Narrado por Renesmee


Assim que entrei no hospital, senti um arrepio percorrer minha espinha. O cheiro forte de desinfetante, o som abafado dos passos apressados e a luz fria dos corredores me sufocaram. Era como se cada canto daquele lugar estivesse me avisando que algo ruim já tinha começado. Sue tinha me ligado desesperada. "Harry piorou." Foi só isso. Mas foi o suficiente para meu mundo tremer.

Apertei a alça da bolsa contra meu ombro e caminhei até a recepção.

— Com licença... Harry Clearwater... — minha voz saiu mais trêmula do que eu gostaria.

A recepcionista digitou algo rapidamente no computador e me deu um aceno, apontando o corredor à esquerda. Eu ia seguir, mas a porta principal se abriu atrás de mim, e eu reconheci os passos antes mesmo de olhar.

Charlie.

E... Bella.

Me virei devagar, tentando manter a postura. Charlie veio até mim com aquele olhar paternal que sempre me desmontava.

— Alguma notícia, Nessie?

— Sue foi falar com o médico. Tô esperando. — Respondi, cruzando os braços como se isso pudesse conter a inquietação que me corroía por dentro.

Charlie assentiu, suspirando pesadamente.

— Então... vamos esperar.

Bella não disse nada. Só ficou parada, ao lado dele. E mesmo assim, mesmo sem falar, senti seu olhar pesado sobre mim. Nossos olhos se cruzaram por um instante. Havia algo nos olhos dela... uma mistura de dúvida e ressentimento. Talvez até um pouco de culpa. Ou eu só estivesse cansada demais pra interpretar qualquer coisa com clareza.

Desviei o olhar antes que a dor aumentasse.

Uma semana.

Já fazia uma semana desde que Riley desapareceu.

Uma semana desde a última mensagem.

Desde o último “te amo”.

E agora... Harry.

Como se o destino estivesse testando todas as minhas forças ao mesmo tempo.

Foi quando Sue apareceu. Vinha andando devagar, os ombros curvados, os olhos vermelhos como se já não tivesse mais lágrimas pra chorar.

— Sue? — corri até ela, meu coração martelando no peito. — O que o médico disse?

Ela me encarou, e a resposta estava nos olhos dela antes mesmo de sair pela boca.

— Ele piorou, querida. O médico acha que... talvez ele não passe da noite.

Eu senti como se o chão tivesse desaparecido sob os meus pés.

— Não... — sussurrei, balançando a cabeça. — Ele estava melhorando... ele...

Charlie se aproximou e colocou uma das mãos no ombro de Sue. Eu me afastei um pouco, respirando fundo, tentando não desmoronar ali mesmo.

Bella deu um passo à frente. Por um segundo, achei que ela fosse dizer algo desagradável. Que fosse comentar sobre Riley, ou sobre como eu estava lidando com tudo isso. Mas não. Ela apenas disse:

— Sinto muito, Renesmee.

Aquelas palavras me pegaram desprevenida. Eu não respondi. Só assenti com a cabeça, engolindo a dor que subia como um nó na garganta.

Harry está morrendo.

E Riley... Riley sumiu como se nunca tivesse existido.


A sala de espera estava tomada por um silêncio pesado, quase sufocante. O ar cheirava a antisséptico e preocupação. Sue estava sentada em uma das cadeiras, apoiada pelos filhos — Leah com os braços cruzados e os olhos vermelhos, e Seth segurando a mãe com ternura, como se pudesse sustentá-la só com o toque. Aquilo partia o coração.

Senti Charlie se aproximar e, quando ele se sentou ao meu lado, sua mão áspera apertou a minha com força e carinho.

— Filha... — ele murmurou, me olhando com os olhos cansados. — Harry é forte. Ele vai sair dessa.

Assenti com a cabeça, tentando parecer forte, mas dentro de mim tudo desmoronava.

— Obrigada, Charlie... — sussurrei, tentando manter a voz firme.

Sue se virou para mim, com a expressão abatida.

— Nessie... querida, por que você não vai descansar um pouco? A noite será longa.

— Eu não quero sair daqui — respondi com firmeza, apertando mais a mão de Charlie. — Quero estar aqui se algo acontecer.

Charlie me olhou de lado, com um ar calmo, mas determinado.

— Não vai mudar nada se você descansar por uma hora. Te chamamos se houver qualquer novidade.

Eu respirei fundo, relutante. Então ele completou:

— Faz isso por mim. Leva a sua irmã com você, ela veio comigo na viatura.

Olhei automaticamente para Bella. Ela estava em pé, um pouco afastada, parecendo tão desconfortável quanto eu. Quando nossos olhares se encontraram, trocamos um breve momento de silêncio tenso.

— Posso ligar pro Edward — ela disse, meio fria, como se estivesse se desculpando por existir ali.

Charlie balançou a cabeça, pacientemente.

— Prefiro que você vá com a sua irmã.

Engoli em seco. Aquela palavra — irmã — ainda soava estranha. Não respondi. Apenas me levantei, caminhando em direção à saída.

— Me liguem se ele melhorar — falei por cima do ombro, a voz embargada.

