Coração selvagem
12 XII - A fofa e o grosseiro
Como nosso grupo de amigas era dividido entre as três turmas do primeiro ano, Mitsue esperou até o treino do dia seguinte para contar que disse a Kise que ela era a garota que deixou aquele presente para ele. Ela sabia que Amaya havia planejado aquilo tudo, porém não sabia nada que eu participara com o objetivo de ajudá-la também. E com isso, eu tive que fazer cara de surpresa quando ela nos contou animada.
– E ele te pediu em namoro? – Harumi perguntou com sua voz calma e pacífica.
– Hum, não. – Mitsue disse sem jeito – Ele disse que como é recente, não pode dizer ainda por causa da imprensa. Mas que gosta de mim e quer me pedir em namoro para os meus pais. – Ela sorriu feliz.
Eu sorri gentilmente.
– E você, Madoka? – Katsumi perguntou – Soube que Aomine-kun e você voltaram a se falar.
– Hai. – Madoka disse como se não se importasse – Fizemos as pazes.
– E estão namorando também? – Katsumi perguntou dando uma risadinha.
– Não! – Ela exclamou, fechando o punho em direção a Katsumi.
Katsumi riu, se afastando um pouco e acenando com as mãos para Madoka se acalmar.
– Run! – Madoka resmungou, virando o rosto.
– E você, Tsubaki? – Katsumi me olhou, sorrindo.
– Eh?! – Disse em dúvida – N-Nani?
– Hum, vamos entrar de férias semana que vem e até agora você não demonstrou que gosta de alguém. – Ela disse, dando um sorriso – Está escondendo ele de nós?
– C-Claro que não! – Gaguejei.
Ela riu.
– Hum. – Cantarolou – Claro que sim!
Com isso, todas cantarolaram, o que me fez fazer cara de tédio e ter um pequeno tique nervoso na sobrancelha. Yuka estava sentada na grama do campo conosco e olhou na direção da minha voz e depois na direção da voz de Katsumi.
– Ela teve um encontro há alguns dias. – Ela disse suavemente.
Arregalei os olhos, me lembrando.
– Com quem foi? – Madoka perguntou animada.
– N-Ninguém! – Exclamei.
– Yuka. – Mitsue disse.
– Hum, não sei quem é. Tenho uma ideia, mas ela não deixou eu me apresentar. – Ela disse.
– Tsubaki é muito má! – Mitsue disse.
– Hai. – Harumi disse – Camélia parece apaixonada.
– “Camélia”? – Madoka torceu a expressão em dúvida.
– Hai. – Harumi disse suavemente – “Tsubaki” em português é “Camélia”.
– Kawaii! – Katsumi disse.
Fiz cara de tédio, porém não sabia disso.
...
Como Amaya disse, ela tentou dar um jeito em relação à Kagami-kun, porém não foi exatamente como ela quis que fosse a primeira vez que os dois se falariam.
Amaya estava andando pelo atalho da cantina até o segundo pátio. Numa pequena estrada de pedra em meio à grama por trás do prédio de ciências e artes. Ela comia seu sanduíche, olhando apenas para ele e continuando a andar. Isso foi o que a fez esbarrar sem querer em Kagami e derrubar seu sanduíche no chão.
– Hum...? – Ela disse em dúvida, olhando para o sanduíche, que agora estava todo espalhado no chão.
Olhou para o culpado, terminando de comer a parte que mordera e viu Kagami. Porém isso não a fez ficar menos zangada.
– Você vai comprar outro pra mim? – Ela perguntou, vendo um sanduíche na mão dele.
Amaya pensava que poderia virar o jogo logo em seguida e mostrar que era gentil, porém não esperava que aquela seria a reação de Kagami.
– Nani? – Ele disse surpreso, deixando uma risada escapar – Está brincando, ne? Você que não estava olhando para onde ia?
– Eh? – Ela o olhou surpresa – Mas se você estava olhando, por que não falou nada?
– Eu estava distraído. – Ele disse, desviando o olhar.
– Então pelo menos me dê metade do direito pra eu comprar outro. Não tenho tudo, o troco foi pequeno.
Ele riu.
– Você está falando sério mesmo? – Ele disse – Pare de brincar, garota.
– É Nori Amaya, baka! – Ela disse, irritada.
– Eh? Me chamou de “baka”, anãzinha?!
– “Anã...”? Oe, você é muito grosseiro!
– E você é sensível demais!
Amaya rangeu os dentes com raiva. Ela não imaginava que o garoto ao qual ela gostava era tão mal-educado.
– Bakagami! – Ela exclamou, empurrando-o e saindo correndo.
Amaya sumiu de vista e Kagami olhou para a direção que ela foi, se perguntando como ela descobriu seu nome.
