Notas iniciais
*Que comecem os jogos!

O navio era impressionante, pensou Diana. Apesar de sua preferência pelas embarcações à vela do mundo do homem, Diana teve que admitir que os arquitetos do navio capricharam. Os acabamentos tinham todo o luxo que o dinheiro podia comprar, a tripulação completa absolutamente organizada, vestida com uniformes impecáveis, dentre eles, Clark com seu sorriso tímido e postura altiva – seu amigo era realmente lindo, sem fazer qualquer esforço – e Lois, no alto de seu incômodo lacônico. Diana segurou-se para não rir.

O navio devia ter mais de 500 pés de comprimento, e um raio de 80 pés, aproximadamente, proporcionando uma abundância de espaço para os 200 passageiros espalhados por todo o convés. As velas brancas de Kevlar se destacavam frente à madeira de sândalo em torno da plataforma.

Assim que Bruce e Diana entraram no navio, uma enxurrada de homens endinheirados fizeram questão de cumprimentá-lo, bem como uma generosa parcela de ‘acompanhantes’, com um entusiasmo que o ciúme de Diana considerou excessivo e desnecessário. Algumas já tinham-no acompanhado em algumas ocasiões, outras só queriam mesmo se fazer notar para, quem sabe, ter a sua chance.

Mas quem podia culpá-las? Bruce era realmente um homem bonito. Ele concentrava qualidades estéticas e de personalidade que, combinadas, eram fatais para o coração de uma mulher. Era um homem alto, com um físico, se não perfeito, o exemplo mais próximo disso. Diana costumava dizer-lhe que ele fora esculpido à imagem e semelhança do deus Apollo. Engana-se quem imagina um Batman/Bruce musculoso como um halterofilista. Bruce é definitivamente um homem grande, de ombros largos e braços fortes. Seus músculos pareciam perfeitamente esculpidos para abraçar, com generosidade, sua enorme estrutura corporal, mas não como um troglodita e sim como um Adônis.

Seus cabelos negros e a pele numa tonalidade levemente bronzeada faziam um contraste de cores perfeito com os olhos azuis-acinzentados. O rosto misturava poucos traços delicados em lugares pontuais, como o nariz e os olhos, contrastando com as feições vigorosas predominante na estética masculina, com traços fortes e marcantes, como a mandíbula quadrada generosa e firme. Como se não bastasse o fato de ser absolutamente lindo, Bruce possuía uma capacidade inenarrável de exalar masculinidade.

Diana, em contrapartida, rivalizava em pé de igualdade com seu par. Era uma morena alta para os padrões médios das mulheres ocidentais, cuja beleza, esculpida pelos deuses e abençoada pela deusa do amor e da beleza (Afrodite), dispensa qualquer menção que venha a questionar a perfeição de suas feições. Suas curvas, bem distribuídas em seu corpo também esculpido à perfeição, lhe conferiam um apelo sexual instantâneo, embora ela lutasse veementemente contra esse tipo de coisa.

Se as intenções de Bruce eram torná-la o centro de todas as atenções do navio, é justo dizer que ele foi bem sucedido. Diana usava o biquíni branco que quase provocara um ataque cardíaco em Bruce, sob uma elegante saída de praia que cobria-lhe o corpo inteiro para além do comprimento dos pés. Certamente seria uma opção bastante recatada, para combinar com o imenso chapéu branco, não fosse o fato de ser completamente TRANSPARENTE, deixando à vista tudo aquilo que o príncipe de Gotham tinha à sua disposição. E acreditem: era o que havia de melhor!

Diana e Bruce estavam reclinados em duas espreguiçadeiras à beira da piscina. Bruce havia se estabelecido em uma posição confortável, enquanto fingia ler uma revista de negócios. Já Diana se fartava com uma pilha revistas femininas, que ofereciam conselhos conflitantes sobre a melhor forma de ‘agarrar um homem’. Ela sentiu uma pontada de prazer lendo uma delas, que continha uma seção de ‘confissões’, onde os leitores confessaram seus encontros mais nefastos. Por trás de seus óculos de sol Armani, os olhos de Diana, a cada confissão lida, vagavam pelo corpo de seu companheiro de missão, especialmente quando as mulheres detalhavam seus delitos sexuais.

De repente um senhor careca, distinto e sorridente se aproxima do casal. Ele evidentemente não era um homem jovem. Aparentava ter uns 65 anos. Estava acompanhado por uma loira, petit e curvilínea, que não parecia ter mais de 20. Ela se mostrava nitidamente aborrecida de estar ali.

