não diga nada precipitado. Mas fique de olho nela.

Assenti com a cabeça e corri, o imprinting pulsando como um farol dentro de mim.

Se Riley agora era um vampiro... e estava com Victoria...

Nessie estava em mais perigo do que qualquer um de nós imaginava.