...
Na noite do último dia de aula e começo de nossas férias de verão, eu estava no quarto falando com Amaya. Ela ficou irritada o resto daquela semana toda, mas apenas essa noite ela me ligou para gritar... Não, quer dizer... “Desabafar”. Eu estava sentada na cama com o celular há cinco centímetros enquanto ela falava muito alto.
– Não acredito que ele é tão grosseiro assim! – Ela quase gritava – É UM OGRO!
– Amaya... – Eu tentava dizer.
– Baka! Baka! Baka! Baka! Baka! Baaaaka! BAKAGAMI! – Ela exclamou alto – Nande? Nande?
Eu apenas ouvia agora.
– Por que eu fui gostar justamente dele?! Ele é um idiota completo! Grosso, mal-educado, não sabe falar direito com uma garota e está me devendo um sanduíche!
– Anou...
– Nande, Tsubaki?! Ne! Por que eu ainda gosto desse idiota?!
– Estou tentando falar, mas você não deixa! – Exclamei.
Ela ficou em silêncio por uns instantes.
– Ah... Gomen.
– Hum... – Eu suspirei – De repente esse é um defeito dele.
– “Defeito”?! Ele que é um defeito! – Ela exclamava – Só que...
Franzi levemente o cenho em dúvida. A voz dela mudou um pouco de tom e jeito.
– Tsubaki, eu ainda gosto dele.
Acalmei o olhar.
– Talvez ele seja legal, ne. – Disse, tentando consolá-la – Afinal, vocês se conheceram dessa maneira.
– Hum, talvez.
Me segurei para não suspirar e logo em seguida desligamos. Deitei na cama, bufando e gritando mentalmente, me perguntando por que Murasakibara não me disse que Kagami-kun era um grosso! Amaya era tão fofa e totalmente o oposto dele! O que faço agora? Enquanto me culpava, meu celular começou a tocar em cima do criado-mudo. O peguei... E falando no baka.
– Baka! – Exclamei ao atender.
– Eh? Nani?
– Você não me disse que Kagami-kun é um grosso. Amaya o conheceu e ele a tratou muito mal.
– Então é Amaya-chan. – Ele disse, dando um meio sorriso.
– Uhm...! Não, não! – Exclamei – Cala a boca, não conta pra ninguém!
– E vai me dar o que em troca?
– Pare de querer coisas em troca!
– Hum... – Ele pensava – Me encontre no parque daqui a dez minutos.
– Argh! Não! – Disse, me irritando.
– Então eu vou aí. – Ele disse – À noite... Te ver... Com certeza quando sua irmã ouvir minha voz, vai contar para as suas amigas que você está me recebendo na sua casa... No seu quarto...
– Tá! – Exclamei – Dez minutos!
Desliguei o celular e quis muito jogá-lo na parede. Troquei de roupa, pondo uma calça jeans e uma blusa de mangas curtas e fui para o parque, dando a minha mãe a desculpa que iria ao mercadinho da esquina. Passei lá para aprofundar minha mentira e comprei biscoitos, indo para o parque em seguida. Quando cheguei e andei alguns metros, lá estava ele sentado no banco de madeira. Ele estava com uma bermuda escura e uma blusa branca de mangas. O cabelo estava solto e usava um boné preto e branco nas laterais.
Parei na frente dele, pondo a mão na cintura.
– Baka. – O fuzilei.
Ele deixou uma risada escapar e eu me sentei no banco, pondo entre nós a sacola com o biscoito.
– Podia ter me dito que ele era um grosso. Você me enganou! – Disse indignada.
– Gomen... – Ele disse com aquela voz e expressão de preguiça – Esqueci que vocês eram sensíveis assim.
– Não fale isso com tanta calma! – Exclamei irritada – Você me fez sair com você e fazer aquele obento! Mas você omitiu essa informação.
– Não sou mulher. – Ele me olhou, dando um meio sorriso debochado – Não ligo como falamos uns com os outros. Ele é grosso como sua amiga diz, mas eu que não iria ver isso.
– Baka, você me enganou!
De repente ele agarrou na minha blusa, me puxando para perto dele e me levantando um pouco para eu ficar com meus olhos na mesma altura que os dele. Exclamei com o susto e o olhava assustada, segurando seu braço com as mãos. Ele me olhava sério, parecia que ia me bater!
– Tenho meus motivos pra pedir essas coisas em troca. – Ele dizia sério – A culpa não é minha se eu, como homem, não reparo nisso. Mas eu sei que você não vai parar de vir até mim pra saber mais sobre eles. Porque eu sou o único que pode te falar essas coisas.
Tentei franzir o cenho para mostrar segurança, mas não adiantou. Estava morrendo de medo dele! Fechei os olhos, demonstrando meu medo.