— Olá, Bruce! – O homem se aproximou de Bruce estendendo-lhe os braços para um caloroso abraço – Não sabia que frequentava esses eventos, rapaz?! – disse sorrindo. – Você, como sempre, muito bem acompanhado! – O homem sorriu depois que Diana gentilmente lhe agradeceu o elogio com um imenso sorriso. – Os olhos de Diana ardiam por um segundo ao ver o homem avaliando-a como uma cabeça de gado em leilão.

— Oi Bob! – Bruce respondeu – Antes de tudo, quero lhe apresentar Diana. Diana é... – Ele fez uma pausa proposital para simular um falso nervosismo – minha assistente pessoal. – Disse, também simulando um falso alívio – Diana, este é Robert Trainer. Robert e sua esposa eram grandes amigos dos meus pais.

— Muito prazer, senhor Trainer. – Diana estendeu-lhe a mão, ainda um tanto corada pelo olhar que recebera. Decerto não fora o mais lascivo, mas ainda sim, embora discreto, ela sentia-se incomodada com aquilo. – Diga-me, senhor Trainer, será que o senhor, que conhecera o pequeno Bruce, tem acesso a episódios vexatórios de sua vida? Veja... O senhor poderia me ajudar em minha missão de fazer fortuna chantageando-o. – Diana lançou um olhar divertido ao velho senhor!

Trainer deu uma risada longa e debochada. Aquele homem era evidentemente um homem relaxado e descontraído. Ele parecia gostar honestamente de Bruce, assim como Bruce dele. Desta vez, o velho Trainer voltou suas atenções para Diana sem qualquer sinal de cobiça. Por algum motivo, talvez por conhecer Bruce desde menino, embora as circunstâncias indicassem o contrário, ele percebeu que Diana não era uma amante qualquer, contratada via agência de modelos. E pelo jeito que Bruce olhava pra ela, certamente havia mais ali que um caso tórrido.

— Não diga nada, Bob. – Bruce rebateu bem-humorado, fingindo uma preocupação caricata – Ela já me faz gastar verdadeiras fortunas com ela, meu amigo. Não se deixe hipnotizar por estes olhos azuis e esse temperamento gentil. É como o canto da sereia.

— Estou certo de que ela vale cada centavo, garoto. – Disse, enquanto procurava sua acompanhante, que se afastara do grupo, deixando claro para todos sua evidente insatisfação. – Quero lhes apresentar a minha .... assistente, não é Bruce? – Bruce riu em resposta – Diana esta é Hanna – Diana estendeu-lhe a mão, mas ela mal se deu ao trabalho de cumprimentá-la. – Bruce, esta é Hanna. – Desta vez, surpreendentemente, Hanna dedicou todo seu arsenal de sorrisos, olhares sedutores, abraços de cumprimento e beijos nas bochechas de Bruce, enquanto respondia ‘é um prazer conhecê-lo, Bruce’, com a voz ‘tão ridiculamente manhosa que parecia uma gata no cio’, pensou Diana.

Diana ficou visivelmente irritada com o comportamento de Hanna. Primeiro porque ela estava com Bob e aquele comportamento oferecido dela para Bruce, era inaceitável e vergonhoso. Fazendo-a sentir-se ofendida por Bob. Depois porque Bruce estava acompanhado e Hanna sabia disso, mas mesmo assim, continuava se insinuando, convidando-o para piscina, pedindo-lhe que a levasse à área de jogos e se dispusesse a ensiná-la alguns deles. A raiva de Diana estava no limite. Sua mente já orquestrara ações que envolviam machucar – e muito – a ‘loira oferecida e oxigenada’.

Bruce estava evidentemente se divertindo com o ciúme de Diana. Ele não se dispôs, em momento algum, a conter os avanços maliciosos e provocativos de Hanna. Bob já tinha pedido licença a todos porque precisava tratar de negócios com alguns investidores sauditas. Hanna logo sugeriu a Bob que preferia ficar com Bruce e Diana para que Bob tivesse privacidade em suas transações financeiras, infamando mais ainda a ira da amazona.

Diana estava furiosa com a loira abusada e oferecida, mas ainda mais com Bruce, que olhava pra ela, com um sorriso irritantemente abusado, arrogante e sedutor. Ele parecia dizer-lhe presunçosamente que sabia exatamente o poder que tinha sobre ela e a estava torturando por tê-lo rejeitado. Mas ela ‘não tinha mesmo qualquer direito sobre ele’, ela pensou. Diana achava que o tinha perdido para sempre quando negou que o amava.

— Bom... já que vocês estão tão à vontade um com o outro, eu vou dar um passeio. – Diana saiu apressada, sem esperar resposta, em direção a qualquer lugar desde que fosse longe dali, mais irritada do que já estivera na vida.

