Coração de Diamante
1 Capítulo 1
Thorin Durin estava sozinho na sala de brinquedos do orfanato onde ele vivia. Estava muito frio lá fora e Mary (uma das cuidadoras do orfanato) tinha dito a ele que seria melhor se ele ficasse desenhando com seus crayons na sala de brinquedos, onde estava mais quente e confortável. Thorin sabia que ela tinha dito aquilo só porque ela não queria que ele saísse lá para fora e porque ela achava que ele era muito frágil para brincar com as outras crianças do orfanato. Embora Thorin tenha sentido uma pontada de tristeza por não poder sair e brincar lá fora como todo mundo, ele decidiu fazer o que Mary disse e resignadamente ele pegou algumas folhas de papel, seus crayons, e começara a desenhar no silêncio daquela sala.
Nenhuma das crianças iria querer brincar com Thorin mesmo.
E essa era sua realidade desde que ele conseguia se lembrar. Mary estava sempre ali como uma constante presença em sua vida. Era ela que o levava para ver o médico periodicamente; era ela quem cuidava para que ele tomasse seu remédio de gosto horrível na hora certa e era ela quem dizia que ele não podia fazer nada que pudesse ser fisicamente exaustivo. Isso significava que ele nunca podia ir lá fora ou brincar com as outras crianças. Antes, quando ele era pequeno demais para compreender, Thorin perguntava a ela o por que ele era diferente, por que ele não podia fazer o que as crianças normais faziam? Mary apenas sorria tristemente para ele e dizia que era porque ele era especial e que um dia ele entenderia.
O cérebro infantil de Thorin já havia compreendido que havia algo muito errado com ele, ele só não sabia dizer o que estava errado com ele, muito embora ele desconfiasse que tinha algo a ver com a grande cicatriz em seu peito.
O som de risadas vindo do quintal chamou a sua atenção. Ele olhou para a janela a sua esquerda e então para o crayon em sua mão. Thorin colocou o crayon sobre a mesa, levantou-se da cadeira onde ele estava sentado e caminhou até a janela, mas ela era muito alta para ele conseguir ver qualquer coisa. Ele virou-se e olhou envolta e seus olhos pousaram na mesa onde ele estivera desenhando apenas alguns segundos atrás, mais precisamente para as cadeiras em volta daquela mesa. Por um momento ele hesitou, Mary iria ficar brava com ele se ela descobrisse que ele estava ‘fazendo esforço’ arrastando os moveis por aí, mas a curiosidade de ver seus colegas era maior do que ele. Decidido, ele pegou uma das cadeiras e a arrastou até a janela, tentando ser o mais silencioso possível. Thorin encostou a cadeira na parede embaixo da janela e sem dificuldade ele subiu na mobília para ver a razão das risadas que ele estava escutando.
Estava nevando lá fora. O quintal que normalmente tinha um gramado verde durante a maior parte do ano agora estava coberto de branco, o carvalho que eles tinham no quintal tinha suas raízes escondidas e até os brinquedos playground haviam desaparecido embaixo da cobertura de neve. As crianças estavam brincando alegremente, alheias ao garotinho que as observava da janela. Algumas estavam brincando de pega-pega, algumas estavam jogando bolas de neve umas nas outras numa espécie de guerra entre meninos e meninas e alguns (os mais novinhos) estavam construindo um boneco de neve com a ajuda de duas cuidadoras.
Todo mundo estava se divertindo, todo mundo estava feliz.
Todo mundo, exceto Thorin.
Por que ele não podia estar lá fora brincando como todo mundo? Por que ele tinha que estar preso naquela sala enquanto todo mundo estava se divertindo? Não era justo.
Não era justo.
O garoto de cabelos negros e olhos azuis sentiu seus olhos queimarem com lagrimas que ele não queria deixar cair. Ele fechou os olhos e respirou fundo quando ele sentiu uma dor familiar em seu peito, uma dor que ele sentia sempre quando ele ficava chateado ou triste ou cansado. Era como se houvesse uma mão dentro de seu peito, apertando seu coração e impedindo-o de respirar. Thorin sentiu-se tonto e por um momento ele teve que se apoiar no vidro da janela para não cair para o lado.