– Você vai me bater? – Perguntei quase gaguejando.
Ele me largou lentamente e eu pude me sentar corretamente de novo. Abri meus olhos e ele estava sentado, apoiando as costas no encosto assim como os braços. Pus a mão onde ele agarrou minha blusa e o olhei.
– Por que fez isso?
Ele não respondeu.
– Você sabe que eu posso te denunciar, ne? Isso é crime.
– Não se eu não te bater. – Ele disse calmamente.
– E você ainda quer que eu confie em você... – Resmunguei, desviando o olhar.
– Você confia. – Ele disse.
O olhei surpresa e franzi o cenho.
– Não confio não. – Disse – Você me chantageia, me enganou e ainda me ameaçou, querendo me bater.
– Você faz o que eu peço porque quer, eu não te enganei e não ia te bater. – Ele me olhou e deu um meio sorriso – Você confia em mim porque precisa de mim.
– Mentira.
– Então por que você não me implorou para não contar a ninguém sobre Amaya? – Ele perguntou, continuando a sorrir – Admita, você sabe que eu não vou contar a ninguém.
Desviei o olhar, não conseguia argumentar mais. Por que eu não conseguia argumentar com ele? Eu não confio nele, então por que ele afirma isso?! Virei o rosto para ele não me ver emburrada daquele jeito a ponto de fazer um bico e pensava. É claro que eu preciso dele! Quem mais me contaria aquelas coisas sobre Aomine-kun, Kagami-kun e Kise-kun? Duas de três das minhas amigas eu consegui ajudar. E sobre Amaya, eu... Hum... Eu não sei por que não implorei. Eu deveria? Mas... Ele já me ajudou, ne? Isso... Por que eu estou me contrariando tanto? Esse baka conseguiu concluir mais um passo?! Nande?! Nande?! Não era pra acontecer! Por que eu confio nele?!
– Tsubaki. – Ele me chamou quase que cantarolando.
O olhei com a testa franzida.
– Já estamos de férias.
– E? – Disse irritada.
– Acho que vou viajar esse verão e só volto um pouco antes das aulas. – Ele explicava – Então... Você vai sentir minha falta? – Ele me olhou e sorriu.
Arregalei os olhos, indignada.
– Claro que não! – Exclamei – Por que eu sentiria? Você é um mentiroso, me chantageia sempre e não me contou que Kagami era um gr...
– Hum... – Ele bufou e pegou em minha bochecha – Pára de reclamar. – Disse, me beijando.
Arregalei os olhos e corei. Ele colocou a língua dentro da minha boca e começou a movimentá-la, tentando movimentar a minha também. Apertei os olhos e tentava empurrá-lo para ele parar, mas, claro, não adiantava. Fiquei sem ar e ele cessou em seguida, segurando levemente meu queixo ainda próximo do meu rosto e me olhando nos olhos, sorrindo com aqueles olhos meio abertos.
– Ne... – Ele disse como se suspirasse – Sinta saudade de mim.
Eu estava com as mãos em frente à boca, corada e extremamente envergonhada. Ele sorria pra mim e mexeu na sacola, pegando um dos pacotes de biscoito que eu havia comprado. Comprei dois e na verdade o outro era para Yuka. Normalmente eu o mandaria devolver, mas não conseguia dizer nada. Ele o abriu calmamente e começou a comer, um por um. Meus olhos marejaram, eu não entendia. Levantei pegando a sacola e comecei a andar, indo embora. Ele me olhou sumir de vista e continuou a comer.
Quando eu cheguei em casa, fui direto para o quarto e deitei na cama, pondo levemente os dedos nos meus lábios. Ele foi o primeiro garoto que eu beijei. E agora foi o primeiro que me beijou de língua. Eu nem sei como se faz isso... Que vergonha. Queria chorar, mas meu celular tocou por causa de uma mensagem de texto. O peguei, abrindo-o e não quis mais chorar.
“Remetente: ATSUSHI
Mensagem: Chegou bem?”
Por que eu não quis chorar? Por que de certa forma aquilo me deixou feliz? Mandei uma mensagem de volta, quis escrever “boa viagem” também, mas em vista aquele beijo, eu apaguei isso e permaneceu apenas isso.
“Remetente: TSUBAKI
Mensagem: Hai.”
Murasakibara olhava o visor de seu celular, deitado em sua cama e sorriu levemente. Ele deitou de lado e agora via uma foto no celular. Era eu com o uniforme do colégio e sorrindo, sentada na minha carteira e parecendo conversar com alguém. Claro que eu ainda não sabia sobre isso. Ele acalmou o olhar ainda observando a foto e fechou os olhos, adormecendo em seguida.
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