— Aonde você vai, princesa? – Gritou Bruce, incomodado porque ela o deixara.

Sua intenção, ao provocar ciúme nela, era fazê-la lutar por ele. Ele não tinha qualquer interesse em Hanna. Ele achava que Diana iria ferver de ciúme ao ponto de perder a compostura e despachar Hanna devidamente. Ele esperava uma atitude dela, mas ela mais uma vez assumiu uma postura passiva. Ele esperava que ela lutasse por ele, como ele lutou por ela, antes dela rejeitá-lo. Que o convencesse do quanto ela o quer de volta, e que ainda o ama.

– Não importa! – Gritou de volta enquanto se afastava – Divirta-se com sua amiga, senhor Wayne! – Falou enquanto apertava o passo para esconder as lágrimas de ódio que estavam se formando no canto dos olhos.

Diana sentia a soma de tantas fúrias que ela não foi capaz de conter o choro e trancou-se num banheiro qualquer. Estava com raiva de si mesma, por não ter mandado aquela garota embora e ficado em ele. Raiva dele por deixar aquela idiota roubá-lo dela, sem reclamações. Raiva da garota e de Bob por terem aparecido naquele momento. Raiva... pura raiva!

Saiu do banheiro uma meia hora depois e revolveu dar um passeio pelo navio, quando seus olhos se detiveram a observar a cena revoltante:

Bruce estava ensinando Hanna a jogar golfe. A jovem estava de biquíni e Bruce estava atrás dela, a apenas polegadas de sua bunda. Ele a abraçava, segurando junto com ela o taco, envolvendo os braços nos braços dela, enquanto ela se inclinava para encaixar os quadris na mesma altura dos quadris dele. Os olhos de Diana se arregalaram em choque quando viu a mulher propositadamente mexer o traseiro até que ele se estabelecesse contra a virilha de Bruce, convidando-o a se aproximar ainda mais, como se isso fosse possível. Bruce não incentivava, nem desencorajava o convite não-verbal de Hanna ao sexo e continuava a sussurrar as instruções do jogo em seu ouvido.

Diana ficou ali parada por alguns instantes. Era uma sensação que misturava o choque de ver o que ela considerava uma depravação sem tamanho e a fúria contida pelos anos do amor reprimido sendo rendido por uma mulher qualquer. Ela estava com tanta raiva que não cabia em si. Tinha vontade de voar pra longe, obviamente depois de socar com vontade a cara de Bruce e tirar aquele sorriso arrogante da sua boca, além de jogar Hanna no esgoto mais próximo.

Bruce manteve-se ali por um tempo, em seguida, seus olhos começaram a correr ao redor do lugar, à procura de Diana. Após uma varredura rápida pelo convés, ele notou a presença da amazona na plataforma abaixo e deu-lhe um aceno amigável. Ele a viu parada, olhando pra ele e Hanna com um olhar feroz de ódio e abominação. Ela parecia maravilhosamente linda vestida com a fúria de seus olhos, o que o fez dar um sorriso debochado, sem querer, quando ela olhou pra ele, magoada. Então ele tentou consertar as coisas e gritou para ela se juntar a eles, com divertimento honesto:

— Venha, Diana. Junte-se a nós. – Bruce sorriu, convidativo – Eu posso te ensinar também. Se você for boazinha!

Ela se ateve a gritar apenas para mandá-lo enfiar o taco em um lugar inapropriado, em grego, após meia dúzia de palavrões que misturavam umas três línguas. E saiu correndo em direção aos quartos. Antes que ele pudesse vê-la chorando, totalmente descontrolada pelo ódio que lhe consumia.

Bruce deu um passo atrás e soltou as mãos de Hanna, dando-lhe um sorriso insípido: – Acho que isso significa que ela não quer ficar conosco! – Ele brincou, tentando decidir se iria atrás dela ou se ficava ali.

— Não ligue pra ela, querido! – Hanna disse, divertindo-se furtivamente. – Podemos nos divertir, só nós dois! – Ela deu-lhe um olhar lascivo que beirava a indecência.

— Lamento ter que declinar do seu convite, minha cara. – Ele respondeu prontamente. – Eu preciso ir... Ela não é o tipo de mulher que eu pretendo dispensar, Hanna!

Então ele partiu em direção às cabines-suítes, tentando não pensar em como seria difícil lidar com uma amazona furiosa. Desejou a si mesmo sorte. Tinha a nítida impressão de que iria precisar dela!

Notas finais
Bruce, amigo, não seria um tanto insano jogar com os sentimentos de uma amazona enfurecida? Cuidado ao brincar com fogo... Como dizem: você pode sair chamuscado! ​