Ouvi os passos de Bella me seguindo, mas não olhei para trás. Entrei na caminhonete, liguei o motor e esperei. Ela entrou em silêncio. Assim que fechou a porta, partimos.

A tensão entre nós era quase palpável, como se o ar do hospital tivesse nos seguido até ali. Eu sentia cada batida do meu coração apertado pela ausência de Riley, pelo medo por Harry... e agora, pelo peso do que eu ainda não sabia como lidar: ter Bella como irmã.


O caminho até a casa de Bella estava silencioso, e eu podia sentir o desconforto preenchendo cada centímetro da cabine da caminhonete. Dirigia em meio à escuridão da estrada, os faróis cortando a neblina fina que começava a se formar. Bella estava ao meu lado, com os braços cruzados, olhando pela janela como se estivesse em outro mundo. Eu sabia que ela queria dizer algo. Sempre quis. Mas ficava difícil quando a presença dela me incomodava mais do que eu estava disposta a admitir.

— Ele vai ficar bem. — disse Bella de repente, sem tirar os olhos da estrada.

— Espero que sim. — respondi seca, apenas por educação.

O silêncio voltou a tomar conta. Eu não tinha paciência para conversas forçadas, muito menos com alguém que nunca pareceu se importar quando, nunca se aproximou de verdade.

Foi então que algo atingiu o carro com força, como se um animal gigantesco tivesse se jogado contra nós. A caminhonete tremeu e eu instintivamente pisei no freio com tudo. O veículo derrapou, rodou na pista, e só não capotou porque consegui puxar o volante a tempo. Meu corpo foi lançado para frente, e bati a cabeça contra o volante com um baque surdo.

— Droga... — murmurei, sentindo a dor pulsar na testa.

Bella, por outro lado, parecia... em pânico. Ela tremia, os olhos arregalados fixos em algo à frente do carro.

— Bella? Tá tudo bem? — perguntei, tentando me recompor.

Ela balançou a cabeça, engolindo em seco. — Renesmee, precisamos ir embora. Agora.

— O quê? Por quê? Que diabos foi aquilo?

Foi quando vi. Do outro lado dos faróis, uma silhueta feminina surgiu. Alta, pálida, com longos cabelos ruivos esvoaçando como se dançassem com o vento. A expressão era de pura crueldade, os olhos vermelhos faiscando em nossa direção.

Bella soltou um sussurro desesperado.

— Victoria...

Meu sangue gelou. Eu não fazia ideia de quem era aquela mulher, mas o tom da minha irmã, pela primeira vez, não carregava arrogância... mas medo.

— Bella... quem é ela?

Ela não respondeu. Apenas levou a mão ao meu braço com força.

— Dirige. Agora.

E naquele instante, percebi que havia muito mais sobre minha irmã — e sobre o mundo ao nosso redor — do que eu jamais imaginei.


Girei a chave com pressa, o motor da caminhonete rugiu alto, mas antes que eu pudesse acelerar, um som metálico ecoou — o carro não saía do lugar. Meu coração deu um salto no peito.

Olhei para frente e levei um susto: a mulher ruiva estava segurando o capô com apenas uma mão, os dedos fincados no metal como garras. Seus olhos vermelhos brilhavam com prazer, como se se divertisse com o nosso pânico.

— Meu Deus... — murmurei, em choque. — O que ela é?

— Ela é a morte. — Bella respondeu com firmeza, a mão agarrando meu braço. — Renesmee, escuta com atenção... você vai sair correndo. Agora. Para a floresta. E não olha pra trás. Entendeu?

— Não! Eu não vou te deixar aqui! — gritei, sentindo o desespero crescer.

— Não discute comigo! — ela esbravejou. — Só corre, Renesmee. Agora!

Sem tempo para mais palavras, abrimos as portas e saímos do carro quase ao mesmo tempo. A noite parecia mais escura ali, mais densa, como se o ar estivesse pesado demais.

Ficamos lado a lado, encarando aquela criatura parada diante do veículo. Victoria, como Bella a chamara, sorriu com escárnio. Seu rosto era frio, cruel, como se estivéssemos diante de um pesadelo materializado.

— Foi mais fácil do que eu esperava. — ela disse com a voz macia e venenosa.

Mas antes que ela pudesse dar um passo sequer, um som estrondoso rasgou o ar, como se algo colossal tivesse sido lançado contra ela.

Victoria foi lançada para o lado, colidindo contra as árvores com um impacto brutal. A terra tremeu sob meus pés.

— Corre, Nessie! AGORA! — Bella gritou, puxando minha mão com força.

Sem hesitar, meus pés obedeceram antes mesmo da minha mente compreender. Corremos. Rápido. O mais rápido que podíamos. As árvores passavam por nós como vultos, os galhos cortando minha pele, a respiração falhando, o coração martelando dentro do peito como um tambor de guerra.

Eu não sabia o que estava acontecendo. Mas uma coisa era certa:

A vida que eu conhecia tinha acabado naquela estrada.

E o que nos esperava na floresta... era um mundo que eu jamais sonhei existir.