Nesse momento, Thorin ouviu a porta da sala de brinquedos sendo aberta e ele ouviu também a voz alegre de Mary enquanto ela caminhava para dentro da sala.
–Thorin, olha só, encontrei aquele tabuleiro de xadrez... THORIN! — Mary gritou ao ver Thorin se equilibrando em cima da cadeira e prestes a cair no chão.
Ele ouviu o som de algo caindo no chão (provavelmente o tabuleiro de xadrez) e passos apressados correndo em sua direção. Ele então sentiu braços em volta dele, levantando-o da cadeira e o carregando através da sala. Ele sentiu que ela estava correndo pelo prédio com ele em seus braços e vagamente ele podia ouvir ela dizendo para ele aguentar firme e não fechar os olhos, mas seu peito doía demais para ele prestar atenção no que estava acontecendo. A última coisa que ele pensou antes que a escuridão o tomasse era que aquilo não era justo.
****
Thorin acordou algumas horas depois, sentindo seu peito pesado e sua cabeça leve. Ele se mexeu um pouco em sua cama e uma dor aguda em seu braço lhe disse que havia uma agulha presa a ele. Assustado, ele abriu os olhos e olhou em volta. A agulha em seu braço estava conectada a um tubo fino e longo, que por sua vez estava conectado ao saco de soro que estava pendurado em um suporte ao lado de sua cama. Ele estava na enfermaria. De novo. O quarto, bem familiar, era branco e simples, e não havia ninguém ali com ele. Haviam três camas naquele quarto, uma perto da porta, uma no meio, e uma perto da janela. Thorin ocupava a cama perto da janela, e uma rápida olhada em sua direção lhe disse que o dia já havia dado lugar a noite e tudo estava escuro lá fora.
Lagrimas vieram aos seus olhos. Thorin não gostava de ir para a enfermaria, aquele era um lugar assustador e solitário. Lá fedia a remédios e sempre que ele estava lá, as pessoas continuavam cutucando ele com agulhas e aquilo doía. Ele estava doente de novo e aquilo não era justo. Mais lágrimas rolavam de seu rosto incontrolavelmente. Ele fechou os olhos e tentou se desconectar da realidade. Ele queria ter continuado dormindo, pois no mundo dos sonhos não havia essa dor e essa tristeza em seu peito.
Thorin estava tão imerso em sua tristeza que ele não percebeu que alguém havia entrado no quarto. Ele apenas percebeu quando ele sentiu mãos gentis segurando seu rosto e limpando suas lagrimas.
– Ei, docinho, está tudo bem... — Ele ouviu a voz suave de Mary tentando acalmá-lo. — Você está na enfermaria. Você passou mal, mas você está bem agora.
Thorin abriu seus olhos relutantemente e viu Mary sentada em uma cadeira bem ao seu lado. A cuidadora tinha cabelos loiros cacheados que estavam um pouco bagunçados e seus olhos azuis estavam vermelhos como se ela tivesse chorado e isso só fez Thorin se sentir pior.
– Me desculpe. — O menino disse com um sussurro.
– Não, não há nada para se desculpar. Está tudo bem. — Ela sorriu reconfortantemente, mas os olhos dela diziam o quão preocupada ela realmente estava. — Mas você me deu um baita susto lá atrás. O que que você estava fazendo em cima daquela cadeira? — Ela perguntou em tom sério.
Thorin desviou o olhar e puxou o cobertor até que ele cobrisse sua cabeça. Gentilmente, Mary puxou o cobertor, descobrindo a cabeça de Thorin que teimosamente continuava a desviar o olhar.
– Nada disso, Thorin. Olhe para mim.
A criança mordeu seu lábio e olhou com olhos marejados para a cuidadora.
– Por que você estava empoleirado naquela cadeira? — Mary repetiu a pergunta, com um tom mais suave dessa vez. — Você sabe que é perigoso. Você poderia ter caído e se machucado de verdade...
– Eu queria ver as outras crianças brincando. — Thorin disse interrompendo a cuidadora — Eu não posso brincar com elas, mas eu queria ver elas. Mas então eu fiquei triste por que elas estavam se divertindo e eu não... e aí meu peito doeu... e eu fiquei tonto... e me desculpe por deixar você brava...” Thorin começou a chorar outra vez, soluçando suavemente.
– Oh, Thorin, não chore.
Mary parecia tão triste quanto Thorin quando ela se levantou de sua cadeira e deitou-se ao lado dele na cama, abraçando-o gentilmente, ciente do soro preso ao braço do menino. Mary o abraçava com um braço e com sua mão livre ela fazia carinho nele, correndo seus dedos pelos cabelos negros do garoto, gesto esse que costumava acalma-lo sempre que ele estava assustado, triste ou quando ele tinha que se submeter a algum procedimento médico, e nesse caso, as três situações se aplicavam. O garoto então enterrou seu rosto no peito de Mary, aceitando o carinho que lhe era oferecido.
– Está tudo bem, Thorin. Eu estou aqui. — Mary disse com voz baixa e suave, consolando-o.
Os dois ficaram assim por alguns minutos até que o garoto finalmente se acalmou, seu choro se aquietando até se tornar apenas soluços.
– Eu estou muito doente, não estou? — Thorin perguntou de repente, pegando Mary de surpresa.
A cuidadora sentiu um nó na garganta. Thorin era ainda uma criança de sete anos e se surpreendia em ver o quanto o garoto era perceptivo. Era incrível ver o quão sagaz ele era para perceber as coisas a sua volta. Mary estava surpresa porque Thorin estava lhe perguntando isso tão diretamente, mas realmente, ela estava mais surpresa por ele nunca ter perguntado isso antes.
– Você está doente sim, Thorin. — Ela respondeu devagar, ponderando suas palavras. — Seu coração, ele é frágil, sabe? Mas ele é muito especial e precioso e vamos fazer o possível para que ele continue batendo, ok?
– A culpa é minha? — Ele perguntou fungando.
Mary fez um esforço tremendo para não chorar naquele momento.
– Não, docinho, a culpa não é sua. Você nasceu assim.
– Eu nasci doente? — Ele perguntou sério, Mary assentiu. — É por isso que eu estou aqui no orfanato? Meus pais não me quiseram porque eu estou doente? — O garoto perguntou com voz trêmula.
– É claro que eles queriam você, Thorin, tenho certeza que eles te amavam muito. — Mary disse a ele, correndo seus dedos pelo cabelo negro dele.
– Como você sabe? — Ele perguntou baixinho, aparentemente sem acreditar em uma palavra do que Mary havia dito.
Mary apoiou-se em um cotovelo e olhou bem nos olhos de Thorin antes de tocar o peito dele.
– Por causa disso. — Ela sorriu.
Thorin franziu a testa. Ele parecia curioso do que triste agora.
– Minha cicatriz?
– Sim. É uma cicatriz especial, sabe por quê?
Thorin balançou a cabeça negativamente.
– Deixe-me te contar uma história. A sua história, Thorin. — Mary suspirou. Ela tinha a total atenção da criança que havia parado de chorar completamente e que agora a escutava. — Muito tempo atrás havia um rei, seu pai, e ele era o bondoso rei de Erebor, o reino sob a Montanha Solitária. Um lugar muito, muito longe daqui. Todos embaixo da montanha amavam ele e a rainha, sua mãe. Tudo corria bem, exceto pelo fato de que o rei e a rainha ainda não tinham filhos...
Naquela noite, Thorin ouviu Mary contar sua história e ele nunca esqueceu o que ela disse a ele. Cada palavra foi esculpida nele como um artesão esculpe em pedra. Não importava que anos tenham se passado; não importava que Thorin tinha sido transferido para outro orfanato, mais preparado para cuidar de uma criança doente como ele. Thorin nunca esqueceu a história, e quando as coisas ficavam difíceis demais, ele recitava a história que Mary lhe tinha dito de novo e de novo, como uma oração.
Naquela noite, ele finalmente descobriu por que ele era diferente dos outros e que seus pais realmente o amavam. Ele já não via seu coração como um órgão doente, mas como algo precioso que ele carregaria com orgulho, até que chegasse o dia em que ele entregaria o seu coração para a pessoa que amaria pelo resto de sua vida.
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